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sábado, 21 de março de 2020

Declarações juvenis de amor à flores antigas em vastos vasos vazios em tempos de pandemia


Momento de pandemia, tempo de quarentena, isolamento, dias e noites de solidões coletivas, data marcada como o Dia Mundial da Poesia, é a hora do blog Diários de Solidões Coletivas retornar.
Como a notícia do novo fim do mundo é uma novidade antiga, trago um poema meu muito antigo, um dos primeiros que já escrevi, num clipoema novo, um museu de grandes novidades.
Apesar de antigo (foi o meu primeiro poema publicado em antologia [na “Pérgula Literária I”, de 1996] e republicado em meu segundo livro solo [“Promessas Desfeitas”, de 1997], o poema “Declaração de amor à flor do vaso” foi pouco exposto on line por mim (se não me engano, é a primeira vez que o posto no blog). Traz um ultrarromantismo adolescente perdido com a solidão e melancolia do mal bem estar meio fora de lugar.
Nasceu assim, vai assim, meio assim, meio assado, passado no presente bem mal passado, gosto antigo com novo design.


Declaração de amor à flor do vaso

Aí esta você!
Confinada a um lugar que não é seu,
Longe de sua casa,
Longe de suas amigas,
Perto de tudo que você nunca quis,
Perto de mim.
Oh, flor deste vasto vaso vazio,
Somos tão próximos e tão sozinhos...
Gostaria até de beijar suas pétalas,
Mas tenho medo do perigo,
Tenho medo de me apaixonar...
Se eu tocasse você,
Se eu beijasse você,
Se eu pudesse sentir você,
Eu nunca seria eu,
Eu nunca sentiria medo...
Oh, minha pobre flor rica,
De que adianta a ousadia de nossos sonhos
Se acovardamos nossos desejos?
Oh, minha flor menina,
Nossos corações são iguais;
Talvez, por isso,
Sejamos tão indiferentes com eles.

domingo, 24 de maio de 2015

(Re)Tocando o Barco com Velhos Poemas Juvenis: Pedras Salgadas

É, amigos leitores, sei que andei sumido, mas, yeah, estou de volta ao blog! Às vezes, passamos por períodos de tormenta/instabilidade na maré existencial, momentos de reavaliações/renovações artísticas, muitos compromissos na vida real – todos esses fatores somados acabam nos distanciando, ou melhor, entrando em recesso na vida virtual. Mas é momento de retornar e, se a palavra de ordem é retorno/retomada, trago de volta à vida um velho poema juvenil de minha autoria, publicado em meu primeiro livro “Fim do fim do mundo” (1997).
O velho poema juvenil “Pedras salgadas” foi inspirado em minhas releituras da obra “Mensagem”, de Fernando Pessoa, com o objetivo de subverter/alterar o jargão lembrado nos poemas de Pessoa “Viver não é preciso / Navegar é preciso”, dos “navegadores antigos” ["Navigare necesse; vivere non est necesse" - latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu], somado a uma leve referência ao “Lobo do mar”, de Jack London, mais um tanto de filosofia mitológica grega em louca mistura ao seu estilo oposto, o romantismo de Álvares de Azevedo na primeira parte da “Lira dos Vinte Anos”. É um poema que já rascunha parte de uma característica minha que segue cada vez intensa e frequente em minha poética: o ”intertextualismo”, ou seja, o  habitual uso e abuso do diálogo subversivo de meus textos com textos de outros autores. E, como o poema propõe diálogos líricos, defini que ele seria o “reiniciador” de minha retomada de postagens no blog.
Naveguemos nos mares líricos de ontem, hoje e sempre, amigos leitores!!! (#voltandoaospoucos)

Pedras Salgadas

Chove no porto
Barcos ao mar
As águas excitadas pela chuva
Excitam os pequenos barcos
E afogam os grandes navios
Com a vontade de naufragar.

                Marinheiros vêem sereias
                Quando olham pra própria imagem
                (Quando olham pro mar...)
                Tolos narcisos saboreiam o egoísmo
                Arrumam um salgado motivo
                Pra se afogar.

Pedras salgadas que encalharam navios
Não pegam os barcos que desviam dos riscos
Pois os seus marinheiros
Seguem o caminho
Do velho lobo do mar:

“VIVER NÃO É PRECISO
NAVEGAR TAMBÉM NÃO É TÃO PRECISO
É MAIS PRECISO APRENDER A AMAR!”

                A chuva cala
                A enchente das águas
                A mágoa do mar
                Pelos marinheiros que morrem
                Por não saberem nadar
                (Por não saberem amar...)


segunda-feira, 9 de junho de 2014

Velhos Poemas Juvenis: O (Quase) Suicídio

Como diria Raul Seixas, "tem dias que a gente se sente um pouco, talvez,  menos gente". O tempo nos castiga com seus ponteiros velozes, a vida nos açoita com suas realidades cada vez mais atrozes e menos esperançosas; ao invés de massagens para o corpo constantemente ferido e para a alma cansada, o que recebemos é uma overdose de rotina cada vez mais fatigante, e, às vezes, não podemos nem gritar nossas dores, pois o mundo, além de surdo ao sofrimento alheio, também é cego e cruel para descontroles e mudanças bruscas de comportamento. E tudo nos oferece a saída mais fácil: os incomodados que se mudem do plano astral atual. Sentir isso na vida adulta já é desesperador e quase completamente aniquilador; imagine, então, na adolescência e juventude, quando o corpo está se formando e implorando pra se desenvolver em paz. Me lembro disso sempre que alguém escolhe esse caminho ou que parte naturalmente e alguém sempre declara o famoso dito “partiu dessa pra melhor”. Fui um desses adolescentes que já pensou em se mudar para o outro lado da vida, já sonhei em partir e nunca mais voltar. Não há nada de fictício quando digo que a poesia, a arte salvou minha vida – por mais dolorido que seja o fardo lírico que carregamos, aceitá-lo e desenvolvê-lo é sofrido, mas reconfortante. E foi o que eu fiz; por mais dolorido que seja resistir, sempre há um poema, um conto, um sonho que ainda não escrevi, por isso é sempre preciso sobreviver.
E é o que eu faço: sobreviver pra poder escrever, reescrever e ler o que outros escrevem e também ler o que um outro eu de meu passado escreveu.
Hoje trago um velho poema juvenil meu, resultado dessa eterna luta entre desistir e resistir. O poema tem lá suas ingenuidades, claras referências a outros poemas e influências (dá pra perceber citações da canção “Boas Novas”, de Cazuza {“Eu vi a cara da morte e ela estava viva”], leituras sobre mitos e religiões diversas, etc), todo poema adolescente tem seu lado oculto em demasia, arriscando a falta de rumo, um verso quebrado, outro arrastado, às vezes um excesso de sereno, mas fez parte de mim um dia e, seja lá em qual dia esse eu me pertenceu, ele permanece aqui, dialogando com outros eus meus; negá-lo seria negar a mim mesmo, o que eu fui, o que eu sou e o que pretendo continuar a ser: um sobrevivente do reino do “Delirismo”, uma alma que se alivia no livre arbítrio da resistência lírica.
Eis aqui o meu “O (quae) suicídio”, publicado em meu primeiro livro “Fim do fim do mundo” (1997 – 1.ª edição esgotada), e que esse escapismo permaneça pra sempre nesse quase, nessa incompletude, amigos leitores, pois ainda há muitos poemas pra se escrever, falta muito pra eu desistir de sobreviver!

O (quase) suicídio

Por ser um planeta solitário
Acabei sonhando com Ela
Enquanto o Tic-Tac do relógio
Me dizia: "Está na hora de dormir"
E com a faca resolvi me libertar
De forma prática
Da carne que eu não quis
Eu me livrei de mim...
Tic-Tac...
A minha alma vagou
Caiu ao invés de voar
O céu de NIRVANA não era o céu
De nuvens que sempre
Me obrigaram a aceitar
Assim como o avião não é a asa
Que Ícaro sonhava.
Lá em cima era tudo deserto
Era só esperar
Mas enquanto eu caía
Uma Voz me ordenava: "Volte"
Um fantasma me segurou
A Morte me disse: "Viva...
Viva! Eu lhe digo quando for
A hora... Por enquanto... Viva!"
Trimm... O despertador me diz:
"Está na hora de acordar!"
A cama
Os olhos perplexos
As quatro paredes
O meu corpo inteiro
Eu voltei a respirar...
Trimm...
- Foi tudo um sonho
Ou o fim de um desejo ruim?


terça-feira, 6 de maio de 2014

Às vésperas dos 35 anos, o blogueiro relembra: Não cantamos mais rock'n roll

Valença e eu
Toda vez que o blog ou o blogueiro que vos fala fazem aniversário, busco trazer uma reminiscência, uma lembrança vaga de meu passado, dos primórdios de minha escrita. Hoje é um exemplo do segundo caso citado, ou seja, estou ás vésperas de fazer 35 anos (fico pensando que Deus realmente existe, pois só um ser divino pra aturar minha existência petulante durante tanto tempo). O fato é que, em todo período da proximidade de mais um aniversário meu, diferentemente de outras pessoas, corro de comemorações, festejos, etc; ao contrário do clima festivo, sinto sempre a minha eternidade esvaindo efêmera pelo ralo do tempo implacável, fico extremamente reflexivo, vejo minha vida toda passando em segundos na tela da memória, yeah, crise de meia-idade sem a tal da meia-idade. Por isso, tantas lembranças de outros tempos – o passado me persegue e me condena para o bem ou para o mal; só sei que me torno um receptáculo desesperado de crises existenciais e, talvez, por isso, esse pavor de festas de aniversário (às vezes, raras vezes, consigo controlar).
Hoje retorno a 1994, ano em que despertei para a poesia por livre e espontânea pressão. Eu tinha meus quatorze para quinze anos, estava no primeiro ano do ensino médio (na época, chamado de segundo grau) no Colégio Theodorico Fonseca, em Valença/RJ, não era nenhum aluno genial, meio melancólico e muitas vezes apático (sinceramente, queria encerrar logo meu encarceramento na jaula da escola – hoje estou professor, com previsão de nunca mais largar a área da educação; como o destino e nossos íntimos são sacanas com nossos eus, né, amigo leitor), mas tirava ótimas notas, principalmente em Português e Literatura, razão pela qual, é claro, fui chamado de CDF (o mesmo que nerd, nos tempos atuais) e, por mais que eu tentasse ficar na minha misantropia, sempre tinha um estranho da sala me pentelhando, a fim de pedir cola, dar apelidos, etc ( é, eu não era dos mais sociáveis, principalmente por dentro, sonhava que estava sempre longe dali).
Seja como for, as aulas da professora de Português e Literatura, a Dona Ieda, me despertaram pra poesia. Eu já fã-nático por canções do pop rock nacional (nas últimas folhas de meu caderno, eu sempre anotava letras de músicas desconhecidas do Capital Inicial, entre outras bandas, sempre colocando os devidos créditos dos compositores – por favor, Dinho Ouro Preto, Alvin L. e cia, não processem aquele adolescente que sempre destacou as composições de vocês com todos os créditos, por favor), sim, eu era apaixonado pelas letras de música do rock nacional e das traduções de baladas de Bon Jovi, Guns e canções grunges do Nirvana e cia (como, na época, não havia Google Tradutor, ou se comprava uma revista de cifras e letras traduzidas ou se traduzia na marra, com um parco dicionário de português-inglês e muita criatividade pra sacar gírias, etc). Mas nada se comparava à paixão com que Dona Ieda declamava Camões e cia., putz, eu pensava, o que aquela senhora tava vendo naqueles sonetos que eu não conseguia ver? Além das letras de música, passei a pesquisar e me envolver com poemas. Era uma paquera apenas; até então não havia escrito um só versinho que alimentasse uma estrofe satisfatória para um poema decente.
Então veio a notícia de mais uma edição do Concurso Intercolegial de Artes e, é claro, havia a categoria Poesia. O Colégio Estadual Theodorico Fonseca era um rival ferrenho do vizinho Instituto de Educação Deputado Luiz Pinto e, seja qual for o tipo de competição, eles disputavam em número de competidores, separavam grupos pra vaiarem os adversários, o surgimento de qualquer tipo de concurso era uma verdadeira declaração de guerra entre as duas escolas e todo alistamento para a frente de batalha era quase que obrigatório. Foi aí que alguém dedou erroneamente que eu escrevia poemas em meu caderno (as pessoas viam um punhado de versos e, na cegueira da competição, nem viam, nem me deixavam justificar que eram letras de música de outros autores – vinha sempre aquela regra maluca que “se você é bom em Português tem que ser bom em poema”. Com o apoio da professora Ieda e a pressão dos demais colegas de classe, fiz a inscrição sem ter escrito um poema sequer até o momento. Então tudo pesou: como eu admirava a Dona Ieda, não queria fazer feio frente á professora, mais a pressão dos colegas, cercos dos rapazes, solicitações das garotas, ok, eu resolvi começar a minha carreira de poeta, menos por gosto e mais por necessidade de que todos parassem de me encher o saco. A mesma pressão fez com que meus colegas, também considerados CDFs, o Carlos Rodrigo e o fodástico André Diniz (esse tinha muito mais veia poética que eu, mas um amor contrariado e algumas decisões íntimas dele fizeram o cara que poderia ser o maior poeta vivo valenciano abandonar a carreira precocemente) também se alistassem na categoria Poesia.
Como amante do rock n’roll e por estar ouvindo direto a canção “21” do Capital Inicial, somado à perda de vários ídolos do rock como Kurt Cobain, fiz o poema “Não cantamos mais rock’n roll”, meio rimadinho como letra de canção; nem melhor, nem pior, apenas era o meu primeiro poema (e, como já disse, diferente de mim, André Diniz fez um poema mais-que-fodástico, bom demais, cara; sem ironia, não me lembro de um verso além do corpo faminto caindo sobre as medidas de extensão do Brasil – mas não lembrar não significa não admirar aquele poema, afinal não me lembro nem dos meus até hoje; sei que era foda e eu pensei: ta ganho o concurso; o André Diniz vai ganhar, pra alegria de todo estudante do Colégio Estadual Theodorico Fonseca, o colégio leva a taça!).
Eu com o
macacão
surrado
e o velho
tênis
rasgado
Com a sensação de que eu seria apenas um figurante do evento e com o primeiro poema nas mãos, veio-me a primeira atitude de subversão: se eu iria declamar um poema sobre rock’n roll e fora dos limites da escola (o concurso aconteceu no então ainda inteiro, Teatro Municipal Rosinha de Valença, muito antes das administrações porcas de Fábio Vieira, Vicente Guedes e sua corja), se ninguém poderia me censurar, então decidi rasgar meu macacão jeans, usar meu tênis mais furado e surrado e me apresentar com estilo. Meu poema, que já não era grandes coisas e ainda falava de sexo, drogas, alcoolismo juvenil, etc, é claro, não classificou pra final. Até aí tudo previsível – o que eu não esperava era que o poema do André Diniz não classificasse e perdesse a vaga pra uns poemas sem nenhuma rima rica e/ou figura de linguagem ou qualquer recurso estilístico bem elaborado como no dele. Resumo: classificou para a final e ganhou o segundo lugar um poema em homenagem a Ayrton Senna e ao jogador Dener, recentemente falecidos em acidentes automobilísticos; o júri se compadeceu da dor popular e, na minha visão, não analisou a precária qualidade do poema; eles não entenderam o André Diniz e esse foi o primeiro passo pra ele desistir da poesia.
Ao contrário do André, peguei as dores dele pelo resultado escroto (quase cem por cento dos classificados tinham sobrenome pomposo; isso já me avisava dos quesitos valorizados nos padrões de qualidade artística do júri e, com tempo eu descobriria, o olhar valenciano de valorização de uma obra) e entrei na briga por uma manifestação artística mais madura e consciente (entrei na briga; ainda não quer dizer que ganhei a luta, até porque a rinha lírica com as palavras é um desafio eterno) . Passei a devorar livros didáticos inteiros de Literatura, analisar as escolas e estilos, namorar mesmo a poesia, conhecê-la até a contemporaneidade, ver todos os poetas que a conquistaram e, separando o bom e ruim de cada estilo, juntei com minha personalidade, e então o tempo passou, no ano seguinte ganhei Menção Honrosa no Concurso Estadual da Biblioteca Euclides da Cunha (hashtag chupa poeta ruim do Intercolegial!), alguns livros lançados, concursos ganhos, outros perdidos, e cá estou, como eu disse, sem saber bem se fiz bem ou mal em me apaixonar e me dedicar pela arte poética. Sei que vou seguindo, insistindo; isso me mantém vivo, evita que eu pense em suicídio (sempre tive essas tendências na minha tosca cabeça), permite que eu ‘comemore’ mais 1 ano de vida e vícios. Vida que segue – agora é resistir mais 1 ano pra poder contar novos segredos aqui no blog rs Um dia ainda encontro aquele lirismo fodástico que o André Diniz aparentemente abandonou.
Abraços, amigos leitores, e Arte Sempre!

Eis o meu primeiro poema, publicado dez anos depois de escrito, no meu quarto livro “O último adeus (ou o primeiro pra sempre)” (2004):

Não cantamos mais rock’n roll

Há muito tempo que não cantamos mais rock’n roll
Há muito tempo que o último grito de revolta se calou
Mastigado pelo silêncio dos vícios

Juventude perdida
Na dose excessiva
Da mesma bebida

Há muito tempo que pensamos nos anos
Em tudo que passou
A vida
O sexo
As drogas
O rock’n roll
Há muito tempo que apenas pensamos

Juventude perdida
Lá se vai
A última gota
Daquela bebida...

domingo, 4 de maio de 2014

Velhos poemas juvenis em novas declamações: Beijo Cibernético (1998) Versão 2014 Remix SolidõesColetivasSom

Hoje trago um poema que escrevi, em 1998, chamado “Beijo cibernético (1998)”, inspirado nos eventos que ocorreram naquele ano (a estabilidade econômica em detrimento da busca de uma igualdade social, a ascensão da globalização e da internet, a defesa do candidato a presidente Enéas pela fabricação da bomba atômica made in Brasil, as propagandas de Disque 0900, a estranha derrota da seleção brasileira para o time da França na Copa do Mundo, o desemprego em alta, as metas sufocantes do Fundo Monetário Internacional (FMI), a trágica queda do prédio Palace II da Construtora Sersan do deputado Sérgio Naya, a fissura por notícias sobre as bolsas de valores, início de recessão, etc).
O poema, todo em tom imperativo, é uma leitura irônica dos noticiários da época e foi premiado, em 1999, com o 4.º Lugar na Categoria Poesia Moderna do III Concurso Internacional de Prosa e Poesia da Sociedade de Cultura Latina do Brasil (SCLB) de Mogi das Cruzes/SP. Algum tempo depois, publiquei o poema em meu quarto livro "O último adeus (ou o primeiro pra sempre)", de 2004.
Por que me lembro do poema logo hoje? Porque, após tantos anos, voltei a declamá-lo ao vivo (desde 1999 que não o declamava) no evento Coletiva Som 3 – Edição RAP, que aconteceu na noite de ontem, na Boite Mr. Night, em Valença/RJ. Representando o Sarau Solidões Coletivas e usando base cedida pelo rapper Paulo Roberto Gonçalves (do Graveto Old Style), Gabriel Carvalho, Alex Alves e eu fizemos uma versão ‘remix’ ao vivo do poema “Beijo Cibernético”.
O poema original pode ser conferido mais abaixo nessa postagem, juntamente com o vídeo da nova versão, feita ontem no evento Coletiva Som 3.
Que os beijos cibernéticos nos façam refletir sobre nossa atual condição esquecidamente humana, caros amigos reais e virtuais!

Beijo cibernético (1998)

Aposte, invista na crise
pois ela cresce mais que a ação
pare a ação
ligue-se na internet
sinta o site
mande um e-mail
solidaoarrobapontocompontobr
conte bytes caso não consiga dormir
especule o movimento
beije seu software
tecle enter pra amar
invista no desemprego
desfile no enredo do FMI
jure sobre os juros
reze pro prédio não cair
vote eletronicamente
confirme a clonagem
encha o disco
desligue o aparelho de CD
disque 0900
faça um curso de inglês
passe a bola pro francês
que a taça agora é dele também
desista do português
porque esta língua está em baixa na bolsa de valores
conte-me como foi sua primeira vez
na cama com Bill Gates
globalize o coração
delete a consciência
privatize suas emoções
venda sua poltrona
compre à vista uma bomba atômica
escolha o filme que escolheram pra você
aperte play pra explodir o vídeo-cassete
observe se seus três filhos estão bem
a tevê, o celular e o computador
obedeça a ordem
deixe que o progresso faça o resto
provoque um curto-circuito
aproveite a queda de energia
pra anular o comando esquecer
acesse o banco de dados
e finalmente perceba:
a única máquina que respira em sua casa é você.




segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Velhos poemas juvenis: Quando as fogueiras se apagam

Fim de noite por aqui... Apagar das fogueiras... Momento de quase plena escuridão... Deixo para vocês hoje mais um de meus velhos poemas juvenis, feito pra ser o poema de introdução de meu segundo livro, “Promessas desfeitas”, lançado em 1997. Fala sobre o momento em que apagamos juramentos eternamente escritos em nossa memória, esquecimento de promessas, deslizes de identidades, trevas dentro de nós. Foi um poema que fiz após ouvir “Perto do fogo”, de Cazuza e Rita Lee, e “Sinais de fumaça” e “Jornais”, da banda Nenhum de Nós; fiquei imaginando: e o que acontece quando nos afastamos do ‘fogo’? e quando não há mais sinais de fumaça? e quando a face má nubla nossos pensamentos? e quando a chama se apaga? O poema traz um pouco das minhas inspirações da época: havia devorado o “Livro de Ouro da Mitologia”, de Bulfinch, lido poemas do livro “Chafariz de 80”, de André Luis Giusti, e os ultrarromânticos se mantinham firmes em minhas inspirações. A terceira estrofe tem um quê de “O médico e o monstro (O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hide)”, de Stevenson, livro que iria reler tempos depois e que me renderia novas inspirações.
Que estejamos bem protegidos de nós mesmos quando as fogueiras se apagarem, amigos leitores!...

Quando as fogueiras se apagam

Quando as fogueiras se apagam,
Juramentos ocultos em cofres
Viram pensamentos ocultos
Metidos e jogados ao vento.

Quando as fogueiras se apagam,
As almas tão bem guardadas
Viram pequenos objetos
Esquecidos e mantidos numa caixa
De Pandora.

Quando as fogueiras se apagam,
O bom menino escoteiro
Cumpridor de suas tarefas
Dorme pra deixar o homem mau acordar
Com suas mentiras tão bem cultivadas
Que chegam a cultivar raízes em si próprio.

Quando as fogueiras se apagam,
Ninguém vê o mal que cresce
Nem quanto o homem perde
Ao desfazer as promessas do menino
Que um dia ele foi
Ou que, pelo menos, um dia
Ele pensou ser...


terça-feira, 16 de abril de 2013

Refrão de bolero, bolero com Ana, Ana com diplose


Essas noites estáveis de outono sempre me lembram a canção “Refrão de Bolero”. Essa canção, composta por Humberto Gessinger, líder da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii, marcou minha ‘aborrecência’. Ouvia a música incessantemente e ficava imaginando como seria Ana, a personagem amada pelo eu lírico da canção, o que seriam os “lábios” – “labirintos” de Ana. E a melodia me arrastava para bares, lugares melancólicos como essas noites pálidas de outono, onde eu encontraria, em algum momento, um bêbado lamentando sua difícil relação com uma tal de Ana.
Foi nesse período de aborrecência também que comecei a me dedicar à poesia e a estudar as figuras de linguagem, os recursos estilísticos que enriquecem os escritos líricos. Num dos diversos livros didáticos que minha madrinha, a tia e professora Celeste Cicchelli, me presenteava, encontrei uma figura de linguagem chamada anadiplose. A anadiplose consiste na repetição da última palavra ou expressão de uma oração, frase ou verso no início da seguinte, com intenção de realce. O que mais me chamou a atenção nessa figura de linguagem, na época, foi o fato de a palavra ser iniciada com “Ana”, como a musa da canção “Refrão de bolero” (até hoje não perdoo Humberto Gessinger por ter suprimido o nome dela nas últimas interpretações ao vivo da canção) e também por que a anadiplose era uma figura de linguagem marginalizada, secundária, pois os professores do ensino médio (na minha época, chamado de 2.º Grau) dificilmente a citavam. Inspirado na anadiplose e na Ana de “Refrão de bolero”, construí, nos meus primórdios poéticos, o pequeno poema abaixo, publicado mais tarde em meu quinto livro “Eu e outras Províncias”, de 2008.
Curiosidade: na época, criei até um pseudônimo (nome falso, um disfarce poético): Gessinger Gardel – em homenagem ao líder dos Engenheiros do Hawaii e ao cantor argentino de tango Carlos Gardel – apesar de o nome da canção ser “Refrão de bolero”, a música sempre me lembra um tango rock rs.
Em tempo: o poema “Ana (diplose)” faz parte de meu set list poético e será declamado ao vivo no Sarau Solidões Coletivas In Bar do dia 20 de abril, às 19 h, na Boite Mr. Night, em Valença/RJ, comemorando um ano do sarau.
Que vossos olhos dancem nos labirintos de Ana (diplose), amigos leitores.

Ana (diplose)

Você é minha
Minha vulgaridade íntima
Íntima desconhecida
Desconhecida amada
Amada sem palavras
Palavras caladas
Caladas mas ainda ditas
Ditas por entre as portas fechadas
Fechadas por seu coração
Coração sombrio
Sombrio mas ainda vivo
Vivo nos gestos
Gestos vazios
Vazios por serem tímidos
Tímidos por serem contidos
Contidos pelas portas fechadas
Fechadas por seu coração...


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Velhos poemas juvenis: O resgate do vampiro caipira


1996. Eu tinha entre 16 e 17 anos. Era um tempo de poesia selvagem, rebeldia, diversões com os amigos, rock’n roll, underground, paixões e muito tédio. Meu grupo de amigos e eu éramos jovens fantasmas atormentando a cidade pacata. Frequentávamos as ruas de madrugada, invadíamos o cemitério da cidade para filosofarmos e bebermos no silêncio, longe da multidão de seres (mal)ditos normais, longe dos olhos que nos condenavam como seres anormais. Já trabalhávamos, conhecíamos os crimes e castigos da rotina, das contas e da responsabilidade e não devíamos nada aos adultos que nos censuravam. Éramos tão jovens, contentes em sermos nós mesmos e não aquelas imitações baratas que perambulavam o centro da pequena Valença; éramos esquisitos, éramos nós mesmos.
Foi nessa época que me surgiu esse poema. Outrora planejado para um livro que se chamaria “Vampiros caipiras em busca do eclipse total”, cujos poemas, com o passar do tempo, foram espalhados; alguns, pelos diversos livros que lancei; outros, como o poema que posto hoje, estão guardados para as futuras produções.
Agora estamos em 2013 e muito tempo passou, mas a intensidade do brilho artificial da lua e a busca por diversão e vida nos fins de semana continuam os mesmos. Seja ontem ou hoje, ainda buscamos (interessante como Presente e Pretérito Perfeito se confundem quando os verbos são conjugados na 1.ª pessoa do plural), ainda buscamos luz para nossas escuridões.
Deixo para os amigos leitores mais um de meus velhos poemas juvenis, mais um brilho de minhas escuridões passadas. Caminhemos com nossos vampiros caipiras pela cidade pacata em busca de agitação para nossas vidas.
Dedicado a Anderson Vasconcellos "Teco", Ronaldo Brechane "The Wall" e Márcio "Rato".

Vampiros caipiras

Vinte e quatro horas se passam
E ainda longe de casa...
No meio de tanta gente esquisita,
O esquisito sou eu.
            (E quem sou eu?)
Um vampiro caipira,
Um turista que se guarda nas cinzas
Deste sol que não é meu.

Elas passam – quem são elas?
São testemunhas de minha busca
Por um novo amor
Pois o antigo já morreu.
            (E quem sobreviveu?)
O caçador eterno,
O nômade que passeia no deserto
Atrás do abrigo que a chuva não me deu.

O batom vermelho lhe passa
Uma segurança que não é sua
Mas nos meus olhos
Ela é apenas como eu.
            (E quem somos nós?)
Dois nomes comuns,
Duas noites que procuram a luz
Atrás da lua que o sol escondeu.



sábado, 5 de janeiro de 2013

Velhos poemas juvenis de um sobrevivente do fim do mundo: Hoje você não vê


Buscar a trajetória musical de Adriano Gonçalves, espalhada em fotos, vídeos e arquivos da internet, dos computadores meus, da Ju e do Zé Ricardo e nas gavetas da memória, me fez reencontrar velhos poemas juvenis meus, que permaneciam esquecidos ora por não se encaixarem em nenhum dos meus livros publicados, ora por fazerem parte de fases também superadas, ora por serem mais pessoais que líricas. Encontrei um poema que se encaixa a esse último caso (e um pouco à primeira situação – não visualizava esse poema como parte de alguns de meus livros iniciais), escrito num período tão delicado quanto o momento atual.
“Hoje você não vê” foi escrito de uma só vez, meio que febrilmente, mantido em sua forma bruta – a única vez que tentei mexer nele, ainda muito jovem, o resultado foi tão desastroso que o mantive na gaveta do esquecimento. Foi escrito após eu saber do suicídio de André, irmão do Alvinho. Sempre ia ou passava pela casa dele, na Rua do Sabão (era caminho pra Rodoviária, onde eu pegava o ônibus para Barra do Piraí, minha cidade natal e lar da minha família por parte de pai), e quase sempre o via na janela, sempre sereno ou sorrindo, ouvindo Faith No More (foi o André que me mostrou o, na época, recém-lançado “Angel Dust”, da banda, “a melhor do mundo”, segundo André, liderada por Mike Patton). Era comum visitá-lo também porque o irmão dele, o Alvinho, era amigo de meu primo Charles, com quem eu andava frequentemente. Outro ponto comum que tínhamos era a vida boêmia, eu era um moleque em comparação a ele, mas sempre nos esbarrávamos na rua, em clube, em bares (Valença é uma cidade pequena, o que facilita encontrarmos os conhecidos durante os giros noturnos pelos ambientes de tediosa diversão do centro do município), e ele sempre me cumprimentava, conversava, perguntava dos poemas, etc, e nossa diferença de idade era imensa e ele parecia não ligar pra isso. Foi muito estranho passar pela Rua do Sabão, perguntar pelo André e só ouvir de um familiar que ‘ele já não está mais aqui’, contemplar o rosto triste daquele estranho e seguir para casa sem entender nada. O Charles depois me contou o que houve, mas segui sem entender; na época, lembrei da minha prima Eliete, eu era criança e ninguém me explicava nada; cresci e continuei sem entender, “vivendo e não aprendendo”, como diria a banda paulista Ira!. Mais estranho ainda era passar pela Rua do Sabão e não encontrar André na janela; nada, nem sorriso, nem serenidade (com o tempo, passei a dar a volta pela outra rua pra evitar encarar a janela da casa dele fechada. Muito tempo depois, retomo o trajeto, mas confesso passar de cabeça baixa pela janela da casa onde ele residia). Agora relembrar de Adriano, resgatar sua arte viva, me faz me reencontrar com estas cenas do passado, com André na janela de sua casa, com o poema abaixo que finalmente crio coragem em publicá-lo.
Peço desculpas aos leitores se ando repetitivo, mas aqui não é um facebook, onde basta uma atualização e toda a sua página de status e notícias modifica num passe de mágica; aqui é um Diário de Solidões Coletivas, passado e presente permanecem em mim e em meu eu coletivo sem precisar consultar linha do tempo, “sou a soma de tudo que vejo”, como diria a canção “Meu reino”, do Biquíni Cavadão, sempre digo aos meus alunos e artistamigos “escrevam pra desabafar, pra manter seus universos particulares e coletivos vivos, escrevam por escrever, tirem o peso do mundo nas palavras pra marcarem a sua existência, pra sobrevivermos”, e eu escolhi escrever pra me sobreviver; lamento que as últimas postagens não correspondam com o sol que sorri ali fora, às vezes a melancolia persiste e o verão parece frio e distante. Sei que vai passar, nem tudo vai se esclarecer, mas o meu mundo e este blog voltarão a clarear os sentidos, mas por enquanto é assim que vejo o que “hoje você não vê”.

Hoje você não vê

Hoje você não vê o movimento
Através da janela,
Não ouve música,
Não bebe mais...
Me disseram que você mudou
De casa,
De tom,
De bar,
Me disseram que você não volta mais...

Eu era seu amigo,
Do meu jeito,
Eu tentava ser...
Se tivesse me pedido uma força,
Talvez um abraço,
Eu teria dado um jeito
De consegui-los pra você,
Mas nada disso importa agora;
Depois que a última palavra foi sua,
Nada mais importa...
Respeito sua decisão,
Mas não me obrigue a aceitar,
Você era um vencedor,
Pelo menos, tinha capacidade pra vencer,
Mas, agora, me diz:
O que ganhou desta vez?


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Velhos poemas juvenis: Promessas desfeitas


Começo de janeiro, contagem regressiva para desfazermos algumas das milhares de promessas que fazemos na virada do ano. Hoje não tem sol, hoje, como dizia Renato Russo em “Tempo Perdido”, “o que foi prometido ninguém prometeu”; sobrevivemos a mais um fim do mundo e, mesmo assim, alguns dias permanecem muito nublados. Hoje um dos sobreviventes não está entre nós (como diria Drummond, ele escolheu sua “dis-solução”). Hoje é o dia de enterrarmos algumas promessas de vida, hoje é o dia do enterro do fodástico músico, artesão e compositor Adriano Gonçalves.
Deixo aos leitores um velho poema juvenil que escrevi há muito tempo atrás e que deu nome ao meu segundo livro “Promessas desfeitas” (1997), claramente inspirado em "Sinais de fumaça", da banda Nenhum de Nós (ele possui o inspirador verso "Tantas palavras ditas entre os dentes / Entre os dentes"), pra lembrar que a vida e a arte continuam, mas como está difícil caminhar...

Promessas Desfeitas

Quantas promessas foram feitas
E morreram entre os dentes...
Quantas pessoas saíram pra rua
Atrás de amor
E esqueceram seu cérebro
Em casa...

Quantas lágrimas foram derramadas
E secaram nos olhares alheios...
Quantas pessoas saíram da rua
Por falta de amor
E levaram seu cérebro cansado
Pra casa...

Promessas são comida
Para os dentes
Amor em excesso é parasita
Para o cérebro
Pessoas são hóspedes
Do amor doente.

Lágrimas secas
Promessas desfeitas
O que o coração sente
O cérebro nem sempre consente.

Meu filho-poema selecionado na Copa do Mundo das Contradições: CarnaQatar

Dia de estreia da teoricamente favorita Seleção Brasileira Masculina de Futebol na Copa do Mundo 2022, no Qatar, e um Brasil, ainda fragiliz...