Olá, caros leitores, bem vindos ao blog daqueles que guardam um sorriso solitário no canto dos lábios que versam sonhos coletivos. Bem vindos ao meu universo virtual poético, bem vindos ao mundo confuso e fictício ferido de imortal realidade. Bem vindos ao inóspito ambiente dos eus líricos em busca de identidade na multidão indiferente, bem vindos ao admirável verso novo.
Hoje o Facebook me lembrou pela milésima vez que há tempos
não publico nada no blog; o aniversário do Sarau Solidões Coletivas passou
silencioso (dia 21 de abril), assim como tantas outras datas; a rotina
frenética; as pequenas violências diárias que sofremos a cada dia; 2019 nos
atropela com seu caminhão temporal acelerado e hitlérico. Poderia mais uma vez,
além das causas anteriormente expostas, lembrar que, em períodos de longos
feriados fico grande parte do tempo na casa de mamãe, onde dependo do wifi da
internet do meu irmão que nunca funciona em longos feriados ou lembrar que tô
cansado pra ka...ramba e mais um monte de blá blá blá e mimimi (pra quem lê de
fora) que já expus e re-expus em outros momentos, mas vamos ao que interessa:
arte, renovArte. [Penso que a introdução já cumpriu o seu objetivo principal,
que é avisar antecipadamente que essa postagem tá meio BASTANTE atrasada; por
isso vamos ao que interessa].
A postagem de hoje, que renova o marcador Poemas - HQs, foi planejado para a sexta ou sábado de Páscoa (sim,
tá atrasadaça, mas arte boa desconhece relógios e calendários), tanto que
fiquei na escola fora do meu horário encarando um dos escaners mais esforçados,
mas também um dos mais lentos do universo, para que todo o material fosse
postado em tempo real, mas a Páscoa passou, Jesus ressuscitou e a Oi Velox do
meu irmão não realizou o mesmo feito que nosso Redentor e o retorno às
atividades escolares foi tão intenso que o corpo não resistiu à tentação de
breves procrastinações.
A manhã de quarta-feira, dia 17 de abril de 2019, na Escola
Municipal Alcino Francisco da Silva, na região rural de Teresópolis/RJ, foi dia da Oficina de Língua Portuguesa
"Páscoa em Cena - HQ e Peça Teatral", organizada por mim e pela
formidável professoramiga Vanessa Costa, com participação lírica e iluminada
dos artistalunos dos sexto B, nono B e oitavo C. Realizamos, durante a oficina,
lemos quadrinhos da Turma da Mônica – aquele da série “Você sabia?” (o nome é
esse ou algo assim) – falando sobre a Páscoa, os ousados artistalunosuma realizaram
uma encenação ensaio do Ato da Ressurreição sob nossa direção e, depois (uau e
ufa! Como rendeu o dia e como foi exaustivamente lírico e brilhante!), os
talentosos artistalunos transformaram cenas do ato do trecho encenado da peça
teatral em maravilhosos quadrinhos que compartilho hoje com vocês, amigos
leitores!
Nada melhor que ressuscitar as postagens do blog com uma
exposição dos quadrinhos líricos, divinamente produzidos pelos artistalunos dos
sexto B, nono B e oitavo C da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva!
Bom entretenimento a todos e Arte Sempre!
Arte de Brenda, do 9.º B, com Giovana e Amélia Vitória, do 6.º B
Apresentando "As aventuras do espetacular Chris Cornell Lee", acompanhado do violão lírico musical de Gabriel Carvalho
Na edição do Sarau Solidões Coletivas de 12/01/2019, que aconteceu na
Comuna da Quinta das Bicas, quintal da casa de Gilson Gabriel, no bairro
Biquinha, em Valença/RJ, declamei, acompanhado do violão lírico musical do mais
que fodástico artistamigo Gabriel Carvalho, meu poema inédito meio épico
psicodélico grungre quadrinístico “As aventuras de Chris Cornell Lee”, em homenagem
a Chris Cornell, Stan Lee, Belchior, Bowie e Luiz Melodia.
Material Quadrinístico Inspirador
Escrito às pressas, numa tentativa de cobrir toda a temática louca
sugerida no mais recente Sarau Solidões Coletivas, meu objetivo era fazer um poema
extenso, no molde épico punk popular pop HQ, mistura de história roteirizada
por Stan Lee, com referências ao grunge de Chris Cornell, como um “Faroeste
Caboclo” versão super-heroica Marvel, com um conjunto de 5 ‘Cantos’, mas,
devido ao tempo escasso e persistente preguiça/cansaço existencial, o meu tosco
poema pseudoépico grunge quadrinístico ficou incompleto, com apenas os 2
primeiros Cantos. Seja como for, fica aí a louca ideia e o início de uma fantasia/alucinação
lírica HQmaníaca.
As aventuras do espetacular
Chris Cornell Lee
Canto Primeiro
Das vidas, mortes, ressurreições e insurreições do Capitão Chris
Cornell Lee
O espetacular Chris Cornell Lee
fora Capitão da brigada sem Pátria,
soldado heroicoda Antiguidade
Clássica,
defendeu povos massacrados
por governantes e desgovernantes enfurecidos
que davam graças a deuses distantes do Olimpo
enquanto pisavam nos plebes mortais.
Cornell Lee amou Homeros e Safos,
Helenos e Helenas,
sem preconceitos, como seus iguais.
Resgatou e abraçou nativos e estrangeiros,
sobreviventes e refugiados
e hasteou, mesmo quando destroçado,
as bandeiras da esperança e da paz.
Por proteger pacificamente a Terra,
Capitão Cornell Lee pelos da guerra
foi condenado, trancado e enterrado
nasgeleiras da Censura e da
Solidão.
Seu corpo sobreviveu às eras de tortura,
às guerras atômicas, às greves de fome
e à crescente incompreensão.
Na década de 1990, foi despertado
pela Ordem dos Humanos Cães Templários
que uivavam embriagados
em busca de um salvador pagão
que diminuísse o vazio em cada coração.
Chris Cornell Lee, agora Capitão do Som,
resgatou com arte a heroica essência,
roubando o pão das bocas da Decadência
para alimentar os famintos e fracos irmãos.
Residiu em jardins sonoros,
escolheu ser escravo da música,
mas foi assassinado, mais uma vez,
pelos surdos senhores da guerra.
Quando o mundo parecia completamente perdido,
o caixão de Capitão Chris Cornell foi atingido
por um cometa de poesia.
Novamente, nosso herói voltava à vida,
desta vez na pele de apenas um rapaz latino americano
humano demais para poderes meta humanos.
Deparou-se, assustado,
com um universo cada vez mais devastado
pelas hordas de Velhos Capitães Fascistas,
associados à Galeria da Vilania
da Recatada Hipocrisia
e da Endiabrada Sagrada Família
da Máfia Moral Armada.
Diante do triste cenário,
o Excelsior Cornell Lee, mesmo desarmado,
ofereceu resistência contra a velha inimiga Decadência.
Recebeu o apoio de um novo astro,
o herói iluminado, apesar de violentado,
chamado Halley Ceará,
e seguiu a dupla espetacular
pelas paralelas de Belchior,
cercanias de cordéis e rondós,
para alcançarem os aventureiros reinos
de Cony, Bowie e Melodia
em busca de artefatos de magia e poesia
afim de enfrentar e derrotar
os novos senhores da Velha Tirania.
Sigamos, leitores, destemidos e aflitos,
os passos heroicos e pacíficos
de Chris Cornell Lee, o verdadeiro e único capitão amigo,
e de seu novo parceiro, o gentil Halley Ceará.
Viajemos, velhos e novos leitores líricos,
pelo solidário infinito
que só o imaginário solitário coletivo
pode nos levar e nos salvar.
Canto Dois
Das memórias de Halley Ceará
Capitão Cornell Lee
é o novo velho herói que conheci
nas ruínas dos jardins sonoros
quando eu, sozinho e oprimido,
enfrentava os cães das trevas de Oroboros.
Recém ressuscitado e ainda enfraquecido,
Capitão Chris Cornell Lee permanecia destemido:
com a força de vontade de deuses legítimos e poetas,
Pra quem está comemorando (é sério?) o resultado das eleições uma
metáfora-lembrança do que eu sinto: toda vez que me deparo com os resultados
das eleições de 2016, me lembro de que, na ficção dos quadrinhos, até o Lex
Luthor foi eleito e aplaudido como Presidente dos Estados Unidos, apesar de o
Super-homem alertar das más intenções do candidato para toda população de
Metrópolis e das demais cidades do Universo DC.
Na época, Luthor já era visto pelos cidadãos dos Estados Unidos como um
visionário e um benevolente empresário (detalhe: um dos passos dele foi a
"reforma educacional"), adjetivos muito usados para alguns
pré-eleitos às prefeituras municipais. Luthor recebeu aos olhos do público o
crédito por inúmeras "boas ações", E os super-heróis seguiriam a via
crúcis de se tornarem personas non gratas e até “inimigos públicos”. Foi uma
época bem conturbada no Universo DC, mas o arco de histórias terminou na
ficção....
... O problema é que a realidade se esqueceu de encerrar a Era de
Luthor e parece eternizá-la em cada candidato eleito, seja antigo ou (mal)dito
como 'novo'.
Hoje, dia 17 de setembro, comemora-se o Batman Day, evento
internacional em homenagem ao Homem-Morcego, meu personagem favorito das
histórias em quadrinhos de super-heróis da DC Comics (quando criança, a
minissérie “O Cavaleiro das Trevas” e o arco de histórias “Batman: Ano Um”,
ambos roteirizados pele mestre dos quadrinhos Frank Miller, deram um nó na
minha cabeça e modificaram meus conceitos ingênuos de quadrinhos).
Neste ano de 2016, que comemora o 77.º aniversário de Batman, a DC
estabeleceu o dia 17 de setembro como data oficial. E eu, como fã-nático pelo
Homem-Morcego (esse fato já virou até motivo de chacota de meu amigo Lucimauro
Leite, que sempre me canta a canção “Batman”, da irreverente banda punk Garotos
Podres, e me lembra que estou abraçando um personagem capitalista – esquecendo-se
de todo o lirismo gótico, super-humano e melancólico do super-herói, que tanto
me atrai), deixo aqui meu soneto-homenagem ao sombrio defensor de Gotham City.
Com vocês, amigos leitores, a minha homenagem lírica ao famoso
Cavaleiro das Trevas.
O Cavaleiro das Trevas
Atravessa as trevas mais uma vez o cavaleiro.
Seus olhos têm o brilho amedrontador de um morcego
que, refém da noite, apenas na sombra encontra achego.
Ele caça os lobos na Gotham de poucos cordeiros.
A cidade inchada adoece no desassossego,
maculada por palhaços loucos e carniceiros.
Corrompida, a urbe clama por seu velho justiceiro
e o filho órfão retoma a tez do homem morcego.
O herói que protege Gotham dos crimes mais vis
revê o beco, onde um garoto vagava feliz
até um ladrão matar seus pais e roubar-lhe o viço.
Dia 21 de julho é véspera da véspera do aniversário do blog (no dia
23/07, o “Diários de Solidões Coletivas” fará 4 anos de existência, resistência
e insistência). Em 21 de julho de 1990, ou seja, há 25 anos, Roger Waters,
ex-integrante da banda inglesa Pink Floyd, fez um megashow na Alemanha, em
comemoração à queda do muro de Berlim. Hoje, 25 anos depois, o blogueiro que
vos escreve traz um outro muro – quase inquebrável, terrivelmente existencial:
inspirado na História em Quadrinhos (HQ) “O muro”, de Céline Fraipont e Pierre
Bailly, traduzida por Fernando Scheibe, lançada pela Editora Nemo e lida por
mim num fôlego só na última madrugada, escrevi um novo poema, reflexo dessa
leitura febril e melancolicamente entusiasmada das vibrantes desventuras da
protagonista Rosie, uma menina de 13 anos, residente em uma monótona
cidadezinha do interior belga, que se vê entregue à própria sorte (sua mãe
fugiu com outro homem numa aventura amorosa e seu pai vive mergulhado no
trabalho). A narrativa se passa em 1988 e traz uma história poética e
melancolicamente cativante e intensa, arrastando a nós, leitores, pelos (des)caminhos
obscuros de uma adolescência problemática ao som do punk rock.
Como toda obra artística que faz meu eu leitor se comover e ‘trans(ins)pirar’,
não agi passivamente após concluir a leitura dessa fodástica obra-prima em
quadrinhos: acabei criando um poema/conto em versos, passeando com minha poesia
pelas transformações/(des)caminhos da protagonista adolescente Rosie. Além da
fodástica HQ “O muro”, o meu poema traz dois “cês” – um c da super-melancólica
canção “Clarisse”, da banda Legião Urbana, e um c de Clarice Lispector (me
preparando para o tema ‘equívocos’ com toques líricos lispectorianos, sugerido
pela poetamiga Rosangela Carvalho), um “l” de Lygia Fagundes Telles, muito da
melancolia de The Cure (que a protagonista da HQ ouve constantemente) e uma
tentativa de explorar o estilo poético (presente também na HQ) de transformar
fatos banais em lirismo magnífico que consagrou a banda gaúcha de rock Nenhum
de Nós em álbuns como “Histórias reais, seres extraordinários”.
Bem-vinda ao meu louco universo lírico, Rosie. Boa leitura, amigos
leitores, HQs e Poesia Sempre!
Rosie
Órfã de pais vivos,
abandonada no casarão,
com medo da escuridão,
pobre menina rica,
esquecida pela pobre ex-amiga,
tomando mil banhos quentes
para me aquecer
(ou esquecer?),
nenhum sonho como alívio,
nem mesmo um monstro noturno,
apenas o monstro diário do medo:
eu mesma no espelho.
13 anos – quase quatorze –
13 anos e a primeira menstruação veio hoje
- finalmente mulher?
Não... A maturidade é apenas uma lágrima
que sai de meus olhos de criança
sem cair em lugar nenhum;
apenas eu caindo erguida
ao lado do uísque roubado de papai,
bebido na sala vazia,
tão sem vida quanto as cartas distantes
que mamãe me envia de outros horizontes
mas que nunca leio.
Cartas cegas trancadas na gaveta da cômoda
- sou eu vendo o tempo passar
sem olhar pra janela,
sem ver o tempo passar.
Já acreditei que ficar em cima do muro
seria sempre o meu lar,
uma espécie de paraíso particular,
bebendo mais uma garrafa roubada
do extenso balcão de bebidas de papai,
fumando cigarros escondida,
esperando pela eterna amiga
que pôs fim à eternidade
porque seus pais me consideram má companhia
- 13 anos e me sinto velha e sozinha,
13 anos – cada vez mais quase quatorze;
ela me disse que jamais me abandonaria
e agora é só o muro e eu
como se fôssemos um só
eternamente sós.
Então você apareceu,
jovem judeu perdido,
primeiro encostado ao muro,
eu 13 – quase quatorze –
e você dezesseis.
“Rosie, seu nome parece o de um porquinho”,
você brincou;
no rosto um sorriso triste sem dor
como um cavalheiro que oferece uma rosa nova
para um canteiro onde só florescem espinhos...
- Se eu fosse um, você me protegeria,
estranho jovem lindo judeu? – eu talvez retrucasse
se eu não fosse eu...
o monstro silêncio nos lábios cerrados:
eu não sabia o que dizer pra você.
Mesmo assim, você voltou aqui,
apesar do meu mundo mudo,
apesar de todo monstro eu,
você reapareceu
pra resgatar a princesa
que sempre neguei a mim mesma
- sou sapo que vira Julieta
na companhia de um inusitado Romeu.
Você trazia valsas punks no walkman,
letras de canções que – 13 anos e tão ininteligível –
demorei para entender;
quando reparei, já estava ao meu lado
em cima do muro,
era todo meu, todo eu,
meu príncipe encantado nas vestes de um rebelde plebeu,
você foi todo meu, mesmo quando nunca me pertenceu.
Do muro para sua casa,
The Cure na vitrola enquanto me beijava,
o monstro adormecido na voz de Robert Smith,
o uísque roubado de meu pai
e o haxixe que você vendia pra sobreviver,
nossa solidão embriagada, dopada, quase curada,
éramos o mundo todo em seu quarto de zé ninguém,
The Cure, Sonic Youth, Ramones
13 anos eu – quase quatorze – e você dezesseis,
éramos todo mundo e outros tudos eram ninguém.
Entre uma visita e outra a sua casa, você me Cureava,
13 anos e eu, mesmo toda errada, me sentia curada,
Pra incendiar essa sexta-feira, às vésperas do Dia do Rock, trago, a mais que perfeita letra
de música “Motoqueiro Fantasma”, de Xande McLeite & Rockfriends, de São
Gonçalo/RJ.
Claramente inspirada no controverso herói das histórias em
quadrinhos, o Motoqueiro Fantasma, aquele que fez um pacto com o demônio para
salvar a vida do amigo (em vão... o demônio trapaceia: cura o câncer do amigo,
mas este, que não sabia do fato, morre, quase em seguida, num acidente fatal), a
canção, do álbum “Sou do Rock”, de Xande McLeite, traz uma sonoridade rock
revigorante e um refrão fodástico. A letra descreve a angústia do personagem
Johnny Blaze, transformado no Motoqueiro Fantasma, e reconta a origem do
super-herói. “Quando fiz a letra busquei exatamente esse sentimento, pois é o
reflexo que ficou num cara que já era fã Motoqueiro Fantasma desde os tempos
dos quadrinhos. E quando soube que iam fazer o filme resolvi fazer a minha
homenagem ao meu herói.”, revela Xande McLeite.
Adoro todas as faixas do CD "Sou do Rock", mas essa
canção é a que eu mais amo do Xande McLeite & Rockfriends, pelo seu diálogo
com as histórias em quadrinhos (relembrando clássicas bandas de rock que também
faziam essa intertextualidade, como Queen com “Flash Gordon”, etc) e o refrão
fodástico (ai, ai, tô me repetindo rs, sou pentelho demais quando curto muito
uma canção)! Já elogiei tanto a canção pro compositor que, numa vez em que nos
apresentamos no mesmo evento do Identidade Cultural & Movimento Culturista,
organizado pela mais que fodástica artistamiga Janaína da Cunha, o Xande McLeite resolveu fazer uma versão acústica da canção em minha homenagem.
Em tempo: Xande McLeite, acompanhado do instrumentista "garoto prodígio" Guilherme José,
estará na primeira edição do Sarau Feira Moderna, organizado pelo Feira Moderna
Zine! O evento acontecerá hoje, às 20h, no Metallica PUB, em São Gonçalo/RJ! A
entrada é franca
Acompanhemos as aventuras do Motoqueiro Fantasma na fodástica
letra de música de Xande McLeite, amigos leitores!
Um dos momentos mais especiais
que guardo pra sempre na lembrança de meu passeio pelo 40.º Salão de Humor de
Piracicaba/SP foi ter encontrado o fodástico cartunista Alex Sander, de São
José do Rio Preto/SP.
Dono de uma aura inspirada e
reluzente como há tempos eu não via, Alex Sander me deu a oportunidade de
conversar sobre o universo dos cartuns independentes, do blues rock (ele toca
baixo em uma banda fodástica chamada Motocircus – já ouvi tantas vezes o álbum
dos caras que meu vizinho já deve ter decorado a melodia rs) e da literatura
(principalmente, sobre o universo kafkiano, do qual somos fã-náticos).
Consequentemente, tive, também nesse intercâmbio artístico, o privilégio de
conhecer um pouco mais da arte mais-que-fodástica de Alex Sander. Levei para
casa duas de suas obras: a história em quadrinhos musicalmente impecável “Gibi
Jazz” e a “Memórias de um cartunista” (que, em breve, receberá também uma
postagem exclusiva). Quem quiser conhecer um pouco mais da arte de Alex Sander, recomendo o blog deste fodástico cartunista, aí vai o link: http://burraxa.blogspot.com.br/
Reservo parte da noite para
minhas leituras e, ontem, deixei um pouco de lado as páginas do romance “Por
quem os sinos dobram”, obra-prima do escritor estadunidense Ernest Hemingway,
para ler as imagens da HQ “Gibi Jazz”. É incrível como essa obra de Alex
Sander, recheada de fodásticos desenhos, leva nossos olhos, quase pausados para
a escrita (a revista quase não possui linguagem verbal, ou seja, fala mais – e
muito eficientemente bem - com imagens que
com palavras), a um show mágico de jazz visual, iniciado por um silêncio
kafkiano e soturno do cartunista, entremeado por notas de sonhos, que nos levam
para a explosão final de uma trilha sonora de desenhos brilhantes que tocam,
dançam e embalam a nossa visão carente de sons. Sim! As páginas do gibi “Gibi
Jazz” trazem música pra os olhos! É como se, à medida que folheamos suas
páginas, o melhor do jazz tocasse em forma de imagem os toca-discos esquecidos em
nossos globos oculares. Dá aquela sensação boa de nostalgia pela canção de jazz
jamais ouvida.
Foi inspirado nesse “Gibi Jazz” e
nas múltiplas sensações visuais-sonoras-instintivas que a HQ de Alex Sander
proporcionou aos meus olhos, que me nasceu a visão do poema abaixo, recém-escrito,
tocando jazz com sonhos que não tive, mas que sei que existem.
Pra ler folheando as palavras e
tirando sons do nada, amigos leitores!
Poema Jazz do café que jazia sobre a mesa na qual minha cabeça
adormecida despertava para a insônia dos sonhos que jamais sonhei
Foi naquela caneca de café sem o toque dos meus lábios
que me toquei que os sonhos me procuravam
e eu não sabia...
Eu não sabia que delírios viviam no café que não tomei.
Eu não sabia que os sonhos me bebiam
enquanto eu cochilava diante da caneca de café que eu deixei...
Eu não sabia, mas agora sei.
Sei que eu poderia ser um personagem de Kafka
dormindo na face intacta
de um livro que ele não escreveu.
Sei que os sonhos vivem nessas páginas que não li,
nessas palavras que não escrevi,
nesses desejos de outro eu.
Enquanto meu corpo jazzia
entre a escuridão de uma música jamais ouvida
e a clara neblina de outra insônia interrompida,
os sonhos gritavam canções de um jazz desconhecido,
um toque novo de Hermeto Pascoal em meus ouvidos,
lá estou eu percorrendo uma estranha estrada,
rumo ao caminho mais lindo do meu nada!
Enquanto meu corpo jazzia,
minha imaginação cantava o inaudível,
desenhava o indescritível
e o invisível dançava na dose de café que não tomei.
Antes eu não ouvia,
antes eu não cria,
antes agora é só uma fantasia que eu outrora criei.
Antes a partitura adormecia nos olhos que só sabiam ver,
e agora, com os olhos cegos, eu consigo ler
todas as notas silenciosas que nunca enxerguei.
Agora, mesmo dormindo, eu acordei
e toquei, na rotação de um tempo perdido,
o acorde inesquecível de um jazz que jamais toquei.
Agora, assim perdido no completo,
sentindo o longe tão perto,
agora sim eu vivo desperto
nesse oculto descoberto
dentro do saboroso café que não provei.
O vídeo acima traz um dos "Discos Inspirações" do "Gibi Jazz" e foi a trilha sonora que ouvi enquanto elaborava o poema