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quarta-feira, 2 de novembro de 2022

No Dia de Finados de 2022, eu, mais uma vez, choro o Dia de Finados + Este Se


2 de novembro de 2022, Dia dos Finados, 3 dias após a divulgação do resultado da acirrada eleição presidencial de 2022. O clima, meio chuvoso e bastante melancólico, como costuma sempre ser neste dia de luto, elegia e filosófica consternação, na atualidade turbulenta, ganha múltiplos significados: por mais que tentemos dizer que a democracia vai bem, apesar de respirar por frágeis aparelhos, parece que sempre estamos de prontidão para sua extrema unção, parece que finados e democracia são atualmente palavras relacionadas. E a chuva desse dia, que relembra os mortos de nosso dia a dia e rememora a necessidade de uma passagem sustentável pelo luto até a difícil aceitação, molha levemente os ombros dos eleitores do candidato vencedor como se lavasse as escadarias sujas de uma igreja ou templo, como se banhasse com tímida esperança todo peso carregado durante muito tempo até a difícil e muito aguardada vitória, mas também encharca as capas e corpos dos eleitores do candidato perdido perdedor que bloqueiam estradas, saídas e entradas de um novo despertar – nestes eleitores, sonhadores de antigos pesadelos confundidos com utopias inexistentes, as gotas são pesadas; mesmo suaves, parecem furiosas, ameaçadoras, como ovelhas que rosnam como lobos quando acuadas, quando se sentem intransitivamente desesperadas. Neste 2 de novembro de 2022, neste Dia de Finados, há muito mais que pessoas mortas, há ainda vida em transe, há purgatório, sentimentos mal resolvidos, futuros trafegando entre céus e abismos, permanecendo neste entre, nem elevado, nem caído, apenas uma incógnita indecifrável porque as pessoas-problemas da equação não se unem para resolver a questão, como se cabo de guerra pudesse substituir as operações básicas racionais da civilidade, reflexão, autorreflexão (sim, seja de qual lado estiver, a fissura e a questão deve ser contemplada e autocontemplada por todos), adição, subtração, multiplicação, divisão, comprovação, constatação, união e entendimento.
Há anos, nós, brasileiros, estamos dando murro em ponta de faca, nos dividindo não como múltiplos seres pensantes com pontos de vistas opostos e a postos para o debate, mas feito facções fanáticas de torcidas furiosas com armas (visíveis ou ocultas) em punho, empenhadas em armar brigas (mesmo se me disseres ser da paz, sabe que alguma provocaçãozinha você não resistiu e praticou, despertando gatilhos de armas, que, às vezes, por arrogância disfarçada de altivez, você nem observou. E o outro, estouradaço, nem sabe como tudo começou. E todos juntos, sem pensar, pescados pelos ganchos do matadouro da inconsciência virulenta coletiva que vai completando mais de 9 anos de eficiente devastação programada). E todo 2 de novembro, como o de 2022, há mais de 9 anos, tenta trazer chuva ou sol para lavar ou secar o sangue que perdemos a cada novo murro na ponta da faca (mudamos a forma e a posição de socar, mas, se continuamos acertando a lâmina, vamos continuar a sangrar). Há mais de 9 anos, nós sangramos, sangramos e continuamos a sangrar, e não tem operação, curativo, remédio ou milagre que estanque uma ferida tão constantemente aberta. E não tem finado que descanse em paz se finado nunca está, se mantemos a obsessão, se não resolvemos os casos. Temos que parar de esmurrar a faca.
Sabe, eu tenho me sentido esgotado. Mesmo quando não faço nada, nada, me sinto cada vez mais esgotado. Essa sensação de lutos mal resolvidos, mal enlutados, essa percepção de constante estado de confronto, essa sensação de andar sempre numa multidão bipartida, tem sido difícil suportar o falecimento de uma antiga poesia inventada que caminhava entre nós, brasileiros, e que, agora, vive exilada em algum lugar bem distante de nosso país. Dias de finados sempre tiveram pesos sutis como lágrimas gentis, mas, de alguns anos pra cá, parecem estar com cargas extras, como se velassem um morto-vivo, uma agonia que não para nem pra se cansar de vez, nem pra definitivamente descansar. Mas, mesmo esgotado, ainda espero (e, por meus parcos líricos meios, tento provocar), ainda anseio, todo ano, rever o 2 de novembro como ele outrora foi e como deveria ser: o Dia dos finados, o Dia das Elegias mais Lindas. Mas ainda não foi em 2022, ainda não foi desta vez – como nos anos anteriores, 2 de novembro, infelizmente, foi o Dia dos finados que não finaram, dos mortos-vivos que agonizam por um mundo melhor, o dia da Agonia Temporariamente Infinita mais Esquisita. Sei que 2 de novembro de 2022 tentou, mas nós, brasileiros, precisamos colaborar, pois ainda não foi desta vez. Espero que, em 2 de novembro de 2023, essa agonia temporariamente infinita passe e que o dia volte a me inspirar e tocar como a canção “Elegia”, de New Order, ou a “Canção pra você viver mais”, de Pato Fu, e não como os 9 círculos do inferno de Dante.

Quem sabe, amanhã, nós, brasileiros, após termos estragado mais um Dia de finados, finalmente, não tomamos orgulho de toda nossa cara (porque vergonha na cara já virou face de tanto que a postamos na nossa selfie), velamos respeitosamente nossos mortos, pedimos perdão aos nossos fantasmas e voltamos a amar nossos próximos como se não houvesse amanhã?




E, para não deixar a postagem sem um poema, trago um poemeto fragmentado, “Este se”, de minha autoria, publicado em meu nono livro “O nada temperado com orégano” (2015). Esse poema deveria ter sido publicado no meu quarto livro “O último adeus (ou O primeiro pra sempre)“ (2004), tanto que aborda a temática de saudade, explorada em minha quarta obra. O poema, escrito após o falecimento de meu tio Darlei, o qual eu visitava frequentemente na UTI, juntamente com meu tio João Gomes, sempre teve um caráter meio incompleto [a incompletude vem com certeza da partida brusca de meu tio e a sensação de culpa por não tê-lo visitado mais uma vez antes de sua partida – o tio João sempre me chamava, mas no convite mais recente, estava muito cansado do trabalho e acabei deixando minha terceira visita para um depois que não haveria] e acabou ficando meio deslocado nas divisões de capítulos de meu quarto livro, culminando em sua retirada e sendo publicado muito tempo depois. Como vivemos uma Era de Se no Brasil, acho que o poema se encaixa com a crônica postada e com o nosso contexto.

Este se
Carlos Brunno Silva Barbosa

Se eu não tivesse desaparecido
talvez você não visse a minha última imagem
como um sonho
e não voltasse a dormir.
Eu queria tirar essa culpa, este se
dizer: não! foi tudo um pesadelo
mas você não está aqui
pra me acordar.



segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Minha crônica homenagem atrasada ao Dia do Poeta: Um Paraíso especial para artistas


Há quatro dias foi o Dia do Poeta e a postagem não vinha - trabalho na escola, trabalho na arte, fúrias e frenesis no dia a dia faltando pouco pra emblemática eleição, mil e um compromissos e desculpas pra adiar a postagem que não acontece.
Um dia antes do Dia do Poeta, recebi a primeira mensagem de Juliana me informando de uma nova edição da Roda de Leitura Além da Palavra, o tema era democracia, essa musa hoje em dia diariamente espancada; lembrei de Pedro Lage, Mestre Poeta que outrora e sempre nos guia além da palavra.
Na primeira vez que participei da roda de leitura, a convite de Cristiano Mota, Paulo ainda estava entre e em nós, depois o hiato, agora ele em nós, mas distante dos olhos comuns, assistido apenas no tempo quando pelo coração lírico (como dizia Augusto Frederico Schmidt, em “A ausente”, “Só no coração sempre ferido do poeta / É que não vão depressa os que se vão.”). Depois veio uma nova edição da roda de leitura, uma homenagem a Pedro Lage, uma elegia épica coletiva lírica cheia de vida, na qual, mesmo ternamente convidado novamente por Cristiano, naquela enlutada vez, não sei por quê não fui (sempre as pre-ocupações, as mesmas desculpas e as dores inexplicáveis na alma).
Em uma edição do Sarau Florescer Nit, de Niterói, em junho, no Solar do Jambeiro, convidado pela musa divartistativista Jammy Said, declamei um poema dele, “Abismo”, que me toca bastante, recitei como se me desculpasse por minhas ausências em homenagens anteriores e não me perdoo por, num golpe de vista, tropeçar e alterar um verso (mais culpas sem crimes previstos, mais agonias inexplicáveis infinitas).
Muito tempo depois, no Festival de Inverno do Sesc, outro sarau, que tomei conhecimento pela bibliotecária artistamiga Ana Cristina, em um julho festivo tristemente maravilhoso, eternizando Pedro Lage mais uma vez, com a presença ilustre do mago marginal Chacal, assisti ao recital, mas não ousei declamar; sempre ativo em tantos evento, ali passivo, mero tímido espectador não sei por quê (cansaço do corre-corre, do de-lá-pra-cá de eventos, um monte de desculpas pra tentar entender o que não se há pra entender, mais o inconsolável no ponto insistindo em me prender e me apreender).
No ínterim desses tempos passados caoticamente lembrados por mim neste momento (o passado sus-surrando com o presente, fazendo a esquizofrenia sorrir em minha narrativa), um pouco logo após a notícia da ida sem volta de Pedro Lage para o adeus sem despedidas e depois que faltei à primeira homenagem a ele, fiz uma crônica que, durante um tempo, só mostrei ao mestre artistamigo Cristiano, pensei em entregar a Juliana, a outro alguém leitor/leitora na noite do sarau do Sesc, mas não entreguei (sempre que volto naquele evento na Biblioteca do Sesc, me olho atônito: “Vai, Carlos, larga essa postura tímida inexplicável indefinida”, mas nada digo, por mais que retorne, por melhor que seja o idílio máquina do tempo inventora de novos passados, eu nada digo além de parabéns a todos os participantes e envolvidos).
Nesse meio tempo, acabei mandando a crônica para outros ilustres alguéns leitores/leitoras, para um concurso, no qual ela foi finalista (CATEGORIA CRÕNICA, MODALIDADE PÚBLICO EM GERAL, no VII CONCURSO LITERÁRIO PROMOVIDO PELA ACADEMIA LEOPOLDINENSE DE LETRAS E ARTES, em Leopoldina/MG, em setembro de 2022).
E, voltando ao tempo passado recente, no dia 19 de outubro, fui novamente convidado para um Sarau Além da Palavra, desta vez pela primeira vez por Juliana: eles retornariam em um sábado, dia 22 de outubro, simbolicamente, liricamente e realisticamente chuvoso, sim, mais um magnífico evento!... Só que, por razão de outro igualmente magnífico evento (do qual falarei em outra futura postagem com imprevista data), que eu já havia confirmado presença, não fui além, ao Além da Palavra (até tentei passar pelo evento no início, mas a chuva, somada ao meu relógio sempre voltado para os ponteiros em cismas e em cima das horas, não consegui realizar tal feito, restando-me apenas áudios-defeitos, em quixotesco desalento, implorando desculpas para Juliana e para Ana Cristina em mensagens privadas no whatsapp).
E assim, já passados o Dia do Poeta, o Sarau Além da Palavra, os dias e noites de democracia cada vez mais maltratada com a companhia de chuvas esporádicas, a postagem não vinha, por isso esse vazamento sem filtro de tempos e lembranças, numa caótica abertura para oferecer aos amigos (e)leitores a crônica citada, quase que igualmente ‘escritiliricaoticautomaticasentimentalmente’ concebida como esta introdução.
A Pedro Lage, in memoriam
e ad infinitum

Em homenagem atrasada ao Dia do Poeta e a tudo que eu poderia ter publicado há muito tempo e que sempre deixo pra depois, segue a crônica “Um Paraíso especial para artistas”, de minha autoria, em homenagem especial ao Mestre Poeta Pedro Lage, que, como muitos, mas ainda poucos, nos levou, nos leva e sempre nos levará muito além das palavras.
Boa leitura e Arte Sempre!

Um Paraíso especial para artistas
Carlos Brunno Silva Barbosa

Creio, com todo meu coração, que existe um Paraíso especial para artistas. Nenhuma outra crença justificaria melhor toda devoção destes seres excepcionais que se preocupam em criar universos incríveis e, ao mesmo tempo, críveis para a humanidade. E precisamos rezar pela existência desse paraíso, precisamos manter a fé em um lugar melhor para esses seres aparentemente estranhos e extravagantes que se dedicam a nos trazer conforto (mesmo quando nos desconfortam) com outros mundos possíveis e impossíveis, tão próximos e, ao mesmo tempo, afastados, mas sempre melhores (ainda que pareçam e se façam piores) dos que nossas visões limitadas (em comparação às dos artistas) podem alcançar.
Apesar de numerosos, ainda são poucos os mortais que conseguem alcançar a imortalidade onírica, ainda que mortos. Desses numerosos poucos, estão artistas (assim mesmo, concretista abstrato, sem artigos definidores ou indefinidores, em coerência louca com a mística real indefinível e infindável do grupo citado). Acredito muito na crença advinda principalmente de religiões africanas e afro-brasileiras de que um indivíduo só morre realmente quando se é esquecido. E não podemos esquecer de artistas. Mesmo quando morrem, é necessário que façamos um altar de lembranças de suas obras pelo bem da memória humana, pelo bem de toda humanidade.
Tais crenças e reflexões me vêm em um fim de semana triste. Há pouco soube do falecimento de mais um grande poeta que eu conhecera há pouco e por tão pouco tempo. A notícia me veio atrasada por culpa unicamente minha – todos já sabiam e tentaram me informar, mas, às vezes, cometo o pecado de me dessocializar, me desligar do mundo e das notícias. E foi assim que o poeta carioca Pedro Lage, que, como Manuel Bandeira e Olegário Mariano, fixou residência em Teresópolis/RJ, morreu durante vários dias em silêncio pra mim. Houve enterro, depois saraus em homenagem a ele, in memoriam, houve muitos acontecimentos nos quais eu poderia ter comparecido, participado, mas não estive lá, contrariando as ações de minhas crenças citadas e cravando em mim mesmo o estigma do pecado do que poderia ter sido e não foi, da enchente de tudo que poderia ter feito e jamais fiz. E o tempo não volta para expiar tais pecados. E o presente não volta a quem vira passado. Pedro Lage, a pessoa, morreu e o ponto é triste e final. Mas Pedro Lage, artista, reside na imortalidade, não morre. É preciso manter como crença; é o que a culpa e eu - e todos que ousam me ler - precisamos para que a humanidade lírica e sonhada permaneça viva, invulnerável à falência total na falta de sentido da vida sentida sem sentido.
Graças a um grande artista amigo meu, o Cristiano Motta, conheci Pedro Lage em uma roda de leitura com o sugestivo nome “Além da palavra”. Foi na última edição deste evento na qual Pedro Lage ainda estava vivo que o conheci. Foi a primeira vez e também a última. O verso “A primeira vez é sempre a última chance” da letra de música “Teatro dos vampiros”, de Legião Urbana, composta por Renato Russo, me vem à mente agora, mais uma vez em mais uma vez em que alguém perde a vez, tão próximo e tão distante de mim. E lágrimas correm com a mesma infinidade de culpa e (in)consequente vergonha por demorar a me fazer saber e de lembrança de quantas inúmeras vezes esse verso premonitório de canção me avisou e se repetiu como um refrão em minha mente mais uma vez.
A roda de leitura “Além da palavra” era um projeto admirável e com objetivo evidente: os participantes traziam de volta não à vida, mas à eternidade diversos artistas das palavras; cada integrante da roda de leitura reservava um loteamento maravilhoso no devido espaço etéreo do sempre outros artistas ou a si mesmos ou ambos os casos. Fiquei encantado: as crenças nas quais eu acreditava estavam sendo postas em prática e o número de devotos crescia exponencialmente diante de mim. E vi, naquele dia, Pedro Lage crescer, gigante, ascender, enquanto declamava poemas seus e de outros outras outres poetas. Pedro Lage, nos poucos momentos em que estive com ele, me fez rever a eternidade, ainda mais bela e eterna do que antes a vira ou sonhara vê-la; o Paraíso especial para artistas nunca esteve tão elevado e tão próximo. E Pedro Lage, assim como voava enquanto declamava, voou além da palavra e da vida terrena, e, ao mesmo tempo, se mantém elevado e próximo nas palavras publicadas, lembrada, na devida residência no Paraíso especial para artistas, cujas casas de eternidade ele incansavelmente tanto ajudou a construir.
E é preciso crer na imortalidade de artista, é preciso jamais deixá-los no limbo do esquecer, é preciso solidificar a eternidade, e, por isso, eu leio, declamo, escrevo, continuo a escre(crer)ver. Sinto muito, Pedro Lage, por ter ameaçado esquecer as infindáveis lições de fé que, em tão breve e, ao mesmo tempo, infinitos momentos, você me passou em vida terrena e que, agora, me passa de sua eterna (e terna) imortal residência no Paraíso especial para artistas. Mantenho a fé e, apesar de ausente na sua ausência imediata, resgato a crença das possibilidades impossíveis de eternizar você.
Por Pedro Lage e por tantos artistas inúmeros poucos, o Paraíso especial para artistas existe, a imortalidade para artistas existe. E preciso manter essa fé, é preciso ler, divulgar, declamar, escrever, continuar a crer.
In memoriam e ad infinitum.



No vídeo abaixo, declamo atabalhoadamente o poema "Abismo", de Pedro Lage:




sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Outra crônica crônica prosa poética antipoética inédita de minha autoria: Declaração quartoplanista do poeta saudoso à musa negacionista que nega a fúria do mundo, mas não nega amor

Quadro de Vincent van Gogh - 
"Quarto em Arles (1ª versão)"
- outubro de 1888 - óleo sobre tela 
Após outro hiato de tempo (que já está se tornando contraditória tradição), eis eu aqui de volta ao blog. Há um tempo ando meio sem inspiração e meio que praticando autossabotagem pra este hobby lírico blogueiro, sumindo de redes sociais, procrastinando reflexões, adiando postagens, enfim, virtualmente desligando-me, invisibilizando-me. Diante de uma realidade complicada e cada vez mais opressiva, transferidora de impunidades e benesses aos torturadores cotidianos e de exigência de sacrifícios incomensuráveis e falta de perspectiva aos sobreviventes do caos diário, sinto sempre vontade de que um disco voador apareça e um ET me informe que veio me buscar pra voltarmos pra casa. Neste alheamento de tudo, pelo bem de uma mínima saúde mental, fica sempre na minha cabeça o desejo de retornar ao blog, mas o desejo fica na vontade – sinceramente, estou meio de saco cheio desse tudo tão nada, desse caos tão bem organizado pelos vilões de sempre. No esforço de vencer as barreiras, tento mais uma vez retornar, sempre batendo de frente com a realidade e com as ruínas de mim mesmo.
Hoje deixo uma crônica / prosa poética inédita minha, meio atual, meio no meu eterno passageiro tempo nunca (de Terra do Nunca, de adulto criança adulterada que cresce infantilmente, crescendo no sem querer crescer; se o tempo de Vinicius era o tempo quando, o meu – sempre liricamente contraculturado em relação aos contemporâneos – é sempre o tempo nunca). Espero que gostem. Por enquanto é só (eu coletivamente só).

Declaração quartoplanista do poeta saudoso à musa negacionista que nega a fúria do mundo, mas não nega amor

Faz mais de um ano que nos beijamos sem nossas máscaras. Na cama, preservo as marcas fantasmas do teu batom de escândalos em segredos. Em meu universo quadrado, na infinidade plana de meu quarto, eu guardo toda violência pacífica de nossas fantasias, enquanto círculos de ódio giravam selvagemente realistas em bolhas bárbaras das redomas separatistas da nova civilização animalesca bipartida, por todos os nossos lados, afrontando toda a fúria amorosa em nós, atacando por atacados, afrouxando todos os nossos agridoces nós.
Faz muito tempo desde quando negamos esta estranha negação coletiva de que uma parede disposta à esquerda, ao centro ou à direita precisa de suas opostas para formar o abrigo ideal. Ah, musa adversa, quantas contradições gostosas usufruímos em harmônico embate de diferentes posições; como não negar o negacionismo saudável das naturais oposições? Enquanto nos debatíamos em paz acalorada na superfície plana das quatro paredes harmonizadas, o mundo em guerra girava sua metralhadora de insensatez ingloriosa, provocando novas invisíveis doenças, cultivando o vírus da falta de ciência em compreender que um corpo precisa de seu igual oposto pra fazer a inércia se mexer.
E com isso o mundo parou, violado por anti-rosas estúpidas e inválidas semeadas por batalhas desnecessárias que nenhum ser são provocou. Faz um tempo que a loucura involuntária e bestificada nos separou.... Mas preservo as memórias das noites iluminadas, dos dias de trevas intimamente abençoadas, pois sei que todo rebanho de raiva passa, toda pandemia de violência uma hora acaba. Por mais que a firme utopia pareça inativa, há poesia em cada segundo de nossa vida adiada. Mantenho a casa resguardada, imunizada com tua presença espectral. Teu retorno revolucionário pro nosso lar quadrado, infindo, falsamente limitado, será a vacina mais duradoura, magicamente real: teu retorno amor (assim sem vírgula e sem pudor) é e sempre será a cura de todo mal.

domingo, 26 de setembro de 2021

A educação como prática de manipulação: Paulo Freire e eu passeando pela Educação Capitã Gancho da Terra do Nunca

Paulo Freire faria 100 anos neste ano (possivelmente, dificilmente fizesse diante de tantos surtos que encararia vendo os seus detratores no poder manipulando planos de 100 anos de atraso para educação). Além de escritor, sou professor. E, como professor, devo meus aplausos à educação como prática de liberdade de Paulo Freire; sim, ele é um dos poucos pedagogos que realmente me inspirou plenamente. E, diante de antipedagógicos planos de retorno às aulas presenciais, ouvindo a denominação de ensino híbrido ao que está longe do real e potencial híbrido e muito próximo do burocrático, new-skinnerano-fascistocrático e bizarro (se liguem: primeiramente atiraram pessoas ao vírus sem proteção numa subversão tosca da expressão “imunidade de rebanho” – que só acontece com vacinação -; agora, com menor visibilidade [porque, no fundo, no fundo, no fundo, pode confessar, ninguém liga bulhufas pra educação há muito tempo, desde que a família seja preservada com os filhos bem ocupados, atirados à responsabilidade de outrem], fazem escolas de repositórios pra politiqueiro poder se orgulhar enquanto a expressão “ensino híbrido” ganha deformações aliens; a educação nunca esteve tão mal educada, para felicidade dos infelizes governadores da Retrogracia Dominante), diante dessa porra toda (não gostou do palavrão, fui mal educado? Pois é... né... foda-se: falar atualmente de educação – como apaixonado por ela - me deixa bastante mal educado diante da farsa que se encena) e diante de um convite do escritor-amigo Alessandro, da Oficina Poesia & Criação, fiz uma crônica inspirada nas minhas idas e vindas com Paulo Freire.

 Paulo Freire e eu passeando pela Educação Capitã Gancho da Terra do Nunca

Carlos Brunno Silva Barbosa

 

Minha relação com Paulo Freire foi marcada por idas e vindas, ausências e plenitudes.

Confesso que o conheci mais tardiamente que esperava. Dirigindo-me ao túnel do tempo, nos redemoinhos que a memória faz, meu eu presente, ao rever caminhos e descaminhos do meu passado, viajando aos meus tempos de aluno, até ouve alguns sussurros de Paulo Freire que saíam meio sufocados em algumas raras práticas pedagógicas. Mas basicamente vejo-me orientado por um ensino mais tradicional e, muitas vezes, ainda engessado do tecnicinismo da recém-encerrada, porém, infelizmente, jamais suplantada, era ditatorial brasileira. Salvos alguns professores brilhantes, lutando desarmados contra tanques de automatização, fui educado no regime mais tradicional e imbecilizante conservador possível, num processo muito bem elaborado, competente, mas frígido. Minha formação escolar me gera sentimentos contraditórios: não há como negar o enriquecimento enciclopédico que me forneceram, mas também não se pode ignorar que me fizeram um estudante coberto de conhecimentos extravagantes, untado numa forma uniforme, fabril, mas falível em inteligência emocional e burro para entendimentos de meu papel social.

Só vim a conhecer e reconhecer a educação pela prática de liberdade de Paulo Freire na faculdade. E, mesmo assim, de forma paradoxal: conheci o trabalho do formidável pedagogo através de aulas expositivas e da leitura de seus livros, fiquei admirado, mas toda essa revolução educacional fascinante ainda me era apresentada por acadêmicos geniais, mas ainda entranhados de tradicionalismo e tecnicinismo. Muitas palestras e declarações apaixonadas sobre Paulo Freire, mas tudo transmitido em estruturas rígidas, conservadoras e consciente e inconscientemente conservantes. A educação preconizada por Paulo Freire continuava sendo uma menina linda, cantada por todos, mas relação prática íntima com ela, nada (você está na faculdade, rapaz, se vira!).

Ainda hoje, como professor, convivo com este paradoxo. Conservo o legado e inspiração de Paulo Freire, tento, com os meios parcos que possuo, praticar – este é o verbo, que fica só sendo verbalizado, e raramente aplicado – sua educação libertária. Pratico algumas adaptações de suas técnicas: evito livros didáticos como muletas, produzo meu próprio material de acordo com o contexto dos alunos (em aulas iniciais, uso gêneros como autodescrição em sites de redes sociais virtuais, autobiografia, etc, para colher informações pessoais dos estudantes para melhor conhecimento das turmas, numa tentativa de replicar a genial ideia freiriana de se entrevistar e conhecer a realidade de sua comunidade escolar antes de elaborar o seu material de aula), me desdobro com atividades que possibilitem que os alunos tomem consciência de seus papéis sociais e tenham voz no processo ensino-aprendizado, mas, de vez em quando, o próprio sistema de ensino e a sociedade engessam os profissionais da educação, limitando-nos com preconceitos e/ou sufocando-nos com papelada e documentações que empacam em tradicionalismo e tecnicinismo. Confesso que, às vezes, exausto, traio Paulo Freire e caio em facilitações, mas só damos um tempo; depois voltamos e nos revoltamos aos princípios retrógrados que ainda regem a educação brasileira.

E, nesses longos anos de harmoniosa relação, com breves hiatos de instabilidade, Paulo Freire e eu xingamos os opositores da educação libertária freiriana, que, em sua maioria, nunca leram nada deste formidável pedagogo e ainda têm a audácia de fakenewar que a educação brasileira está no fundo do poço por causa do magnífico – e agora centenário – pedagogo. A verdade é o oposto: a educação brasileira está no fundo do poço, porque atiram a pedagogia freiriana como se ela fosse um conjunto de frases motivadoras, ao invés de realmente praticá-la. Salvo raras exceções, nunca tivemos a educação freiriana realmente praticada, executada. Fica aqui a minha conjuração, a minha confessa inconfidência: educadores, tiremos a educação freiriana do mundo das ideias e pratiquemos mais a educação concretamente libertária. Só assim tiraremos as algemas que prendem a educação brasileira ao fundo do poço, situação ignorantemente empoçada (e empossada) por nós mesmos.

 

domingo, 15 de novembro de 2020

Crônicas crônicas eleitorais: O voto inútil

É a segunda eleição consecutiva que vou para votar com a alma já derrotada. Sei – infelizmente sei e considero que seria mais infelizmente não saber (é a única forma de conforto para me manter menos doente e ainda consciente) – quais são os jogos tenebrosos recentes de poder (se já não eram, em minhas fases de maior inocência num cenário em que crises não flertavam tanto com o animalesco instinto homicida-suicida humano) e sinto úlceras ancestrais só de ver os jogadores que podem ser escalados na perpetuação da kamikaze partida.
Esqueça seus sonhos, encare a realidade e escolha entre o pior que tá, o pior que tá não fica e o pior que pode piorar – eis suas principais opções. Outras alternativas? Talvez um novo tão velho quanto aquele aristocrata que alimenta as traças da tradicional história confundida com a História maiúscula, das grandes minorias, do verdadeiro povo, que não têm noção que foram, são e sempre deveriam ser os protagonistas de sua História, mas que, por instinto primitivo de sobrevivência devido à quase total miséria média-classicamente e milionária-predatoriamente imposta, preferem se aliar aos seus usurpadores num contrato de migalhas temporárias e perdas permanentes. Ou talvez um novo com velhos sonhos, quase sem chances, que busca representar as grandes minorias, o verdadeiro povo, sem conhecê-los, sem perceber que elas não se veem tão representadas quanto ele as conclama estarem. Ah, e o pior: o novo e o velho abraçados ao mesmo monstro, que prega dogmas e fascismos antiquíssimos, tão antigos e peçonhentos que as grandes minorias, o verdadeiro povo, com a memória empobrecida pela desilusão das inglórias imediatas fortificada pelos venenos esquecidos, os confundem com elixires divinos e se iludem com remédios que são, na verdade, placebos, como se doenças erradicadas no passado fossem curas para doenças modernas, quando doenças comprovadas, parasitas seculares e venenos mortais continuam sendo, em qualquer tempo, doenças comprovadas, parasitas seculares e venenos mortais. 
Sim, confesso, ando há algum tempo cético e cada vez mais perturbado com as partidas políticas. Antes, ao menos, se parecia mentir por um projeto político; hoje, apenas se mente – não há mais nenhuma necessidade de aparentar ter um projeto. Há carreiras políticas como carreiras de cocaína – todos querem enfiar o nariz na droga do poder. Tem-se planos sem planejamentos; tem-se intenção sem objetivos; tem-se propostas sem contrapropostas. Ninguém projeta e os desperdícios, despreparos e a falta de empatia e respeito às normas básicas mínimas de cuidados consigo e com o próximo durante esse período de pandemia são uma evidência dos descaminhos da involução humana. Minha utópica anarquia chora, pois não se pode sonhar mais sonhar que cada um pode cuida de si em prol do coletivo, porque este é um sonho humano e somos cada vez menos humanos. E, em tempos de eleição, somos menos humanos votando em busca do menos desumano – o que não muda o fato de estarmos escolhendo jogadores que trazem a desumanidade em algum lugar para uma partida destrutiva que durará mais quatro anos de proliferação da desumanização que, de tanto sagrar-se vitoriosa, seja qual for o time desumano que ganhar, enraíza-se e perpetua a nossa gradativa e cada vez mais íntima assimilação da desumanização – sim, tenho me elegido menos gente a cada eleição. 
Saio da seção eleitoral com a alma derrotada. No caminho, vejo bocas escancaradas, com ou sem máscaras. O Homo Sapiens se tornou o homem que finge que não sabe a involuir ao homem que não sabe até chegar ao Des Homo, Des Gente, todos Obrigados e Des Nadas. “Quem será o desumano da vez?”, algum eleitor fantasma, que já sabe a resposta, me pergunta só para me aterrorizar. “Será um desumano, como eu ou você, ou mais desumano, como futuramente vamos ser.”, ameaço responder, mas calo-me outra vez; às vezes omitir é uma humilhação mais confortável, dói menos que a insuportável revelação. Mas ainda assim é derrota, ainda assim é mais uma humilhação. Ainda assim dói demais. 
Retorno para casa e minha alma derrotada descansa sem descanso em mais um domingo morno meio morto.

domingo, 19 de julho de 2020

Crônica de um seguidor do Mito Capitão Britânia: Meu vá se f... a quem profere a frase “Os tempos são outros e você TEM que se adaptar”


Uma frase que se tornou amplamente popular no século XXI e que me ressuscita gastrites milenares na alma pensante é a frase feita “Os tempos são outros e você tem que se adaptar”. O modelito camaleão pra toda obra virou sucesso na moda de todas as estações, principalmente como meio de manobra para manutenções de históricos sistemas de exploração e, mais atualmente, para sustentação de métodos contraditórios como a “imunidade de rebanho” (atira-se os animais aos perigos e os sobreviventes, pelo próprio fato de sobreviverem no ambiente de provável massacre, trazem a solução vitoriosa para vencer os obstáculos impostos, fato que deveria justificar todo e qualquer sacrifício, mesmo que numeroso).
Usando-me da ironia (sim, hoje em dia, temos que explicar até o uso da figura de linguagem mais simples, antes que alguém copie e cole e diga que você disse o que não disse), a frase “Os tempos são outros e você tem que se adaptar” é ótima! Pensemos no marido, esposa, namorado, namorada, que, incompetente em sugerir uma relação mais aberta de forma sincera, é pego pelo outro/outra em flagrante relação íntima (não mais) secreta com outra pessoa. Basta declarar “Os tempos são outros e você tem que se adaptar”, atira a palavra “traição” ao index do tabu contemporâneo e implanta a relação mais aberta (só para ele/ela) que, durante tempos, ele/ela não teve coragem e competência para sugerir – desmascarado(a), ele/ela mascara, com precisão, eficácia e conveniência, sua incompetência particular. Outro exemplo muito “legal” e mais comum: o patrão/patroa precisa que seus empregados trabalhem acima de uma carga horária humana para que a empresa/instituição sobreviva à voracidade autômata(dora) do mercado selvagem. Sem competência para criar meios alternativos mais humanistas e com muita impotência e bastante covardia para contradizer a agressividade robótica e imediatista do mercado, basta ao patrão/patroa declarar ao empregado/empregada “Os tempos são outros e você tem que se adaptar”. Pronto: a histórica palavra “escravagismo” vai ao index do tabu contemporâneo e implanta-se a relação de trabalho moderna desassociada à exploração escancarada que ela impõe – despido(a) de soluções criativas humanistas, o patrão/patroa usa a veste dominatrix sem necessidade de que a relação de dominação/submissão no trabalho seja consensual, torna-se empreendedor/empreendedora supermoderno(a), negando suas incompetências, impotências e covardias diante das exigências maquiavélicas do mercado desumanizador. Ou seja, “Os tempos são outros e você tem que se adaptar” é ótimo... caso você precise disfarçar imediatamente uma impotência constrangedora e, claro, caso seja você o emissor (omissor) da frase, e não o receptor (receptáculo vazio, nos termos do outrora superado Skinner).
Vejamos algumas particularidades semânticas da estrutura morfossintática da frase feita “Os tempos são outros e você tem que se adaptar”. Temos uma conjunção “e” que pode indicar adição, o que não ofereceria nenhuma possibilidade de reflexão; propõe uma soma de acontecimentos e ações que devem ser seguidos de modo autômato, como se fossem acontecimentos e ações naturais, que não exigem pensamentos profundos para serem realizados – vai, robô transformer, é hora de morfar sem pensar! O “e” também pode ser pensado como conjunção conclusiva, o que nos traz um paradoxo filosófico, afinal conclusões devem ser tomadas após reflexões e a conclusão trazida na sentença “Os tempos são outros e você tem que se adaptar” nos traz uma imposição, sem possibilidade de abstrações reflexivas. Agora observemos a oração “e você tem (...)”. Sintaticamente, você é o sujeito simples, ok, mas, praticamente, o “você” não é um agente ativo, precisa aceitar passivamente a ação de ter (que em nenhum momento propõe ser sinônimo de possuir, e sim de ser obrigado) em uma oração que aparenta ser ativa, mas é disfarçadamente passiva. Resumindo: “e você tem” em conjunto com “que se adaptar” não tem nada de ativo, o sujeito não age, mas recebe a ação, o que dá à sentença um caráter imperativo, é uma ordem, você é obrigado a fazer – vai, robô transformer, é hora de morfar, mesmo que você não seja robô, nem transformer, nem saiba ou queira morfar. Ou seja, até quando se analisa o período “Os tempos são outros e você tem que se adaptar”, há máscara, polidez linguística, disfarce – quem profere a sentença quer mandar, se impor, e não tem nem coragem nem potência nem sinceridade de expor de forma transparente que está mandando, se impondo e exigindo a sua submissão incondicional, sem desejo de que você reflita sobre a questão.
Entendo a parte “Os tempos são outros”. Os tempos são realmente outros: discursos de ódio e de violência escancarada são amenizados com disfarces de liberdade de expressão, preconceitos enraizados deixaram de ser hipocrisias cordiais para serem considerados como ‘autênticos’ elementos do conservadorismo ‘restaurador’ ‘inerente’ em todo patriota para disfarçar a incapacidade de superarmos nossas mais nojentas misérias e mazelas íntimas que desfazem todo perfil mascarado civilizado que exibimos com extremo mau gosto, negacionismos autoritários são vistos como marcas positivas para afirmação de  identidade para disfarçar a nossa incapacidade de encarar a realidade e o quanto somos negativos e torpes para a vida consciente e pacificamente conflituosa humana, o imediatismo histérico por soluções passageiras substitui planos a longo prazo detentores de soluções mais permanentes, amparado no disfarce do mau uso do verso de Cazuza “O tempo não para” (e só uma digressão: o sumiço do acento diferencial do verbo parar na terceira pessoa tem um efeito interessante, né, pois iguala uma ação [para] que varia entre a intransitividade – independência de objetos – e a transitividade – ação direta sobre objetos - a uma preposição [para] que só serve de ponte passiva para ligar palavras e orações subordinadas, formando doces relações interdependentes). Sim, os tempos são outros e vamos de mal a pior, praticando a nova velha tendência do louvor ao retrocesso com nomes novos e amenizadores para esconder sua aberração retrógrada.
Agora “E você tem que se adaptar”? “Tem”? “Se adaptar” a isso? Ora, para todos que me atiram a sentença, vão à merda (estou usando a sua ‘liberdade de expressão’, gostou? “Os tempos são outros e você tem que se adaptar”, vai ‘sifudê’ e leva o troco, viu, foi bom pra você?)! “Máquina arrogante! Adaptação não basta! Você precisa ter respeito à vida! E a coragem de ter esse respeito!” – são frases proferidas pelo personagem dos quadrinhos (referência nerd detectada) Capitão Britânia, na fase do genial roteirista Alan Moore, quando o super-herói enfrenta “O Lixo Que Andava Como Homem” em um “mundo distorcido” (história originalmente publicada em “ Marvel Super-Heroes 378”, de outubro de 1981). É originário de uma ficção, é só nerdice minha, ok, você venceu. Mas como explicar a estranha sensação de que as frases proferidas por ele não te incomodaram com aquele desconforto peculiar de que talvez um personagem fictício do início da década de 1980 pareça citar frases extremamente convenientes e de possível reflexão para a realidade atual? Como explicar que o “mundo distorcido” que um personagem fictício do início da década de 1980 estranha pode não ser tão distorcido assim, se refletirmos as situações atuais do nosso planeta ‘modernoso’? O quanto a ordem de adaptarmos a nossos tempos ‘outros’ omite a falta de respeito à vida e, principalmente, a coragem de ter esse respeito, implícita na frase feita “Os tempos são outros e você tem que se adaptar” (outra digressão: como essa frase é parceira da também idiotizante “É melhor já ir se acostumando”, né?)? Quantos Lixos que Andam como Homens nos lideram e/ou organizam os rumos de nossas vidas nos metralhando e proporcionando o compartilhamento submisso de frases feitas do tipo “Os tempos são outros e você tem que se adaptar”?
Entendam, não tenho nada contra o ato de se adaptar. Mas, como bem disse o Capitão Britânia (que deve ser super-herói e fictício principalmente pelo fato de entender de distorções de realidade e por ser um capitão consciente e humanista – isto, nos dias de hoje, é raro e ainda não vi nenhum ‘novo conservador’ querendo restaurar essa consciência e humanismo), a adaptação não basta! E frases feitas nos obrigando a nos adaptar não bastam mais ainda! Adaptar é uma ação que pode servir como sobrevivência imediata para respiro de uma situação que precisa ser refletida futuramente, muitas vezes uma atitude primária necessária para superação emergente de um obstáculo imposto, mas jamais deve servir como um pressuposto permanente imbecilizante para subserviência, sub-vivência ou bajulação dos absurdos e autoritarismos aparentemente inflexíveis cotidianos.
Não necessitamos de frases pertinentes e impositórias. Necessitamos de reflexão, de respeito à vida e de coragem de ter esse respeito (sim, eu concordo com o Mito Capitão Britânia). Os tempos são outros, ok, e nós (não só você, eu ou outrem, todos nós) temos que refletir, como seres pensantes, que possuem capacidades e possibilidades de evolução, precisamos refletir, planejar, pensar, querer saber, buscar múltiplas soluções e possibilidades, e aí sim, decidir se vai se adaptar ou não – sim, é uma opção, provém do livre arbítrio (lembra disso, religioso cidadão?).
Os tempos são outros, precisamos pensar e planejar em maneiras para que esses tempos ‘outros’ não se tornem tão ou mais parasitas à vida que outros tempos outros que já vivenciamos, aí sim, com muito amor, respeito à vida e coragem para ter e lutar por esse respeito, talvez se adaptar, mas sem deixar de analisar outras posteriores saídas. Quanto aos que proferem “Os tempos são outros e você tem que se adaptar”, vocês têm que se olharem nos espelhos, observarem as fragilidades e impotências furtivas implícitas em suas posições e pensarem antes de soltarem frases feitas vazias e evasivas (como vocês podem e devem julgar e se defender, usei, como usam, uma frase feita pertinente à minha argumentação e impositória para disfarçar minha impotência de prego cansado de apanhar diante de quem sempre foi martelo que nunca cansou de bater; é minha maneira polida de encerrar meu texto mandando-os à merda mais uma vez).



quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Precisamos falar sobre as flores fúnebres da Primavera: Reflexões tragipoéticas sobre a violência às vésperas da estação florida e mais uma solidão poética compartilhada com um poema de Rafael Clodomiro

Arte de Rodrigo Yokota, disponível em:
http://desacato.info/agatha-como-se-fosse-o-alvo-em-um-jogo-no-video/

3 dias antes da Primavera, a noite ficou mais escura: na noite de 20 de setembro, a menina Ágatha, de 8 anos, foi mais uma vítima da prática irracional do que se convencionou chamar de combate à violência no Estado do Rio de Janeiro. Baleada nas costas, dentro de uma Kombi, quando voltava para casa, na comunidade da Fazendinha, no Complexo do Alemão, mais uma vítima de bala perdida, que sempre encontra um corpo inocente pra fatalmente se instalar, mais uma vítima de uma guerra da qual ela jamais foi informada de que iria participar. Muitos policiais morrem, alguns bandidos morrem, e muitos inocentes também, inocentes demais, Ágathas demais, pobres e negros demais, num confronto armado por um governo estadual que prima pelo belicoso e sanguinário, mas esquece do estratégico, do racional, do humanitário.
"Triste Primavera", foto de Maria José.
Disponível em:
https://olhares.sapo.pt/triste-primavera-foto9277015.html
3 dias depois chegou a Primavera e os jardins produzem belas flores para tétricos funerais, recompõem o estoque gasto no luto apressado, nas famílias despedaçadas, nos cemitérios cheios de escombros de tragédias que poderiam ser evitadas, flores fúnebres carregadas por corações feridos, enlutados e revoltados com as vidas abreviadas por excessiva violência injustificável.
E há tempos não se via um início de Primavera tão mórbido, tão frio, tão desesperador, com tanto desalento, tanta chuva invernal, tanto temor. Precisamos falar sobre esse inverno em plena primavera, neste frio em nossa alma, nesta violência desordenada, nesta Primavera que, ainda enlutada, floresce-nos flores congeladas, um aviso de que precisamos falar sobre Ágatha, não podemos esquecer Ágatha, antes que as flores fiquem escassas diante de tanto enterro fora de hora.
Mais uma noite de Primavera e, durante todo o período, só floresceram lágrimas...
Segundo muitos, diante da insensibilidade arrogante e psicopata do Estado, ainda mais lágrimas florescerão... Até quando?
Hoje compartilho com os amigos leitores um poema lamentação do grande poetamigo Rafael Clodomiro, hoje compartilho a consternação lírica dele, a nossa consternação...

Ágatha, uma criança.
Assassinada pelo Estado.
Pela política de (in)segurança.
Pelo Rio e pelo país desgovernado.
Até quando? Até a esperança
morrer dentro do caos mais agravado?
A desordem vestiu a farda.
E o povo carrega o fardo.
- Rafael Clodomiro

sábado, 7 de setembro de 2019

Privatizando (e, consequentemente, privando) o prefixo In de nossa Independência


Como é Dia da Independência do Brasil, vamos abordar na crônica-postagem de hoje o antônimo da palavra: falemos sobre dependência.
Segundo matéria de 1.º de agosto de 2019, do site Extra, baseada nos dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) divulgados pelo IBGE, o número de desempregados no Brasil foi de 12,8 milhões de pessoas no 2.º trimestre. Apesar da ligeira diminuição de desempregados em comparação ao trimestre anterior, ainda há 12,8 milhões de brasileiros DEPENDENTES de uma política melhor de geração de empregos. Segundo matéria de 31 de outubro de 2016 do site Superinteressante, há uma drogaria para cada 3 mil habitantes, mais que o dobro do recomendado pela Organização Mundial de Saúde. Ou seja: há mais pontos-de-venda de remédios no Brasil do que de pão – são 54 mil farmácias contra 50 mil padarias. O site nos alerta que a máquina de propaganda da indústria farmacêutica, a irresponsabilidade de muitos médicos e a ignorância dos usuários criaram um novo tipo de vício, tão perigoso quanto o das drogas ilegais: a farmacodependência. E o número de farmacodependentes só aumenta a cada dia, a cada inauguração de uma nova matriz ou filial de empresa farmacêutica. Por falar em excesso de drogas e falta de pão, a matéria de 29 de abril de 2019 do site Observatório do Terceiro Setor, baseada no relatório internacional ‘O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2018′, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), mostrou que a fome atinge 5,2 milhões de pessoas no Brasil (ou seja, o número de pessoas que passam fome no Brasil supera em 1,7 milhão a população inteira do Uruguai). Contabilizando: temos 5,2 milhões de brasileiros que DEPENDEM de uma política mais humana na distribuição de renda e de assistência social. Isso sem contar os crescentes números de DEPENDENTES químicos, de DEPENDENTES familiares, de DEPENDENTES de uma figura política para se endeusar e se proclamar, num olhar retrógado paternalista, como salvadora do país, etc. No variado grupo de DEPENDENTES que o Brasil sustenta com soberania agora surge uma nova super equipe: a dos políticos que, incapazes de uma boa administração (ao contrário: precisam de algo para esconderem uma governabilidade insossa e/ou cada vez mais desastrosa), DEPENDEM de ‘propagandismo autopreservativo com deturpamento moral e cívico’, DEPENDEM de manifestações e censuras absurdas para sustentarem um conservadorismo que não sustentam, uma moralidade que não mantêm e uma competência que nunca tiveram. Não é preciso pesquisas, pois proliferam-se as notícias desta DEPENDÊNCIA: político que declara DEPENDÊNCIA de manifestações pró-ele mesmo (e não pró-governo, pois, se não se governa bem, não há governo pra se defender) no dia da nossa InDEPENDÊNCIA, outros que praticam censuras e proibições em eventos de natureza artística, literária e independente agrícola, pois DEPENDEM disso para terem ao menos uma migalha dos conservadores mais radicais, já que os demais brasileiros já estão de saco cheio da evidente desgovernabilidade destes políticos eternamente DEPENDENTES de jogarem poeira onde não há para que todos deixem de reparar seus escritórios já cheios de obscuras sujeiras depositadas por debaixo do já e cada vez mais imundo tapete público (isso sempre me lembra cenas do filme “O cheiro do ralo”, excelentíssimo filme nacional, dirigido por Heitor Dhalia e escrito por Lourenço Mutarelli, em que o escroto protagonista, viciado colecionador e explorador e redutor de objetos de significativas lembranças afetivas alheias através da pechincha amarga e sórdida, diz a todos que o cheiro ruim do escritório de sua loja de penhores vem do ralo, até que uma das vítimas da pechincha implacável lhe diz que a sujeira vem do ralo e quem vai no banheiro é o protagonista, então o cheiro podre é dele, e não do ralo. Por sinal, me pergunto se, diante de tantos mecanismos de censura, filmes corajosos como "O cheiro do ralo" conseguiriam resistir à onda hipócrita moralista).
Nunca convivemos com tantos DEPENDENTES – na maioria, frios, calculistas e orgulhosos de sua ignorância à DEPENDÊNCIA exibida e proclamada - quanto nesses tempos atuais, amigos, e, como a DEPENDÊNCIA se torna algo cada vez mais comum, os seres DEPENDENTES mantêm-se sólidos e sórdidos em todas as esferas de poder, tanto que uma manifestação a favor do apoio às DEPENDÊNCIAS soberanas e em repúdio aos setores críticos independentes no Dia da InDEPENDÊNCIA do Brasil é um absurdo hipócrita bonito, visto como natural.
Contribuo com os manifestantes com meu cartaz irônico: retiremos o prefixo in da InDEPENDÊNCIA, defendamos a soberania do absurdo diário autoritário com simpatia estúpida e comemoremos a nossa DEPENDÊNCIA enrustida com o verde do dinheiro que nos falta e lhes sobra e o amarelo do acovardar-se diante de uma crise séria de nossa identidade crítica e guerreira. Opa, palavras demais para um cartaz só; ninguém vai ler. Toquemos a profética música “Perfeição”, da Legião Urbana, composta por Renato Russo (já sei, vão chamá-lo de gayzista e esquerdista, aff), que, pelo menos, alguns ouvidos, ainda que meio surdos, vão entender:
“Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos covardes
Estupradores e ladrões

Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação

Celebrar a juventude sem escola, as crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais

Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos

Comemorar a água podre e todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo, nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia e toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir, não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração

Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos o hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão

Vamos festejar a inveja
A intolerância, a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada

Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror de tudo isto
Com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou essa canção

Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão

Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha que o que vem é perfeição”


domingo, 19 de maio de 2019

Solidões Compartilhadas: A Costureira do Infinito e As coisas invisíveis desse lugar de Rayssa Ribeiro

Rayssa Ribeiro atualmente

No domingo passado, foi Dia das Mães e, devido às minhas muitas idas e voltas por Valença x Teresópolis (incluindo uma desventurosa passagem do ‘especial’ e superatrasado ônibus da Viação Util Valença x Rio [o tal ‘especial’, marcado para as 16:30h, pasmem, saiu bem depois do 17h – pra ser mais exato, às 18:05h, o tradicional serviço privado {frisando bem no privado, tão cultuado pelos defensores do atual governo} desta viação de ônibus, que como tantas outras, não trazem o menor apreço e respeito com seus passageiros consumidores]), somadas às tarefas frenéticas diárias e a necessidade de procrastinações esporádica diante da rotina estafante, acabei dando mais uma vez um tempo do blog. Mas a postagem de hoje vai compensar toda espera, amigos leitores, pois hoje trago duas crônicas de uma das mais formidáveis cronistas que passaram pela Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, da região rural de Teresópolis/RJ. Seu nome é Rayssa Ribeiro, e, nos tempos em que cursava o nono ano do ensino fundamental (pra ser mais exato, em 2014), ela se destacou por sua prosa fluida, com sensibilidade lírica tocante, emocionante.
Rayssa Ribeiro com a mãe Valéria Souza
A primeira crônica de Rayssa Ribeiro, que publico hoje no blog, foi intitulada “Costureira do Infinito” (o título e as poucas revisões gramaticais foram minhas pífias interferências neste maravilhoso texto, de lirismo único), datado de 15/07/2014, é uma poética homenagem da escritoramiga à sua mãe, Valéria Souza, captando, de forma divinamente poética, o dia a dia materno na profissão de costureira. Na época, tentei mandar a crônica dela para concursos literários juvenis nacionais e internacionais, mas, infelizmente, na época, não houve nenhuma opção de concurso de crônicas com tema livre na categoria da idade dela (há muitos concursos literários para a idade dela em verso, mas em prosa são raríssimos [quando aparecem, são regionais, específicos de uma cidade ou Estado do qual não fazemos parte]). A versão completamente revisada ficou guardada comigo, no formato original e também em arquivo doc por longo tempo perdido no caos de memória que é o meu notebook e, com a passagem do Dia das Mães  e proximidade da Festa da Família na escola, retornou às minhas lembranças.
Rayssa Ribeiro
nos tempos da escola
“Costureira do Infinito” merece ser lido por muitos leitores, assim como a crônica bônus seguinte, “As coisas invisíveis desse lugar”, também de Rayssa Ribeiro,  onde a genial cronista traz seu olhar lírico para tudo que ela via durante o trajeto da escola para casa. Na época, a crônica foi a selecionada da turma para disputar a seletiva para a Olimpíada de Língua Portuguesa de 2014, representou a escola, mas não foi a escolhida pelo júri no município, fato que não  invalida a exuberância lírica e genialidade do escrito da talentosa cronista.
Viajemos pelo incrível universo lírico de Rayssa Ribeiro, amigos leitores, e conheçamos a espetacular Costureira do Infinito e as líricas coisas invisíveis desse lugar!

Costureira do Infinito

                Cheguei em casa e comecei a observá-la. Lá estava ela no mesmo lugar, sentada, trabalhando em suas máquinas, costurando como todos os dias.
                Fiquei ali parada, observava cada movimento. Ela se deslocava para outras máquinas em apenas um segundo, trocava linhas e começava de novo o mesmo trajeto.
                No decorrer do dia, a campainha tocava mais de mil vezes, eram muitas pessoas diferentes com roupas diferentes trazendo mais trabalho para a costureira. E ela ali, parecia gostar de repetir todo aquele trajeto, nunca reclamava, apenas costurava.
                Ah, minha mãe, queria ter uma disposição assim como você para fazer algo que nunca tem fim!
Rayssa Ribeiro

As coisas invisíveis desse lugar

                Voltando da escola, comecei a reparar em tudo, tentando encontrar as coisas que ninguém vê no lugar onde moro. A pedido do professor, comecei a pensar o que eu poderia falar do lugar onde vivo.
                Quando cheguei em casa, me sentei e, com a janela aberta, fiquei observando a rua. Pessoas passando, cachorros latindo, portas se abrindo e se fechando, como acontece todos os dias, parecia até que eu estava me relembrando.
                Logo a frente, vejo uma barraca e, nela, um homem maqueta sentado, sempre na mesma posição, sem nada pra fazer, parece meio triste, meio sem rumo, sem destino.
                A rua é movimentada e possui um nome meio estranho. Morro Agudo é o nome dela e parece mais uma viela. Rua sem vida e sem criatividade.
                Com o tempo tudo passa e, como aquele homem manqueta, fico sempre aqui, sentada, pensando e esperando a rua evoluir, mas isso não acontece.
               Tentando encontrar as coisas invisíveis que o professor pediu, eu continuo sentada aqui a esperar...
Rayssa Ribeiro

Meu filho-poema selecionado na Copa do Mundo das Contradições: CarnaQatar

Dia de estreia da teoricamente favorita Seleção Brasileira Masculina de Futebol na Copa do Mundo 2022, no Qatar, e um Brasil, ainda fragiliz...