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sábado, 31 de dezembro de 2016

A última postagem de 2016: Carta-elegia-não-sei-o-quê-não-sei-por-quê-de-tanto-desespero-loucura para George Michael



Olá, meu estranho querido famoso George Michael,


Andei meio longe de você nesses anos todos, meu querido mito esquecido, mas sua foto reapareceu na tela do computador em uma notícia de site que informava sua partida nesse ano cheio de mortalhas e abutres de 2016. Consultei várias páginas para conferir a veracidade da notícia, a princípio não acreditei neste presente mórbido de Natal, mas você partiu e, mais uma vez, parti por alguns minutos, num flashback de dançarinos cambaleantes que tentam passos felizes em vão (pés culpados não dançam, você já tinha avisado, e eu me sinto incapaz de seguir nesse ritmo trágico de 2016).

É estranho dizer isso, mas sua partida me machucou mais que as de outros grandes mitos como Bowie e Prince; pode parecer cafona ou profano dizer isso para aqueles que medem canções com réguas rígidas, mas já não me preocupo mais com opiniões alheias, os cabelos brancos crescem sem nenhuma vergonha em meu cabelo e eu preciso ser sincero, antes que eu me imploda em convenções de polidez social num ano 'tragicruel' que tanto nos fragilizou.

Você sempre foi um sexy simbol estranho, que flertava com a câmera, o sucesso e a polêmica; Margareth Thatcher, Tony Blair e George Bush recebiam caretas suas, enquanto damas alienadas de todos os sexos se ajoelhavam diante de sua beleza e de suas canções românticas; você foi o paradoxo único e máximo do popstar bonitinho que cuspia punkmente contra o sistema enquanto inicialmente nos ofertava músicas melosas e uma homossexualidade temporariamente enrustida. Em minha juventude arrogante, não o compreendi; eu era um idiota, George, com minha homofobia ignorante e minha pose de rebelde roqueiro sem causa que muitas vezes confundia preconceito com atitude. Suas hesitações em se revelar e minhas excitações com o machismo imbecil nos afastaram e, por muito tempo, eu o envergonhei, me afastei de você, me esqueci do herói que você figurou na minha infância.

Quando criança, fomos tão distantes e, ao mesmo tempo, tão íntimos, George, você era um adulto de rosto jovial e eu, um moleque, uma criança liricamente adulterada pelas suas primeiras canções de sucesso. Nas viagens de férias para Guarapari ou para Angra dos Reis, meu tio João Gomes embalava nossas jornadas on the road com as canções "Careless Whisper", "Father Figure" e "One More Try" (essa a minha preferida) gravadas do programa "Good Times" da Rádio 98 em saudosas fitas K7 - as canções rolavam em ritmos sensuais e ao mesmo tempo melancólicos enquanto o radialista, com aquele vozeirão característico, fazia a tradução imediata de cada verso e era tão cafona e tão lindo ouvir as músicas assim e agora elas sempre se repetem dessa forma em minhas lembranças como lágrimas tristes que escorrem felizes e pueris no rosto enrugado. E, nossa!, isso é tão "One More Try" e tão difícil e tão bonito e tão alegremente infeliz de se lembrar. Naquelas viagens de carro com meu tio João Gomes, ele, professor 24 horas sem diploma de magistério, aproveitava para me ensinar interpretação de textos, eu, um pirralho, tendo a chance de me comunicar, opinar, responder-lhe perguntas complexas como: "Afinal, Brunno, quem é essa 'professora' que aparece na canção "One More Try" do George Michael?"; "Conta aí, garoto, o que ele quis dizer com "Pés culpados não dançam" na "Careless Whisper"?" e foi assim que eu descobri, aos oito, nove, dez, onze, doze anos, que eu amava interpretar, eu amava as metáforas, metonímias e eufemismos de suas canções, George Michael, e eu devo isso a você e ao meu tio João Gomes, intermediador de nossa história de Amor (sim, Amor maiúsculo, platônico, infinito e sem pecado). E agora é fim de 2016 e meu tio anda bastante doente, lutando contra um câncer incansável, guerreiro enfraquecido, mas ainda João Gomes, ainda guerreiro com uma dor insuperável que também dói em mim, mesmo quando tento fingir que ela não nos machuca tanto assim, e agora é fim de 2016 e você não é mais um adulto com ar jovial e eu não sou nenhum menino encantado com minhas primeiras interpretações textuais e você nem aqui está mais para eu lhe pedir perdão por ter me afastado tanto tempo de suas canções, do meu eu menino (a porra dos pés culpados continuam impedindo minha dança, um "Careless Whisper" interminável com aquele sax sexy que transa com eternos flashbacks e não me deixa esquecer você e que você foi embora e é mais outra droga de dor bonita nesta droga de ano que parece o demônio que chora dos olhos do corvo de Edgar Allan Poe na tradução de Fernando Pessoa), e agora é fim de 2016 e o verso "Goodbye" se repetindo na canção "One More Try" porque neste último dia desse maldito ano ouço a canção repetidamente enquanto escrevo essa carta-elegia-não-sei-o-quê-não-sei-por-quê-de-tanto-desespero-loucura enquanto o Ozzy, o cachorro labra-latas de minha namorada, meu amigão, às vezes se tranca no banheiro por causa dos canalhas fogueteiros que ainda comemoram ano novo com estardalhaços que incomodam os cães e às vezes paro de escrever para vê-lo e deixo "One More Try" tocar e ficamos ali no banheiro, a canção melancólica ferida por fogos de artifícios comemorando uma porcaria de fim de ano cheio de crises, canalhice, abutres políticos e tragédias que não trazem porra nenhuma pra comemorar ainda mais com barulhos que incomodam os animais mais sensíveis que os parasitas seres humanos e tanta dor e tanta morte desfilando com champanhes parcelados no 2016 que não acaba, cujo fim é comemorado por uma cambada de gente que não liga e é melhor eu encerrar essa carta, George, pois meus dedos já tremem de raiva por essa explicável, mas descontrolada dor que me faz encerrar as postagens dessa porcaria de 2016 com uma carta-elegia-não-sei-o-quê-não-sei-por-quê-de-tanto-desespero-loucura que eu jamais pensei escrever. Que venha 2017, que essa porcaria de 2016 finalmente se acabe, infelizmente cheia de infelizmentes, sem você, que venha 2017, "maybe just one more try", talvez somente mais uma tentativa, né, George, é melhor encerrar assim, com alguma esperança perdida, como você encerrou "One More Try", mesmo dizendo antes "Goodbye", talvez somente mais uma tentativa, mesmo depois do adeus.


segunda-feira, 27 de julho de 2015

2 Giz (1 Poema e 1 Canção) no Mesmo Show: Carina Sandré, sua banda e eu no Lugar de Mulher é no Vocal 6 Especial Certas Canções

Na sexta, dia 24 de Julho, véspera do dia do escritor, às 20:30, tive o privilégio de ser um dos artistamigos convidados do novo show Lugar de Mulher é no Vocal 6 Especial Certas Canções da super-mais-que-fodástica Carina Sandré e banda (Adriano Adriano Oliveira e cia)., no Centro Cultural Fundação CSN, em Volta Redonda/RJ. Foi uma noite formidável, inesquecível, que curti acompanhado de outros fabulosos artistamigos.

O vídeo que posto hoje no blog traz minha apresentação no show de Carina Sandré (declamei meu poema "Giz 2", em homenagem a Renato Russo, com o apoio de Adriano Oliveira e Iaron Barbosa nos violões e do público fazendo o coro lírico-interativo) e a apresentação da canção "Chão de Giz", de Zé Ramalho, fodasticamente interpretada Carina Sandré (voz), Adriano Oliveira e Iaron Barbosa (violões) e Bárbara Cunha (violino).


sexta-feira, 24 de julho de 2015

Hoje tem Lugar de Mulher é no Vocal 6 com Carina Sandré e artistamigos em Volta Redonda/RJ: Yeah, o show não pode parar!

Yeah, amigos, é hoje! Nesse dia 24 de Julho, SEXTA, véspera do dia do escritor, às 20:30, estarei de volta a Volta Redonda/RJ, no Centro Cultural Fundação CSN e farei uma participação especial, junto com outros artistamigos, no novo show Lugar de Mulher é no Vocal Especial Certas Canções da super-mais-que-fodástica Carina Sandré e banda (Adriano Oliveira e cia).
E, para comemorar esse retorno aos fodásticos shows de Carina Sandré, relembro aqui alguns vídeos de eventos anteriores nos quais a artistamiga e eu fizemos parcerias lírico-musicais e também trago os clipes oficiais de 2 canções exclusivas de Carina Sandré, as premiadas “Versos Limados” (letra de Roberto Esteves Siqueira Jr, e música de Wilson Fort) e “Coisa Pouca” (letra e música de Wilson Fort). [fico devendo a letra, pois estou na correria de preparação para o show].

Até breve e Arte Sempre, amigos leitores!



















segunda-feira, 13 de julho de 2015

Contos roqueiros: Furo de reportagem (ou O sucesso inevitável de Guto Colbin)


Hoje é o Dia Mundial do Rock e o escritor-blogueiro que vos fala (muitas vezes rotulado de ‘poeta roqueiro’) não poderia deixar passar essa data sem gritar um texto destilado de solos de guitarra. Por isso, trago hoje ao blog um conto inédito meu, que possivelmente será lançado em um dos meus próximos livros chamado “Diários de Solidão 2 – Quando a companhia faz ausência”.
O conto que posto hoje é uma narrativa curta e fictícia inspirada em minhas lembranças do estrondoso sucesso do meu ídolo-maior Kurt Cobain e nas minhas leituras de entrevistas que ele concedeu à extinta revista Bizz – uma, memorável (nem tão memorável, pois não me lembro da p... do número da revista), o repórter informa que Cobain tinha recém-saído de mais uma internação por uso de drogas e os dois conversam sobre o recém lançado (e super-fodástico) álbum “In Utero”. Na entrevista, o jornalista pergunta a Kurt sobre a canção “I Hate Myself And I Want To Die” (“Eu me odeio e quero morrer”), que estava presente apenas como faixa bônus em CDs, EPs e CDs singles, ou seja, a faixa não fazia parte do LP “In Utero”. Kurt respondeu ao repórter que ‘aquilo’ foi apenas uma brincadeira dele e o entrevistador não se aprofundou na pergunta – apesar de descrever um Kurt bastante melancólico após sair de mais uma internação – e ficou tudo por isso mesmo. Tempos depois, veio a notícia do suicídio de Kurt Cobain.
Depois disso, passei a ouvir entristecido o LP “In Utero” na casa de meu primo Charles (para minha completa inveja, dos meus amigos, só ele tinha o álbum em LP e, além disso, possuía um toca-discos que ainda tocava – o da minha casa, estava com a agulha ferrada do toca-discos há um tempo), ficava pensando naquela música desconhecida do Nirvana citada pelo repórter, “I Hate Myself And I Want To Die”, e pensando, pensando... Mais tarde, lendo diversas entrevistas de Kurt e finalmente ouvindo a emblemática canção citada, ficava cada vez mais evidente que Kurt Cobain já se preparava para sua “autodis-solução” há algum tempo, todos nós sabíamos e deixamos tudo aquilo rolar, apresentando surpresa com uma profecia constantemente anunciada.
Essa história ficou na minha cabeça por muito tempo, a ideia rockstar de que os bons ídolos morrem cedo, o nosso ar supostamente surpreso e, ao mesmo tempo, cheio de fascinação para a morte de artistas que sabíamos serem extremamente melancólico e declaradamente (e, ao mesmo tempo, fodasticamente) autodestrutivo, a pouca insistência do repórter na questão de uma evidente tragédia declarada... tudo isso ficou rolando na minha cabeça por anos e anos e anos até que me surgiu esse conto, cujo narrador – um repórter sensacionalista e meio cretino, com crise de consciência - acaba fazendo sua confissão de forma atropelada no balcão de um bar ( esse meu estilo foi muito, muito influenciado pela técnica narrativa usada por Rubem Fonseca no conto “Gazela”, de seu primeiro livro “Os prisioneiros” – mas lido por mim antes numa coletânea sobre ‘contos de amor’), ao mesmo tempo que revela seu encanto pelo personagem “recém-autofalecido” rockstar Guto Colbin.
Como um “prisioneiro”, este conto, que batizei de “Furo de reportagem (ou O sucesso inevitável de Guto Colbin)” ficou guardado entre meus arquivos de computador e, finalmente, é revelado ao amigo leitor.
Bom Dia Mundial do Rock e Arte Sempre, amigos leitores!

Furo de reportagem (ou O sucesso inevitável de Guto Colbin)

         Arte é o cacete! O povo quer é sangue, podridão. O que você acha que teve mais visualizações, amigo: as fotos do crânio estourado do Guto Colbin ou o clipe de sua última canção experimental “Meu miolo mole molha os móveis de nossa mansão de mansos vazios”? Te respondo em números, colega: 2 bilhões de visualizações das imagens fúnebres do nosso último rockstar... O clipe? Ah, agora que o gênio já é defunto, passou de 10.000 pra 1 milhão de acessos. Mas a morte continua ganhando, cara, a morte sempre ganha. O título da música era grande demais pra fazer sucesso, o ritmo complicado demais pra virar hit, a letra poética e premonitória demais pra ser compreendida; não era pop, ele nunca foi pop, tô nesse ramo de fazer matéria pra revista de música há bastante tempo e até hoje me impressiono com o sucesso que Guto Colbin fez. Talvez tenha sido seu ar incompreendido, talvez por não nos dizer nada de uma forma tão poética que até o nada fazia sentido, sei lá, queriam um rebelde que morresse cedo e, assim, vendesse mais fácil. Porque o povo quer é sangue, cara. A última canção falava claramente disso, desse vazio, uma morte declarada, um salto no vazio, todo mundo sabia que, depois dela, ele se mataria. Mas deixaram ele morrer... E já viu como ele vende bem mais agora? Ah, cambada de filhas da puta! Deixaram ele morrer... Inclusive eu... É, inclusive eu...
         Já te disse que fui um dos últimos que o entrevistou? Eu perguntei pra ele sobre seu último álbum “Blecaute em mim mesmo”, sobre o clipe, sobre as mudanças de rumo de seu estilo sonoro, sobre sua nova obsessão com a temática da morte. Sabe o que ele fez? Me deu um sorriso triste, o mais triste que você pode imaginar e me disse que era tudo uma brincadeira, “como quando brincamos de apagar a chama da vela sobre a mesa com os dedos molhados sem medo de nos queimarmos”. Sim, foi exatamente essa comparação que ele fez. Pensei: estou diante de um cara prestes a se matar. E o que fiz? Registrei toda a entrevista, linha por linha, até logo, tchau, tenho que levar a matéria pra revisão e o prazo é curto. Sentiu a escrotice? O cara estava prestes a se matar e a minha preocupação era a de que a minha matéria saísse na edição daquele mês, antes que a desgraça acontecesse. É... igual aquele cara que lavou as mãos, esqueci o nome dele; acho que já bebi demais, mas manda mais uma dose, hum, isso, capricha... Onde que eu tava mesmo? Ah, a revisão! O editor só destacou a parte em que o Guto Colbin cita sua décima internação numa clínica pra desintoxicação; o povo quer é isso: saber se o rockstar drogado se transformou num bom menino ou se ele vai voltar a se apresentar com o nariz escorrendo sangue de tanto pó. Se o artista diz que está curado, o povo vai conferir o show, a filmadora ligada, só esperando uma recaída, uma meleca de sangue sair do nariz do cantor e entrar para os vídeos mais acessados da internet. É isso, o povo gosta de sangue e Guto Colbin sangrava bastante no palco; talvez esteja aí a razão de seu imediato e inexplicável sucesso. Ah, e sabe o que aconteceu com a comparação que o Colbain fez? Rá, o revisor cortou, só ficou “Era tudo uma brincadeira”, os adolescentes retardados que leem a porcaria da revista na qual escrevo não teriam capacidade de compreender ou aceitar a poesia trágica de Colbin, preferem agitar a cabeça, seguir o ritmo, escutar sem ler, ouvir sem entender, ah, fazer o quê? Melhor calar minha boca; é dessa droga que tiro meu sustento. É... talvez o revisor também estivesse lavando as suas mãos como eu, sei lá, devo estar viajando, já bebi demais, hey! mas deixa o copo aí, põe mais uma dose, sei que devo estar te enchendo o saco e você, como dono de bar, vai me dizer que não, mas é assim, né, somos todos hipócritas.
Mandaram eu resumir minhas duas laudas sobre o último álbum do Guto Colbin para dez linhas e sobre a internação, que ele quase não quis comentar, tive que aumentar, até inventei um pouco, fazer o quê? Não sou o editor, só sigo ordens. A edição saiu 10 dias antes do Colbin se matar; assassinaram meu texto, espero que ele não tenha lido a matéria, o cara fingia de louco, mas dava pra perceber: ele era sensível pra caralho, letrista foda, compunha muito, Guto Colbin era um daqueles gênios raros do rock... Agora se foi, já era... Espero que ele não tenha lido aquela merda de matéria, senão ele teria mais um estímulo pra se matar, ai, ai... Hey! essa dose veio bem mirrada, amigo, capricha mais na próxima, ora, o preço da bebida já está de matar e você vem de mesquinharia comigo que sou cliente antigo? Quer que eu vá embora, acha que bebi demais, é? Não vai responder, só fazendo seu trabalho, né? Pois saiba que não vou sair, tô muito bem ainda, tá me entendendo? Estamos todos fazendo nosso trabalho; somos todos hipócritas. Minha inspiração na última entrevista com Guto Colbin não valeu de nada pro editor daquela porra de revista na época! Agora que o cara está morto, é sorrisinho do chefe e edição especial com a matéria na íntegra! Anos fazendo faculdade de jornalismo pra bancar o vampiro de rockstars numa revistinha de bosta. Mudar o mundo é o cacete! Revolucionar a escrita jornalística, rá!... O povo quer é desgraça, aqueles jornais que a gente espreme e parece que sai sangue de suas páginas, saca? É isso aí, camarada, somos todos vampiros. Aí, isso! Agora sim, uma dose caprichada, gostei de ver, esse é o Benedito que eu conheço, por isso que eu bebo sempre aqui, você sabe servir bem um cliente fiel!
         É... O Colbin era um daqueles músicos raros, sabe, tô nesse ramo de fazer matéria pra revista de música há bastante tempo pra saber quando uma estrela brilha de verdade. E há muito tempo um cara não brilhava tanto como Guto Colbin. Fiz umas dez entrevistas com ele, sabe? É... A gente força uma intimidade com os artistas pra tirar uma confissão e, quem sabe, se der sorte e for competente, conseguir alguma declaração polêmica. Mas o Colbin era foda, tinha aquele jeito dissimulado e melancólico, sabe, de quem engana descaradamente e que parece sempre estar jogando contigo assim como jogamos com ele. Das polêmicas que tirei dele, metade eu forjei, distorci, fazer o quê? O cara não se abria, respondia a tudo com evasivas poéticas e nenhum leitor quer ler poesia, saca? Tem muita gente brilhosa na música, amigo, mas o Guto Colbin era brilhante e me fazia parecer um cretino. Não, ele nunca foi grosseiro comigo não, irônico talvez... Filho da puta! Colbin era um artista do caralho e podíamos falar sobre tanta coisa, suas inspirações, aspirações, transpirações, mas o editor queria que eu registrasse mais as pirações dele... Agora me diz: como retirar confissões de um louco lúcido? Inventei muito do Guto Colbin que vi e ouvi; era meu trabalho, porra de trabalho cretino!
Posso te confessar uma coisa, Benedito? Nunca me esqueço daquele sorriso triste que ele me deu naquela última entrevista; às vezes, fico horas com aquela imagem na minha cabeça. Talvez ele precisasse apenas de um gesto amigo, sei lá, tipo “não faça isso”... Não... Soaria artificial; ele parecia saber que tudo estava perdido e parecia prever que eu simplesmente faria o meu papel de jornalista; Guto Colbin sabia me fazer parecer um cretino... Sim... Acho que fui mesmo... Todos fomos cúmplices de um suicídio induzido, amigo. Sim, era inevitável; o Guto Colbin sabia perfeitamente disso... Putz! Já é bem tarde, né? Só nós dois aqui, puxa... O tempo passou tão rápido, né? Você deve estar morto de cansaço, hein, Benedito? Não vou te segurar mais, amigo, encerra minha conta, vê quanto deu e pode ir fechando o bar. Já estou saindo...




  

sábado, 13 de setembro de 2014

Luz, Câmera... Alcino! apresenta a Neurose da banda Reação em Cadeia

Volta do Pião, região rural de Teresópolis, setembro de 2014 - A pedido da artistaluna Lauany Rodrigues, do nono ano B, o Grupo de Teatro Escolar Luz, Câmera... Alcino!, da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, criou um clipe para a versão ao vivo da fodástica canção "Neurose", da banda gaúcha de rock Reação em Cadeia, de Novo Hamburgo/RS (e não de Porto Alegre, como foi erroneamente colocado no vídeo), dando, assim, continuidade ao Projeto Brasil Musical. 
Além de criarmos uma história para a canção, incluímos também nas cenas iniciais explicações sobre o conceito de neurose e, na cena da declaração de amor da garota para o amigo comprometido, foi inserido um poema do livro "As filhas do segundo sexo", do poeta niteroiense Sergio Almeida, o "Jardim". A solução final da história - alterando as possibilidades e decisões - teve leve inspiração no "Efeito Borboleta".
O clipe é protagonizado pela artistaluna Lauany Rodrigues, apaixonada pelo amigo, interpretado por João paulo Oliveira, que é comprometido com a personagem interpretada por Letícia Monnerat (estreante talentosa no Grupo "Luz, Câmera... Alcino!"). O roteiro das cenas foi elaborado pelos artistalunos e por mim. Todas as filmagens e a direção de arte foram brilhantemente elaboradas pela diretoraluna Duda Ventura. Revisão de roteiro, direção geral e edição foram realizadas por mim. O clipe ainda contou com a participação de Rayssa Fernandes (Doutora Ray), Lorraine Lopes (Doutora Lô), Marianne Rodrigues (a repórter), José Vitor Martins, Mateus Cardoso, Herbert Gabriel, Stefanny Amaral, Maiara Viceli, Gisleny S. de Almeida e Geovânia Rodrigues. As gravações das cenas foram feitas no contraturno das aulas e receberam o total apoio de artistalunos, profissionais do trabalho cotidiano da escola e da equipe diretiva.





sexta-feira, 21 de março de 2014

As canções que ninguém fez pra mim, mas são minhas mesmo assim: Por que não consigo viver com ou sem “With or Without You”

Demorei, mas retornei outra vez! E não poderia voltar de outra forma: trago hoje uma nova seção ao blog, batizado de “As canções que ninguém fez pra mim, mas são minhas mesmo assim”, onde contarei as lembranças que tenho de canções que marcaram minha vida.  Estréio com a lembrança da canção “With or Without You”, da banda U2. Em tempo: contei essa história, numa das dinâmicas que realizei com os alunos da E. M. Alcino Francisco da Silva, durante o Curso de Carta Argumentativa com o tema “Como a música influencia minha vida”, onde cada um trazia uma canção e dizia por que ela fazia parte da trilha sonora de sua vida.
Toquemos as lembranças e leiamos as canções da trilha sonora de nossas vidas, amigos leitores!




Por que não consigo viver com ou sem “With or Without You”

Na primeira vez que ouvi a canção “With or Without You”, da banda U2, senti múltiplas sensações, inexplicáveis para os meus tímidos 14 anos.
Ouvi a canção pela primeira vez num filme exibido na Tela Quente, na TV Globo, chamado “Contagem regressiva” (não me lembrava bem do nome;  o Google que me auxiliou nesse resgate de minhas memórias rs). No filme, entre explosões e muita ação, o terrorista Lian Gearity, interpretado pelo fodástico Tommy Lee Jones, em seu percurso de vingança contra seu ex-pupilo Jimmy Dove, (Os dois participaram do grupo terrorista IRA, o Exército Republicano Irlandês, que atua na Irlanda contra a ocupação inglesa no país. Lian não se importava de matar inocentes nos atentados do IRA, mas Jimmy sim. Por não concordar com isso, Jimmy vai morar nos Estados Unidos, deixando seu mentor ser preso), o vilão – carregando diversas mágoas e angústias do passado – compra uma fita da banda U2 com uma vendedora numa feira. A partir daí, o personagem de Tommy Lee Jones passa a armar suas bombas, ouvindo U2 em seu walkman, mantendo seu plano de explodir com parte dos Estados Unidos e detonar a reputação de Jimmy. O enredo é explosivo, mas o que achei mais fodástico na época é que as músicas do U2, quando tocavam, vinham legendadas em português; nunca vou me esquecer daqueles momentos tensos em que Lian armava uma bomba, ouvindo “With or Without You”, a tradução da canção passando na tela, Jimmy com os nervos à flor da pele, sem achar uma solução para o conflito e ainda sem saber ainda bem onde e o que estava enfrentando.
“See the stone set in your eyes
See the thorn twist in your side
I wait for you
Sleight of hand and twist of fate
On a bed of nails she makes me wait
And I wait... without you”
(Veja a pedra surgir em seus olhos
Veja o espinho enganchar em seu lado
Eu espero por você
Ilusão e ironia do destino
Sobre uma cama de pregos ela me faz esperar
E eu espero... sem você)
Aquele lance do refrão “I can’t live / With or without you” (“Eu não consigo viver/Com ou sem você”) me dava um nó na garganta, explodia minha cabeça tímida de 14 anos (vivia trancado em meu quarto, ouvindo música, lendo, vivendo paixões invisíveis em sonhos e namorando mulheres fantasmas), aquela entrega repetida insistentemente (“And you give yourself away / And you give yourself away / And you give/ And you give / And you give yourself away” – “E você se entrega / E você se entrega / E você / E você / E você se entrega”), os paradoxos profundos demais para meus sentimentos em parafusos (“she's got me with / Nothing to win / and nothing left to lose” – “Ela me tem com / Nada a ganhar e / Nada mais a perder”), que desespero era aquele? Que angústia podia ser tão desesperadamente calma? Como uma dor podia ser tão bonita, tão lírica? “My hands are tied”... Minhas mãos estavam atada e eu não podia mais ver o mundo de forma simples e não podia  viver mais com ou sem aquela música do U2. Enquanto bombas explodiam na tela, eu implodia um novo eu em mim... mas ainda não havia experimentado completamente aquela música...
2 anos depois, já nos meus 16 anos de idade, em meus passeios pela subida da rua da Catedral Nossa Senhora da Glória, no centro da melancólica e interiorana Valença, reencontrei a música “With or Without You”. Naquela subida, super-movimentada na época, havia, no antigo Casarão, o Bar do Santanna, cujo dono, volta e meia, numa programação contagiante e constante,  deixava tocando, em alto e potente som CDs e LPs de canções de rock, entre eles o do U2 – esse repertório rock do Bar do Santanna embalou a juventude da época, que, à noite, vagava  na rua e parava, muitas vezes, ao lado do estabelecimento citado (o bar ficava literalmente “no coração da rua”).
Foi numa dessas idas e voltas pelo pequeno (mas movimentadíssimo) centro de Valença, que parei ao lado do bar e ouvi mais uma vez a canção “With or Without”, eu, com as minhas calças rasgadas, minhas camisas pretas de bandas undergrounds,meu tênis furado,  meus resquícios de ‘grog’ (estilo que inventei pra mim, uma espécie de movimento dos viúvos do grunge), minha poesia ainda engatinhando. Eu prestava a atenção na canção (como aspirante a poeta, sonhava fazer uma letra fodástica daquela algum dia...), quando meus devaneios foram interrompidos por meu amigo: “Hey, tem uma garota a fim de te conhecer”. A tal garota era uma espécie de menina veneno morena, ninfeta precoce de 14 anos; meu amigo me alertara que ela já tinha ficado com vários caras, inclusive ele, e que ela era fogo, tinha o apelido de “desmancha bolinho”, pois, quando separava de um, logo logo ficava com um amigo do indivíduo, provocando relações tensas entre círculos de amizade. Se eu ficasse com ela, deveria ter cuidado. De todos os seus conselhos, só ouvi os “uma garota tá a fim de você” e “ficasse com ela”; ninguém tem cuidado aos 16 anos de idade. Fiquei com a garota e fui ficando e me apaixonei (eu era 2 anos mais velho, mas ela estava mil anos luz a minha frente, ah, aos 16 anos, nós, rapazes, não passamos de um bando de bobos!)... “I can’t live”... Eu já não me imaginava com ou sem ela.
Então vieram as brigas, ela me acusou do que eu não fiz, chorou, me fez me sentir o pior dos seres humanos e, conforme meu amigo me profetizara, ela ficou com um conhecido meu. É aí que a canção “With or Without You”, do U2, me persegue. Eu me sentindo o pior dos lixos, o maior detrito de todas as sarjetas do mundo (é, aos 16 anos, somos dramáticos a ponto de beirarmos o tragipatético), não conseguindo imaginar uma forma de tirá-la da cabeça, estava ao lado do Bar do Santanna, tentando só sofrer por dentro e manter uma máscara de sorriso. Então a canção do U2 tocou, ah, desgraça!... Parecia uma cena de cinema, daquelas mais desesperadoras, enquanto a canção tocava (“My hands are tied / My body bruised” – “Minhas mãos atadas, meu corpo machucado”), avistei lá embaixo ela passando de mãos dadas com meu amigo. Não chorei... por fora, mas as explosões do filme “Contagem regressiva” e a sensação de traição e desejo de vingança do personagem de Tommy Lee Jones retornaram em minhas lembranças como um atentado terrorista. Só que nesse ataque, só eu, o tolo homem-bomba, explodiu. Então a letra fez todo sentido; comecei a entender o que era não saber viver com ou sem ela. E, por mais sofrido que tenha sido o aprendizado, encontrei uma dor bonita em tudo aquilo; eu estava pronto pra escrever mil poemas. E assim aprendi a desabar em versos... “Through the storm we reach the shore” (“Através da tempestade, alcançamos a costa”). “With or without you” Era preciso continuar com ou sem ela.
Volta e meia, a canção do U2 me retorna. Ouvi-la de novo é retornar às raízes de minhas dores mais adolescentes e mais bonitas, é sentir a paixão e o abandono como se fosse a primeira vez, é reencontrar os amigos no primeiro Bar do Santanna - hoje uma lenda antiga em meio às ruínas do Casarão, é experimentar explosões esquecidas, é ver o filme de sua vida passando no ritmo de uma poesia.
Não, eu não consigo viver com ou sem essa canção...

Meu filho-poema selecionado na Copa do Mundo das Contradições: CarnaQatar

Dia de estreia da teoricamente favorita Seleção Brasileira Masculina de Futebol na Copa do Mundo 2022, no Qatar, e um Brasil, ainda fragiliz...