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sábado, 25 de junho de 2022

Os Escravos de Seus Impérios Imaginários tão reais: Personagens, Nibelungos e Liberdades nas poéticas de Tetsuo Takita e de Marcelo Rodrigues Bueno

Tetsuo Takita (à esquerda)
e Marcelo Rodrigues Bueno (à direita)

Sabemos que, se algum mês fosse batizado como o mês do amor, seria junho. Afinal, algumas datas comemorativas nele, como o Dia dos Namorados e o Dia do casamenteiro Santo Antonio, confirmam essa preferência. Talvez, não coincidentemente (a amorosa e marcante Rebelião de Stonewall também aconteceu nesse mês), também se comemora o Dia do Orgulho LGBT+. O amor deve ser manifestado e semeado todo mês, principalmente nestes períodos de império de ódios, mas o mês de junho realmente traz um A maiúsculo para o Amor Livre e Sem Moderação. Foi neste mês de junho também, em um evento do Sarau Florescer Nit., magistralmente organizado por Jammy Said, que tive a honra de reencontrar o casal de divoartistamigos (poetamigos mais que fodásticos, cabe destacar) Tetsuo Takita (ou Tedi Pássaro ou Tedi Bird) e Marcelo Rodrigues Bueno.
Da direita para a esquerda,
Tetsuo Takita,
Marcelo Rodrigues Bueno e eu.

Conheci-os em um Sarau Florescer Nit. Anterior, numa magnífica sexta-feira de carnaval e de muita poesia, ambos trazendo seu lírico “Império Imaginário” (expressão entre aspas, pois é de Tetsuo Takita) solitário coletivo, em vibrantes performances.
Tudo isso, somado ao fato de eu estar devendo essa postagem, prometida a eles logo quando nos conhecemos, ou seja, já há certo tempo, tudo isso me fez decidir retornar ao blog, mais uma vez após longo hiato, compartilhando minhas solidões líricas com os mais que fodásticos poemas de Tetsuo Takita e de Marcelo Rodrigues Bueno.
Ambos trazem uma poética visceral (falávamos de amor até o momento, mas a temática dos poemas aqui selecionados tratam de temas pesadíssimos, de muita falta de amor), com grande preocupação social, cada um a seu modo (vejo na poética de Tetsuo o gosto pelo experimentalismo tão Sousândrade e Álvaro de Campos [na primeira fase deste], heterônimo de Fernando Pessoa, enquanto, na de Marcelo, vejo algo mais marginal-sublime-feroz-contido-incontido, bem Miró de Muribeca, Ferréz e José Craveirinha), mas ambos igualmente mais que fodásticos.
Que a Revolução da Artitude e do Amor (questionar o mundo a nossa volta também é amor, denúncia indignada contra a vitória da falta de amor, pedido crítico de harmonia entre o mundo e nós) perdure não apenas em junho, mas em todo o ano, no tempo quando, eternamente, livre, múltipla, singular plural, solitária coletiva.
Boa leitura, amigos leitores! Amor e Artitude Sempre!

De Tetsuo Takita
Extraído do livro "Personagem de Mim Mesmo 6.6ssãode terapia" de Tetsuo Takita - Editora Clube de Autores. Adquira no link: https://clubedeautores.com.br/livro/personagem-de-mim-mesmo-iii 

Tetsuo Takita

 
Escrevo pra ti esta-titica

Escravidão ainda
realidade mundial
escrevo escravo escrevinho
escrivaninha.

nas minas do Congo
menor menor que 10
Apple, Samsung e Sony
pela bateria do seu Smartphone
cobalto, ouro, tântalo e tungstênio,
Amada foca

se liberta do escrevendo flor de lótus
no stress
"no stress no escravo"

Coca Cola marca in Rosarno
Hum. Notável caso, Caládria-Itália
crianças
colheita de laranjas
refrigerante de marca
condição escravidão
mãos imigrantes África,

a criança trabalha trabalhou
sem Disney sem porra nenhuma

explorada alada erê voou para o céu dos passarinhos barriga d'água

vento seca seca

seca arado pasto ara escravo a'Zara dele
somos cúmplices deste sistema
prática do trabalho "slavo"

chora era
Phillipe Morris
2010
72 crianças de 10
envolvidas na colheita do tabaco
risco intoxicação nicotina
trabalho escravo
também imigrantes
documentos sequestrados
trabalho contínuo forçado,
sem qualquer compensação
condições desumanas plantações.
família inteiras
Marlboro, Basic, Benson & Hedges,
Amada foca!
Cambridge, Chesterfield, Commander,
Amada foca!
Dave's, English Ovals, Lark,
Amada Foca!
L&M, Merit, Parliament,
Amada foca!
Players, Saratoga e Virginia Slims.
anjinhos não escaparam nem da Victoria's shiiiiii!

cortaram-lhe a possibilidade de asa
ou anteciparam-lhe o voo ao céu das mortes capitais
Afirmava comércio justo, "fair trade",
garantia contra exploração nas plantações?
criança Clarissa,
in Burkina Faso forçada
plantar-colher algodão
físico abusivo.
dezembro de 2011
Victoria's Secrets
retirou "comércio justo" de suas etiquetas.
Nossa que reparação !

Chinesa Kye
recrutou 1.000
idades 17, 16,15
15h per dia
7 days per semana
números numbers numbers
mulheres de 18, 25
per la fortuna de 65 centavos hora...
ah tá!
A gente endeusa Microsoft, Hp, Xbox
Amada foca!
Apple e Nokia
Amada foca!

Uzbequistão, Forever 21
colheita do algodão
condição escravidão
direitos humanos?
total violação
Aeropostale, Toys 'R' Us,
Urban Outfitters
p amadas focas.

Hershey's. Amada foca! Uma nova linha, "Bliss Chocolate",apenas cacau certificado pela Rainforest Alliance dos EUA.
Vai um docinho amargo
chamado suor infantil?

há dez anos, milhares de rebentos arrebentados alegremente colhendo cacau na África
viva tbém Nestlè e M&M...
todas Mother fuck!

enquanto isso... tua criança nua toma banho de mangueira

trabalhador "slavo" formado no suor.
filho da Lua com a rua
mais um filho da Mãe fudida verde, amarela green yellow!
Tetsuo Takita


De Marcelo Rodrigues Bueno
Poesia de nibelungos 015
Capitulo 015
Iniciando..........

Marcelo Rodrigues Bueno


Liberdade na alma

Meu corpo pesava muitíssimo
Fumaça nicotina pesa meus pulmões
Mas dá prazer tolice minha fumar
Mas fumo e canso
Como é bom não ter nada a carregar
Como é bom ir e não ter uma incerta direção
Família não sou um peso pra eles
Prefiro ficar só por um breve instante
Eterno instante .....
Só a fome lembra de mim
Mas a ignoro
Estou decidido a não depender de comida
Sobreviver como
Com a mente talvez
Meditação sair descalço com uns trapo
De roupa é claro pra não ser preso
Deixar tudo para atrás até meu propio ódio do mundo
E tudo que o tem de ruim
Esquecer do devorador de tempo
Minha vida depende de mim
E o tempo é uma via láctea
Não sou nada perante isso tudo
Chega de carros chega de motos
Chega de ônibus lotado chega de fofocas
Chega de pobreza e riqueza
Chega de cueca suja e roupas lavanda
Chega de contas chega de dívidas
Chega de feiura de me preocupar com a beleza
Chega de impostos de governos que não governam nada
Chega de empregados domésticos domesticados
Chega de salário mínimo o mínimo que posso é doar o fubá
Santo tire essa coroa de espinho
Pensa vc dai-me um beijo
Pecado é guerra santa sangra
Explode trovão de pólvora então
Cale-se tire essa roupa e me cata
Solte seus cabelos e peque
Disse vc não pecar perante seu rei
Chega de maldade
Seus olhos doem
Pregado fui no varal da misericórdia
Com minhas roupas sujas de sangue
Marcelo Rodrigues Bueno

Da esquerda para a direita,
Marcelo Rodrigues Bueno
e Tetsuo Takita


sexta-feira, 11 de março de 2022

Solidões Compartilhadas Magistrais Femininas: A Leal Menina Poeta que ascendeu Leal Poesia Mulher e a Elisa cujo Carvalho serve de abrigo lírico para todas as loucuras líricas lúcidas do mundo físico e imaginário

Hoje compartilho minhas solidões líricas coletivas
com as musas divartistativistamigas mais que fodásticas
Elisa Carvalho (à esquerda da foto) e
Raquel Leal (à direita da foto). 
E eis que retorno ao blog, após um longo período de procrastinação para saídas boêmias carnavalescas e mais após ao retorno e readaptação dos afazeres e trabalhos diários sóbrios. Demorei tanto tempo pra retornar que perdi datas comemorativas que sempre gosto de destacar, entre elas o carnaval e principalmente o Dia Internacional da Mulher. Como não tenho nenhuma justificativa viável pra tamanho sumiço (sou um bipolar virtual – às vezes me conecto demasiadamente, às vezes fico completamente off-line, às vezes por pura preguiça e/ou desinteresse, às vezes por compromissos reais, às vezes só por às vezes só pra variar), trago nesta postagem minha homenagem lírica às mulheres com um carnaval de solidões compartilhadas magistrais femininas.
Para abrir o bloco do desfile de mulheres poetas mais que fodásticas trago duas grandes musas divartistamigas iluminadas, autoras de obras de máximo lirismo e também destacadas artistativistas culturais. São elas as musas divartistamigas volta-redondenses mais que fodásticas Raquel Leal e Elisa Carvalho.
As duas musas divartistamigas mais que fodásticas possuem estilos bem diferentes, mas que, talvez por isso, e apesar de toda completude de cada uma das citadas já ser consolidada, elas se complementam.
Raquel Leal, musa divartistamiga que já foi a menina do quarto de voar, hoje é a mulher do quarto voador, seu lirismo já não apenas almeja o pássaro dourado do lirismo apurado, já gesta suas próprias asas infinitas feridas de imortal beleza. Tem uma poética intimista versátil que se alimenta das influências leitoras dela, mas numa degustação não passiva: suas obras admitem as influências, mas as ressignificam num estilo próprio, só seu, num arrebatamento arrebatador (ou num arrebatador arrebatado?) [vide o poema “Antropologicamente sedenta”, de autoria de Raquel Leal, em outra postagem aqui do blog – se gue o link: https://diariosdesolidao.blogspot.com/2013/01/solidoes-compartilhadas-os-desejos.html ). Tive a honra de ler seus poemas à primeira vista (ela os havia mostrado a poucos) e também de lançá-la no cenário das letras com seu sempre marcante e magnífico “Quarto de voar” (evidentemente também aqui no blog – segue o link: https://diariosdesolidao.blogspot.com/2012/07/solidoes-compartilhadas-o-quarto-de.html ). Hoje em dia, ela possui uma coluna no site da também mais que fodástica divartistamiga Elayne Lacerda. Os poemas de Raquel Leal são lançados no site toda quarta-feira; segue o link (tem magníficos poemas raquelealianos e elaynilacerdianos lá): http://www.elyanelacerdda.com/ . De Raquel Leal compartilho estas solidões poéticas coletivas como duas magníficas prosas poéticas dela e com um poema maravilhoso dela, escrito em 8 de março do ano passado, dedicado ao Dia Internacional da Mulher, e feministimagicamente hiperconsciente e progressista diante dos desafios diante desta nossa terrível realidade doente e retrógrada.
Elisa Carvalho, musa poesia em movimento divartistamiga, dispensa apresentações: parafraseando Drummond, se não gosta dos poemas de Elisa Carvalho, não há nada de errado com ela, foi o seu ouvido leitor que entortou. Sua arte é uma louca magnificamente lírica de peito aberto pro bombardeio de contradições do mundo – sua poética exterioriza suas reflexões ora melancólicas, ora esperançosas, mas sempre fascinada para as melhores loucuras do mundo e combativa para toda sordidez antiestética humana. Elisa, com sua arte multifacetária [incluindo-se em múltiplas experimentações, de premiadas letras de músicas, poemas minimalistas, instapoemas, poema imagem, poemas longos, bate-papos beats, tudo combina com o seu harmonioso caos perfeito de imperfeições gloriosas], abraça o mundo, a vida, consola os perdidos, perde-se junto e junta se reencontra, é a rainha deusa diva musa mortal do caos harmonioso lírico absoluto imortal. Aqui só trago uma mínima mostra do repertório lírico grandioso de Elisa; se quiser conhecer mais (tenho certeza que vai querer, amigo[a] [e] leitor [a] [e]), segue o link do instagram dela, onde são postados os poemas dela que aqui destaco e muitos outros: https://www.instagram.com/elisacarvalho.holos/ . De Elisa Carvalho trago um de seus instapoemas com o vídeo com o qual ela reverencia sua mais que fodástica arte poética, e outro poema com ilustração feita por ela mesma (que me lembra o também magnífico mestre poets influenciador dos beats Kenneth Patchen [ sim, Elisa está à altura e às vezes talvez acima dos mestres autores que me influenciam e tanto me fascinam).
Agora deixemos as mais que fodásticas artes de Raquel Leal e de Elisa Carvalho falarem e nos fascinarem por si só, amigos leitores.

Prosas poéticas de Raquel Leal

Ela provava com a ponta dos dedos cada palavra-verso que encontrava através de um mundo-vocabulário subjetivo e obscuro, por isso, infelizmente, nem sempre compreendia o conceito. Então procurava nas peças de um quebra-cabeças semântico, o léxico do ser que se expressava descontinuadamente. Este dava-se como o vento, imprevisível como o tom de voz de quem carrega muitos em si. Lia com a ponta dos dedos aquele que escrevia como se tivesse visto inimagináveis guerras e também paraísos impenetráveis. Habitava cada horizonte que a lingugem daqueles versos inclassificáveis, mostrados através de frestas, lhe abriam e sorria no intervalo existente entre o encaixe de cada peça do quebra-cabeças e a certeza da imprecisão interpretativa, mas libertava-se com o que imaginava ter compreendido. O sorriso que cada verso ganhava justificava cada dúvida e o que não compreendia deixava de ter seu foco, pois o mundo que era aberto através dos poemas lidos era infinitamente maior que qualquer certeza abstrata, afinal um poema precisa ser sentido e estes tocavam-na. Seus dedos possuíam a abertura necessária para a entrada das luzes sombreadas existentes naqueles versos, então observando a si, pode compreender que o poeta é sempre um poema novo, e assim completou o quebra-cabeças de intermináveis paisagens.
Raquel Leal

******

As férteis horas da madrugada foram alteradas, pela estrela momentaneamente diurna, linear e simétrica aos próprios desejos de vida. Assim, palavras solares se agruparam em constelações e o charme elegantemente comprometido com a literatura, jamais se separaria da sua mão esquerda. Há sublimidade genuína em cada traço que rodeia seu corpo-poema dialógico e transcendental, pois atravessas as bibliotecas com a segurança de quem aprendeu à luz dos antigos mestres, tornando-se o próprio mestre. Seu olhar atento, sagazmente treinado, reconhece de longe a palavra-chave de quem calado ensaia um sorriso lírico, e generoso oferece uma ampulheta com areias de sonhos, contendo segundos intermináveis a quem deseja ter-lhe perto.
Raquel Leal


Resistência é potência

Quem disse que a única mulher, em meio a tantos homens, é o ponto vulnerável na resistência?

Quem disse que não é ela a potência que faz vibrar tornados e vendavais?

Quem disse que ela não é a que faz e refaz, trazendo o justo gosto de haver à frente?

Quem disse que não é ela, a bela aguerrida, a doce saliva da paciência que sabe renascer na renascença de novos tempos, sem vírus e sem dor.

É ela, a dona do calor, as mãos do sol espalhando o fulgor da esperança, da criança, da menina do ventre poético que não se cansa de ser a palavra que faz brotar a força de gerar nos mais infinitos cantos a capacidade de melhorar a vida.

Vacina é ela!!

Aquela, esta, ela, sou eu!!

Somos todas num mesmo tempo protegendo a todos...
Raquel Leal


Instapoema de Elisa Carvalho




Poema com ilustração (Ilustrapoema / Inatapoema / Poema visual / Visual poemático?) de Elisa Carvalho


Para quem sai, sem poder olhar pra trás.
Levando apenas o corpo necessário
para implorar pela paz
enfrentando o deserto da indiferença,
que esta dor não nos tire alguma crença.
Elisa Carvalho

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Relembrando meu terceiro poema pandêmico: Dançando letal e liricamente com a vizinhança na Ciranda da pandemia

Cena do filme "O sétimo selo" (1957),
de Ingmar Bergman,
na qual os personagem dançam
com a Morte
Da série poemas pandêmicos, trago meu terceiro escrito poético, "Ciranda da pandemia", completamente afetado pela pandemia e feito durante o período de isolamento em 2020 (lembrando que não estou contando os microcontos, fábulas, contos, etc).
Escrito no início de setembro de 2020, um pouco antes de eu mesmo passar por sintomas da Covid-19, "Ciranda da pandemia" me surgiu enquanto eu cumpria meu ritual de bebedeira solitária em meu quintal, sentado na cadeira de balanço herdada de vovó, de frente pra praça Emília Jannuzzi, em Valença/RJ. Tal posição em que me encontrava, lembrando que o bairro é composto por ruas em ladeiras e a casa de mamãe, onde passei grande parte da quarentena, fica no meio de um destes aclives, me permitia uma vista panorâmica do bairro. Naquele momento, refletia sobre todos os causos ouvidos por vizinhos e amigos e/ou assistidos em mídias e/ou vivenciados por meus olhos ainda espantados (ao mesmo tempo que fascinados - numa expressão inédita criada pela artistamiga Alayde, 'absurdado') com a espécie animal paradoxal que chamamos, nem sempre racionalizando, de humanos (mais tarde, menos um mês depois, sairia também o poema [já publicado aqui no blog – caso não tenha lido, segue o link: https://diariosdesolidao.blogspot.com/2021/01/a-revolta-natural-do-alto-das-arvores.html  ] “Do alto das árvores líricas da praça Emília Jannuzzi, a maritaca assiste e canta aos homens, durante a pandemia”, com outra perspectiva [obrigado, queridas maritacas do São José das Palmeiras], mas com o mesmo gatilho de partida).
Em “Ciranda da pandemia”, como o próprio nome sugere, resolvi desfilar uma ciranda de personagens, como se fossem vizinhos do poeta que os observa (e que também faz parte deste letal giro solitário coletivo), cada um agindo e/ou sendo acionado a seu modo diante da quarentena. Tentei a ideia de ciranda na formatação dos versos e das estrofes, estabelecendo estrofes com orações similares (os modos de agir de cada um são diferentes, mas os períodos nos quais são transmitidos repetem a fórmula sujeito com núcleo e adjuntos adnominais/complementos nominais [ativo nas primeiras estrofes, passivo e influenciado por agentes da passiva nas seguintes, e assim sucessivamente, variando como uma grande roda de corpos enlaçados, avizinhados, mesmo que distanciados] no primeiro verso, elementos descritivos do personagem no segundo [quando sujeito ativo; quando passivo o foco do segundo verso vai pro agente da passiva e como este influencia sua ‘vítima’], verbos, em quase todos os casos, transitivos diretos e indiretos [mais enlaçamento, mais ideia de ciranda] que expressam comunicação [exceto alguns, como, o do último personagem da ciranda, o poeta, cuja ação de comunicação está implícita ao se explicitar o poema, a mensagem] de algo a algo/alguém nos versos seguintes, culminando quase sempre em um último verso com oração subordinada [adjetiva, nas duas primeiras; substantiva, nas duas seguintes, até o rompimento nas duas estrofes finais, que trazem coordenadas, que são mais diretas, potencializando clímax e desfecho, como se fosse uma narrativa/cantoria em ciranda]). Para isso, pensei/me deixei influenciar em canções como “O dia em que a Terra parou”, de Raul Seixas, e “A banda”, de Chico Buarque de Holanda, entre outras (sim, mesmo escrevendo meio bêbado, por incrível que pareça, às vezes [ok, raras, mas não tão poucas vezes] o álcool me traz inspirações muito melhores que a sobriedade. O poema saiu meio que de um fôlego só, como se já o estivesse (e talvez realmente estivesse) todo na minha cabeça.
Inicialmente, mostrei o poema para alguns artistamigos de confiança, como Rosangela Castro, que, comparando os demais poemas que escrevi no período, apostava que “Ciranda da pandemia” logo ganharia destaque em algum certame literário. Como Rosangela, também tenho um carinho especial e um clandestino orgulho sinceramente nada modesto de ter escrito este poema, mas, de todos, foi o mais rejeitado/que mais saiu incógnito em concursos literários (mas, poema louco tanto bate em concursos até que ganha louvor por sua loucura, “Ciranda da pandemia” finalmente, quase um ano depois de tê-lo escrito, foi um dos selecionados para publicação em e-book [juntamente com “Isolamento coletivo ideal” e o microconto “11.441/07”, já publicados aqui em postagens anteriores do blog, e sim, depois de muitas sovas carinhosas em certames literários {fico dolorido, mas jamais contesto o resultado do júri, até porque somos um país gigante em talentos, mas não posso negar, é claro, uma certa dor de cotovelo por um filho-poema meu ser tantas vezes renegado}, finalmente emplaquei 3 selecionados em uma mesma pacífica e sempre lírica disputa literária, há pouco, neste terceiro trimestre de 2021], no concurso “Literatura de circunstâncias”, organizado pela Editora da Universidade Federal de Roraima).

Então, amigos leitores, entremos na roda e dancemos os olhos, nesta passada, mas ainda recente (e, infelizmente, ainda às vezes terrificafantasticamente atual) “Ciranda da pandemia”. Espero que gostem. Boa leitura e Arte Sempre!




Ciranda da pandemia

O viajante infectado,
de sorriso aberto, gestos largos,
comunicava a quem via
a negação de um vírus
que ele próprio transmitia.

A esposa trancada,
quase muda, sempre silenciada,
não sabia a quem mais temia
se o risco do contágio ou o marido
que sempre a agredia.

O trabalhador, esgotado,
pelo home slave office domesticado
confessava no privado
a quem on line podia
que quanto mais sobrevivia, mais inexistia.

A beata, assustada,
pelo temor a Deus ainda resguardada
jurava no grupo das famílias
a quem on line a lia
que o Juízo Final lhe penetrava na alma dia após dia.

O informal desempregado,
de gestos contidos, sorriso machucado,
mendigava a quem aparecia
o pedido de uma vida mais aguerrida
como a do trabalhador esgotado
ou a do viajante infectado
que sempre lhe sorria.

A pessoa amada,
quase perdida, distanciada,
prometia a quem não conhecia
o sonho de uma vida mais bonita,
melhor que a da esposa trancada,
melhor que a da beata assustada,
mas a distância permanecia.

O poeta mascarado,
de sorriso vendado, fingidor descarado,
da varanda, no alto, a todos assistia,
mas, despido de medicina, seus doentes assistir não podia,
enquanto velhos vazios vestiam extravagâncias nas casas vizinhas,
escandalizando e viralizando mais que a moderna pandemia.



quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

A (re)volta natural: Do alto das árvores líricas da praça Emília Jannuzzi, a maritaca assiste e canta aos homens, durante a pandemia

Como os psicodélicos Mutantes, andei meio desligado por esses dias – principalmente em espaços virtuais. Tenho passado por um processo parecido ao do que chamo “Descivilização” (tirei o termo de uma canção homônima da década de 1990 do Biquíni Cavadão): esqueci-me de contar os dias após o recesso de home slave office, desconectei-me quase inteiramente de redes sociais virtuais e passei a distribuir meus dias com banhos de ducha no quintal, tomadas de sol, ventos ocasionais e chuvas de verão, desenvolvimentos geeks, nerds, árcades, pós-modernos e clássicos com leituras constantes de obras literárias e gibis, maratonas de séries e filmes de diversos gêneros, audição de músicas dos mais diversos gêneros (com preferência à MPB e ao rock) e som dos pássaros que visitam minha casa em quarentena e a praça em frente ao lar agridoce lar, mergulhos em mim mesmo e episódios lúcidos de embriaguez desconexa em intervalos regulares. Diferentemente dos que se cansaram do período de isolamento, muitas vezes acho que a solidão (não a completa, claro, mas a complexa, de autocontrole, divertimento consigo próprio e amadurecimento intelectual) até que cai bem – o que me cansou mesmo (e até me parece tedioso) é bater na mesma tecla da merda que nosso mundo está e no bando de gente merda que acha que essa merda é perfume ou remédio pra grande crise de valores. Estamos na merda que nós mesmos (ou outros infernais nós outros mesmos) nos colocamos, mas insistir em pregar nas paredes ocas o quadro horrível real em que vivemos me aparenta ser tão surreal, cansativo e improdutivo quanto explicar para uma mula que ela está sendo explorada por seu pseudo-dono – destaca-se mais a publicidade patética da cena quixotesca que qualquer ínfima possibilidade da conscientização da mensagem bem intencionada; a mula continua a zurrar, Quixote continua vendo Dulcineias em estalagens contaminadas de aborrecimento e ignorância e o tempo passa atropelado por todos nós e outros nós outros que nós nunca admitiríamos ser nem entender, pois é incompreensível (sim, o zurro humano ainda é uma língua virulenta, inapreensível, incompreendida e incompreensiva). Preferi dar um tempo dessa loucura toda (não me alienar – ação impossível para qualquer ser minimamente pensante em tempos complexos de autodestruição existencial e humana, dramas sórdidos e tragédias espetaculares - , mas manter minha insana sanidade mental em um ambiente menos hostil, confuso, contagioso e abusivo).
Nesses tempos, refugiei-me em mim mesmo, na natureza próxima e na arte – pode parecer (e é) meio egoísta, mas é de um egoísmo altruísta: preciso estar bem comigo mesmo para estar bem com todos em um ambiente tão doente e tão doentio. Mas agora, depois de tanto tempo e graças aos apelos de amadas amigas e amados amigos, resolvi retomar as postagens do blog.
E, voltando aos cantos dos pássaros aos quais tenho prestado atenção com mais constância, foram nesses tempos de quarentena que as aparentemente escandalosas (eu as defendo como sábias incompreendidas) maritacas me inspiraram um poema, “Do alto das árvores líricas da praça Emília Jannuzzi, a maritaca assiste e canta aos homens, durante a pandemia”, com o qual concorri à Mostra Olhares sobre o Patrimônio Fluminense – 2020 , da 10.ª Semana Fluminense do Patrimônio – “Cultura e cidadania em tempos de crise”. O poema foi selecionado e recebeu 2.º lugar pelo júri técnico e 2.º lugar pelo voto popular no tema “Recortes da Paisagem”, categoria adulto na Mostra Cultural. Hoje, trago o poema, com o seu seu clipoema [pra quem está no celular, percebo que os vídeos não têm aparecido, por isso deixo o link do mesmo no youtube: 
https://youtu.be/DdAPNV4MM7E ] (agradecimentos às maritacas por concederem seus cantos durante a gravação do áudio do poema e ao meu irmão Rafael Silva Barbosa e ao seu namorado Wellington Victor de Lima pela participação teatral, atuando como os homens assistidos e cantados pela maritaca da praça Emília Jannuzzi), para vocês, amigos leitores, estreando as postagens líricas virtuais de 2021 deste constantemente inconstante blog.
Já que os homens não escutam a seus próximos iguais diferentes, que, pelo menos, escutemos a natureza à nossa volta e aprendamos com as sábias maritacas sobre a importância da lucidez e da vida nesse contexto genocida de sobrenatural loucura.

Do alto das árvores líricas da praça Emília Jannuzzi, a maritaca assiste e canta aos homens, durante a pandemia


Eis meus vizinhos, de canto apagado,
Os tais homens, seres desemplumados
Que ciscam livres pela minha praça.
Ao longe vejo o vírus que os caça:
O predador, para eles, invisível,
Entre eles, vaga letal e impassível
E, por eles, se propaga invencível.
Animal estranho esse tal homem,
Espécie ensandecida e selvagem:
Contra o vírus, alguns se protegem,
Enquanto outros o infausto propelem.
Uns corretamente tapam seus bicos,
Enquanto outros exibem cantos cínicos.
Aviso aos tolos: “Protejam seus bandos!”
Mas, do meu canto, vivem reclamando.
Têm olhos insanos, incendiários,
Queimam as matas, seus próprios erários,
Tratam-me qual carcará gavião
E, ainda assim, lhes tenho compaixão;
Faltam-lhes asas, amor, união
E sábio senso de preservação.
Brado-lhes orações contra a ruína,
Mas, surdos, seguem destrutiva sina.
Mortíferos mortais sem disciplina,
Pra arrogância deles, não há vacina.
Bando ingrato às belezas da vida,
Minha clemência não lhes é sentida,
Não lhes bastam doenças em surdina,
A humanidade se auto assassina.
Mas, como pássaro poeta e amigo,
Mesmo difamado como inimigo,
Faço arte contra a pandemia insana,
Insisto em salvar a espécie humana.









quarta-feira, 21 de outubro de 2020

O exílio sem título e a vida em família da mais que fodástica poetamiga Gisele Pacheco

Ontem foi o Dia do Poeta (é, eu queria ter postado antes da meia-noite para a homenagem ser plena, mas a terça-feira foi frenética; ainda não parei nem me desliguei um minuto sequer, porém, contudo, todavia, apesar de todo corre-corre, não descansaria sem deixar uma postagem nova aqui para vocês). E nada melhor para homenagear a data dos navegantes que cursam seus barcos para além do infinito que relembrar poemas antigos, que até hoje me enchem de fascínio, da mais que fodástica poetamiga teresopolitana (outrora, minha poetaluna dos meus primórdios em sala de aula, na Escola Municipal Nadir Veiga Castanheira, entre 2006 e 2008) Gisele Pacheco. 
Sim, hoje (ela deve estar com aquele sorriso de orgulho, mas disfarçando a alegria, com marra: “Finalmente, né, professor...”), depois de milênios de atraso, sim, finalmente, compartilho minhas solidões poéticas com a magnífica poetamiga Gisele Pacheco! Gisele sempre teve um talento fenomenal, um lirismo maduro muito além das limitações que encontramos, quase sempre, quando iniciamos nas veredas poéticas; era a rainha do paradoxo (domava esta ardilosa figura de linguagem a seu bel talento como poucos, tanto que sua arte, em alguns certames literários escolares, era compreendida por poucos), sempre teve um senso crítico enorme, como poderão ver na paródia da Canção do Exílio que ela construiu em parceria com a colega Pâmela, no 7.º Ano (!), e sempre foi positivamente marrenta (quem é genial pode desfilar marra; poucas artistas, como ela, podem ostentar um título internacional [3.º lugar no 1.º Concurso Internacional de Poesias Gioconda Labecca, em Campanha/MG] quando ainda cursava o oitavo ano do ensino fundamental [nessa época, eu, por exemplo, engatinhava na redação comum, pois meu despertar poético só aconteceu quando eu cursava o 1.º ano do hoje chamado Ensino Médio]). Em seu facebook, Gisele já manda o recado na descrição: “O que dizem sobre mim é apenas a perspectiva deles...” É meio que uma drummondiana seguindo o verso do mestre: "Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou". 
Sim, os deuses da poesia gostam muito de mim, afinal, eu comecei minha carreira no magistério premiado com hipertalentosas artistalunas com personalidades líricas autênticas e iluminadas como a Gisele Pacheco. E lembrança boa é para ser compartilhada, poemas mais que fodásticos que flertam com o tempo infinito então nem se fala: ela tem toda razão, estes poemas deveriam estar aqui no blog há tempos. 
Sim, finalmente, amigos leitores, vamos curtir o lirismo magnífico e enamorado com o tempo infinito da mais que fodástica poetamiga teresopolitana Gisele Pacheco! 


Exílio sem título 

Minha terra tem políticos
Onde canta o mensalão. 
As guerras que aqui têm
Nunca lá terão.

Nossos céus são mais cinzas, 
Nossas estrelas mais amarelas, 
Nossas Várzeas têm mais prédios, 
Nossos bosques têm mais favelas.

Minha terra tem ladrões
Que cantam como sabiás.
Os ladrões que aqui roubam
Não roubam como lá.

Aqui encontro crimes
Que não encontro lá. 
Minha terra tem ladrões
Que cantam como sabiás.

(Poema escrito por Gisele e Pámela, quando estas cursavam o 7.º ano [na época, ainda chamado de 6.ª série]. Percebam desde a super originalidade irônica do título até os versos críticos ferozes. Gregório de Matos, o Boca do Inferno, está louvando o nome destas duas jovens poetas até os dias atuais!)


Vida em família

Com o doce som da voz da minha mãe a me chamar,
com a voz serena e meiga a chamar
minha irmã no meio dos manguezais a namorar
e, pobre de mim, tenho que ocultar.
Meu pai a trabalhar, trabalhar sem descansar
até que o dia chega ao fim
e todos vão se deitar
pois amanhã é um novo dia
e tudo continuará.

(Poema de Gisele Pacheco, quando ela cursava o 8.º Ano, premiado com o 3.º lugar no 1.º Concurso Internacional de Poesias Gioconda Labecca, em Campanha/MG na Categoria Juvenil [de 13 a 17 anos]. O texto foi publicado em uma coletânea. Podemos perceber no poema a influência de poema como “Infância”, de Carlos Drummond de Andrade, mas com um método completamente personalizado, que me lembra mais os poemas de Conceição Evaristo sobre suas memórias de infância. Reparem o uso incomum da gradação, tornando o poema inicialmente suave e divertido para uma criticidade mordaz ao dia a dia laborioso e inexorável do pai que trabalha sem parar e da continuidade infalível da rotina do ciclo familiar).



quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Meu Cão Andaluz Acorrentado no Estagnado-Escuro


Diante da (ir)realidade da situação da arte, atualmente sempre alvo de censura e de recurso de repressão à serviço de ordinários trampolins para mentes simplistas e políticos retrógrados, hoje posto meu poema-manifestação lírica inédito, uma elegia ao surrealismo desvairado e estranhamente bonito de Buñuel e de Dali, a cada dia mais e mais asfixiado por um outro ‘sul realismo’ ‘pós-amoderno’ torpe, filho querido dos hitléricos cidadãos do ‘bem’ da Divina Coerção.
Aviso: As imagens deste blog são apenas metafóricas - nem o filme "O cão andaluz", nem pinturas de Salvador Dali foram censuradas até o presente momento (pelo menos, não até o presente momento...); ao contrário, até há exposições do surrealismo de Dali agendadas no Brasil. Reafirmando: as imagens deste blog são apenas um exercício/brincadeira metafórica (é, nos dias atuais, tem que deixar tudo explicadinho. E ainda entendem/interpretam mal...).
Aos amigos leitores, também Dali enlutados com o estado ‘putrestupefato’ da arte diante de tanta pudica e fanática ‘velevadaviolentaperseguição’, eis meu “Cão Andaluz Acorrentado”:

Cão Andaluz Acorrentado

A nuvem negra que outrora cortara a lua cheia,
como navalha sobre olhos submissos e vazios,
agora encobre cabeças pequenas
em corpos ignorantes gigantes.

O Abaporu largou Tarsila do Amaral,
e abraçou o moralismo equivocado ultrapassado
de e por Lobato 
(remexem no túmulo os ossos imortais violentados).
O Abaporu xvidente virtual atira no espaço
bombas de gás moral:
“A lua está nua! Tarja preta no estado natural
de todo satélite arteficial!”

E a noite agora é apenas a nuvem negra de outrora
sem sua outrora surrealista glória
e o cão andaluz foi acorrentado como Prometeu
e  está sendo dilacerado todos os dias por corvos de Deus
no Cáucaso Divino Daquele que Dita a Dura Ditoso.
No lugar do animal lírico iluminado,
um vira-lata estagnado-nebuloso
gane pelo Estado em sítio com cercas,
para que vivam felizes e (i)lesos os carneiros de bem e as mães ovelhas
que zurram decência contra os pecados sem pecados do mundo.

Agora chamas procriam nas trevas dos cérebros infectos de estupidez:
“Queimem as pinturas vanguardistas, os filmes complexos, a poesia
e viva a tirania disfarçada
pela segurança acomodada da sordidez,
pela pusilanimidade disfarçada de sensatez.

Dali não há mais Dali (queimem quem ainda for Dali);
dali é lar do lá, do acolá, mais próximo do apocalíptico fim,
da nova reforma religiosa de Auschwitz:
a lógica ilógica venceu - glória a Deus! -;
a arte falece com cruzes fincadas
por vampiros assassinos caçadores de imaginários ateus.


quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Precisamos falar sobre as flores fúnebres da Primavera: Reflexões tragipoéticas sobre a violência às vésperas da estação florida e mais uma solidão poética compartilhada com um poema de Rafael Clodomiro

Arte de Rodrigo Yokota, disponível em:
http://desacato.info/agatha-como-se-fosse-o-alvo-em-um-jogo-no-video/

3 dias antes da Primavera, a noite ficou mais escura: na noite de 20 de setembro, a menina Ágatha, de 8 anos, foi mais uma vítima da prática irracional do que se convencionou chamar de combate à violência no Estado do Rio de Janeiro. Baleada nas costas, dentro de uma Kombi, quando voltava para casa, na comunidade da Fazendinha, no Complexo do Alemão, mais uma vítima de bala perdida, que sempre encontra um corpo inocente pra fatalmente se instalar, mais uma vítima de uma guerra da qual ela jamais foi informada de que iria participar. Muitos policiais morrem, alguns bandidos morrem, e muitos inocentes também, inocentes demais, Ágathas demais, pobres e negros demais, num confronto armado por um governo estadual que prima pelo belicoso e sanguinário, mas esquece do estratégico, do racional, do humanitário.
"Triste Primavera", foto de Maria José.
Disponível em:
https://olhares.sapo.pt/triste-primavera-foto9277015.html
3 dias depois chegou a Primavera e os jardins produzem belas flores para tétricos funerais, recompõem o estoque gasto no luto apressado, nas famílias despedaçadas, nos cemitérios cheios de escombros de tragédias que poderiam ser evitadas, flores fúnebres carregadas por corações feridos, enlutados e revoltados com as vidas abreviadas por excessiva violência injustificável.
E há tempos não se via um início de Primavera tão mórbido, tão frio, tão desesperador, com tanto desalento, tanta chuva invernal, tanto temor. Precisamos falar sobre esse inverno em plena primavera, neste frio em nossa alma, nesta violência desordenada, nesta Primavera que, ainda enlutada, floresce-nos flores congeladas, um aviso de que precisamos falar sobre Ágatha, não podemos esquecer Ágatha, antes que as flores fiquem escassas diante de tanto enterro fora de hora.
Mais uma noite de Primavera e, durante todo o período, só floresceram lágrimas...
Segundo muitos, diante da insensibilidade arrogante e psicopata do Estado, ainda mais lágrimas florescerão... Até quando?
Hoje compartilho com os amigos leitores um poema lamentação do grande poetamigo Rafael Clodomiro, hoje compartilho a consternação lírica dele, a nossa consternação...

Ágatha, uma criança.
Assassinada pelo Estado.
Pela política de (in)segurança.
Pelo Rio e pelo país desgovernado.
Até quando? Até a esperança
morrer dentro do caos mais agravado?
A desordem vestiu a farda.
E o povo carrega o fardo.
- Rafael Clodomiro

Meu filho-poema selecionado na Copa do Mundo das Contradições: CarnaQatar

Dia de estreia da teoricamente favorita Seleção Brasileira Masculina de Futebol na Copa do Mundo 2022, no Qatar, e um Brasil, ainda fragiliz...