segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Lamentos mineiros: Elegia para Drummond do mundo

Enquanto muitos se preocupam com o estrangeiro Halloween (Dia das Bruxas), lembro que hoje o nosso maior poeta nacional Carlos Drummond de Andrade faria 109 anos de idade e que seus versos permanecem removendo pedras nos caminhos da consciência de cada leitor de seus poemas neste mundo mundo vasto mundo. Posto hoje o poema "Triste fim de José Drummond", minha homenagem - inspirada principalmente no excelentíssima obra prima drummondiana "José" - ao mestre itabirano do lirismo confessional sem se confessar (ah! Há paradoxos que só o gauche Carlos Drummond sabia estabelecer!). Se o leitor não gostar, a culpa não é minha, é o ouvido do leitor que não soube entortar (rs... quem conhece a obra de Drummond, sabe a referência desta frase burlesca).


Triste fim de José Drummond
(E agora, Drummond?)


No fim da festa,
a luz se apaga
e nenhum poema acontece.
Nem Raimundo,
nem Maria,
nem Fulana,
nem João;
apenas a noite
contempla seu corpo, José.
O salão vazio,
o eu retorcido,
a solidão...
Onde está Todomundo, José?
Drummond, Drumundo, aonde?


As palavras não vêm,
a febre não passa
e o tempo transforma
o frio em gelo,
o ódio em pranto,
o fogo em fumaça.
A vida é um bonde
que não existe mais,
uma utopia que não há.
E agora, José?
E agora, sem você?


A porta aberta;
com a chave na mão,
você espera,
mas ninguém chega,
ninguém entra,
ninguém vê
as lágrimas dos versos,
as Minas de saudades,
Itabira sem óculos,
Itabira cega.
O que espera, José?
Drummond, Drumudo, por quê?


É agora!
A hora de gritar,
a hora de gemer,
a hora de tocar
qualquer coisa
(até a valsa vienense),
é a aurora!...
mas você não acorda, José.
A palavra sono
rima com a sua carne:
Drummond adormece.


A Rosa murcha
cai do terno de vidro
sem dor,
sem dó,
em silêncio eterno,
enquanto, na noite fria,
um poema escondido
pergunta à pedra insuperável
no meio do caminho:
Por que derrubaste Drummond?
Por quê?

domingo, 30 de outubro de 2011

Solidões compartilhadas: A solidão vagabunda de Fabrício Lopes

Hoje quem compartilha suas solidões conosco é o escritor valenciano Fabricio Lopes. O poeta atualmente reside em Paty do Alferes e possui diversos trabalhos poéticos espalhados pelo universo virtual [aí vão alguns links dele:  o de cordéis (muito bons!) http://pebzine.blogspot.com/search/label/Contos e o de seu livro virtual http://www.bookess.com/read/6912-o-samba-da-vida-que-nao-para/] Contemplem agora a formidável solidão poética de requintado lirismo vagabundo e vagamundo desse grande escritor:

Vagando entre mundos,
este chamado vagabundo
corre feito um louco,
um bicho solto,
mas acorrentado,
numa solidão enjaulado.

Esta Solidão interna,
nobre coração não acalenta,
mas sim envenena
a sina de quem a carrega
uma pedra-coração-cruz;
sem um amor-guia-luz.

Largado, ao relento
pobre abandonado menino
que sustenta em seu peito
o infindável recentimento
de nunca ter coragem
esta cruel cardio-defasagem.

Ao perpetuar tais dores,
sofrer por falsos amores,
crer em falsos versos,
repassar falsos sentidos,
um mal posicionado esquadro
sem uma verdade-compasso.

Sorrateiro cruzes arrastou,
lábios imundos beijou,
sálivas escarradas ao vento.
És infeliz, seu cardio-vagubundo,
residente caloso no peito
deste inquieto poeta-menino 

Poemas quentes: vEla

Domingo quente... Prenúncio de um verão extremo... Posto hoje um poema ardente, publicado no livro "Eu e outras províncias"(2008). Dedicado a todas as musas regidas pelo fogo e o amor, o poema desfaz domínios masculinos na relação a dois e lembra que "garotos perto de uma mulher são só garotos":


vEla

velas brancas acesas
os sapatos pretos dirigindo os pés até a mesa
não é uma religião mas eu acredito
nas noites de lua cheia completa rarefeita
carne ossos
ela tem minha alma
seios curvas
estrada perigosa oculta nas roupas que revelam desejos
segredos
o que ela pensa
quando a primeira gota de bebida
desce por sua garganta e invade seu íntimo
a minha cabeça gira pensando nos pensamentos dela
na minha frente ao meu lado ao meu redor
hipnotizado atomizado pela beleza dela
os olhos dela me rodeiam cheios de rodeios
cavalgam em meus pensamentos primitivos
esquecidos na era glacial
ela é o satélite
eu sou o planeta

minha cabeça também gira
seguindo a rotação dos olhos dela
seu silêncio sensual feminino
seu mistério que me excita me fragiliza
minha rendição masculina
ela me domina
sussurra as primeiras palavras
viola a modernidade computadorizada
com prazeres eternamente humanos
velas apagadas
a fera adormece
em meus braços ao meu lado ao meu redor
eu sou o satélite
Ela é o planeta.

sábado, 29 de outubro de 2011

Verse essa canção: Cada vez mais "Dentro dos teus olhos", de Fael Campos

O "Verse essa canção" é dedicado ao músico valenciano Fael Campos, que se apresentará hoje, dia 29, às 19 h, no evento "Show da praça", no Jardim de Cima, em Valença. Escolhi a música "Dentro dos teus olhos" pra minha (sub)versão. A canção original, finalista no Festival da Música de Rio das Flores/RJ, merece destaque por seu lirismo apurado e romântico. 
Acompanhei o amadurecimento musical de Fael Campos, pois sempre participamos juntos de diversos eventos (entre eles, os do lançamento do meu sexto livro "Diários de Solidão" (2010) e do Sarau "Diários de Solidões Coletivas", no evento "Arte Valença!" - que aconteceu no mesmo lugar onde o compositor e cantor irá se apresentar.
Na minha (sub)versão, tentei manter esse caráter romântico, aliando, no estilo de escrita, as influências musicais de Fael Campos (Engenheiros dos Hawaí, etc). Inclui, dentro da versão, parte do título da canção de Zé Ricardo ("A hora certa chegou"), também interpretada por Fael Campos em Rio das Flores. Abaixo do "Verse essa canção", os leitores podem conferir um vídeo de Fael Campos e Zé Ricardo interpretando a canção original.


"Eu tenho dúvidas e muito medo
Mas uma hora vou ter que falar
Não posso mais guardar este segredo
E nem sei por onde começar"

Mais uma vez esse laço invisível de timidez refaz o nó em meu pescoço – suicídio silêncio em minhas cordas vocais. Mas o segredo guardado nos cofres da consciência apaixonada escandaliza o meu corpo inteiro e me avisa que todo meu sigilo de medos está ameaçado...

"Só sei que quando você está perto de mim
O tempo voa e tudo fica no lugar
Não sei se isso é bom ou ruim
Mas vou me arrepender se não tentar te contar"

E você está ao meu lado como isqueiro próximo ao maço de cigarros – preciso acendê-los, mesmo correndo o risco de ficar viciado. O tempo passa por nós, o tempo sempre passa por aqui, mas você continua ao meu lado, você continua em mim... E sua chama me chama na insistência de sua presença: “vem queimar...” Acendo o vício e, pra sempre, me escravizo? Ou me calo por mais um momento e permaneço ileso? Ah, eu preciso falar!...

"Que dentro dos teus olhos vi meu futuro chegar
E no seu coração é onde eu quero morar
Porque no meu você já está
E dali não dá mais pra tirar"

Então falo para os seus olhos hipnóticos – trago tagarela em mim cada vício incontido, contido em seu olhar; a chama já está acesa há tempos e o cigarro que trago em meu peito sempre desejou, em teu isqueiro, queimar.

"Não sei como tudo aconteceu
Nem o dia que passei a te amar
Foi de repente que você apareceu
Na minha vida e fez tudo mudar"

Desde cedo acendo meus cigarros em seu isqueiro; eles pareciam apagados em meus serenos silêncios, mas permaneciam ardentes em minha boca calada. E, na calada da noite, você me apareceu... E, em cada noite calada, seu encanto em mim cresceu...

"Agora já não posso esconder
Agora já não posso disfarçar
Daqui pra frente quero ter você
Por isso hoje resolvi te contar"

E, agora calada, eu lhe revelo os silêncios meus, na esperança desesperada de que eles também sejam seus...

"Que dentro dos teus olhos vi meu futuro chegar
E no seu coração é onde eu quero morar
Porque no meu você já está
E dali não dá mais pra tirar"

Então beijo seus olhos isqueiros com meus lábios cigarros – vejo um amanhã de vícios em meu peito, impossível de controlar... Tão metade em meus segredos, me entrego por inteiro nessa hora da verdade: sou cigarro a queimar, prisioneiro libertado, escravo de seu olhar. 


Poema do Dia do Livro: Irene (ou A Dona do Catálogo dos Sonhos)

Em homenagem ao Dia Nacional do Livro, homenageio hoje a dedicada e fantástica Irene, bibliotecária da E. M. Alcino Francisco da Silva, de Teresópolis/RJ. Um aplauso a todos que incentivam a leitura e nos abrem pro mundo escrito dos sonhos:



Irene (ou A Dona do Catálogo dos Sonhos)

Ela é um livro aberto
de carne, osso e coração,
principalmente coração...
Suas letras imortais vem
em seus conselhos,
em suas dúvidas,
em seu eterno desejo de ajudar
o próximo, o outro,
como se ajudasse a um irmão.
Se me sinto perdido
na biblioteca de babel,
na babel de nosso louco dia a dia,
mais rápida que o google
ela me guia
pra direção exata,
como o vento leva a folha de volta à mata,
como uma esperança renovada
que sobrevive a qualquer furacão.
Mesmo que um leve desespero a abale
e que seus olhos reflitam preocupação,
a face de bibliotecária permanece intacta,
ágil e dedicada,
ela continua atendendo qualquer solicitação.
Folheio suas histórias,
ela é um livro aberto
de doces derrotas e amargas vitórias,
mas sempre gloriosa,
é a obra-prima da escola,
dona do catálogo de sonhos
que povoam nossa imaginação.
Ela é um livro eterno
em cada página de afeto,
em cada belo gesto de emoção,
ela é o best-seller
na estante de nosso bem querer,
na coleção de todo bom coração!

- Não, Irene, hoje não procuro mais nada,
pois já encontrei... você!

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Meus poemas femininos: Lugar de mulher


O texto inédito escrito nesta manhã é em homenagem a um evento musical interessante, no qual pretendo estar hoje à noite, e cujo nome me chamou a atenção: “Lugar de mulher é... no vocal”. Lembrando de tantas e tantas cantoras (Rita Lee, Jane Duboc – quem não conhece a participação roqueira dessa cantora na banda Bacamarte não sabe o que é música de verdade -, Elis Regina, Pitty, etc) que venceram as barreiras do machismo no universo retrógrado de nosso mercado musical e hoje brilham nos palcos do mundo artístico, “desfazendo amélias” e cantando “todas as mulheres do mundo”, contra o “arrastão” do preconceito, fiz esse poema-rabisco-de-canção-sem-melodia, usando (ou melhor, sendo usado por) um eu lírico feminino que desfaz a ideia idiota de que lugar de mulher é na cozinha, pilotando fogão. Não há lugares exatos nem pra homens, nem pra mulheres; não somos objetos pra sermos designados pra ambientes estáticos. Nosso lugar é o mundo, em constante reciprocidade de ações e reações. Espero que gostem:   

Lugar de mulher

Ah, garoto tolo, me confinas no fogão
Tentas conter meu fogo na tua cozinha de ilusão
E não percebes o calor de minha boca escancarada
Quando o preconceito requentado de tuas palavras
Recebe a fúria velada do meu não.

Não, homem negação, eu canto a minha afirmação
Contra o palpite infeliz da tua antiquada opinião
Não me leves a mal, mas lugar de mulher é no vocal
Contra a estupidez sem fim do teu sexo desigual
Sim, garoto ruim, eu canto a mulher em mim
À procura do homem que ainda não existe em ti
Assim entendes o teu mal: o meu lugar é no vocal
À procura de alguém melhor pra mim,
À procura de alguém menos banal...

Hey, garoto bobo, teu machismo está na mesa
Fatiei os teus instintos e te ofereço a solidão de sobremesa
Alimenta-te com teus amigos na tua frágil fortaleza
Cantarei, enquanto isso, pras minhas amigas, pra lua cheia,
Os meus verdadeiros encantos, a minha real beleza.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A fossa nossa de cada poema juvenil: "Lábios"

Lendo o blog "O Grito da Harpia" (http://ogritodaharpia.blogspot.com/), me deparei com esse pensamento da escritora Renata Monte: "[...] percebi que quando se está passando por uma fossa, não adianta procurar meios de diversão para esquecer ou aliviar o que machuca por dentro, diversões são passageiras e o jeito mais rápido de se passar por uma deprê é se entregando ao choro mesmo!" Não, calma, leitor, esse poeta que vos fala não está passando por nenhuma fossa (pelo menos, não neste momento rs), porém, ao ler as palavras de Renata, relembrei de minhas fossas da adolescência e essa necessidade poética-juvenil de liberarmos as lágrimas em nossos versos, como se libertássemos uma febril agulha melancolicamente presa em nossos corações. De uma dessas fossas furiosas, surgiu meu segundo livro "Promessas Desfeitas" (1997) - é assim que nós, artistas, resistimos às derrotas pessoais: transformamos nossas inglórias individuais em artes gloriosas e coletivas. Em homenagem a todos que passam e já passaram por alguma fossa (quem não passou por uma fossinha sequer na juventude não foi jovem autêntico; foi espectro juvenil, pois a dor seduz a juventude e se encaixa plenamente no corpo em desengonçada transformação), eis um poema deprê do meu segundo livro. Pra ser lido ouvindo "Refrão de bolero", de Engenheiros do Hawaí, e "Igual a você", de Nenhum de Nós:


Lábios

Ontem encontrei uma poesia
Que havia escrito sobre nós...
E achei tão irônico
Como as palavras doces ganham
Um gosto tão amargo
E como os lábios que beijam
São mesmos lábios que traem...
Depois encontrei o seu retrato.
Eu não estava nele...
Foi a parte que ganhei do testamento
Deste sentimento
Sentimento humano
Como errar é humano...
Como este sentimento é errado...
Ah! Os lábios me enganaram:
Amor enganado...Amor?

Hoje a encontro na rua
Cercada de novos “amigos”...
E me senti tão estranho
Como a lua que segue meus passos
Sem motivo
Como os lábios são volúveis
Diante de novos lábios...
Me encontro sozinho
Por pouco não estou totalmente perdido
Perdido nas sombras
Como se as outras fossem sombras...
Como se as sombras fossem você...
Ah! Mas os lábios as rejeitam:
Preferiam os beijos do passado...

  

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

George Harrison e eu: Ouvindo “Something” bem alto às 3 horas da madrugada

Após um tempo de silêncio a guitarra de George Harrison, que suavemente chora, volta em uma balada suave e eterna, um grito sereno contra o mundo maquiavélico da busca pelo eterno concreto, sem emoções e/ou abstrações. Apesar de ser a última que posto de George Harrison fase Beatles, esta (sub)versão de "Something" foi o primeiro poema georgeharrisoniano que fiz (os demais podem ser encontrados pelos links abaixo do blog: http://diariosdesolidao.blogspot.com/2011/07/george-harrison-e-eu.html , http://diariosdesolidao.blogspot.com/2011/07/george-harrison-e-eu_27.html ,
http://diariosdesolidao.blogspot.com/2011/09/george-harrison-e-eu-no-bar-parte-2.html .). Ano passado, em meio às minhas solidões, a canção "Something", também conhecida como a 'música que George fez pra sua amada Pattie, mas nunca admitiu',  acariciava meu peito febril e carente e embalava minhas madrugadas com delírios de amor acompanhado de musas amantes que dançavam em minha ilusão. A (sub)versão fala sobre abraçar o lirismo incontido, sem buscar porquês, resgatar o romantismo invisível e impossível, sentir o sem sentido sem necessidade de perder-se em explicações. Abaixo da minha (sub)versão, vai o clipe original da canção (com a tradução) pra que os leitores possam acompanhar o encanto que tal canção marca em meu coração: 



Ouvindo “Something” bem alto 
às 3 horas da madrugada




Há algo nos acordes dela que me atraem
Como se meu coração se movesse pra outro lugar
Há algum sol em sua melodia que me faz delirar

Eu não posso deixar de tocá-la, não agora
Quando todos descreem de tudo

Alguma sintonia em seu romantismo, talvez um sorriso
Cuja suavidade não encontro em outra canção
Algo em sua melodia me faz chorar sorrindo

Eu não posso deixar de tocá-la, não agora
Quando pouco parece muito

E o vizinho me pergunta se poderia abaixar o som
Eu não responderei, eu não responderei
Ele tem seus direitos, a lei do silêncio
Por isso nada direi, nada direi

Alguma falta de romantismo, talvez seus gritos
Cuja agressividade ultrapassa o bom tom
Algo em meu vizinho me faz desobedecer

Eu não posso deixar de tocá-la, não agora
Que o mundo grita pelo nada,
Não agora que o mundo grita pelo umbigo...




Solidões compartilhadas: "Antes só", de João Júnior


Hoje quem compartilha suas solidões conosco é João Júnior, poeta, compositor e vocalista da banda de rock valenciana Black Bullets, “aproveitando uma fase de muita inspiração”. Reparem no fantástico jogo de palavras e de pontuação desse artista de talento incomparável, gerando significados (e 'contrassignificados') múltiplos ao conhecido ditado “Antes só do que mal acompanhado”:

Antes só

Antes sol do que mal anoitecido
Uma noite que cai e traz nas costas
Uma manhã sem cor no meu deserto
Como num sonho em preto e branco
Onde chova e faça sol simultaneamente
Um arco-íris sempre em tons de cinza

Antes sóbrio do que mal embriagado
Litros de tristeza a preço parco
Que facilmente, viciosamente,
Se encontram em qualquer esquina

Antes pó do que mal inventado
Quando invenções não preenchem o vazio
E o vazio se faz a própria invenção
A engrenagem que maquina
A ilusão

Antes, só o mal vinha acompanhado
De lágrimas de mãos dadas
Mãos que pareciam atadas
algemas trancadas por aqueles que te isolaram

mas antes mal, do que só acompanhado
de hipócritas que se julgam certos por serem maioria
quando se vê a dignidade andando solitária
não fazendo questão de acompanhar nenhum deles

só antes do mal acompanhado
percebe-se o quão ruim é estar sozinho
e se me dizes:
Antes só do que mal acompanhado
Pergunto:
Há pior companhia do que a solidão?

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Aos porcos de George Orwell, infeliz Dia da Democracia

Hoje 'comemoramos' o "Dia da Democracia". Tal data comemorativa não costuma ser lembrada em nosso país. Talvez pelo fato de tal palavra viver desaparecida no universo político que nos cerca, nos amedronta, nos corrompe, nos vulgariza e nos castiga (é incrível como político, em nosso país, faz de tudo conosco, menos exercer o seu papel: representar os seus eleitores e promover o bem estar da nação). Em homenagem aos governadores do Rio de Janeiro e do Ceará - há outros, mais tímidos, mas tão babacas quanto os dois citados -, que acham que professores devem pastar seus salários; em homenagem à deputada Jaqueline Roriz - há outros, mais safados e 'inocentados', mas tão suspeitos quanto ela -, inocentada das acusações de corrupção; em homenagem à hegemonia de Sarney em nossa famigerada estrutura política; em lembrança ao senador alagoano muito bem votado na última eleição Fernando Collor, conhecido como o único ex-presidente brasileiro afastado por suspeitas de atos ilícitos (oh! que surpresa! também foi inocentado!); em recordação aos prefeitos afastados de Magé e Teresópolis - há mais outros sob processo, tão ruins quanto os citados; a favor do voto nulo, comemoro o Dia da Democracia com a lembrança de sua ausência, o escândalo calado de sua inexistência. Pra esse "Dia da Inominável devido às gestões políticas atuais e antigas", um pouco do meu segundo livro: "Promessas desfeitas IV (De Político)". Posto minhas críticas enquanto ainda posso, pois sei que já há (e sempre houveram) projetos pra censurarem, controlarem, manipularem ou simplesmente ignorarem tais ousadias (a maioria da classe política confunde eleitor com as ovelhas de George Orwell - alguns até acreditam piamente nesse conceito, assim como têm consciência de que, como governantes, eles exercem os papéis dos porcos de George Orwell). Pra ser lido ouvindo o Cd/LP "Animals" do Pink Floyd, álbum já homenageado pela excelente banda de rock valenciana Black Bullets, do vocalista João Júnior (que, em breve, compartilhará poeticamente suas solidões neste blog):

Promessas desfeitas IV
(De política)

Vinha sempre aqui
Todo humilde
Em busca de atenção
Pedia licença
Entrava em minha casa
E repetia sempre, o seu nome:
CANDIDATO POLÍTICO
Me achava importante
Me nomeava seu ELEITOR
Dizia como o VOTO mudava
A consciência da História
Me falou sobre revolução
Mas me desfiz de suas palavras:
Em troca de um saco de cimento
E umas moedas de centavos
O meu VOTO ele comprou.

Depois do tal EMPOSSAMENTO
Nunca mais ele voltou
Ficou todo importante
Virou o centro das atenções
Mudou até de nome:
POLÍTICO ELEITO
Quando o vi assim
Pensei até ter visto um camaleão
E foi então que aprendi
Que saco de cimento não faz casa
E que moeda de centavo não faz milhão.

Mas, após três anos e meio do acontecido,
Não foi que o desgraçado voltou?...
Com um sorriso amarelo de "humildade"
Invadiu minha casa
E, como se me enganassse, trocou de nome:
CANDIDATO A REELEIÇÃO
Foi então que me irritei
Lhe disse que suas PALAVRAS não desfazem
Seus anos de MÁ ADMINISTRAÇÃO
E que suas PROMESSAS DESFEITAS não lhe dão
O direito de acusar a OPOSIÇÃO
Pois agora eu aprendi
Que ELEITOR que vende VOTO
Dá direito de LADRÃO comprar o nome
De CANDIDATO A REELEIÇÃO.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Velhos poemas juvenis em trânsito: “Ônibus”


A postagem de ontem com o poema de Camila Canêdo, somada a minha rotina de segunda-feira, que consiste em transitar entre diversos ônibus (de Valença pro Rio de Janeiro, do Rio de Janeiro pra Teresópolis, da rodoviária de Teresópolis pro distrito de Três Córregos, breve descanso em casa pra novamente sair de Três Córregos pra voltar ao centro da cidade, etc etc), me fizeram lembrar de um antigo poema de minha autoria chamado “Ônibus”, publicado em meu segundo livro “Promessas desfeitas” (1997). 
O poema relembra os diversos personagens das rituais viagens de ônibus, meio de transporte repleto de rotina e tédio mortais. Dedicado a todos que perambulam o mundo em ônibus repletos de realidades nossas e alheias.

 O ônibus

Ônibus superlotado
Corpos presos à mesma gaiola
O cara suado
Que saiu do trabalho
A mulher gostosa
Que todo mundo passa a mão
O estudante disfarçado
De bom menino safado
A adolescente carinhosa
Que acaricia a solidão
Corpos imersos na rotina
Juntos na mesma prisão
Corpos que amam
Corpos que se odeiam
Corpos que esperam
O ponto de chegada
Pra voltarem às suas casas
O ponto de partida
Pra voltarem às suas vidas
Como se dentro do ônibus
Estivessem mortos...

A cada alma que passa pela roleta
É um morto que respira nos bancos
Dos ônibus
Esperando a sua vez de ressuscitar.

domingo, 23 de outubro de 2011

Contos caninos: Mundo cão


Hoje o blog faz 3 meses de existência, ainda de luto com os últimos acontecimentos (ouço cachorros latindo na distância...). Em homenagem a todos os espíritos caninos, mais sábios que nós, humanos, posto o conto “Mundo cão”, publicado em meu sexto livro "Diários de solidão" (2010):

Mundo cão

“Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem.”
(Jesus Cristo, segundo Lucas 23, v. 34)

            Aniversário de Tatá, titia de Teté. No quintal, tititi de Mimi, mamãe de Teté, com marido Gugu:
            - Festa pra Tatá na nossa casa, Gugu!
            - Festa é cara! Tô duro, Mimi!
        - Irmã Teteca e Dudu, marido dela, vão ajudar a pagar!
            - Festa dá trabalho, mulher!
            - Festa reúne família, homem!
            Molestado pelo colóquio exacerbado do histérico casal, Montgomery Cliff, com sua magnitude canina, solicita aos palestrantes uma compostura mais pacífica: 
            - Au, au!!!
            - CALABOCA, CACHORRO ESTÚPIDO!
            - Não bate no totó da Teté, Gugu!
            Injuriado física e ideologicamente - pelo patético apelido a ele proferido -, Montgomery Cliff, com toda sua soberba, ironiza os algozes com censuras veladas:
            - Au... Au...
            Teté entra no quintal:
            - Mamã briga com papá?
            - Não, filhinha! Papá Gugu tá ficando surdo; mamã Mimi também.
            Estupefato com a farsa monossilábica de seus proprietários, Montgomery Cliff declama um exultante épico caniniano para seus gentios senhores:
            - Au, au; au au au; au au au au...
            - Quieto, totó! – diz Teté.
            Mais uma vez ultrajado, desta vez pela senhorinha, Montgomery Cliff emudece e abandona o corpo na atmosfera artificial deste cativeiro chamado quintal.
            Mimi sorri pra Teté:
            - Festa pra Tatá na nossa casa, Teté!
            Gugu quieto. Teté faz festa:
            - Obá!
            Gugu faz cara feia, mas nada fala. Força sorriso na cara malvada. A tarde e os dentes de Gugu são amarelos. Mão de Gugu dentro dos bolsos vazios.
            - Vô avisá Lalá, Lelé, Lili, Loló e Luciana! – Teté corre feliz.
            Gugu diz:
            - Tá... festa pra Tatá.
            Mimi reza:
            - Amém, homem!
            Doutrinador do empirismo cético, Montgomery Cliff pragueja contra a apocalíptica fatalidade festiva:
            - Au, au, au! – mas sua transviada filosofia não alcança os ouvidos humanos.
            E passam-se dias: festa no quintal da Mimi e do Gugu. Família chega e diz:
            - Viva, Tatá?
            - Viva! – responde Tatá.
            - Viva! – repete Teté.
            Encarcerado por seus proprietários, exilado na obscuridade do canto do quintal (masmorra que lhe é reservada em ocasiões festivas), Montgomery Cliff  lamenta o ritual hipócrita dos quixotescos boêmios:
            - Caim, caim! – comprova liturgicamente o universo fratricida dos homens.
            Família vai, família vem. Mimi, sozinha na cozinha, trabalha como ninguém. Gugu paga tudo, Dudu é pão-duro. Família ri, família bebe, família se perde. É Didi que dança com Dadá, prima de Dedé, esposa de Didi. É Dedé que bate em Dadá. É Chico que xinga Zazá. É Gugu que cobra Dudu. É Teté que pisa no calo de Loló. É Lili que joga boneca em Manuel. É bebê de Bibi que baba no sofá. Que confusão! Só Vovó Vivi não viu e nem vai ver, porque tomou xarope e dorme sem nada saber. Pá! Pum! Crás! Essa festa ainda mata um, essa bagunça tá demais!
            Cataclismado com o desfile caótico daquele inferno dantesco – se não bastasse o purgatório carnavalizante do repertório massificado do aparelho sonoro! – Montgomery Cliff clama pela reabilitação da lucidez pulverizada pela ignorância humana:
            - Au! Au! Au!
            Mimi sai da cozinha e grita contra família. Família pede desculpa. Mimi chora. Todo mundo consola.
            - Família é fogo! – diz um.
            - Família que nada! – diz outro.
            Nostálgico, Montgomery Cliff rememora suas primaveras pueris, quando sua matriarca, ainda viva, lhe transmitia a sabedoria da filosofia canina em latinos latidos:
            - Auuuuuuuu! Auuuuuuuu! – retruca com a Lua todos os saberes e saudades do Infinito.
            Festa continua. Família bate palma, família canta parabéns pra Tatá. Tatá sopra velas, família parte bolo, família come tudo.
            Empertigado, Montgomery Cliff contempla o cenário patético e zomba dos farelos humanos:
            - Au, au, au!
            Fim de festa. Família pra casa. Mimi ainda trabalha. Gugu, muito bebum, liberta o totó de Teté. Gugu pesa a corrente, pensa na dureza; bebida faz Gugu pensar.
            Diante da aparência parva de seu senhor, Montgomery Cliff sensibiliza-se e, enternecido, ensina ao seu estúpido dono pequenas lições de astúcia e esperança:
            - Au au au, au au au, au au au...
            Ilusionado pela inércia amistosa de seu dono, Montgomery Cliff, num ímpeto de solicitude aos desvalidos, salta sobre seu miserável proprietário e o lambe.
            - CACHORRO ESTÚPIDO! – Gugu empurra Montgomery Cliff e vai dormir.