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segunda-feira, 7 de abril de 2014

Por uma nova ordem (ou desordem?) musical: Yeah, eu fui no Lollapalooza 2014!

Mais uma vez me organizei para ir ao Lollapalooza. Escolhi ir ao festival o domingo, 6 de abril, não tão pleno quanto no ano passado (a nova produtora do Lolla 'inovou' neste ano, inventando batalhas entre grandes shows e deixando meu coração dividido entre o show super-energético da banda de indie rock Arcade Fire e o show não tão animado, mas clássico e plástico da toda poderosa New Order).

Sábado, 5 de abril, correria: tentei deixar tudo em ordem e, devido aos poucos horários de Três Córregos para a Rodoviária de Teresópolis, me arrumo às pressas, depois de organizar quase tudo atabalhoadamente. Na rodoviária, pego o ônibus direto pra São Paulo e aproveito a longa viagem pra praticar minha arte de dormir em ônibus, afinal domingo será um dia longo, vibrante e inesquecível, se os deuses da música me permitirem essa dádiva, e única forma de descansar é aproveitar os horários em trânsito pra descansar a vista e talvez o corpo.

Madrugada e manhã de domingo, 6 de abril, preguiça: desembarco na Rodoviária de São Paulo e dou um tempo por ali – é cedo demais pra iniciar o corre-corre pra chegar ao show. Recarrego o celular numa área reservada pra isso, enquanto descanso ao lado dele no chão; visito lojas, mas não compro nada; como alguma coisa (junk food e café, café, café!); um curitibano perdido me pede informações sobre a rodoviária e, como já sou mestre em passar por aqui, lhe respondo as dúvidas e, por um instante, me sinto um cidadão paulistano; entro na lan house e consulto meus espaços virtuais – nenhuma novidade na net, fora saber que meu time virtual Guesa Errante Futebol Clube perdeu na Liga Golaço após 10 jogos de invencibilidade. Pronto, já enrolei bastante, pego informações das rotas do trem e sigo em direção do Autódromo de Interlagos, novo local do Lollapalooza (até ano passado, o evento rolava no Jóquei Clube).

Fim de manhã e início da tarde de domingo, 6 de abril, excitação: depois de passar por três trens, andar um bocado, passar por vários guichês (de revista, autenticação do ingresso, etc), chego ao novo espaço do Lollapalooza. A primeira coisa que faço ao entrar é bater fotos e comprar tickets de comida e bebida (ano passado, passei um aperto em filas enormes, por ter deixado pra comprar depois). Depois corro pra assistir ao show da musa pop venezuelana Francisca Valenzuela, no Palco Skol. O show da cantora é animado, meio performático, o pop que ela representa não é dos estilos que mais curto, mas não me desagrada nem uim pouco: a artista tem estilo, uma voz potente, boas canções e conquista a simpatia do público, ainda pequeno por se tratar de um dos primeiros shows do dia. O sol escaldante avisa que será um dia quente (na minha mochila, a capa de chuva, companheira de outros festivais, dorme tranquila e inútil). Aproveito o intervalo de show pra descansar um pouco, me sento na grama (ano passado, saí mancando do Lolla 2013, por causa da ansiedade excessiva e, consequentemente, não me dar os tempos devidos de pausa – já não sou mais um garoto de 16 anos, com o corpo novinho em folha; meus quase 35 me lembram disso toda hora), o sol queima o meu rosto e todas as outras partes expostas de meu corpo, em breve ficarei da cor de um camarão, castigo viável para mim, que não . Aproveito a pausa pra conhecer outras pessoas: ao meu lado, acho uma companhia para os maus vícios, ou seja, fumante como eu (o poeta Mario Quintana afirmava que é nesses momentos de tragadas coletivas que fazemos novas amizades). Seu nome é Lilia ou Lilian (não entendi ao certo, mas não quis perguntar novamente), é de Santo André, o Lolla 2014 é o primeiro festival que ela vai e isso tem um motivo, ou melhor, uma cantora: Ellie Goulding (artista pop super-esperada por uma legião de fãs neste evento, mas, como eu já disse, não é bem o estilo que mais gosto, logo, em breve, Lilia ou Lilian e eu seguiremos caminhos diferentes, mas, como ela própria disse, “o legal desse lance de festival é que cada um tem seu estilo, sem confusão, sem briga, todos curtem”, e assim cada um seguirá a sua trilha musical). Conheço também o jovem, gente boa e louco Hortêncio Lima (ele me repetiu o nome umas 3 vezes durante os momentos em que estivemos juntos pra que eu pudesse gravar rs); também é o primeiro festival dele, mas, diferente de nós, ele já tinha vindo no sábado, estava meio virado, mas com a energia ainda a mil.
Esperamos ansiosamente o show do Raimundos e eles não desapontaram em nada nossa expectativa: fizeram um show vigoroso no Palco Skol, tocaram diversos hits, trouxeram as canções novas – muito boas, por sinal, do novo álbum “Cantigas de Roda” - agitaram muito a galera e, em nenhum momento, pararam de contagiar a galera (de todos os shows que  eu vi, foi o que mais interagiu e que agitou realmente todo o público), rodinhas hardcore se formaram (Hortêncio entrou em todas, eu me arrisquei apenas uma vez – não tenho mais 16 anos, meus quase 35 sempre me lembram disso). Resumindo: o show dos Raimundos foi um dos mais fodásticos do dia, do caralho, puta que pariu – eles tinham afirmado em entrevista ao G1 que esse show marcaria um novo recomeço, uma ressurreição na banda, mas não pensei que seria tão consagrador assim! O vocalista Digão aproveitou pra citar Ayrton Senna (afinal, estávamos no Autódromo de Interlagos, onde o piloto brasileiro tanto se destacou) e agradecer a galera: “É por isso que não paramos, véi, é por vocês, vocês que fazem a gente continuar!” A páscoa dos Raimundos veio uma semana antes da que marca o feriado oficial: a banda, lenda divina do hardcore nacional, está mais viva que nunca! Acho uma pena que sites como o G1, que cobriu o evento, não tenha dedicado nenhuma linha de comentário sobre o fodástico show dos Raimundos no resumo da 2.ª Noite do Lollapalooza. 
Depois disso, Hortêncio e eu nos separamos de Lilia ou Lilian, pois seguimos nossa jornada musical na direção do Palco Ônix, onde já se apresentava o lendário Johnny Marr, ex-guitarrista da fodástica banda The Smiths e atualmente em bom início de carreira solo. O rock tipicamente inglês de Johnny Marr é vibrante, anima o público (principalmente, os mais velhos) e, putz, ouvi-lo ressuscitar velhos e eternos hits do The Smiths é fodástico demais, contagiou todo o público, isso jamais sairá da minha memória musical. Hortêncio, animado, comenta: “Agora entendo de onde vem a musicalidade de ‘Alagados’ dos Paralamas do Sucesso.” Eu poderia ter dito a ele que não só o The Smiths, mas também o Talking Heads e o The Police influenciaram a sonoridade dos Paralamas, mas, em tributo ao fodástico show de Johnny Marr, deixo o guitarrista como principal influenciador dos Paralamas. Johnny Marr continuou agitando o público, porém, no meio do show, Hortêncio e eu nos vemos meio cansados (o show dos Raimundos nos cansou demais, apesar de ter sido uma canseira positiva) e decidimos dar um tempo. Saio da multidão e, quando olho pra trás, cadê o cara? Ambos nos perdemos um do outro – ameaço procurá-lo, mas é em vão, o evento está cada vez mais lotado, encontrar uma agulha no palheiro seria mais fácil. Me sento na grama e descanso um pouco, afinal ainda tem muito show pra curtir. Agora retorno à minha jornada musical solitária.

Meio da tarde até o anoitecer de domingo, 6 de abril: sou um exército de um homem só – Saio do espaço próximo ao Palco Ônix e sigo para o Palco Interlagos, onde tocará a banda ultra-feminista e de rock vigoroso Savages. Não tinha nenhuma informação dessa banda até uma semana atrás, quando esbarrei com um comentário desesperado de uma fã da banda no site do Lollapalloza. Na mensagem, a fã reclamava a falta de comentários da galera na página reservada à banda Savages: “Vamos lá, galera! Como é possível que uma das melhores bandas do Lolla de domingo tenha tão poucos comentários?” Esse fato me deixou meio curioso e decidi baixar o som da banda. Seu ritmo, misto de Joy Division com Siouxsie bastante pesado, me encantou de cara e a Savages passou para a minha lista de shows a serem assistidos no Lolla 2014. Enquanto eu seguia para o Palco Interlagos, a musa pop Ellie Goulding iniciava seu show no Palco Skol; uma platéia imensa já lotava o lugar e mais fãs enlouquecidos se dirigiam para perto do palco. Caminhando na direção oposta à da maioria, me senti um rebelde nadando contra a corrente. Chego cedo ao show da Savages e consigo ficar bem próximo do palco (não tão próximo, pois uma legião ‘savágica’ já a esperava). Quando o show inicia, tenho a impressão de certa timidez da vocalista com o público e percebo que o sol possivelmente castigue as integrantes da banda, vindas de outros ambientes com temperaturas mais amenas, mas tudo isso fica só à primeira vista. Após três músicas e movimentação contagiante da banda, seu rock vibrante já nos hipnotiza, a vocalista já se comunica com o público em português, para delírio dos fã-náticos, sua performance meio Ian Curtis (Joy Division), meio Johnny Rotten (Sex Pistols) relembra bons ídolos de décadas passadas, o som é potente, impossível não se deixar contagiar, tanto a platéia quanto a banda saem satisfeitos com o show, o público aplaude efusivamente e a vocalista sai de palco sorrindo, depois de dar “obrigado” diversas vezes pra galera que animou o espetáculo. 
Saciado de Savages, é momento de Pixies – corro na direção do Palco Skol, entro no meio do público cada vez maior à medida que os shows principais se sucedem. Com muito esforço e jogo de cintura, consigo chegar próximo ao palco, bem no miolo da massa roqueira. O Pixies, bastante criticado por certa apatia nos últimos shows no Brasil e no mundo, veio pra desfazer qualquer má impressão anterior. Fizeram um show antológico, eficiente, recheado de hits que empolgaram a galera; fãs das mais diversas idades cantavam junto com a banda, um momento mágico, um coro acompanhava as dúvidas do vocalista: “Where is my mind”, fora certa timidez da nova baixista, o show foi um dos melhores do domingo, o mais vibrante, rasgado e autêntico rock’n roll, baby, "la la love you"!
Saí do show empolgado pra curtir o rock grunge do Soundgarden no Palco Ônix, porém paguei um preço alto por ter ficado tão próximo dos Pixies no Palco Skol: quando cheguei no palco, onde a banda de Chris Cornell agitava a galera com “Black Hole Sun”, entre outros sucessos, o espaço estava tomado pela multidão e só conseguiria assistir ao show a uma distância imensa do palco. Mesmo com o coração apertado pela perda, virei as costas e decidi tentar uma estratégia nova para que tal fato não ocorresse no próximo show da minha lista pré-concebida: correr para o Palco Interlagos bem antes do show do New Order para que eu pudesse ter uma visão mais privilegiada do espetáculo.

Domingo, 6 de abril, noite brilhante, uma nova ordem: Sei que o Arcade Fire preparava-se para fazer um show antológico no Palco Skol, mas não perderia o New Order por nada no Palco Interlagos, afinal, mesmo menos empolgada que o Arcade, a banda formada após o fim do Joy Division é parte essencial de minha trilha lírico-sonora da juventude (sei que alguns chamam o som deles de ‘música para enrustidos’, lamento, mas é meu ‘mau gosto’ musical, caros críticos machões fãs de bandas metaleiras de cabeludos sarados) . 
Cheguei ao palco Interlagos no final da apresentação do Jake Bugg. Ouvi de forma desinteressada o folk rock do garoto (ele não estava na minha lista de favoritos) e confesso que até houve um pouco de má vontade minha com o som dele, pois eu ainda estava chateado por ter tido que sacrificar o show do Soundgarden. Jake Bugg fez um bom show, apesar de não ter empolgado muito a galera (somente pequenos grupos aqui e ali davam uma atenção devida e vibrante ao show do rapaz), o que resultou numa despedida seca do artista. Na minha cabeça, ficou um verso de uma das últimas canções que ele cantou: “Rock’n roll can never die” (na verdade, a canção nem é de Jake Bugg, e sim uma versão que ele fez da consagrada “Hey Hey My My”, de Neil Young. Lamento por Jake Bugg ter sido ‘incompreendido’, mas minha maior preocupação era chegar o mais próximo possível do palco. E a estratégia deu certo: após o show de Jake Bugg, a platéia dispersou e cheguei bem próximo do limite para o palco – mais uns quatro passos e eu estaria completamente de cara para o espetáculo! 
Após alguma espera e muita expectativa, o New Order chegou, bastante técnico, plasticamente poderoso (o telão exibia diversos vídeos e as luzes eram um espetáculo psicodélico à parte), meio discreto, mas acompanhado por uma platéia empolgada. O vocalista Summer interagia com o público, nem sempre da melhor forma (a galera não gostou muito quando ele agradeceu a recepção com um ‘muchas gracias’, nem quando ele disse que curtia o ‘mojito’ brasileiro [?!?], mas, logo ele se corrigiu, dando o devido “obrigado” e dizendo curtir a caipirinha e churrasco brasileiros, e, depois, pediu desculpar por não falar quase nada em português). Burocracias diplomáticas à parte, o New Order tem um rock melódico contagiante e fez um show eficiente, que emocionou os fãs mais nostálgicos como eu (ou seja, mais velhos rs), principalmente, do meio pro final do show, quando finalmente eles tocaram os fodásticos hits “Blue Monday”, “Bizarre Love Triangle”, entre outros. 
O bis que eles deram, tocando duas canções do Joy Division, em memória do genial Ian Curtis, é de emocionar qualquer ser humano que curta o mínimo essencial do rock de 80, a homenagem traz aquela energia feliz que nos dá uma baita vontade de chorar. E chorei feliz, cara, nessas horas, não sei esconder minhas lágrimas, viu, senhores críticos, não sou tão enrustido assim – meus sentidos talvez sejam muito mais expostos que os de vocês, cambada . Seja qual for o conceito (ou pré-conceito) dado ao som do New Order, eu os acompanho, perdoo qualquer falha, amei demais o show deles e parto com o coração pleno de satisfação – minha trilha sonora ficou mais rica depois desse domingo. Agora é voltar pra casa, descansar e me preparar pra novas canções e poemas. E que a rotina não seja pesada, nem as ambições pequenas, pra que o amor nunca nos despedace. Amém, “Love Will Tear Us Apart”, Até Logo, New Order, Arte Sempre, Ian Curtis never die.

  

sábado, 17 de setembro de 2011

Minha poesia faz ploc: O Rock 80 e eu (mais uma vez)


            Estou a dois passos do paraíso: hoje à noite verei o show de Biquíni Cavadão e Ultraje a Rigor na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro/RJ. Citar tal fato entre meus conhecidos gera 3 reações adversas neles:
            1.  saudosismo utópico (“ah! os anos 80!... queria reviver esses momentos...);
            2.  desdém padronizado (“É... bem ploc, né?”);
            3. entediamento apostólico (“De novo? Você não cansa? Cresce, rapaz!”).
            Como as 3 reações citadas acima são frequentes (raros são aqueles que não julgam ou rotulam) e nenhuma delas representa o que realmente sinto e busco, resolvi postar essa nota-crônica-lírica-sei-lá-como-você-leitor-vai-rotular-fã-nática-e-quase- sóbria (há sempre um resto de embriaguez sonhada no que escrevo, é inata, me desculpe se gotas de poesias afetam nossa realidade na pátria que nos pariu...).
            Primeiramente, caros conhecidos da reação 1, informo que não posso reviver o que não vivi, apesar da “saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi”. Quando a década de 1980 acabou, eu tinha entre 10/11 anos, era um fedelho com flashs e faixas musicais das melodias das bandas da época que minha mãe ouvia em K-7s e LPs, quase sempre fora de meu alcance, para que eu não estragasse. O pouco que ouvi, quando mamãe ouvia ou se distraía na segurança de seus pertences, guardo bem na memória e até hoje faz parte de minha história poética, mas não maquiemos um tempo com tintas de utopia saudosa: os anos 80 foram tão ou mais cruéis com a humanidade quanto os tempos atuais (“bem-vindo ao mundo adulto”, amigo!); marcarmo-nos apenas como uma saudade do passado é riscar a possibilidade do Carpe Diem, de aproveitar o momento do AGORA (nome do cd do Biquíni Cavadão, lançado bem depois dos anos 1980). Minha poesia carrega resquícios de lembranças, mas, como Drummond, desejo o presente, os homens presentes. Reviver é serviço pra Jesus, que sempre se ergue após o terceiro dia pra nos dar o feriado comercial da Páscoa (“como acreditar se Deus também é teoria?”). Comemoremos tudo que vivemos e não aprendemos, mas não tentemos reviver, pois seria desaprender o que não aprendeu de novo.
            Quanto à rotulação ploc, caros conhecidos da reação 2, informo que tal modismo me diverte, mas não me aflige. Não busco inspirações e shows das bandas da década de 1980 em busca de algo antigo, perdido no tempo, estático e temporário. As músicas dessas bandas marcaram minha poesia e ainda marcam pela peculariedade de se tornarem eternas, libertadas de aprisionamentos temporais. O protesto de “Inútil”, do Ultraje a Rigor, infelizmente, ultrapassa todas as expectativas de otimismo lulista da atualidade. Com Copa e Olimpíada ou sem Copa e sem Olimpíada, a gente ainda não sabemos escolher presidente, não sabemos tomar conta da gente, escrevemos livros e não podemos publicar, jogamos bola e não sabemos ganhar (nosso atual técnico Mano Menezes que o diga com conhecimento de causa). Ainda vivemos “No Mundo da lua” nos espremendo em “Ônibus”, nos julgando “Zé Ninguém” numa pátria “Filha da Puta”. “O chiclete” que faz ploc tem fundações líricas eternas em nossa História sem memória. Amo grande parte do Rock 80, por sua falta de efemeridade, pois, em qualquer tempo, traz-me a sensação de que não estou sozinho; enquanto alguns contemporâneos meus seguem na ida para a cegueira, minha poesia já está na volta, aprendendo com os eternos descaminhos da existência humana. Efêmera é a vida e essa eu já tenho; quero a eternidade na arte da sobrevivência como a conquistada por muitas bandas e compositores da década de 1980. A vibração é eterna e o show não pode parar; os rótulos passam e a arte continua e por isso eu pulo e continuo pulando – o céu da boca no beijo sem fim é o limite.
            Sobre crescer, caros conhecidos da reação 3, lembro que, segundo a ciência humana, o ser adulto, ao chegar a determinada idade, não cresce mais nem 1 cm sequer (pode encolher; crescer nunca!) e informo que, aos 32 anos, meu processo de crescimento passou do prazo de validade. Já cansar é perigoso, vem da atmosfera física e sentimental humana; há uma linha tênue e extremamente arriscada entre cansar e desistir e, como sou péssimo malabarista, prefiro não me acomodar no cansaço - se ele aparece, eu nego; se não dá as caras, deixa o cansaço quieto. Depois de assistir a diversos shows do Biquíni Cavadão, nas décadas de 1990, 2000 e 2010, aprendi que a exaustão existe, mas não precisa ser confessada. Cantemos, pulemos, dancemos pra não dançarmos, o tempo escorre de nossas mãos, então seguimos juntos, encharcados, mortificados, mas de pé contra o céu; já nos basta a derrota nas notícias do dia a dia, pra que nos rendermos mais? Se não tem nada pra dizer, solte um palavrão, mas continue, insista, a vida é dura, mas nossa existência mole pode bater bastante nela até perfurar uma luz do túnel de esperança nela e encontrar – por alguns instantes - a impossível felicidade ou pelo menos uma forte dose de mínimo contentamento. Cada show ao qual me jogo é um espetáculo novo aos meus olhos.
            Pra encerrar o texto (a vida continua, opiniões mudam e o pra sempre sempre acaba), a todos conhecidos, deixo meu até logo, vou repetir minha trilha em torno do velho desconhecido reconhecido; em breve, estarei no show do Biquíni Cavadão e do Ultraje a Rigor, indiferente às críticas, ao lado da poesia insistente, de frente pro espetáculo presente!       


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Diário de um fã-nático solitário: tudo por um show do Biquíni Cavadão


18 de agosto
05:45 – Arrumo a mochila e me preparo para um dia longo: de casa pra escola, da escola em Teresópolis pra viagem a Valença, de Valença a Ipíabas, Ipíabas com Biquíni Cavadão, tudo por um show!
06:33 – Carona pra escola, a manhã começa fria, mas promissora, “só quem sonha acordado vê o sol nascer”.
07:20  às 10:40– Entrando na sala pra dar aula – Assunto: Arcadismo. Associo a música “Descivilização” às estéticas árcades. Informo aos alunos que faltarei amanhã (direção já está ciente), pois tenho horas-aula sobrando na casa e usarei pra ir ao show do Biquíni Cavadão, banda-assunto desta aula. “Yeah, o professor é do rock! “ – os olhos dos alunos dizem. Aviso que amanhã eles não ficarão à toa – deixei atividade-trabalho com canção da Paula Fernandes valendo ponto. “Ah, o professor é do rock, mas não perdoa!” – os olhos deles sabem que não sou tão irresponsável assim.
11:00 – Ganho carona pra rodoviária; estou com sorte.
12:00 às 14:05 – Dentro do ônibus de Teresópolis para o Rio de Janeiro. No meio da viagem, um engarrafamento sonolento me influencia um breve cochilo. Acordo na rodoviária, o mp3 ainda ligado toca “Mesmo assim”, do Biquíni. Meu vizinho de viagem é um senhor de meia-idade, que se despede me desejando “Boa sorte!”. Ai, ai, será que falo acordado sobre meus desejos quando estou dormindo? Por 5 minutos, perco o 14:00 para Valença. O jeito é esperar o próximo.
15:15 às 18:45 – Dentro do ônibus do Rio de Janeiro para Valença. Durante a viagem, meu irmão me liga e me informa que a van que sairia de Valença para o show do Biquíni Cavadão em Ipíabas foi cancelada. Ai, ai. Logo depois, o irmão da Ju me informa que também não iria. Ai, ai, ai. No mp3, toca “Impossível”. Impossível eu voltar atrás: digo pra mim mesmo que vou pro show de qualquer jeito!
18:45 às 22:45 – Em Valença, dou uma pausa pra recarregar as baterias do celular, da máquina fotográfica e as minhas. Como diria um vizinho do bar do Tio Jorge, “vamo que vamo”. Visito a Ju, passeio com o cão labrador Ramone (ator de meu ciple-conto “Falsa expectativa”, parto para a rodoviária: de Valença para Barra do Piraí, de Barra do Piraí pra Ipíabas, estou sozinho, mas estou comigo, “não quero me desapontar”, ah! Cheguei em Ipíabas!
22:45 às 0:40 – Assisto ao show de uma banda local (bem razoável os caras, ainda mais prejudicados pela aparelhagem de som irregular), cumprimento alguns conhecidos (morei, trabalhei e fiz faculdade em Barra do Piraí há alguns ‘séculos’ atrás), Pinheiro e sua esposa, ambos de Valença, passam por mim. Ele diz: “Não avisei que te encontraria?”, rs, não estou tão sozinho assim; continuo comigo e agora com eles. Vou para a frente do palco principal. O apresentador anuncia que, dentro de instantes, chegaria ao palco o Biquíni Cavadão!
18 para 19 de agosto
0:40 até altas horas da madrugada (ou o tempo-momento de uma eternidade em meus olhos fascinados) –  Com vocês, Biquíiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiniiiiiii CavadÃO! A banda faz um show memorável, intercalando músicas novas (“É dia de comemorar” e outra, composta com o vocalista do Fresno) e muitos sucessos (“Em algum lugar do tempo”, “Vento, ventania”, “No mundo da lua”, “Sexta-feira”, “Tédio”, “Timidez”, “Zé ninguém”, etc). Plateia vibra com o show, pulo, canto, ah!eu estou vivo! Vivo, suado, fascinado. Tudo vale a pena quando a alma e o show do Biquíni Cavadão não são pequenos! Pinheiro registra fotos minhas durante o show; hipnotizado com o espetáculo, só percebi o que ele fazia após muitos flashes. Fim de show, vou ao camarim, tieto o vocalista Bruno Gouveia, quase esqueço minha máquina digital lá, fã-nático completo!
19 de agosto pleno
Altas horas da madrugada até 05:50 – Mofando na rodoviária pra pegar o ônibus pra voltar a Valença; não lamento, o sorriso estampado no rosto. Cada último show do Biquíni Cavadão parece o primeiro. O sol ri no horizonte... Amanhece! 


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

32 anos ao sabor do sol: Motivos pra ir a outro show do Biquíni Cavadão

“Nem sempre se pode sonhar
Com aquilo que não se pode ter
Mas que regra mais idiota
Pois quando a gente sonha
É exatamente com o que não temos
E quase sempre
Com o que mais queremos”
É incrível como esses versos da balada “Mesmo assim”, do Biquíni Cavadão, pesam ainda mais em nossas reflexões depois que passamos dos 30 anos de idade. Após os 30, qualquer atitude sonhadora do indivíduo pode ser motivo de censura pelos adultos – fiscais de postura – ao nosso redor. Os colegas conselheiros – nossos inimigos que moram ou convivem ao nosso lado, “ah, esses humanos que vivem pela cidade aí afora” (versão do Biquíni para o hit da banda Tóquio é f...)...! – os maestros da boa conduta sempre nos relembram que o tempo passou, que o ‘the dream is over’, que sonho bom é estabilidade consumista (rotina estressante com carro na garagem, apartamento de frente pro mar, delírios poéticos trancados na gaveta do criado surdo-mudo e atitudes entusiásticas e revolucionárias no armário da desilusão), que não se deve fazer isso, que não se deve fazer aquilo, já não se tem idade pra tal coisa, tudo que fazemos é “ilegal, imoral ou engorda” (ouçam a versão dessa música com o Biquíni no CD Tributo ao Rei, em homenagem a Roberto Carlos, eu recomendo!), blá, blá, e ficamos procurando um “vento, ventania”, que nos leve sem destino, pra longe dos nossos censores de plantão. Sei que não devemos viver no reino de Peter Pan, o mundo é grande e não podemos ser pequenos pra sempre, mas quem disse que não podemos passear pela Terra do Nunca de vez em quando?

Sei também que você, leitor – com seu aparelho de censura interno; não negue, todos nós temos um lado meio colega conselheiro preparado pra acionar contra os loucos delirantes que nos aparecem em momentos inusitados de nossa passagem apática pela vida –, você deve estar pensando por que resolvi falar disso no meio de uma correria furiosa pela sobrevivência ao “sabor do sol” de uma quarta-feira ardente a queimar desejos adormecidos. Pois bem, explico: é porque um dos meus desejos acordou bem disposto hoje: depois de horas e horas extras, consegui juntar um dia e convencer a direção de minha escola (rá, rá, pensou que tinha juntado dinheiro, né? Cuidado com seu aparelho de censura, ele pode explodir!) pra poder sair de Teresópolis e assistir ao show do Biquíni Cavadão no Festival de Inverno em Ipíabas, distrito de Barra do Piraí/RJ, amanhã à noite.
Pronto! Já imagino a cara de muxoxo que várias pessoas vão fazer! “Você me pergunta se meu amor vai crescer / Eu não sei, eu não sei / Fique por perto e você verá / Eu não sei, eu não sei”, meu rosto estará cantando esse fragmento de “Something”, de George Harrison, caso eu me depare com tais caras de desdéns durante a minha aventura.
Entre 1994 e 1995, fui num show do Biquíni Cavadão (foi o primeiro show ao qual assisti de bandas do popularmente conhecido Rock Brasil 80) no Central Sport Club, em Barra do Piraí/RJ, eu era um moleque meio “Zé ninguém”, cheio de “Timidez” e “Tédio” em mim, buscando “No mundo da Lua” o “Impossível” em minhas “Idas e voltas”, às vezes até “brincando com fogo” pra manter a chama da vida acesa, antes que as “teorias” do “mundo adulto” me engolissem. Fui com meus primos, éramos três moleques perdidos e inexperientes em baladas noturnas, o show começou vibrante, permaneceu assim, estávamos pulando, vivendo, estávamos vivos ali! Depois disso, acompanhei os shows do Biquíni nas cidades interioranas o quanto a rotina de trabalho – outrora gráfico, depois operário, até hoje como professor - me permitiu fazer (2 vezes em Barra do Piraí, 3 vezes em Valença, 1 vez em Rio Preto – sendo que, em 2 apresentações dos caras, fui levado ao palco pra ‘cantar’, fato que me rendeu o status de fã-nático ‘muito doido’ ‘que canta mal pra caraio’ na pequena cidade de Valença), sempre dançando pra não dançar (hit de Rita Lee, já cantado pelo Biquíni). Já escrevi cartas pros caras, presenteei o vocalista com um soneto meu no show de Rio Preto, o primeiro (e, por enquanto, único) “Verse essa canção” deste blog utilizou a canção “Impossível”, do “Descivilização”, quarto CD do Biquíni, em homenagem ao Bruno Gouveia, vocalista da banda, canto as músicas desconhecidas todas (recomendo todas, com destaque pra “Antes do mundo acabar”, “Você me perdoa”, “Foi só distração” e “Um beijo pra acabar”, do ótimo CD “Quem sonha acordado vê o sol nascer”, pouco explorado pela banda no último show em Valença, fato que me intrigou, pois não sabia que eles já estavam preparando o “Rock 80 vol.2”, mas eu perdoo rs – quem ouvir a segunda canção que listei do Cd citado vai entender a piada), saio exausto dos shows deles, alguns “boquiabertos” devem me achar um bobo, mas “cada um com a sua cara”, eu não me canso de ser “escravo” das músicas deles, e parafraseando o novo single da banda, é meu dia de comemorar!

Em nenhum instante dos meus pós-30 anos, pretendi, nem pretendo retornar a minha adolescência, não quero voltar no tempo, que cada bom momento se mantenha em seu relógio específico, mas nem por isso quero esquecer o que já vivi, aquele garoto fui eu, ele cresceu, mas não vou perdê-lo, os sonhos persistem, vou a mais um show do Biquíni Cavadão e não vou perder toda essa vibração que ainda carrego comigo. “Mesmo assim, eu não esqueço as promessas que eu fiz pra mim / não quero me desapontar”, deixo-lhes, pra pensar, parte do refrão da canção “Mesmo assim”, citada no início dessa crônica-artigo-desabafo-sei-lá-que-gênero-vocês-vão-me-classificar. Como diria o titã Paulo Miklos, “vou ser feliz e já volto”. Quem quiser me encontrar amanhã à noite, estarei lá na frente do palco, com meus 32 anos, sem medo de sonhar com aquilo que não posso ter.

Meu filho-poema selecionado na Copa do Mundo das Contradições: CarnaQatar

Dia de estreia da teoricamente favorita Seleção Brasileira Masculina de Futebol na Copa do Mundo 2022, no Qatar, e um Brasil, ainda fragiliz...