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quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Meu filho-poema selecionado na Copa do Mundo das Contradições: CarnaQatar



Dia de estreia da teoricamente favorita Seleção Brasileira Masculina de Futebol na Copa do Mundo 2022, no Qatar, e um Brasil, ainda fragilizado pelo crescente de protestos violentos bancados e/ou estimulados por uma extrema direita ofendida com o resultado desfavorável a ela em uma eleição legítima e constantemente ultrajada por grupos radicais, amanhece nublado, com chuvas torrenciais (pelo menos, aqui, na região serrana do Estado do Rio de Janeiro).
Nesse momento, várias perguntas trazem um clima contraditório em nossa cabeça canarinha... Será que o clima reflete a atmosfera cinza do momento? Será que vestiremos a camisa amarela da Seleção, como tantos que bloqueiam estradas, ficam em frente a quartéis pedindo intervenção militar e rogando por um regime antidemocrático? Será que nossa Seleção vai fazer valer seu favoritismo, como Inglaterra, França e Espanha fizeram, ou vai ‘amarelar’ e tropeçar como Argentina e Alemanha? Vai tomar aperto, como a Bélgica, ou vai ser insossa, como Croácia e Dinamarca? E será que vamos torcer com energia para uma Seleção com tantos jogadores de patriotismo apático (as chamadas da Globo com os jogadores convocando a torcida, em sua maioria, é de uma artificialidade gritante), e/ou alienígenas aos anseios e necessidades populares e/ou apoiadores abertos do que tem sido mais retrógrado no Brasil? Será que, caso saia um gol, ficaremos tão encantados que abraçaremos outros que gritam gol-pe? Será que,, caso saia um gol, esses outros gritarão apenas gol ou acrescentarão no grito da palavra uma segunda sílaba “pe”? Vivemos um momento tão complicado que até torcer – e como torcer - pela Seleção Brasileira Masculina de Futebol virou uma decisão política. É, amigo leitor, vivemos tempos, há tempos, muito estranhos...

Toda essa complicação se refletiu em minha cabeça quando me deparei com um concurso cultural chamado Poesia Urbana, realizado pelo Centro Universitário de Brusque (Unifebe), cujo tema, neste conturbado 2022, foi Copa do Mundo. Confesso que tive certa dificuldade para encarar o tema, mas acabei, como sempre de última hora, construindo um poema para disputar um espaço no certame literário. Como vocês lerão, minha obra poética ficou em cima do muro – como esta postagem, meu filho-poema traz mais interrogações que segurança e certeza. Mas, pelo menos o poema, teve um final relativamente feliz – não ficou entre os primeiros colocados, mas foi um dos selecionados para publicação em e-book no Concurso Cultural Poesia Urbana - Edição 2022 Copa do Mundo, da Unifebe, no Brusque/SC (O link com os selecionados é: https://www.unifebe.edu.br/.../comunicado-proppex402022.pdf ). . É minha segunda classificação consecutiva para publicação em e-book neste certame cultural (ano passado, quando o tema era “Gostinho de casa”. classifiquei com o poema “Saboroso resgate” , que pode ser lido aqui no blog, no seguinte link:
https://diariosdesolidao.blogspot.com/2022/07/poema-literalmente-moda-da-casa.html ).
Agora posto o poema premiado deste ano, “CarnaQatar”, para a fruição dos amigos leitores, enquanto o e-book não sai (e a Seleção não inicia sua contraditória escalada rumo ao hexacampeonato mundial).

CarnaQatar

2022, 22.ª Copa do Mundo, 22 jogadores,
bola bolada por globos oculares supersticiosos zagallares,
rolando unidos pelos campos inéditos longínquos,
feitos pés pelés conduzindo glórias esquecidas,
uh, ora, encarando traves scolaris de suplícios,
ou, ah, feitos mãos taffarelas, qatarndo chute perigo.
Canarinhos em Qatar: garrinchas reerguidos ou manés desperdícios?



sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Arte e Memória: Olhares líricos meus e de grandes artistalunos sobre nosso Patrimônio Fluminense

Foto da artistaluna Jamili Damião

Desde o período de isolamento social durante a pandemia de Covid-19 e depois de ter recebido as informações em um compartilhamento da antenada divartistavistamiga Ana Vaz, passei a dar atenção a um importantíssimo evento chamado Semana Fluminense do Patrimônio, a ponto de, diante de maravilhosas palestras, rodas de conversa, exibições artísticas, etc., tornar-me fã de um evento organizado para destacar nossos patrimônios materiais e imateriais, elementos presentes e primordiais em nossas vidas, sendo, infelizmente, diversas vezes, ignorado por todos nós. Acompanhando toda programação e etapas do projeto pelo site do evento, constatei que, entre as diversas atrações, os organizadores da Semana Fluminense do Patrimônio realizam, antes do evento, uma Mostra de fotografia e de poesia com temas voltados ao patrimônio, chamada “Mostra Olhares sobre o Patrimônio Fluminense”. Diante do conhecimento e análise do regulamento do evento, me vi inspirado a escrever e inscrever poemas meus para esta importante promoção cultural, além de estimular os talentosos artistalunos da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, dea região rural de Teresópolis/RJ, onde leciono Redação, a produzirem, com sucesso e primor, poemas voltados aos diversos temas lançados a cada Mostra. Começamos remotamente em 2020 e, agora, em 2022, chegamos à nossa terceira participação (neste ano, a já multipremiada e talentosíssima artistaluna Jamili Damião brilhou muito na Mostra deste ano, sendo confirmada sua dupla vitória - primeiríssima no Voto Popular e no Prêmio do Júri - a divulgação foi agora há pouco, hoje, às 15:25 h, no último dia da Semana Fluminense do Patrimônio atual, como, tradicionalmente, ocorre em todas edições – quem quiser assistir o que rolou nesta e nas Semanas Fluminenses do Patrimônio passadas, segue o link:
 
http://www.patrimoniofluminense.rj.gov.br/  ).

Hoje compartilho os poemas e participações minhas e dos talentosos e premiados artistalunos da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, de 2020 a 2022, para que você, amigo leitor, possa curtir e cultivar um olhar lírico e apaixonado como o nosso pelo nosso rico e até então vilipendiado patrimônio fluminense. Fica também como uma oferenda lírica por todo seu apoio e torcida nesta longa e linda trajetória pedagógica-literária. Em tempo: hoje também foi lançado o e-book com os poemas e fotografias premiados desde a primeira edição da Mostra Olhares - segue o link para baixarem: 
http://www.patrimoniofluminense.rj.gov.br/wp-content/uploads/2019/06/livro_SFP_5_compressed-compactado.pdf 
Obrigado por tudo; seja qual for a proximidade ou distância, ninguém solta a mão de ninguém; estamos juntos! Boa leitura. Educação, Patrimônio e Arte Sempre!


Momentos passageiros de amor e de esperança


Toda noite, quando me deito,
Me vêm à mente lembranças
De momentos passageiros
De amor e de esperança.

Infelizmente
Tudo mudou de repente
E tivemos que nos adaptar
A uma vida diferente.

Aproveite para criar laços
Com quem está próximo a você:
Quem sabe, um abraço
Pode surpreender?

Tenho fé que tudo vai passar.
É só uma questão de espera,
Só precisamos acreditar
Que o amor tudo supera.

Então ame seus pais,
Seus irmãos e seus avós,
Pois o mundo precisa mais
De pessoas como nós!
(Poema de Andresa Ferreira da Silva – na época, do 9.º A - , selecionado e premiado com 2.º Lugar [Voto Popular] e 2.º Lugar [Prêmio do Júri] no tema “Patrimônio afetivo: memórias de uma história vivida” [Infanto-juvenil] na Mostra Olhares da Semana Fluminense do Patrimônio 2020)




Olhando pela janela em Morro Agudo, meu cantinho de cantos e louvores teresopolitanos


Olhando pela janela,
Vejo minha vida passar...
O que será que faço dela?
Devo deixá-la fracassar?

Como o soprar do vento.
Perdemos pessoas queridas;
Fica claro o aborrecimento
Pela aniquilação das vidas.

O vírus não é brincadeira,
Ele deixa sequelas e medo...
Talvez exista alguma maneira
De mudarmos esse enredo?

Hoje peço a Deus
Que proteja as almas a clamar.
Ele acalma meu coração,
Me fazendo descansar.
(Poema de Emily Correa da Silva – na época, do 9.º A -, selecionado e premiado 1.º Lugar [Voto Popular] e Menção Honrosa [Prêmio do Júri], no tema “Recortes da paisagem” [Infanto-juvenil] na Mostra Olhares da Semana Fluminense do Patrimônio 2020)




Do alto das árvores líricas da praça Emília Jannuzzi, a maritaca assiste e canta aos homens, durante a pandemia

Eis meus vizinhos, de canto apagado,
Os tais homens, seres desemplumados
Que ciscam livres pela minha praça.
Ao longe vejo o vírus que os caça:
O predador, para eles, invisível,
Entre eles, vaga letal e impassível
E, por eles, se propaga invencível.
Animal estranho esse tal homem,
Espécie ensandecida e selvagem:
Contra o vírus, alguns se protegem,
Enquanto outros o infausto propelem.
Uns corretamente tapam seus bicos,
Enquanto outros exibem cantos cínicos.
Aviso aos tolos: “Protejam seus bandos!”
Mas, do meu canto, vivem reclamando.
Têm olhos insanos, incendiários,
Queimam as matas, seus próprios erários,
Tratam-me qual carcará gavião
E, ainda assim, lhes tenho compaixão;
Faltam-lhes asas, amor, união
E sábio senso de preservação.
Brado-lhes orações contra a ruína,
Mas, surdos, seguem destrutiva sina.
Mortíferos mortais sem disciplina,
Pra arrogância deles, não há vacina.
Bando ingrato às belezas da vida,
Minha clemência não lhes é sentida,
Não lhes bastam doenças em surdina,
A humanidade se auto assassina.
Mas, como pássaro poeta e amigo,
Mesmo difamado como inimigo,
Faço arte contra a pandemia insana,
Insisto em salvar a espécie humana.
(Poema de minha autoria [ou seja, de Carlos Brunno Silva Barbosa], selecionado e premiado com 2.º lugar pelo júri técnico e 2.º lugar pelo voto popular no tema “Recortes da Paisagem”, categoria adulto na Mostra Olhares da Semana Fluminense do Patrimônio 2020)



Da janela do meu quarto no Alto de Ponte Nova

Da janela do meu quarto no Alto de Ponte Nova, vejo a vida passando.
Vai verão, inverno, outono e primavera.
Vai a vida tão singela.

Da janela do meu quarto no Alto da Ponte Nova, vejo um morro e muitas árvores.
Vejo uma paisagem que inspira, um patrimônio nacional e natural.
Vejo as nuvens no céu, indo com o vento e com tempo.

Da janela do meu quarto no Alto da Ponte Nova, eu me despeço desse poema.
Com um adeus da pequena janela, eu vejo a vida tão singela.
( Poema de Ana Carolina de Souza Torres Nunes, na época no 8.º C – atualmente no 9.º C -, selecionado e Classificado em 1.º Lugar – Prêmio do Público/Votação Popular - no Tema “A paisagem que inspira” [Infanto-juvenil] na Mostra Olhares da Semana Fluminense do Patrimônio 2021)




Da janela da minha casa, vejo o Paraíso

Da janela da minha casa
só vejo mato,
do verde reluzente ao fosco solitário.
Daqui avisto as colinas mais belas,
as aves que cantam em todo entardecer
ninguém sabe o quê.

Da janela da minha casa,
vejo um pingado de casas,
das mais caras às mais simples.
Daqui consigo ver um vizinho e um amigo,
o vizinho do potinho
e o amigo da piada.

Da janela da minha casa,
vejo crianças, aquelas que brincam até o entardecer,
sorriem pra tudo,
comem fruto do pé,
tomam banho de chuva e sempre, sempre, sempre
estão felizes,
não importa se o dia está ensolarado ou nublado.

Da janela de minha casa
de minha Paris fluminense, da Aparecida de Sapucaia,
vejo uma imagem sacra,
nuvens em forma de cruz, amém!
Daqui, e só daqui, eu vejo o paraíso.
(Poema de Maria Eduarda Rocha Passoni – na época, no 8.º C - Poema selecionado e Classificado em 1.º Lugar – Prêmio do Júri - no Tema “A paisagem que inspira” [Infanto-juvenil] na Mostra Olhares da Semana Fluminense do Patrimônio 2021)



Poesia da Janela (Encantos permanentes e provisórios de Soledade 2 em 2 estrofes)

Todo dia passava aqui
um passarinho para cantar,
enquanto agora eu só fico da janela
esperando ele passar.

Quando eu abro minha janela,
nada mudou, nada passou,
mas eu sei que, algum dia,
tudo mudará, tudo passará,
pois Deus está cuidando de tudo
e não há nada a se preocupar.
(Poema de Emelly Pimentel Charles Branco – na época, do 8.º B, atual 9.º B -, selecionado e classificado em 2.º Lugar – Prêmio do Júri - no Tema “A paisagem que inspira” [Infanto-juvenil] na Mostra Olhares da Semana Fluminense do Patrimônio 2021)



Paisagem da Janela em Água Quente

Olhando pela janela paralela,
há uma paisagem bela.
Vejo o pôr do sol
que espera de mim
um olhar sincero de agradecimento.
Sorridente, reparo cada detalhe desse quadro
e agradeço pela paisagem linda
que todos os dias posso apreciar.
(Poema de Jamili Damião de Oliveira Vaz – na época, do 8.º C, atual 9.º C -, selecionado e Classificado em 3.º Lugar – Prêmio do Júri - no Tema “A paisagem que inspira” [Infanto-juvenil] na Mostra Olhares da Semana Fluminense do Patrimônio 2021)



A paisagem da minha janela com a vista para Soledade 2

Todos os dias quando eu me levanto e abro minha janela,
eu me deparo com uma linda paisagem.
Olho para o horizonte
e vejo lindas montanhas.
Olho para o bairro que fica um pouco abaixo da minha casa
e vejo um lindo mar branco de serração,
sem contar o lindo nascer e pôr do sol...
Me inspiro cada vez mais com essa linda vista e com os cantos dos pássaros.
(Poema de Sara Flores Souza – na época, do 8.º C, atual 9.º C -, selecionado no Tema “A paisagem que inspira” [Infanto-juvenil] na Mostra Olhares da Semana Fluminense do Patrimônio 2021)



Teresópolis 130 anos

Teresópolis, cidade maravilhosa!
Na Arabotânica, a flor mais cheirosa.
Dedo de Deus, a proteção da natureza.
Tudo tem sua beleza.
No SESC, muita diversão.
Fazendo de tudo por um sorriso de cada cidadão.
E o trem da alegria então...
Todos amam a Feirinha do Alto.
Uma família feliz em um carro no asfalto.
Amo seus pontos turísticos.
Tantos lugares magníficos,
Tanto patrimônio que resiste,
Tanto encanto que persiste.

Parabéns Teresópolis!
(Poema de Gabrielle Gonçalves Ribeiro –, na época, do 8.º C, atual 9.º C -, selecionado e Classificado em 2.º Lugar – Prêmio do Júri - no Tema “O patrimônio que resiste” ]Infanto-juvenil] na Mostra Olhares da Semana Fluminense do Patrimônio 2021)


No mirante da poesia, olhando a paisagem de toda manhã fria em Volta do Pião (Elegia Teresopolitana de Resistência e Fascínio para Garcia Lorca)

Frio que te quero quente...
Desde a primeira vez
que descobri a manha dolente
na visão das manhãs
de tua terra sempre presente,
desde a primeira vez
que eu te vi
deitado no invisível
do horizonte observado,
desde a primeira vez
deste novo sempre
que eu paro diante de ti,
paisagem nova
na imagem inalterável
do firmamento que deita
em meus olhos bem aventurados.

Frio que te quero quente...
É o orvalho que despeja
tempestades suaves
em minha boca seca
todas as manhãs,
é o vento diário que me beija
a face ainda cansada
pela disputa com a noite insone
em outro sonho passado
e não realizado,
é a tua boca que adoça
os meus lábios amargos
com os cantos febris
da natureza que faleceu em ti,
é a beleza de uma canção antiga
que permanece inédita
no rosto dos velhos morros
tão vivos em movimentos mortos
e brilhantes apesar da atmosfera opaca,
é essa paisagem preguiçosa
que agita de poesia os meus olhos,
é essa vista ferida
de imortalidade intacta
que te mantém vivo
em minhas fúnebres palavras.

Frio que te quero quente...
Um vento novo sacode
aquela velha árvore,
enquanto outra nuvem esconde
o sol que arde em volúpia
por trás da frígida paisagem.
É nesse universo de duelos serenos
que tua voz inaudível
acompanha o ar invisível
e me conta os segredos
dos cantos mais sublimes
compostos por violentos silêncios,
é nesse cemitério vivo
que descanso minha visão
todas as manhãs, vendo-te partir
tão pleno,
como brisa de lirismo que desliza
na superfície adormecida
de um furacão...
E meus olhos choram sorrisos
a cada despedida,
acordados pela tristeza rara
de te ver, mesmo distante,
tão belo e tão eterno
todas as manhãs.

Frio que te quero quente...
Todas as manhãs cinzas serão verdes de Garcia,
enquanto teceres em meus olhos os dias,
enquanto houver dia,
poesia,
a-
manhã!
(Poema de minha autoria [ou seja, de Carlos Brunno Silva Barbosa], selecionado e premiado com 1.º lugar pelo júri técnico no tema “A paisagem que inspira” [Adulto], na Mostra Olhares da Semana Fluminense do Patrimônio 2021)




Em harmonia

Da minha casa em Água Quente,
Eu vejo uma névoa e sua cor fria,
Vejo três montanhas escuras e distantes,
Vejo o começo e a chegada
- O começo de um dia e a chegada de uma luz
Dissipando todo o nevoeiro
Desta manhã fria de inverno.

Neste momento, o céu se divide em duas partes:
Na maior, um céu azul escuro estrelado;
Já na menor e mais distante,
Um céu alaranjado vindo das montanhas escuras,
E, quando essa separação se desfaz,
Tudo se junta criando uma sintonia.

Essa é a paisagem que vejo nesses dias;
Esse é o meu lugar, minha harmonia.
(Poema de Jamili Damião de Oliveira Vaz, do 9.º C -, selecionado e Classificado em 1.º Lugar – Prêmio de Voto Popular e do Júri - no Tema “Esse é o meu lugar” [Infanto-juvenil] na Mostra Olhares da Semana Fluminense do Patrimônio 2022)



Oração a São José das Palmeiras, Senhor da Praça arruinada

São José das Palmeiras
desta praça sem palmeiras
(desde jovem, aos meus olhos,
tais árvores eram licença poética
surrupiadas da Canção do Exílio
de Dias para o nome do nosso bairro,
para a sucessão de ausências passadas
e futuras em nossa outrora bela praça),
ah, Seu José, que carregais com carinho
o filho que não é vosso, o Filho de Deus,
e que continuais a abençoar esse lugar,
cheio de filhos não vossos, outros filhos de Deus,
como o menino que outrora brincava
no velho chafariz que vivia sem água
e que hoje não vive mais
- quebradas suas beiradas
num plano de reforma pública mal planejada,
resta apenas a torre central,
obelisco incidental do nosso nada.
Ah, São José desta praça
das palmeiras sem palmeiras,
das calçadas alquebradas
e da beleza maltratada,
rica em misérias provocadas
por governantes do aquém,
por administradores do desdém;
ah, Seu José, aquele menino morreu,
caiu como as placas do monumento
que agora desfila parado
como rei nu no meio da praça;
aquele menino, Senhor José,
apagou-se como aquele poema
outrora gravado numa pedra da praça
(quem lembra? Passaram-lhe a tinta
e mataram mais uma poesia;
hoje só mais uma lápide encardida
no patrimônio assassinado).
Ah, São José desta praça sem palmeiras,
não perdoeis os mutiladores,
pois eles sabem o que fazem e desfazem;
perdoai a lágrima ácida de raiva
que ameaça ser derramada
toda vez que nossos olhos antigos
revitalizam a antiga praça;
perdoai e transformai em riso frouxo
diante da meninada,
que, alheia a passados e mágoas,
ainda brinca na praça arruinada.
(Poema de minha autoria [ou seja, de Carlos Brunno Silva Barbosa], selecionado no tema “Vestígios de memórias” [Adulto], na Mostra Olhares da Semana Fluminense do Patrimônio 2022)

sexta-feira, 1 de julho de 2022

No Sarau Florescer Nit no Solar do Jambeiro, entre adeuses, sempres e abismos


Finalmente chega ao blog o vídeo registra parte de minha participação no Sarau Florescer Nit, no Solar do Jambeiro, em Niterói/RJ, na tarde de sábado, dia 04/06/2022.
Primeiramente, traz o fragmento do meio para o final de meu poema "O último adeus (ou O primeiro pra sempre)" e o outro, minha interpretação de "Abismo", poema mais que fodástico do Mestre Eterno Poetamigo Pedro Lage (in memoriam).
Agradecimentos superespeciais a magnânima divartistativista Jammy Said pelo convite, recepção, carinho e cessão dos vídeos.
Abaixo dos vídeos, deixo o meu poema "O último adeus (ou O primeiro pra sempre)", de meu 4.º livro homônimo, de 2004, e o magnífico poema “Abismo”, de Pedro Lage (no original, sem o deslize que dei ao lê-lo – havia anotado às pressas, pois o celular estava ficando sem bateria, e acabei não compreendendo minha própria letra).
Em tempo: Amanhã, sábado, dia 02/07, às 8h (no horário do Brasil), estarei em live da Fiera Virtuale del Libro Italia com o Sarau Florescer Nit.(Homens e Mulheres), magistralmente organizado pela Musa Divartistatistativista Jammy Said, homenagem o Poeta-Maior Dante Alighieri. A live poderá ser acompanhada no link da Fiera Virtuale del Libro Italia: https://www.facebook.com/FieraVirtualedelLibroItalia . Não percam!
Boa leitura, visualizações e Arte Sempre!

O vídeo: 
No Sarau Florescer Nit no Solar do Jambeiro

Caso não esteja visualizando, eis o link: https://www.youtube.com/watch?v=V8q80xXhJBg&t

Os poemas declamados no vídeo:

O último adeus (ou O primeiro pra sempre)
Carlos Brunno Silva Barbosa

Anoitece...
E a noite é fria, tão fria
Que até esqueço que ainda existe vida
Neste dia morto.

Mas nem por isso vou chorar
Pois lágrimas não trazem ninguém de volta
Mas nem por isso vou gritar
Pois agora não preciso disso
Pra você me ouvir
E palavras são como cartas
Pois nas cartas não cabem as farpas
De amor perdido
Nas cartas não cabem os sentimentos
O verso escondido
Cartas são quase nada
Palavras não trazem ninguém de volta...

É madrugada...
E as verdadeiras estrelas perdem o brilho no céu
Lembrando que a minha única estrela morreu aqui
Na terra...

A noite inteira andei por labirintos
A noite inteira eu andei perdido
E, mesmo assim, sinto que não estou sozinho
Sinto que você está comigo
E, com esta certeza, sobrevivo!

Amanhece...

Abismo
Pedro Lage

deste abraço
ao avanço da estrela mais íngreme
- apenas um passo,
os lugares menos reconhecíveis,
as lembranças mais frouxas
e uma voz rouca
fecham sobre mim seus lábios de tempestade
no pálio pálido da madrugada,
é tarde,
te amo

sábado, 26 de março de 2022

O desejo publicado: A gratidão do transitório andarilho

Olá, amigos leitores deste inconstante blog (de ‘Diários de Solidões Coletivas’, cada vez mais mostra-se ‘Periódicos de Solidões Coletivas”, apesar da solidão coletiva de cada gente e agente manter-se sólida diariamente), hoje trago um poema que escrevi especialmente para a Coletânea Gratidão, divinamente organizada pela musa superdivartistativistamiga Jammy Said e lançado oficialmente neste ano (para pedidos de compra da coletânea, deixo o contato da organizadora Jammy Said no instagram: https://www.instagram.com/jammy.said/ ).
Conforme o título da coletânea nos informa, o tema da antologia era gratidão, mote com o qual jamais havia trabalhado. Por coincidência ou lírico destino, alguns anos antes, a superprofessoramiga Patricia Ignácio também me pedira um poema com o tema gratidão, o que – por ainda não ter cumprido a solicitação depois de tanto tempo, o desafio de seguir tal mote veio dobrado e sou bastante obsessivo em cumprir a produção de poema que me comprometo a escrever. Mas havia o problema/bloqueio vindo de minha formação e inspirações: sou daqueles adeptos a Cazuza, que, como ele, sempre fui malicioso demais e achava a palavra e suas equivalentes [obrigado, etc] meio bregas, de difícil inserção em obra poética. Mas, também como Cazuza (ele criou uma composição maravilhosa [ e potencialmente subversiva] chamada "Obrigado [por ter se mandado]”), topei o desafio desde que, como o mestre autor do emblemático álbum “Ideologia|”, eu também pudesse fugir do lugar comum e subverter o tema de algum modo. Quis tratar sobre outra gratidão: o agradecimento erótico-amoroso, as gratidões do corpo e do coração saciados por noites de sexo, entre domínios e dominações. Assim decidi produzir um poema erótico, como também, há tempos, não escrevia, e, finalmente, o meu filho-poema sobre gratidão nasceu!
Antes de compartilhá-lo com vocês logo abaixo, deixo algumas informações extras para, talvez, enriquecimento pleno da leitura: cito, no poema, duas grandes personagens mitológicas (sim, também voltei a fazer referência à mitologia grega, como, há tempos, não fazia) Atalanta e Hipomene. Atalanta era uma princesa da Arcádia. Seu pai, o rei da Arcádia, queria um filho, e, quando Atalanta nasceu, ele deixou-a em cima de uma montanha para morrer. Mas Atalanta, alimentada por uma ursa, agarrou-se à vida de forma brava e se tornou uma atlética e poderosa guerreira. De volta ao reino de Arcádia, já com a aceitação do pai (meio que obrigatória, visto que a filha resistiu às intempéries impostas pelo desprezo paterno), depois de um tempo, Atalanta, belíssima, se viu obrigada a receber diversas propostas de casamento, bastante inconvenientes, pos ela, diante de terríveis previsões e velhas promessas, desejava manter sua virgindade resguardada à deusa Ártemis. Vendo que não poderia mais fugir da investida, para afastar os pretendentes de vez, Atalanta impôs uma regra: se casar com quem a vencesse numa corrida (ela sempre foi a mais veloz entre todos os corredores), mas, caso o competidor perdesse (o que era quase certo, ela sabia), a morte seria seu destino. Apesar do risco, muitos candidatos apareceram e morreram tentando vencer Atalanta, até que Hipomene, com o auxílio de Afrodite, concorreu e usou de astúcia para vencê-la: atirou maçãs no caminho, retardando a veloz atleta e, assim, vencendo a corrida. Em meu poema, como fiz no tema, subverto o mito: é a própria Atalanta quem joga as maçãs e ludibria Hipomene para que ele pense ter sido o vencedor, quando seria ela quem o teria escolhido e vitoriosamente conseguido seus vorazes intentos.
Além do poema logo abaixo compartilhado, também trago a minha apresentação do texto lírico selecionado em no Sarau Florescer Nit, no Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Niterói/RJ, na quinta-feira, dia 13/01/2022, cujo evento foi organizado pela musa superdivartistativistamiga Jammy Said.
E, agora, vamos ao poema, amigos leitores. Boa leitura e Gratidão por acompanharem este transitório blogueiro andarilho nas raras vezes que posto. Abraços e Arte Sempre!




A gratidão do transitório andarilho
Carlos Brunno Silva Barbosa

Gratidão mesmo antes que me abras tua porta,
gratidão pela oferta amistosa, gostosa
de dor sem dolo, de infindo amor sem depois.
Sou andarilho à tua porta esperando
que me atendas, que te estendas pra minha fome
de vampiro efêmero, sedento de ti.

Então me abres a porta, presa poderosa,
fatalmente atlética, Atalanta morena
de mil maratonas na arcádia furiosa,
no olimpo ardente de meus sonhos mais febris.

E assim me atiro em teu abrigo sem domínios,
dominado por descontrolados desejos,
caçador ludibriado pela caçada,
dominado pelo indominável, por ti.

Hipomene adverso, tuas maçãs persigo
e caio erguido em cada labirinto teu
e agradeço cada fruto que me arremetes,
cada raiva amorosa, cada amor pagão.
Deuses cultuando a própria apoteose,
teu corpo e meu corpo em erótico ouroboros.
E a noite devora nossos devoramentos...

Após sustentarmos os sussurros da lua,
o sol volta com seu calor assexuado,
cheio de rigor e prazos inadiáveis,
mas, no quarto, ainda é noite, e, novamente,
agradeço pela escuridão partilhada,
pelo perene acolhimento temporário
deste eu farto, mas sempre faminto por ti.


Caso não esteja conseguindo visualizar o vídeo
de minha apresentação no Sarau Florescer Nit por aqui,

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

O quarto poema pandêmico: De onde vêm os quintanares que ouves nos tempos de pandemia

Hoje, no penúltimo dia deste estranho 2021 (as lágrimas celestes insistem em relembrar os momentos turbulentos pelo qual passamos), deixo mais um dos poemas que classifiquei como pandêmicos. Escrito no meio de outubro do ano passado, o poema abaixo foi uma tentativa (meio vã, pois a pandemia se estende[u]) de trazer um ar lírico mais esperançoso, e, ao mesmo tempo, fazer uma homenagem ao universo lírico maravilhoso do Mestre Poeta-Maior Mario Quintana (ele sempre me enche de perspectivas líricas positivas em momentos conturbados, por isso sempre apelo aos seus anjos, personas e personagens, quase como uma súplica/ode/oração ao filho mais sublime de Alegrete).
Pouca coisa mudou pra melhor nos tempos logo após eu escrever o poema, mas, seja como for, fica a promessa de esperança, a súplica ao anjo ‘quintanar’ Malaquias (eu lírico do poema hoje postado) por dias melhores. Que, após a dança macabra, venha a contradança do Amor.

De onde vêm os quintanares que ouves nos tempos de pandemia

Quando vi, entre as casas, o mal surgir
Com as vestes vorazes da pandemia,
Bem que eu quis dar as asas aos humanos,
Assim como eles a mim dão-me os ombros,
Mas as nuvens, meus amores ideais,
E os pássaros, assessores alados,
Com os homens, bem menos rancorosos,
Não me deixavam fingir falsa paz:
“Olha o menininho doente ali,
Tão novinho já vai ter que partir;
Olha a Tia Tula, toda perdida,
Aflita, orando mil Aves Marias;
Olha como chora aquele Fulano
Desempregado e só como Sicrano;
Olha naquela rua, quanto assombro,
Em Cataventos, só passeia escombro;
Olha como o vírus maligno vai
Arrastando os filhos de nosso Pai!”
E, diante de tanta ladainha,
Acolhi os pedidos contrariado.
Sem grandes saberes de medicina,
Mas, pela natureza, arrebatado,
Tornei-me o vento que sopra a esperança,
Que, mascarado, no alheio ouvido canta:
“Tudo vai passar, adulta criança,
Basta te cuidares, ter segurança,
Pois o mal que, hoje, contigo dança
É mau dançarino, uma hora cansa;
Em casa ou a alguns metros de distância,
O Amor te espera para a contradança”.
Carlos Brunno Silva Barbosa



quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Ode embriagada a Teresópolis: O Grito de Dependência do Bardo Afilhado Às Margens do Rio Paquequer

Após o término do ano letivo, fiz o que quase sempre costumo fazer, seja em anos bons ou ruins: fiquei um tempo a mais em Teresópolis/RJ, outrora, muito inicialmente, vista por mim como a cidade onde trabalho, logo depois e até hoje elevada à cidade lírica afetiva que reside em minhas paqueras e em minha alma de poeta. Nesses tempos posteriores à temporada de trabalho, faço tudo o que mais amo fazer nesta maravilhosa cidade serrana problemática: passear à margem de sua plataforma conservadora (sim, Teresópolis é dessas que posam discursos de manutenção dos costumes dos tempos de Dona Teresa e atalhos para o que há de mais retrógado, mas também possui muitos pontos de fuga do senso comum, uma vanguarda oprimida, mas magnífica, universos singulares encontráveis em curvas e desvios de sua estrada aparentemente imutável), participar de protestos (sem desmerecer nenhuma causa, mas quem nunca em Teresópolis? – a cidade é tão escandalizadora em tradicional opressividade que protestar torna-se uma necessidade básica na cidade, outrora dos Festivais, hoje da monarquia das injustiças sociais), curtir magníficos eventos culturais (sim, o legado de Cidade dos Festivais deixa nela uma aura permanente de efervescência artística continuamente renovada) e provocar sua energia boemia contidamente incontida.
Nessas trocas de sentimentos contraditórios e loucuras lúcidas com a cidade, de vez em quando me escapa um poema meio ode embriagada, meio doido lúcido (já justificando o conteúdo embriagado do escrito lírico, mesclado com versos metrificados). Publicado na Antologia Bardos Teresopolitanos (Editora Uniclap), organizado por Alessandro Lopes Silva e Artur Esteves, “O Grito de Dependência do Bardo Afilhado Às Margens do Rio Paquequer”, que compartilho hoje, com vocês, amigos leitores, é um desses casos de odes embriagadas que escrevi à musa Teresópolis/RJ, que banca a santinha de legado monarquista, mas que, no fundo, no fundo, é uma república despudorada, berço de doces pecados amargos e de únicas emoções várias.

O Grito de Dependência do Bardo Afilhado Às Margens do Rio Paquequer

Às margens do rio Paquequer, eu brado
meu silencioso deslumbramento
pelo serrano e poético espaço
no qual vivo, em doido voo terreno.
Talvez este brusco amor declarado,
este urro mudo de pertencimento,
sendo eu um filho teu sem nascimento,
tenha fundamentos embriagados:
dos doces venenos negociados
no Parque Regadas venho regado.
Seja como for, me abrigo em teus ventos;
seja como for, hoje sou teu bardo,
pelo aroma de Ceci arrebatado,
pela bravura de Peri domado,
pelas Casas de Vidocq abrigado.
E, nestes versos loucos, me declaro
Teu novo dependente mais sedento:
Cidade de Teresa, dá-me alento
Para me esquivar dos sufocamentos.
- Mátria de minha arte e contentamento,
Dá-me infinito neste encerramento.

Carlos Brunno Silva Barbosa



quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Solidões compartilhadas: Visitando, com os olhos fascinados, a lírica Fazenda Manacá de Gustavo

Quadro "Manacá" (1927),  de
Tarsila do Amaral, Óleo sobre tela.
Se ontem comemoramos o retorno do blog e os retornos megapoéticos de Genaldo Lial, hoje retomamos uma outra tradição lírico-bloguística: apresentar estreias poeticamente magníficas, trazer a este espaço lírico jovens e hipertalentosos poetas. Sim, hoje compartilho minhas solidões líricas com um novo (e já premiadíssimo e formidável) poeta. Seu nome é Gustavo (ainda me falta seu sobrenome lírico, mas eu não podia mais adiar aos olhos dos amigos leitores a fascinante arte deste rapaz), aluno do CEMP, representa Sapucaia/RJ, pra ser mais exato, a área da Fazenda Manacá (que nunca nem vi, mas, graças ao poema dele, já passei a amar).
Meu primeiro contato com a premiada e sublime poética de Gustavo se deu com a Professoramiga Olheira-Lírica Simone Cruz (ela é danada pra achar jovens talentos e captar poesia onde, a olhos comuns, aparenta só haver desolação e barbárie). Simone mostrou-me o poema “Fazenda Manacá”, que “ganhou um concurso de poesia”, sabendo que eu “ia gostar e valorizar”. Dito e feito: o poema, feito com esmero, lembrou-me o ritmo de Fagundes Varela (mais destacadamente “A flor do maracujá”, de autoria deste excelentíssimo poeta romântico do século XIX), o que já me encheu de admiração pelo primor técnico e musicalidade natural e ao mesmo tempo domada com rigor (ou seja, naturalizada – o leitor lê como algo natural, mas traz rimas muito bem pensadas, sublimemente planejadas e estudadas). A evocação apaixonada de Gustavo pela Fazenda Manacá me levou a colocar este lugar àqueles outros que meus olhos leitores sempre buscam poeticamente: a Itabira de Drummond, o(s) Recife(s) de Bandeira e de João Cabral de Melo Neto, a Andaluzia de García Lorca, a Goiás antiga de Cora Coralina, entre tantos outros lugares líricos-afetivos que ao Lê-los tão liricamente bem escritos tanto quero conhecer – sim, agora também visito, em sonhos de poesia, a Fazenda Manacá (como no refrão da canção “Goiatuba”, do Biquíni Cavadão, “Eu amo mesmo sem saber/ Sem ter notícia alguma de vocês/Invento a vida nos lugares/Que acho que nunca vou conhecer”). O poema de Gustavo me reanimou este velho encanto. Logo falei (naquele estilo súplica meio exigência) pra Simone Cruz: “Eu quero publicar esse poeta, eu quero publicar esse poema no blog!” Então ela me passou as coordenadas: “Ele é aluno lá de Sapucaia da Késsia, professora de Português lá em Sapucaia e aqui no Alcino. Fala com ela.” Opa, tão perto, tão acessível e eu ainda tão extático (não conhecia bem a Késsia, há pouco tempo na escola; a rotina frenética do retorno das aulas presencais impedindo momentos de respiro para falar com ela; o sentimento meu meio protagonista do conto “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector, quando a personagem finalmente tem em mãos o livro desejado). Demorei, esperava o momento certo pra perguntar e propor uma postagem com o poema de Gustavo, e cada vez mais sufoco, sufoco no trabalho, ah, falei de supetão e, meio afoito, mas tentando um elogio controlado (quem conhece minha personalidade exacerbada diante da arte sabe que fiz um esforço sobrenatural pra ser comedido e não assustar com meu fã-natismo fascinado por grandes obras artísticas) ao trabalho dela e de Gustavo e pedi pra ela que conversasse com o rapaz para que me permitisse que publicasse o poema “Fazenda Manacá”.
E conseguimos! E cá estamos, amigos leitores, com o premiado poema “Fazenda Manacá”, de Gustavo (mesmo sem o sobrenome dele, eu não podia mais adiar a publicação, entendem?), de Sapucaia/RJ, Gustavo da Fazenda Manacá (ou Fazenda Manacá de Gustavo? – essa dúvida me assalta tanto quanto “Marília de Dirceu” ou “Dirceu de Marília”, de Tomás Antônio Gonzaga). Leiamos e vivamos em eternos fugazes instantes admirando as belezas profundamente líricas e magníficas da Fazenda Manacá!

Fazenda Manacá

Manacá, meu Manacá
Lugar de tranquilidade
Não há barulho de carros
Diferente da cidade.

Manacá, meu Manacá
Um lugar de harmonia
Não tem praia, nem baladas
É sossego todo dia.

Meu querido Manacá,
Um lugar de alegria
Meu avô acorda cedo
E tira o leite todo dia.

Nossas vacas são bem mansas
Leite fresco ela nos dá
Como eu amo essa fazenda,
A fazenda Manacá.

Moro aqui há muito tempo
Sem querer ir para a cidade
Mas se um dia eu partir
Sentirei muita saudade.

Um lugar muito tranquilo
Um lugar de muita paz
Quem morar no Manacá
Não se esquecerá jamais.
Premiado poema de Gustavo, do 8.º A, da Fazenda Manacá, de Sapucaia/RJ.

domingo, 21 de novembro de 2021

Poema felino para nossos dias gatunos de banal poesia: Gato Miró

Domingo de clima ameno, quase frio, dia teoricamente de descanso, tempo meio preguiçoso, folga de temas pesados nestes dias de apocalipses diários, hoje o tema da postagem miou na minha cabeça.
Sim, hoje falaremos de um dos musos selvagemente domésticos mais querido, o gato, sagrado no Egito Antigo e cantado em versos beats por William Burroughs (o poeta dedicou livros e poemas ao enigmático e lírico bichano). Há uns meses, em minha residência em Teresópolis/RJ, apareceu um gato aqui da vila que cismou comigo, miava da janela pedindo pra entrar. Depois, que lhe permiti a entrada, passou a vir constantemente (nem pede passagem pela janela mais, e sim agora pela porta). Hoje é um agregado frequente, por vezes mais dono (e mais exigente) da casa que eu. Não tinha nome até minha participação em um grupo focal chamado “Ensaios de fruição”, no qual se planejou uma reflexão e análise de um espetáculo em homenagem ao mais que fodástico poeta Miró de Muribeca. Quando aprendi que o poeta Miró costumava fazer invasões culturais (entrar em um espaço e declamar seus fodásticos poemas, com magníficas performances), resolvi batizar o gato de Miró Serrano, pois este gato Miró invadiu meu espaço e encheu-o de novo lirismo.
Mas o gato Miró, com o tempo e assiduidade nas visitas, revela outras características, talvez adquiridas de mim, principalmente em meus dias de folga: a propensão e devoção à preguiça, beirando a total folga – por exemplo, neste momento, digito o texto no notebook, recostado em minha cama, com certa dificuldade, pois Miró Serrano deita-se e ronrona sobre meu peito, sempre que me posiciono desta forma.
"Perdoa estes poetas-blogueiros de merda,
Deuses Quintanares Bandeirianos,
eles não sabem o que fazem",
declama postumamente Drummond.
Desfazendo um monte de conselhos de Drummond em “A procura da poesia” (por sinal, a maioria dos conselhos que ele dá nos versos iniciais, o próprio autor descumpriu ou descumpriria com o tempo – o metapoema citado é mais um aviso de ruptura com fases anteriores [na época, Drummond flertava com o niilismo lírico] que algo pra ser levado ao pé da letra. Mesmo assim, influenciou muitos Joões Cabrais de Melos Netos, e, pqp, não existe metapoema mais fodástico, principalmente do meio pro final, que essa “procura da poesia” drummondiana), trago um poema bem banal, uma ode ordinária ao gato Miró Serrano (neste instante, deitado na cama, sobre o lençol e meus pés – o tec tec do notebook e minha movimentação na ação de teclar, possivelmente, estavam atrapalhando sua devoção absoluta à lírica preguiça, sim, no homem, a preguiça é terrível e pecaminosa; no gato, é suave e poética –, permitindo-me melhor articulação para concluir esta digitação).
Ótimo finzinho de domingo e boa leitura, amigos leitores, amigos dos animais selvagemente domésticos.

Gato Miró

O gato Miró anuncia seu novo pedido de invasão.
Antes vinha pela janela, atravessando o telhado vizinho pra chegar na minha casa.
Hoje aparenta segurança para bater à minha porta principal.
Como um gato marginal pode trazer tantos poemas sem derramar palavra?
Ok, Miró, deixemos de reflexão e vamos seguir o roteiro louco que a peça da vida nos colocou.



Meu filho-poema selecionado na Copa do Mundo das Contradições: CarnaQatar

Dia de estreia da teoricamente favorita Seleção Brasileira Masculina de Futebol na Copa do Mundo 2022, no Qatar, e um Brasil, ainda fragiliz...