quarta-feira, 14 de setembro de 2011

George Harrison e eu: No bar (parte 2)

Hoje não planejava postar nada além da crônica de Mayara Silva, porém a leitura de "O certo é só metade do que é errado", excelente texto do mestre da prosa Alexandre Fonseca (acessível em http://algumcantoemseusorriso.blogspot.com/2011/09/o-certo-e-so-metade-do-que-e-errado.html) acabou ressuscitando uma discussão georgeharrisoniana que carrego comigo sobre os rumos do triângulo amoroso George Harrison-Pattie-Eric Clapton. 
O resultado disso é a segunda parte em prosa de minhas incursões georgeharrisonianas (pra quem não leu e deseja acompanhar, a primeira parte está em http://diariosdesolidao.blogspot.com/2011/07/george-harrison-e-eu.html, Além disso, há [sub]versões poéticas de canções de George Harrison por todo o blog). Com vocês, George Harrison e eu: No bar (parte 2), lembrando aos amigos leitores que tais incursões só foram concretizadas graças ao incentivo de mestre Alexandre Fonseca:




No bar (parte 2)


- Por favor, não vá!!!
Eu me erguia da mesa, ainda pensando em Lúcia e seus céus de diamantes distantes, quando ele disse isso. Foi a primeira vez, desde que me sentei à mesa, que o vi exaltado. Foi também o único instante que vi seus dedos abandonarem as cordas da guitarra que ele, absorto, dedilhava. Saio do meu transe, torno a sentar-me na cadeira à sua frente, ameaço explicar-lhe que só ia pegar mais uma cerveja, mas sua voz não me vê, seus olhos me sugerem que sua ordem se dirige a tempos remotos:
- Eu era um besouro místico, sabe? Havia ALGO quando Pattie se movia em minha direção... – o sorriso sem graça dele tem a alegria triste de uma criança que não cresceu, mas que perdeu sua infância. O que dizer a ele? Quem é Pattie? È certo apenas ouvi-lo calado, passivo para a dor que sua voz carrega em cada palavra? Nenhuma dúvida minha importa agora – o certo é só metade do caminho que é errado; falo melhor nesse instante aceitando a confissão dele em silêncio.
- “Não é uma pena? Agora, não é uma vergonha? Como nós partimos os corações um do outro e causamos um no outro dor; como nós pegamos o amor um do outro sem nem pensar, esquecendo de devolver, não é uma pena?” – sua voz soa suave e melodiosa. Reparo que seus dedos voltam a dedilhar a guitarra. Confirmo com um movimento rápido de minha cabeça: Sim... O show não pode parar! Outro companheiro de mesa, acho que seu nome é Eric, também concorda, mas sua barba por fazer e o modo singelo como ele acompanha as notas tristes da guitarra de nosso amigo em comum denunciam alguma dor compartilhada.
Esqueço Lúcia, os diamantes distantes, pois a música me leva para uma Pattie misteriosa, dançando entre duas guitarras, com passos divididos e um coração livre, ganhando melodias e prendendo outros corações. Nas correntes, vejo Eric e o meu amigo com sua guitarra que chora; são ilusionistas amigos presos no mesmo truque, serrados ao meio e, ainda assim, mantidos com o corpo são. Pattie agora deve estar dançando outros ritmos no mesmo compasso de ilusão. Lúcia não me importa nessa hora, mas seus diamantes ainda brilham em algum céu eterno de meu inconsciente.
- Neguei que ALGO foi para ela... – uma nota rancorosa destoa a musicalidade de meu amigo, mas sua expressão novamente suaviza a dor lenta em suas cordas. – ALGO era ela... Agora não é mais... - seus dedos encerram uma balada bonita, relembrando que toda beleza é efêmera e toda noção de perfeição é imperfeita. Suas mãos agora aperfeiçoam outras canções, numa constatação serena – Essa guitarra não pode parar de chorar...
     Paradoxal como o sorriso triste de meu amigo é enxergar uma melancolia festiva nas notas que ele toca nesse momento. Mas a dor comemora a passagem alegre desse eterno instante. Eric se afasta da mesa, tem outros compromissos (de volta ao mundo dos vivos, preciso continuar! – seus ombros sorrateiramente parecem sussurrar num desabafo), mas deixa, num encabulado abraço, um adeus amigo para o meu cada vez mais solitário companheiro. Outra composição dança no espaço vazio que Eric nos deixa. Sinalizo ao garçom o pedido de mais uma dose – a embriaguez é doce, mesmo nos copos amargos. O estranho conhecido à minha frente parece ler meus pensamentos; continuo com ele, a melodia que consola os meus ouvidos diz que é sempre preciso continuar... 

Um comentário:

  1. Devo dizer que essa postagem é incrivelmente linda,em especial esse fragmento: "Eu me erguia da mesa, ainda pensando em Lúcia e seus céus de diamantes distantes, quando ele disse isso. Foi a primeira vez, desde que me sentei à mesa, que o vi exaltado. Foi também o único instante que vi seus dedos abandonarem as cordas da guitarra que ele, absorto, dedilhava." Obrigada pela visita,sua postagem me faz querer ouvir George pelo resto do dia!

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