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segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Uma carta melancolicamente premiada: Carta para meu amigo, professor e poeta, como e muito mais que eu


Depois de tanto tempo longe do blog, retorno com uma carta poética de minha autoria, finalista e premiada recentemente (no dia 06 de setembro) com o 2.º Lugar na Categoria Carta na Modalidade Professor no VII Concurso Literário promovido pela Academia Leopoldinense de Letras e Artes (ALLA).
O tema era pandemia e, sinceramente, além de exausto profissionalmente falando, eu já tinha escrito tantos poemas, crônicas e microcontos sobre o tema que pensava ter esgotado minha criatividade e inspiração para escrever algo mais variado sobre o assunto. Mas eis que, para inscrever os escritores-alunos dos sextos da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, para quem dei aula por uma semana, pois a professora deles, Flávia Araújo, havia contraído a Covid-19 e ficou temporariamente afastada (mesmo assim, em tempo recorde e urgente, combinamos on-line que eu faria uma oficina de produção textual com as turmas, seguindo o tema do concurso, cujo regulamento eu consultara anteriormente), resolvi trabalhar o gênero textual carta e estimular os alunos a escreverem sobre o tema. Inspiradíssimos, eles conseguiram emocionar este professor-redator-poeta-pateta-leitor-assíduo (para minha total surpresa, mesmo com toda experiência em corrigir redações, cheguei a chorar copiosamente com a carta de Ana Lara, do 6.º A – não à toa a carta dela conquistou o 1.ª Lugar na Modalidade Ensino Fundamental II; foi e continua marcante demais em minhas leituras prediletas). Diante de tais cartas profundamente cativantes, meu eu escritor ficou de sobreaviso e inspirado. Mesmo assim, até o momento de inscrever as cartas dos escritores-alunos que se destacaram, mesmo a inspiração gritando e um texto ainda inelegível gritando dentro de mim, a carta que minha mente e meu coração se propunham a escrever não vinha. Ao mesmo tempo (talvez por artimanhas do meu eu escritor, talvez por tanta coisa que a gente deixa sem dizer e que fica represada na gente), vinha-me à memória, episódios do período da pandemia e do ensino remoto; naquele período, o super-professor-poetatletamigo-premiado-e-muito-mais-poeta-que-eu Genaldo Lial havia perdido entes muito próximos e queridos, e, na época, à distância, o máximo que consegui fazer foi enviar a ele áudios longos e atrapalhados de pesar com frases confusas de tristeza e espanto diante das terríveis perdas dele. Naquele momento, eu, lutador experiente com a arte escrita e insistente domador das palavras, apanhei feio em minha tentativa de expressar minha consternação com as perdas de Genaldo super-professor-poetatletamigo-premiado-e-muito-mais-poeta-que-eu. E aquilo nunca saiu de minha mente, nem de meu coração; aquilo tudo que podia ter sido e não foi de Antônio Nobre e de Manuel Bandeira ecoando na minha cabeça e no meu peito até agulhar a alma.
Em cima da hora (sim, sou mestre em buscar vencer um leão por dia, deixando tudo pra em cima da hora), após inscrever todos os escritores-alunos que me propus a inscrever, todas as cartas deles e a lembrança das perdas e do episódio tragicamente atrapalhado de comunicação com o Genaldo vazaram numa escrita quase automática; as frases vieram transbordantes e, muito em cima da hora, quase sem revisão, enviei a carta abaixo postada.
É um registro sobre a pandemia, sobre os nossos tempos, sobre as nossas perdas, sobre ser professor nesse caos todo, sobre o que não se diz, mas precisa ser urgentemente dito, ainda que tardio.
É melancolicamente bom estar de volta com vocês, amigos leitores. Boa leitura e Arte Sempre!

Carta para meu amigo, professor e poeta, como e muito mais que eu
Carlos Brunno Silva Barbosa


Em algum lugar entre o que eu não disse e o que está tarde, mas precisa ser dito, 30 de junho de 2022

Querido amigo, professor e poeta, como e muito mais que eu,
Sabemos o quanto essa pandemia de Covid-19 atingiu nossa rotina...
Lembra a loucura e tensão que foi para podermos cumprir a contento as aulas remotas, sem termos tido, nem nós, nem a equipe diretiva, nem nossos alunos termos, ao menos, tempo, material, oportunidades e formações para nos prepararmos? Foi uma maratona terrível, mas nos viramos, fizemos o possível e o quase impossível, com as parcas ferramentas que tínhamos. Não foi satisfatório; hoje, com o retorno das aulas presenciais, percebemos melhor o quanto o período foi destrutivo para as sementes de educação que, incansavelmente, plantamos. A verdade é dura, mas inegável: foi uma vitória vã, válida apenas para comemorarmos nosso cada vez mais elástico jogo de cintura e nossa resiliência – palavra que você tanto adora e adota de forma sublime em todos os segmentos de sua vida. Mas a gente se recupera, sempre se recupera, e chegamos a recuperar até os que parecem irrecuperáveis – já é um lema que, apesar de insano, o colocamos como objetivo racional; meu amigo, você e eu, nós, professores, precisamos ser estudados ou definitivamente instalados em um manicômio chamado Sublime Esperança. É uma verdade dura, e, por tornarmos possível a impossível missão de irrigar nosso atual estado de marasmo educacional, com tensa leveza e quixotesco espírito guerreiro, merecemos ver a mesma realidade brutal com olhos de poeta. E tenho um orgulho e um prazer masoquista imensos de fazer isso ao seu lado, meu amigo, professor e poeta, sendo você, nesta linha, sendo muito mais poeta que eu, muito mais poeta que qualquer poeta que conheci ou li, muito mais poeta que qualquer um de nós, com o acréscimo de humildade legítima que só grandes artistas como você são capazes de apresentar.
Ontem eu estava relendo alguns poemas que você me mostrou após o retorno para as aulas presenciais. Os seus versos, sempre maravilhosos e com ritmos magníficos, não me eram novidade; como sempre, amei todos eles. Mas o que mais me marcou desta vez foram os títulos “O retorno”, “O retorno II”... Desde o retorno ao frágil novo – esquizofrênico - normal, diante de uma pandemia voraz que finge(m) que passa, mas não passa, poucos, como você, amigo, professor e poeta, mantêm rigorosamente todas as medidas preventivas – o uso de máscara, a aplicação constante de álcool gel nas mãos, a insistência no distanciamento, etc. -, enquanto a maioria, inclusive eu em vários momentos, tentam abraçar, com a tradicional ignorância, a ilusão de um abrandamento inexistente do poder de contaminação dessa terrível doença pós-moderna chamada Covid-19, que, vestida de musa da negação, segue a fazer impunemente novas e velhas vítimas. E, apesar da parvonice geral, altamente infecciosa nesses tempos, chegando a, muitas vezes, ser até mais contagiosa que a própria doença pandêmica, você, como poucos, permanece são. E ainda consegue retornar com poesia! Isso é o mais admirável quando releio seus poemas mais recentes. Confesso que qualquer lirismo, do mais nobre ao mais reles, me abandonara há um tempo (ou fui eu que a abandonei em perpétua quarentena e inanição, não sei bem quem abandonou quem). Mas, em você, a poesia pode até ter se silenciado por um tempo, mas nunca o abandonara. E constatar isso, em e graças a você, sempre me faz ter coceiras de inspiração em minha poética semicadavérica. É muito bom ler e reler você nesses tempos sombrios de trevas coloridas, meu amigo, professor e poeta.
A pandemia de Covid-19 nos feriu demais, amigo, professor e poeta, mas, não sei se por ser mais guerreiro e resiliente que eu, o terrível mal foi muito mais cruel e feroz com você: perdera muitos parentes, nesse período insalubre, por causa dessa doença assassina. Lembro-me de que, dada a distância e as normas de isolamento social, só pude lhe gaguejar pêsames vãos e sem rumo em áudios tremulantes para o privado de seu whatsapp. Sentindo-o de luto, logo você, tão saudável e cheio de vida, eu queria tanto abraçar a sua dor, tão forte até que fosse capaz de sufocá-la, retirá-la completamente de você, que não sabia nem como expressar essa sensação, nenhuma palavra de vida era capaz de confortar tamanho sofrimento. E você, bailarino hábil, dançou soberbamente com e sobre a dor. E, hoje, sorri, cheio de vida, ainda que os lábios às vezes murchem, mesmo com os ombros pesados, guerreiro pacífico resiliente, você caminha levemente, mesmo sobrecarregado pelo luto e pelo tempo e entre passantes insensíveis às milhares de perdas, insensíveis à falta de condições de vida, insensíveis a si mesmos. Mesmo perdido, nunca se perdeu, amigo, professor e poeta, e, assim, me ensinou, que, mesmo que dolorido, o coração jamais deve ficar insensível ao que foi perdido, mas também jamais perder-se do caminho da vida que nos restou. E é muito bom caminhar com você por essa difícil estrada, meu amigo, professor e poeta.
E é isso, e isso ainda é muito pouco para o tanto que o admiro, amigo, professor e poeta. E, mesmo sendo pouco, ainda cometi o delito de não ter conseguido expressá-lo em palavras até o momento em sua presença. Por tudo que eu poderia ter falado e não lhe falei, pelo tanto que o amo, admiro e lhe quero bem, por isso e por mais tanta coisa a ser dita e a se fazer, eis essa carta – que ela alcance os seus olhos, sua alma e coração, com infinita gratidão de ter você sempre ao meu lado, mesmo quando estamos distanciados, meu amigo, professor, poeta, meu irmão.
Abraços e Arte Sempre,
De seu (e)terno amigo e admirador
Carlos Brunno Silva Barbosa



terça-feira, 5 de abril de 2022

Solidões compartilhadas: A perfeita simetria do mais que fodástico poema "Assimétricos", de Maria Eduarda Fernandes

Maria Eduarda Fernandes,
a premiada poeta de "Assimétricos"
Há eventos em nossas vidas que a gente vai adiando indefinidamente sem nem bem saber o porquê. As publicações neste blog – que, no plano inicial, deveriam ser quase diárias – são um exemplo disso: têm sido cada vez mais esporádicas e não sei explicar o porquê (preguiça, desânimo, loucura, surto, desinteresse, cotidiano atarefado demais, insatisfação, mais loucura, falta de inspiração, desleixo e descuido, projeto deixado de lado em detrimento a outros emergentes, irritação com os áridos novos velhos tempos a ponto de provocar imprevista inércia nas ações, cansaço existencial, não sei: são tantos motivos que se tornam motivo algum; um caso explicado pela falta ou excesso de explicação). A postagem de hoje tem a ver com isso: hoje, finalmente, após um longo atraso (os mais que fodásticos poetamigos Renato Galvão, Raquel Leal, Gisele Pacheco e outros tantos que me confiaram seus escritos passaram e/ou passam pelo que retrato, assim como muitos de meus escritos), finalmente, compartilho minhas solidões poéticas com a mais que fodástica Maria Eduarda Fernandes.
Em 9 de novembro de 2019, na II Felivre,
 ao lado da mais que fodástica poetamiga
Maria Eduarda Fernandes e de
Neusa Magali Carvalho, diretora
do polo da Cederj em Volta Redonda/RJ
Conheci Maria Eduarda no segundo dia da II Felivre, organizada pelo Cederj-VR, no setor azul do Estádio Cidadania, em Volta Redonda/RJ, em 9 de novembro de 2019 (uma pequena digressão aqui: na noite anterior ao momento que nos conhecemos, no término de minha louca e cansativa baldeação Teresópolis [partindo direto da escola na qual trabalhei de manhã] – Sapucaia – Três Rios – Volta Redonda para chegar aos arredores do local do evento na véspera do dia em que fui convidado pra participar da Feira [no caso, parei em Califórnia de Barra do Piraí, onde fui visitar minha tia – e descansar, pois a viagem é bastante extenuante], no ônibus de Três Rios x Volta Redonda, numa daquelas coincidências líricas que, se estivesse em um filme, todos desconfiariam como falha/facilitação de roteiro, meu assento foi reservado ao lado de Eduardo Pereira de Azevedo, que eu não conhecia, mas que, durante o bate-papo, soube que era escritor, havia ganhado o 1.° lugar no Concurso de Poesias Cederj e participaria naquela noite da cerimônia de premiação na II Felivre [noite em que não estive presente no evento, pois estava completamente exausto]. Não vi mais o Eduardo, mas tive a honra de conhecer, no dia seguinte, a iluminada Maria Eduarda Fernandes, que conquistara o 3° lugar no mesmo certame literário que ele. Por maravilhosos e líricos encontros assim que torço por mais edições da Felivre – e que eu tenha oportunidade de curtir novamente o evento). Digressão realizada, retornemos ao dia seguinte: no dia 9 de novembro, enquanto expunha meus livros na II Felivre, Maria Eduarda aproximou-se, conversou comigo e observou a minha camisa que fazia referência à Alice no País das Maravilhas. A partir desta observação dela, antes de conversarmos mais, imaginei hipóteses que logo quase e confirmaram: deve cursar Letras (na verdade, cursa Pedagogia, mas as áreas são compatíveis) e tem poder de observação – e olhar brilhante – de escritora. Aparentava uma felicidade imensa e contagiante por estar presente na Feira Literária (mais uma hipótese logo confirmada: é fã de eventos culturais e literários). Contou-me, com orgulho (merecidíssimo, como poderão constatar ao lerem o mais-que-magnífico poema dela), que fora contemplada com o 3.º Lugar no Concurso de Poesias Cederj. Citou também residir em Teresópolis/RJ (mais uma vez, se fosse filme, iriam achar que mais essa coincidência seria conveniência de roteiro [além do fato de, enquanto eu acompanhava a página da Cederj – Polo Volta Redonda – já havia lido a lista dos poetas vencedores do concurso literário – até porque o Paulo Caruso, que conquistou 2.º lugar, era um grande mestre poetamigo meu, com quem estabelecia contato frequentemente -, logo, o nome dela não me foi estranho no momento em que ela me contou sua brilhante conquista literária). Fiquei encantado com a personalidade irradiante de lirismo de Maria Eduarda Fernandes, foi ‘amizade à primeira prosa poética’, o que tornou ainda mais especial a minha já superpositiva participação na II Felivre (lembrando: atenção, organizadores dos eventos culturais da Cederj, precisamos de mais edições de eventos culturais fodásticos como este).
Depois de 9 de novembro, conversamos esporadicamente por WhatsApp, e, assim, tive contato com o mais-que-fodástico poema premiado de Maria Eduarda Fernandes, intitulado “Assimétricos”. O poema apresenta, em versos livres (ou seja, diversos como o tema que aborda) e ritmicamente harmônicos, ao mesmo tempo que diversificados (novamente, observem: conteúdo e forma se abraçam no premiado escrito lírico), a beleza da assimetria na diversidade de nosso povo. Cabe destacar a intencional ausência de padrões de rima, com o uso principal de rimas imperfeitas (quando há correspondência, mas não igualdade, de sons), esporadicamente intercaladas com rimas perfeitas (em que há correspondência total de sons, havendo repetição tanto dos sons vocálicos como dos sons consonantais), mas, neste último caso, também intencionalmente pobres quanto ao valor (quando as palavras que rimam pertencem à mesma classe gramatical), o que mantém um ar de espontaneidade e simplicidade, aspectos tão caros ao tema diversidade proposto pelo poema. Também vale ressaltar a variação de uso de versos [di versos] transbordados com hipérbatos (quando há inversão da ordem natural das palavras de uma oração) na maioria das estrofes, intercalados esporadicamente com versos que seguem a ordem mais natural da oração (sujeito-verbo-complementos), mais uma vez, apresentando, de forma genial, a diversidade tanto na forma quanto no conteúdo. Como vocês sentirão, o efeito da leitura - tanto superficial quanto profunda - do mais que fodástico poema de Maria Eduarda Fernandes é de supernatural maravilhamento diante do magnífico escrito lírico.
Diante da obra prima de Maria Eduarda Fernandes, logo lhe pedi para publicar o poema no blog, solicitação aceita e correspondida pela autora. Mas eis a novela das postagens: envolto em dramas como eu já citara logo no início e que não sei explicar, tenho publicado muito pouco e muito inconstantemente neste espaço lírico coletivo. O mais que fodástico “Assimétricos” foi muito injustamente adiado diversas vezes para as raras postagens que publico nos últimos tempos. Mas hoje, nestes dias iniciais de úmido outono, de folhas melancolicamente caindo e da natureza se renovando, enquanto dança entre climas indefinidos (ora garoa, ora breve calor, quase frio, quase quente, quase sempre quase sendo pleno em sua diversidade), finalmente, faço minha reparação e, hoje – finalmente! -, compartilho minhas solidões líricas com o poema “Assimétricos”, de Maria Eduarda Fernandes. Tenho certeza de que vocês, prezados e atenciosos amigos leitores, irão, como eu, adorar o mais que fodástico poema de Maria Eduarda Fernandes.

Assimétricos
Maria Eduarda Fernandes


Em versos digo
Diversos somos
Assimétricas rimas
Em vidas, em sonhos

De tantos cantos
Fluindo
Abrilhantando

Nossas histórias
Tem muitas cores
Misturas santas
De nossas peles
Diversos são
Nossos amores

Andamos por aí
Apenas humanos
Sem padrões a cumprir

Um olho não vê
Mas a mão afaga
Alguém não te escuta
E outras línguas fala

São versos e flores
Nesta melodia
Diversos sabores
Estes que te espantam

Viva a liberdade de crer
Ou não crer

Além da palavra
A que é dita santa
Ecoam lamentos
De canaviais
Ressoam tambores
Girando nas saias
Brincando nas praias
De tantos Brasis.

Quadro "Operários", de Tarsila do Amaral,
um das mostras mais emblemáticas
da diversidade do povo brasileiro.


domingo, 26 de setembro de 2021

A educação como prática de manipulação: Paulo Freire e eu passeando pela Educação Capitã Gancho da Terra do Nunca

Paulo Freire faria 100 anos neste ano (possivelmente, dificilmente fizesse diante de tantos surtos que encararia vendo os seus detratores no poder manipulando planos de 100 anos de atraso para educação). Além de escritor, sou professor. E, como professor, devo meus aplausos à educação como prática de liberdade de Paulo Freire; sim, ele é um dos poucos pedagogos que realmente me inspirou plenamente. E, diante de antipedagógicos planos de retorno às aulas presenciais, ouvindo a denominação de ensino híbrido ao que está longe do real e potencial híbrido e muito próximo do burocrático, new-skinnerano-fascistocrático e bizarro (se liguem: primeiramente atiraram pessoas ao vírus sem proteção numa subversão tosca da expressão “imunidade de rebanho” – que só acontece com vacinação -; agora, com menor visibilidade [porque, no fundo, no fundo, no fundo, pode confessar, ninguém liga bulhufas pra educação há muito tempo, desde que a família seja preservada com os filhos bem ocupados, atirados à responsabilidade de outrem], fazem escolas de repositórios pra politiqueiro poder se orgulhar enquanto a expressão “ensino híbrido” ganha deformações aliens; a educação nunca esteve tão mal educada, para felicidade dos infelizes governadores da Retrogracia Dominante), diante dessa porra toda (não gostou do palavrão, fui mal educado? Pois é... né... foda-se: falar atualmente de educação – como apaixonado por ela - me deixa bastante mal educado diante da farsa que se encena) e diante de um convite do escritor-amigo Alessandro, da Oficina Poesia & Criação, fiz uma crônica inspirada nas minhas idas e vindas com Paulo Freire.

 Paulo Freire e eu passeando pela Educação Capitã Gancho da Terra do Nunca

Carlos Brunno Silva Barbosa

 

Minha relação com Paulo Freire foi marcada por idas e vindas, ausências e plenitudes.

Confesso que o conheci mais tardiamente que esperava. Dirigindo-me ao túnel do tempo, nos redemoinhos que a memória faz, meu eu presente, ao rever caminhos e descaminhos do meu passado, viajando aos meus tempos de aluno, até ouve alguns sussurros de Paulo Freire que saíam meio sufocados em algumas raras práticas pedagógicas. Mas basicamente vejo-me orientado por um ensino mais tradicional e, muitas vezes, ainda engessado do tecnicinismo da recém-encerrada, porém, infelizmente, jamais suplantada, era ditatorial brasileira. Salvos alguns professores brilhantes, lutando desarmados contra tanques de automatização, fui educado no regime mais tradicional e imbecilizante conservador possível, num processo muito bem elaborado, competente, mas frígido. Minha formação escolar me gera sentimentos contraditórios: não há como negar o enriquecimento enciclopédico que me forneceram, mas também não se pode ignorar que me fizeram um estudante coberto de conhecimentos extravagantes, untado numa forma uniforme, fabril, mas falível em inteligência emocional e burro para entendimentos de meu papel social.

Só vim a conhecer e reconhecer a educação pela prática de liberdade de Paulo Freire na faculdade. E, mesmo assim, de forma paradoxal: conheci o trabalho do formidável pedagogo através de aulas expositivas e da leitura de seus livros, fiquei admirado, mas toda essa revolução educacional fascinante ainda me era apresentada por acadêmicos geniais, mas ainda entranhados de tradicionalismo e tecnicinismo. Muitas palestras e declarações apaixonadas sobre Paulo Freire, mas tudo transmitido em estruturas rígidas, conservadoras e consciente e inconscientemente conservantes. A educação preconizada por Paulo Freire continuava sendo uma menina linda, cantada por todos, mas relação prática íntima com ela, nada (você está na faculdade, rapaz, se vira!).

Ainda hoje, como professor, convivo com este paradoxo. Conservo o legado e inspiração de Paulo Freire, tento, com os meios parcos que possuo, praticar – este é o verbo, que fica só sendo verbalizado, e raramente aplicado – sua educação libertária. Pratico algumas adaptações de suas técnicas: evito livros didáticos como muletas, produzo meu próprio material de acordo com o contexto dos alunos (em aulas iniciais, uso gêneros como autodescrição em sites de redes sociais virtuais, autobiografia, etc, para colher informações pessoais dos estudantes para melhor conhecimento das turmas, numa tentativa de replicar a genial ideia freiriana de se entrevistar e conhecer a realidade de sua comunidade escolar antes de elaborar o seu material de aula), me desdobro com atividades que possibilitem que os alunos tomem consciência de seus papéis sociais e tenham voz no processo ensino-aprendizado, mas, de vez em quando, o próprio sistema de ensino e a sociedade engessam os profissionais da educação, limitando-nos com preconceitos e/ou sufocando-nos com papelada e documentações que empacam em tradicionalismo e tecnicinismo. Confesso que, às vezes, exausto, traio Paulo Freire e caio em facilitações, mas só damos um tempo; depois voltamos e nos revoltamos aos princípios retrógrados que ainda regem a educação brasileira.

E, nesses longos anos de harmoniosa relação, com breves hiatos de instabilidade, Paulo Freire e eu xingamos os opositores da educação libertária freiriana, que, em sua maioria, nunca leram nada deste formidável pedagogo e ainda têm a audácia de fakenewar que a educação brasileira está no fundo do poço por causa do magnífico – e agora centenário – pedagogo. A verdade é o oposto: a educação brasileira está no fundo do poço, porque atiram a pedagogia freiriana como se ela fosse um conjunto de frases motivadoras, ao invés de realmente praticá-la. Salvo raras exceções, nunca tivemos a educação freiriana realmente praticada, executada. Fica aqui a minha conjuração, a minha confessa inconfidência: educadores, tiremos a educação freiriana do mundo das ideias e pratiquemos mais a educação concretamente libertária. Só assim tiraremos as algemas que prendem a educação brasileira ao fundo do poço, situação ignorantemente empoçada (e empossada) por nós mesmos.

 

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

O exílio sem título e a vida em família da mais que fodástica poetamiga Gisele Pacheco

Ontem foi o Dia do Poeta (é, eu queria ter postado antes da meia-noite para a homenagem ser plena, mas a terça-feira foi frenética; ainda não parei nem me desliguei um minuto sequer, porém, contudo, todavia, apesar de todo corre-corre, não descansaria sem deixar uma postagem nova aqui para vocês). E nada melhor para homenagear a data dos navegantes que cursam seus barcos para além do infinito que relembrar poemas antigos, que até hoje me enchem de fascínio, da mais que fodástica poetamiga teresopolitana (outrora, minha poetaluna dos meus primórdios em sala de aula, na Escola Municipal Nadir Veiga Castanheira, entre 2006 e 2008) Gisele Pacheco. 
Sim, hoje (ela deve estar com aquele sorriso de orgulho, mas disfarçando a alegria, com marra: “Finalmente, né, professor...”), depois de milênios de atraso, sim, finalmente, compartilho minhas solidões poéticas com a magnífica poetamiga Gisele Pacheco! Gisele sempre teve um talento fenomenal, um lirismo maduro muito além das limitações que encontramos, quase sempre, quando iniciamos nas veredas poéticas; era a rainha do paradoxo (domava esta ardilosa figura de linguagem a seu bel talento como poucos, tanto que sua arte, em alguns certames literários escolares, era compreendida por poucos), sempre teve um senso crítico enorme, como poderão ver na paródia da Canção do Exílio que ela construiu em parceria com a colega Pâmela, no 7.º Ano (!), e sempre foi positivamente marrenta (quem é genial pode desfilar marra; poucas artistas, como ela, podem ostentar um título internacional [3.º lugar no 1.º Concurso Internacional de Poesias Gioconda Labecca, em Campanha/MG] quando ainda cursava o oitavo ano do ensino fundamental [nessa época, eu, por exemplo, engatinhava na redação comum, pois meu despertar poético só aconteceu quando eu cursava o 1.º ano do hoje chamado Ensino Médio]). Em seu facebook, Gisele já manda o recado na descrição: “O que dizem sobre mim é apenas a perspectiva deles...” É meio que uma drummondiana seguindo o verso do mestre: "Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou". 
Sim, os deuses da poesia gostam muito de mim, afinal, eu comecei minha carreira no magistério premiado com hipertalentosas artistalunas com personalidades líricas autênticas e iluminadas como a Gisele Pacheco. E lembrança boa é para ser compartilhada, poemas mais que fodásticos que flertam com o tempo infinito então nem se fala: ela tem toda razão, estes poemas deveriam estar aqui no blog há tempos. 
Sim, finalmente, amigos leitores, vamos curtir o lirismo magnífico e enamorado com o tempo infinito da mais que fodástica poetamiga teresopolitana Gisele Pacheco! 


Exílio sem título 

Minha terra tem políticos
Onde canta o mensalão. 
As guerras que aqui têm
Nunca lá terão.

Nossos céus são mais cinzas, 
Nossas estrelas mais amarelas, 
Nossas Várzeas têm mais prédios, 
Nossos bosques têm mais favelas.

Minha terra tem ladrões
Que cantam como sabiás.
Os ladrões que aqui roubam
Não roubam como lá.

Aqui encontro crimes
Que não encontro lá. 
Minha terra tem ladrões
Que cantam como sabiás.

(Poema escrito por Gisele e Pámela, quando estas cursavam o 7.º ano [na época, ainda chamado de 6.ª série]. Percebam desde a super originalidade irônica do título até os versos críticos ferozes. Gregório de Matos, o Boca do Inferno, está louvando o nome destas duas jovens poetas até os dias atuais!)


Vida em família

Com o doce som da voz da minha mãe a me chamar,
com a voz serena e meiga a chamar
minha irmã no meio dos manguezais a namorar
e, pobre de mim, tenho que ocultar.
Meu pai a trabalhar, trabalhar sem descansar
até que o dia chega ao fim
e todos vão se deitar
pois amanhã é um novo dia
e tudo continuará.

(Poema de Gisele Pacheco, quando ela cursava o 8.º Ano, premiado com o 3.º lugar no 1.º Concurso Internacional de Poesias Gioconda Labecca, em Campanha/MG na Categoria Juvenil [de 13 a 17 anos]. O texto foi publicado em uma coletânea. Podemos perceber no poema a influência de poema como “Infância”, de Carlos Drummond de Andrade, mas com um método completamente personalizado, que me lembra mais os poemas de Conceição Evaristo sobre suas memórias de infância. Reparem o uso incomum da gradação, tornando o poema inicialmente suave e divertido para uma criticidade mordaz ao dia a dia laborioso e inexorável do pai que trabalha sem parar e da continuidade infalível da rotina do ciclo familiar).



quarta-feira, 1 de maio de 2019

Repassando o Passado Trabalhador das Famílias com os 3 Ferros de Passar Movidos a Brasas


Hoje, 1.º de Maio, comemoramos o Dia do Trabalhador, por isso resolvi trazer uma postagem diferente: uma série de relatos e memórias sobre um objeto antigo, muito usado por donas de casa e empregadas domésticas em tempos passados: o ferro de passar movido a brasas. Este velho instrumento de trabalho, ainda encontrado principalmente em casas de famílias que vivem em regiões rurais, apesar de atualmente servir mais como peça de decoração ou como mais um mero objeto no espaço onde se guarda quinquilharias antigas, tem muitas histórias e traz muitas recordações.
Como parte de um projeto iniciado no ano passado, em homenagem ao Dia da Família na Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, em Teresópolis/RJ, solicitei aos oitavos anos da época (atuais nonos anos), entre o fim de maio e o início de junho de 2018, objetos antigos de família, com suas respectivas histórias/recordações, com objetivo de montar uma exposição, realizada no dia 9 de junho. O ferro de passar movido a brasas foi um dos objetos mais citados, sendo trazido por 3 escritores-alunos diferentes. 3 ferros de passar movidos a brasas, 3 relatos/depoimentos/memórias; não havia como ignorar sua importância nas lembranças, nas histórias passadas de trabalho.
Hoje, dia dos trabalhadores, compartilho minhas solidões poéticas com esses 3 ferros de passar movidos a brasas e seus 3 respectivos fragmentos de memórias, elaborados por 3 entusiasmados escritores-alunos.

O velho ferro de passar ou engomar


                Mais conhecido como ferro à brasa, o antigo ferro era como o modelo de hoje, com a diferença de que, para seu uso, abria-se a parte de cima e colocava-se a brasa nessa parte oca do objeto. Depois de tanto tempo, o ferro teve suas evoluções.
Ester Rodrigues Monnerat (na época, 8.º Ano B, atualmente no 9.° B)

O antigo ferro de passar da vovó


Minha avó, quando comprou esse ferro de passar, trabalhava para uma família rica.
      Ela passou muita roupa com esse ferro.
Jonathan Teixeira Maia, (na época, do 8.º Ano C, atual 9.º C), neto de Maria do Carmo

O ferro preto movido a brasas 
de minha avó Maria


No alto de um morro, morava a minha avó com sua família simples. Com o velho ferro preto, ela passava várias camisas, calças, shorts, etc.
      Me recordo de minha  avó dizer que colocava brasa nele e assoprava para aquecê-lo.
      Com o passar do tempo, tudo foi se modernizando. Hoje em dia, ele é só um ferro antigo, mas que um dia teve muitas qualidades e utilidade.
Vitória Fernandes (na época,  do 8.º Ano A, atual 9.º A), neta de Maria da Conceição

domingo, 31 de março de 2019

Solidões Memorialistas Compartilhadas: Leticia de Lima Gonçalves nos tempos do feijão com farinha e jiló


Hoje, após um segundo turno quase impecável (sou vascaíno, mas não devemos omitir a realidade), o Flamengo conquistou a Taça Rio, parte do Campeonato Carioca de Futebol de 2019. Isso me fez lembrar-me de uma querida escritoramiga – ex-escritoraluna da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, onde leciono – fanática pelo Flamengo e também – quando se mostrava disposta – supertalentosa na escrita, a mais que fodástica artistamiga teresopolitana Leticia de Lima Gonçalves.
Voltando ao jogo de hoje, o Vasco ficou devendo um melhor desempenho nessa segunda fase do campeonato – e, voltando a mim e Leticia – da mesma forma como devo esta postagem há anos para a querida escritoramiga flamenguista. Trago hoje um dos grandes textos de memórias escrito por Leticia de Lima Gonçalves. Na época, sua dedicação às atividades escolares oscilavam bastante e, por isso, a importância maior do texto com o qual compartilho minhas solidões poéticas com Leticia: esse texto de memórias, derivado de uma entrevista dela com seu pai, foi um desafio – ela dificilmente antes tomava coragem para fazer as redações – e um ponto de virada para a talentosa escritoramiga – ela se dedicou, venceu a hesitação inicial, fez uma primorosa entrevista, escreveu, reescreveu, suou liricamente, esmerou seu texto ao máximo para que me entregasse orgulhosamente sua cristalizada versão final, que trago hoje ao blog.
Confesso vergonhosamente devo essa solidão compartilhada à escritoramiga e aos amigos leitores há tempos (arrumar a papelada de casa ontem auxiliou no meu reencontro com o texto em meio à babel de arquivos). Bem, na falta de desculpas melhores, só posso dizer o cretino “sinto muito, mas antes tarde do que nunca” rs. Outra confissão: me amarro nestes textos em que nos passamos por outra pessoa que nós conhecemos (já escrevi um texto desse tipo em homenagem à minha mãe, texto este já publicado em jornal e aqui no blog), traz aquela sensação fraterna, de se dispor a passar pelo outro, sentir como o outro sente, como os amigos leitores fazem quando se passam pelos personagens cujas peripécias são lidas vorazmente.
Viajemos, amigos leitores, através do formidável narrador em primeira pessoa da escritoramiga Leticia de Lima Gonçalves dos tempos do feijão com farinha e jiló até os dias atuais, refletindo o antes, o hoje e sonhando com o promissor depois.

Dos tempos do feijão com farinha e jiló

Eu me lembro como se fosse hoje: estava numa mesa comendo feijão com farinha e jiló. Na minha época, não tinha variedade de comida como tenho hoje em dia; eu só comia feijão com farinha e jiló. Era ruim, mas tinha que comer, senão apanhava. Minha mãe ficava perto de mim e de meus irmãos nos vigiando com uma vara de marmelo. Uma vez, meu irmão mais novo apanhou muito, nunca mais deixou de comer as refeições que meus pais ofereciam.
Eu me lembro de que trabalhava desde os 6 anos de idade na roça. Ia pra escola e, quando voltava, tinha de trabalhar, colher feijão, catar jiló, etc.
Hoje tenho uma família que eu amo, apesar de todos os problemas. Minha filha de 15 anos é meio desobediente, não cumpre com parte das tarefas de casa. Minha esposa vive brigando com ela e eu não posso fazer nada, porque é coisa de mãe e filha.
Apesar de seu comportamento complicado, minha filha me ajuda no trabalho, tanto que até dei uma parte da lavoura para ela cuidar. Assim, ela faz seu dinheiro e está juntando para comprar o que desejar.
Hoje moro em um lugar calmo, tranquilo. As pessoas são amigas, e é um lugar onde todo mundo é parente. Tenho um terreno que é só meu, da minha filha e da minha esposa, sempre foi assim. Tenho um sogro enviado por Deus e uma sogra abençoada que me ajudaram muito quando eu mais precisava.
Atualmente me considero um bom cidadão, tenho minha lavoura de tomate, couve e alface para fazer dinheiro e pagar as contas de luz, pagar o que eu devo e por aí vai minha vida, bem à frente dos tempos do feijão com farinha e jiló.
(Texto de memórias escrito por Leticia de Lima Gonçalves, 
baseada em entrevista feita com seu pai.)



quarta-feira, 16 de maio de 2018

O momento literário em que fui minha mãe: Memórias de meus tempos (na verdade, os tempos dela) de fábrica


No último domingo, dia 13 de maio, foi Dia das Mães. Devido a essa data comemorativa superespecial, lembrei-me de um texto que eu escrevera há alguns anos atrás, utilizando como personagem narradora em 1.ª pessoa a minha mãe Vanda Silva Barbosa.
Na época (julho/agosto de 2012), o Sarau Solidões Coletivas vivia tempos áureos e tínhamos uma parceria fodástica com o outrora recém-ressuscitado (hoje, mais uma vez, ‘falecido’) Jornal Valença em Questão (VQ). Meio que a pedido (na verdade, fiz a sugestão, ainda meio sem saber como seria o escrito final, e o pessoal do jornal abraçou a ideia e me cobrou) de um dos principais articuladores do VQ na época, Vitor Castro, construí um texto de memórias, inspirado nas lembranças de minha mãe sobre a Valença de sua juventude e início de trabalho nas fábricas têxteis da cidade (na época, em ascensão; hoje, fechadas).  Para a produção do texto, utilizei técnicas parecidas com as apresentadas na Olimpíada de Língua Portuguesa e os métodos conhecidos dos escritores ghostwriters: entrevistei mamãe e, a partir das informações retiradas da entrevista somadas à percepção de marcas coloquiais da fala da entrevistada, elaborei o texto de memórias, me passando como protagonista-narrador por minha mãe. Ela possuía histórias maravilhosas do seu passado e considerei que tais narrativas orais mereciam ser passadas para a narrativa escrita.
Abaixo os amigos leitores poderão ler o texto de memórias que escrevi, o momento em que liricamente ‘fui minha mãe’. Espero que gostem. Abraços e Arte Sempre!

Memórias de meus tempos de fábrica

Não que eu seja uma daquelas pessoas que só vê o lado negativo das coisas; nem fica bem pra um ser humano ser assim, né? Mas confesso que às vezes me dá uma sensação estranha, meio que uma tristeza, quando vejo todas essas fábricas têxteis fechadas aqui em Valença. Elas fazem parte de minha história, de minhas memórias. Sou de um tempo em que essas fábricas moviam a economia da cidade; você saía de uma delas e logo em seguida já arrumava emprego em outra.
Me lembro bem de meu início de trabalho nessas fábricas. Acho que foi nos idos de 1969 quando comecei a trabalhar em fábrica (me desculpe, mas faz muito tempo e a gente sabe como é a nossa memória: às vezes ela engana a gente e recria as nossas histórias). Fazia um ano que papai tinha morrido, éramos 11 pessoas na família numa casa grande na roça e precisávamos ajudar nas finanças da casa. Como eu já tinha completado 14 anos, mamãe conseguira uma vaga na Fábrica da Chueke pra mim (sim, é aquela mesma onde fica a Richards hoje em dia).
Eu morava no Cambota. Naquele tempo, o bairro não era asfaltado; ainda havia até os trilhos de trem na estrada. Como não havia mais trem por lá, colocaram até um ferro pra impedir a passagem deles nos trilhos – minha irmã Maria e eu já nos machucamos passando por ali naquela época. Tenho a cicatriz até hoje, bem aqui nessa perna, veja só. Pra chegar na Chueke, andava quatro quilômetros e meio e trabalhava na noveleira – aquela que fazia os rolos - das cinco da manhã até uma da tarde. Trabalhei apenas um mês lá, pois mamãe achava ruim eu caminhar tão mocinha pela estrada de madrugada.
Mamãe optou por me colocar na Fábrica de Renda e Bordado, em frente ao que hoje é a Metamorfose, pois minha irmã mais velha, a Yara (na época com 20 anos de idade) trabalhava lá e assim poderíamos sempre ir juntas ao trabalho. Lá trabalhei na máquina automática de fiação durante um ano e pouco. Todas as meninas da família, minhas irmãs, trabalharam lá, com exceção da Dinah, minha irmã mais nova. Como eu dissera antes, a história dessas fábricas fazia parte da trajetória de trabalho de nossa família, de nossa luta pela sobrevivência sem papai aqui para nos amparar – tínhamos que manter nossa casa, dar boas condições para mamãe e para nós mesmas.
E deu tudo certo, graças a Deus! Após a Fábrica de Renda e Bordado, trabalhei na Fábrica Progresso e na Santa Rosa. Não faltava trabalho em fábrica naquela época.
Como os tempos mudam. Hoje, se você não quer ficar desempregado, tem que buscar vaga no comércio, que, naquela época, era quase inexistente. As pessoas saíam de Valença pra comprar as coisas, nenhuma loja grande durava na cidade por muito tempo. Agora, está tudo mudado: o comércio cresceu muito e todas as fábricas nas quais trabalhei fecharam. Fico impressionada com essas mudanças bruscas; se bem que eu adoro passar no centro e poder fazer minhas comprinhas sem ter que sair da cidade. Como disse, não se pode ver só o lado negativo das coisas.
Ah, mas tinha uma coisa que eu não gostava nem um pouquinho da época em que trabalhava em fábrica: como eu era menor de idade, meu salário era muito mais baixo que de um trabalhador maior de idade. E tinha que dar a mesma produção [atingir as metas] que os mais velhos, veja só! Era uma pressão danada, eu me virava, até dava produção, mas não passava da meta. As colegas que davam produção maior às vezes me ajudavam. Não posso esquecer jamais da minha amiga Zilma, que, na época da Santa Rosa, dava produção e ainda me ajudava pra que eu alcançasse a minha meta.
Atitudes como essa não acontecem muito hoje em dia, com todas essas câmeras internas, com todo esse desespero para se manter no emprego. Hoje é mais cada um por si. Mas acaba que, pensando nas fábricas de Valença hoje em dia, não há nem união, nem cada um por si, afinal, não há mais fábricas como antigamente por aqui. Às vezes, vem gente me dizer que foi por causa do sindicato que as fábricas fecharam, mas eu não sou boba: na década de 1990, a Santa Rosa, por exemplo, muito antes das brigas com o sindicato, já funcionava meia boca, pagava os funcionários com atraso; esse negócio de ficar culpando os outros pelos nossos próprios erros é uma atitude que eu não aceito, sempre fui muito honrada e não gosto de mentira e covardia. Que cada um admita o seu defeito, conviva com seus pecados e arrume um jeito de encontrar a sua redenção.
É... parece que pecamos demais como cidadãos valencianos e nada de acharmos uma redenção. Continuamos votando errado, trocando voto por saco de cimento, dentadura, um dinheirinho e quem paga a conta somos nós mesmos: aí estão as fábricas fechadas, Valença estagnada, um cenário triste que não me deixa mentir. A cidade tinha tudo pra dar certo, não tinha? Mas não dá. Ver as fábricas fechadas me faz pensar em tudo isso, me faz relembrar – se a gente não tiver memória, como vamos conquistar um futuro melhor para nossa terrinha? Mas, já disse isso e nunca custa lembrar, não devemos trazer na cabeça só coisas negativas, a gente fica até doente assim, não é verdade? Tenho fé em Deus que um dia Ele vai iluminar a cabeça da minha gente e o povo vai se conscientizar. Sim, um dia, a gente vai usar a memória pra funcionar, aprender com nossos erros e ver nossa cidade voltar a crescer!
(Texto escrito por mim, baseado nas memórias de minhaa mãe, Vanda Silva Barbosa, publicado anteriormente no Jornal Valença em Questão n.º 43, de Agosto de 2012. Texto também acessível no link: http://blogdovq.blogspot.com.br/2012/08/vq-n-43-memoria.html)



sábado, 17 de setembro de 2016

Solidões compartilhadas in memoriam: A Teresópolis esbranquiçada pelo orvalho de Maria Neuza Menezes de Paula

Desde quarta-feira desta semana, por mais que tenha disfarçado para lidar com os compromissos cotidianos, venho me sentindo um tanto introspectivo, guardando dentro de mim pequenas revoltas contra os deuses que regem nossos destinos e escolhem qual é nosso momento de viver e de morrer. Na última quarta-feira, abri, durante a tarde, um recado deixado pela escritoramiga Mirian Santos, artistamiga que conheci quando eu lecionava nas turmas da EJA, à noite, no CEROM.  Abri a caixa de mensagem na expectativa vã de ler um boa tarde ou bom dia ou encontrar um novo escrito da talentosa escritoramiga, que há tempos não me apresentava uma nova arte sua. Mas a mensagem não  trazia alegria, poesia ou alívio, e sim pesar: Mirian me dava a triste notícia que a escritoramiga Maria Neuza Menezes de Paula havia falecido há mais de uma semana. Lembrei-me de Maria Neusa na hora; dei aula para ela nas turmas noturnas da EJA, no CEROM: era uma senhora super-alegre, sempre sorridente e excelentíssima escritora, tanto que ganhara, de forma unânime, o Concurso de Textos de Memórias da EJA, em 2012, com o seu mais-que-fodástico texto “Teresópolis esbranquiçada pelo orvalho” (o texto é tão bom que até já  usei-o em provas e exercícios de turmas de oitavos anos no ensino relugar).  A partir de 2013, não tive muitas notícias de Maria Neusa, pois me afastei das aulas da EJA, no CEROM, mas seu texto e sua aura cheia de vida (sempre conversávamos durante os intervalos da aula) permaneciam eternos no recanto de minhas melhores lembranças dos tempos da EJA. E hoje o dia me acorda meio nublado, com uma melancólica neblina em Valença/RJ... me relembro, triste, da Teresópolis cheia de esperança e molhada de orvalho de Maria Neusa – será que o orvalho, outrora símbolo de beleza, tornou-se também uma lágrima da natureza, constatando sua partida, Maria Neusa?  Acho que você me diria que não – sempre tão mais otimista que eu! -, mesmo falecida, acho que você me diria que o orvalho continuava a ser beleza e, talvez, também um sorriso sereno que você nos deixara após a sua partida.
Hoje deixo para os amigos leitores aquele premiado e belíssimo texto seu, Maria Neusa. Que os vivos mantenham a esperança em seus escritos eternamente viva na cidade partida, querida e saudosa escritoramiga.

Teresópolis esbranquiçada pelo orvalho

Teresópolis era cidade mansa, calma, com seus pastos verdes. No inverno, mudava a sua cor, ficava esbranquiçada pelo orvalho, parecia neve. Seus rios pareciam chorar, cheios de água, conseguiam até peixe criar. Eram rios vivos em cujas margens nasciam flores e todo o seu redor era colorido.
A praça da Igreja São Pedro era de muita poeira e muitas árvores, sem decoração, mas era o melhor lugar para brincar e, depois, na sombra das árvores, descansar. Hoje está decorada e reservada. Suas festas não tem mais fogueira, as tardes não têm mais sombra.
A Reta, chegada principal da cidade, era arborizada, anunciava ao turista algo especial, um contato direto com a natureza. Que pena! O homem tirou as árvores, mas a natureza é mãe e uma mãe não mata seu filho.
Na casa da minha irmã, passava um rio. Eu adorava dormir lá, pois escutava barulhos de cachoeira. O Morro do Tiro era um lugar carente e de muita gente, mas também de muita vegetação. Hoje, onde não tem algo construído, está descampado, como se tivessem passado uma lâmina. É lamentável! Essa é a evolução dos tempos? Será que precisa acontecer alguma coisa para o homem entender que a conscientização é o milagre que o mundo precisa alcançar?
Mas ainda temos o que ninguém tem e nunca terá: um Dedo de Deus a nos abençoar!

Maria Neuza Menezes de Paula


Meu filho-poema selecionado na Copa do Mundo das Contradições: CarnaQatar

Dia de estreia da teoricamente favorita Seleção Brasileira Masculina de Futebol na Copa do Mundo 2022, no Qatar, e um Brasil, ainda fragiliz...