Olá, caros leitores, bem vindos ao blog daqueles que guardam um sorriso solitário no canto dos lábios que versam sonhos coletivos. Bem vindos ao meu universo virtual poético, bem vindos ao mundo confuso e fictício ferido de imortal realidade. Bem vindos ao inóspito ambiente dos eus líricos em busca de identidade na multidão indiferente, bem vindos ao admirável verso novo.
2 de novembro de 2022, Dia dos Finados, 3 dias após a divulgação do resultado da acirrada eleição presidencial de 2022. O clima, meio chuvoso e bastante melancólico, como costuma sempre ser neste dia de luto, elegia e filosófica consternação, na atualidade turbulenta, ganha múltiplos significados: por mais que tentemos dizer que a democracia vai bem, apesar de respirar por frágeis aparelhos, parece que sempre estamos de prontidão para sua extrema unção, parece que finados e democracia são atualmente palavras relacionadas. E a chuva desse dia, que relembra os mortos de nosso dia a dia e rememora a necessidade de uma passagem sustentável pelo luto até a difícil aceitação, molha levemente os ombros dos eleitores do candidato vencedor como se lavasse as escadarias sujas de uma igreja ou templo, como se banhasse com tímida esperança todo peso carregado durante muito tempo até a difícil e muito aguardada vitória, mas também encharca as capas e corpos dos eleitores do candidato perdido perdedor que bloqueiam estradas, saídas e entradas de um novo despertar – nestes eleitores, sonhadores de antigos pesadelos confundidos com utopias inexistentes, as gotas são pesadas; mesmo suaves, parecem furiosas, ameaçadoras, como ovelhas que rosnam como lobos quando acuadas, quando se sentem intransitivamente desesperadas. Neste 2 de novembro de 2022, neste Dia de Finados, há muito mais que pessoas mortas, há ainda vida em transe, há purgatório, sentimentos mal resolvidos, futuros trafegando entre céus e abismos, permanecendo neste entre, nem elevado, nem caído, apenas uma incógnita indecifrável porque as pessoas-problemas da equação não se unem para resolver a questão, como se cabo de guerra pudesse substituir as operações básicas racionais da civilidade, reflexão, autorreflexão (sim, seja de qual lado estiver, a fissura e a questão deve ser contemplada e autocontemplada por todos), adição, subtração, multiplicação, divisão, comprovação, constatação, união e entendimento.
Há anos, nós, brasileiros, estamos dando murro em ponta de faca, nos dividindo não como múltiplos seres pensantes com pontos de vistas opostos e a postos para o debate, mas feito facções fanáticas de torcidas furiosas com armas (visíveis ou ocultas) em punho, empenhadas em armar brigas (mesmo se me disseres ser da paz, sabe que alguma provocaçãozinha você não resistiu e praticou, despertando gatilhos de armas, que, às vezes, por arrogância disfarçada de altivez, você nem observou. E o outro, estouradaço, nem sabe como tudo começou. E todos juntos, sem pensar, pescados pelos ganchos do matadouro da inconsciência virulenta coletiva que vai completando mais de 9 anos de eficiente devastação programada). E todo 2 de novembro, como o de 2022, há mais de 9 anos, tenta trazer chuva ou sol para lavar ou secar o sangue que perdemos a cada novo murro na ponta da faca (mudamos a forma e a posição de socar, mas, se continuamos acertando a lâmina, vamos continuar a sangrar). Há mais de 9 anos, nós sangramos, sangramos e continuamos a sangrar, e não tem operação, curativo, remédio ou milagre que estanque uma ferida tão constantemente aberta. E não tem finado que descanse em paz se finado nunca está, se mantemos a obsessão, se não resolvemos os casos. Temos que parar de esmurrar a faca.
Sabe, eu tenho me sentido esgotado. Mesmo quando não faço nada, nada, me sinto cada vez mais esgotado. Essa sensação de lutos mal resolvidos, mal enlutados, essa percepção de constante estado de confronto, essa sensação de andar sempre numa multidão bipartida, tem sido difícil suportar o falecimento de uma antiga poesia inventada que caminhava entre nós, brasileiros, e que, agora, vive exilada em algum lugar bem distante de nosso país. Dias de finados sempre tiveram pesos sutis como lágrimas gentis, mas, de alguns anos pra cá, parecem estar com cargas extras, como se velassem um morto-vivo, uma agonia que não para nem pra se cansar de vez, nem pra definitivamente descansar. Mas, mesmo esgotado, ainda espero (e, por meus parcos líricos meios, tento provocar), ainda anseio, todo ano, rever o 2 de novembro como ele outrora foi e como deveria ser: o Dia dos finados, o Dia das Elegias mais Lindas. Mas ainda não foi em 2022, ainda não foi desta vez – como nos anos anteriores, 2 de novembro, infelizmente, foi o Dia dos finados que não finaram, dos mortos-vivos que agonizam por um mundo melhor, o dia da Agonia Temporariamente Infinita mais Esquisita. Sei que 2 de novembro de 2022 tentou, mas nós, brasileiros, precisamos colaborar, pois ainda não foi desta vez. Espero que, em 2 de novembro de 2023, essa agonia temporariamente infinita passe e que o dia volte a me inspirar e tocar como a canção “Elegia”, de New Order, ou a “Canção pra você viver mais”, de Pato Fu, e não como os 9 círculos do inferno de Dante.
Quem sabe, amanhã, nós, brasileiros, após termos estragado mais um Dia de finados, finalmente, não tomamos orgulho de toda nossa cara (porque vergonha na cara já virou face de tanto que a postamos na nossa selfie), velamos respeitosamente nossos mortos, pedimos perdão aos nossos fantasmas e voltamos a amar nossos próximos como se não houvesse amanhã?
E, para não deixar a postagem sem um poema, trago um poemeto fragmentado, “Este se”, de minha autoria, publicado em meu nono livro “O nada temperado com orégano” (2015). Esse poema deveria ter sido publicado no meu quarto livro “O último adeus (ou O primeiro pra sempre)“ (2004), tanto que aborda a temática de saudade, explorada em minha quarta obra. O poema, escrito após o falecimento de meu tio Darlei, o qual eu visitava frequentemente na UTI, juntamente com meu tio João Gomes, sempre teve um caráter meio incompleto [a incompletude vem com certeza da partida brusca de meu tio e a sensação de culpa por não tê-lo visitado mais uma vez antes de sua partida – o tio João sempre me chamava, mas no convite mais recente, estava muito cansado do trabalho e acabei deixando minha terceira visita para um depois que não haveria] e acabou ficando meio deslocado nas divisões de capítulos de meu quarto livro, culminando em sua retirada e sendo publicado muito tempo depois. Como vivemos uma Era de Se no Brasil, acho que o poema se encaixa com a crônica postada e com o nosso contexto.
Finalmente chega ao blog o vídeo registra parte de minha participação no Sarau Florescer Nit, no Solar do Jambeiro, em Niterói/RJ, na tarde de sábado, dia 04/06/2022.
Primeiramente, traz o fragmento do meio para o final de meu poema "O último adeus (ou O primeiro pra sempre)" e o outro, minha interpretação de "Abismo", poema mais que fodástico do Mestre Eterno Poetamigo Pedro Lage (in memoriam).
Agradecimentos superespeciais a magnânima divartistativista Jammy Said pelo convite, recepção, carinho e cessão dos vídeos.
Abaixo dos vídeos, deixo o meu poema "O último adeus (ou O primeiro pra sempre)", de meu 4.º livro homônimo, de 2004, e o magnífico poema “Abismo”, de Pedro Lage (no original, sem o deslize que dei ao lê-lo – havia anotado às pressas, pois o celular estava ficando sem bateria, e acabei não compreendendo minha própria letra).
Em tempo: Amanhã, sábado, dia 02/07, às 8h (no horário do Brasil), estarei em live da Fiera Virtuale del Libro Italia com o Sarau Florescer Nit.(Homens e Mulheres), magistralmente organizado pela Musa Divartistatistativista Jammy Said, homenagem o Poeta-Maior Dante Alighieri. A live poderá ser acompanhada no link da Fiera Virtuale del Libro Italia: https://www.facebook.com/FieraVirtualedelLibroItalia . Não percam!
Diante da (ir)realidade da situação da arte, atualmente
sempre alvo de censura e de recurso de repressão à serviço de ordinários
trampolins para mentes simplistas e políticos retrógrados, hoje posto meu poema-manifestação
lírica inédito, uma elegia ao surrealismo desvairado e estranhamente bonito de
Buñuel e de Dali, a cada dia mais e mais asfixiado por um outro ‘sul realismo’ ‘pós-amoderno’
torpe, filho querido dos hitléricos cidadãos do ‘bem’ da Divina Coerção. Aviso: As imagens deste blog são apenas metafóricas - nem o filme "O cão andaluz", nem pinturas de Salvador Dali foram censuradas até o presente momento (pelo menos, não até o presente momento...); ao contrário, até há exposições do surrealismo de Dali agendadas no Brasil. Reafirmando: as imagens deste blog são apenas um exercício/brincadeira metafórica (é, nos dias atuais, tem que deixar tudo explicadinho. E ainda entendem/interpretam mal...).
Aos amigos leitores, também Dali enlutados com o estado ‘putrestupefato’
da arte diante de tanta pudica e fanática ‘velevadaviolentaperseguição’, eis
meu “Cão Andaluz Acorrentado”:
Cão Andaluz Acorrentado
A nuvem negra que outrora cortara a lua cheia,
como navalha sobre olhos submissos e vazios,
agora encobre cabeças pequenas
em corpos ignorantes gigantes.
O Abaporu largou Tarsila do Amaral,
e abraçou o moralismo equivocado ultrapassado
de e por Lobato
(remexem no túmulo os ossos imortais violentados).
O Abaporu xvidente virtual atira no espaço
bombas de gás moral:
“A lua está nua! Tarja preta no estado natural
de todo satélite arteficial!”
E a noite agora é apenas a nuvem negra de outrora
sem sua outrora surrealista glória
e o cão andaluz foi acorrentado como Prometeu
e está sendo dilacerado
todos os dias por corvos de Deus
no Cáucaso Divino Daquele que Dita a Dura Ditoso.
No lugar do animal lírico iluminado,
um vira-lata estagnado-nebuloso
gane pelo Estado em
sítio com cercas,
para que vivam felizes e (i)lesos os carneiros de bem e as mães
ovelhas
que zurram decência contra os pecados sem pecados do mundo.
Agora chamas procriam nas trevas dos cérebros infectos de
estupidez:
“Queimem as pinturas vanguardistas, os filmes complexos, a
poesia
e viva a tirania disfarçada
pela segurança acomodada da sordidez,
pela pusilanimidade disfarçada de sensatez.
Dali não há mais Dali (queimem quem ainda for Dali);
dali é lar do lá, do acolá, mais próximo do apocalíptico fim,
da nova reforma religiosa de Auschwitz:
a lógica ilógica venceu - glória a Deus! -;
a arte falece com cruzes fincadas por vampiros assassinos caçadores
de imaginários ateus.
Hoje, dia
31 de outubro, é um dia muito especial. E não é por causa do estadunidense dia
das bruxas (com todo respeito ao universalizado Halloween), nem por ser o Dia
do Saci (com todo respeito a uma das lendas maiores do folclore nacional). Não;
com todo respeito às demais datas, hoje, para nós, poetas ‘fãnáticos’ por
excelentíssima literatura, hoje é o dia que marca a data de nascimento de um
dos nossos maiores poetas, o Mestre Lírico Maior Mais Que Fodástico Carlos Drummond de
Andrade. Neste 31 de outubro de 2019, o fazendeiro do ar itabirano que carregava
a lírica e social rosa do povo até no brejo das almas, entre pedras no caminho
e claros enigmas faria 117 anos. Quem conhece a minha poética, sabe da imensa
influência que Drummond tem em minha poesia – tanto que já fiz, principalmente
em meu nono livro (“O nada temperado com orégano”, de 2016) e em meu quarto
livro (“O último adeus [ou O primeiro pra sempre]”, de 2004), tributos, odes,
homenagens, elegias e releituras líricas de diversos poemas dele. Hoje trago
mais um – este inédito - desses meus poemas carlosbrunnodrummondianos, especialmente
para os amigos leitores.
Faz um tempo (mais uma vez) que eu não venho aqui. O fim de
recesso escolar foi um período acelerado: muitas conquistas, muitas
transformações, shows vibrantes, boemia necessária depois de um primeiro
semestre bastante tenso, participações culturais marcantes e perdas. Sim, por
mais que digamos não, somos seres humanos, falíveis e mortais: não nos
acostumamos, mas convivemos com grandes perdas. Parafraseando o meu antigo
poema “Árvores que morrem” (de meu terceiro livro “Note or not ser”), cada
noite que vivemos é um dia que morremos. E, neste período de recesso escolar, a
perda foi imensa, capaz de abalar o tradicional “levantar-se e seguir em frente”
– é difícil caminhar, os pés ficam pesados a cada passo, quando perdemos alguém
tão especial quanto Erli Gabriel, esposa do mestre mais que fodástico artistamigo Gilson Gabriel,
eterna anfitriã das festas líricas e boêmias da Quinta das Bicas, maravilhoso
quintal da casa do casal e abrigo de momentos marcantes do Sarau Solidões
Coletivas, das conversas poéticas, dos movimentos socioculturais, da alegria
mais espontânea e mais infinita. A aura de Erli Gabriel sempre transmitiu
felicidade inebriante, sendo capaz de sublimar quaisquer dores do corpo e da
alma. Mulher guerreira, amiga das boas causas e incentivadora da poesia mais
bonita dentro de cada um nós, Erli Gabriel agora descansa em algum lugar
especial, deixando a palavra saudade com um significado mais cortante e dando
às boas lembranças um sentido mais infinito.
O enterro de Erli Gabriel, na triste tarde de 26 de julho
foi um momento difícil, pesaroso. Durante o período em que se velava o corpo de
Erli Gabriel, a divartistativistamiga Ana Vaz, com aquele ar lírico observador
único que ela possui, percebeu que o bem-te-vi da Capela Mortuária cantava sem
parar, enquanto Erli se despedia sem se despedir. Meu coração estava enlutado e
abalado demais; naquele período eu nada vi nem percebi além da grande comoção
que a perda de uma grande amiga nos deixou. Ao fim do enterro, Ana Vaz me
contou sua observação e isso me lembrou mais Erli que a comoção anterior: o
canto do bem-te-vi mesmo no momento triste era mais o jeito feliz e poético do
espírito de Erli lidar com as coisas mais dilacerantes que toda – apesar de
infalível – onda de tristeza na qual nos mergulhávamos.
Logo depois do enterro, caminhei pela estrada de Cambota –
tenho esse lance meio “Forrest Gump” (a diferença é que eu ando, enquanto o
personagem do famoso filme corria) de, meio perdido, sair andando meio sem rumo
certo, apenas caminhar pelo desejo de não parar até que a exaustão traga um
paliativo para as dores, um certo cansaço vazio. Durante o caminho, me deparei
com bem-te-vis e o comentário de Ana Vaz e o desejo de registrar a partida de
Erli Gabriel de uma forma que fosse triste, ao mesmo tempo que feliz, pois ela
era alguém sempre de bem com a vida e um poema carregado apenas de tristeza não
traduziria o espírito livre, sutil e alegre dela, intensificou-se a tal ponto
que, como raras vezes fiz, escrevi uma elegia a Erli no celular enquanto
caminhava indiscriminadamente para lugar nenhum (prefiro sempre parar e
escrever à mão ou em frente ao computador – sim, mesmo diante das inovações
tecnológicas, sou um poeta quase primitivo; uma prova disso é insistir no blog,
apesar de tal plataforma virtual estar quase que completamente ultrapassada por
outras modas virtuais -, raras são as vezes em que escrevo um poema em celular;
o texto abaixo talvez seja o terceiro ou quarto, sendo que, por sinal, o
anterior fora escrito após uma marcante festa na casa de Erli e de Gilson Gabriel).
A elegia que escrevi a Erli chega atrasada ao blogue, mas
mantém o desejo de eternizá-la liricamente. Fiquei dias adiando a postagem,
hesitei, mas o blog sempre foi um registro de minha trajetória lírica e essa
perda foi marcante; por mais que evitasse, precisaria em algum momento
registrá-la nesse espaço lírico virtual que me serve meio como um diário
solitário coletivo.
Como declarou Ana Vaz: “Voou nossa Erli!! E cantou a manhã
inteira o bem te vi!”
Também cantemos, amigos leitores, cantemos que a nova ave
poesia eterna Erli gostava de canto, de festa, de vida, mesmo que sofrida,
mesmo diante de tantas esperanças e vidas perdidas.
Era quinta-feira, dia 14 de março de 2019, um dia após dois jovens,
imitando o massacre de Columbine, abrirem fogo dentro da Escola Estadual Raul
Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo e deixarem marcas de sangue e luto no
coração do Brasil. Era uma quinta-feira, inicialmente cinza, nublada, quase fria,
com ares de luto coletivo. Como professor, acompanhar a notícia no dia anterior
foi assustador; dar aula no dia
seguinte, na fatídica quinta-feira, dia seguinte ao massacre de Suzano, era
estranho, perturbador. Precisávamos falar sobre os massacres, a violência nas
escolas; era um assunto delicado, mas precisávamos falar sobre Kevins (quem é
cinéfilo ou ávido leitor, entende a referência), sobre a perturbadora onda de
violência que há tempos grita nas problemáticas diárias das escolas. Preparei
às pressas material sobre o assunto, alterando todo o planejamento do resto da
semana (era um assunto delicado, mas precisava ser abordado, não se esconde um
elefante deste no canto da sala [quem é cinéfilo, novamente saca a segunda
referência]). O segundo susto veio logo no início da mesma manhã de
quinta-feira: enquanto a orientadora da
escola, Flávia Araújo, iniciava a manhã com uma reunião com todos os alunos na
quadra para falar sobre o assunto, muitos silêncios estranhos, muitos
burburinhos de indiferença e pouco luto, parca compaixão, a violência não mais
escandalizava – se tornava algo distante, vítimas veladas à distância pelas
velas do esquecimento e/ou ignorância. Um projeto se formou na minha cabeça
naquele instante: precisávamos cada vez
mais urgentemente falar disso, nos indignarmos, sentir a dor do outro, clamar
por um mundo melhor, sem notícias ensanguentadas e trágicas como a do dia
anterior. E não podíamos esquecer, pois esquecer é manter os erros, a
ignorância, a indiferença e deixar acontecer de novo e de novo e de novo...
Trabalhei com os nonos anos o histórico de massacres,
debatemos, conversamos, tomamos conhecimento, exercitamos o fim da indiferença,
sempre tomando como foco mais as vítimas, sempre relegadas a segundo plano em
noticiários, que os praticantes dos massacres. A partir daí, obtive apoio de
outros profissionais da educação da escola onde leciono – o tema era delicado
demais pra seguir sozinho -, os artistalunos usaram seus conhecimentos e
sensibilidade e produziram diversos monólogos, cada um representando uma escola
ferida pela ferida. Essas produções textuais são as que posto hoje, juntamente
com o vídeo da emocionante apresentação do Luz, Câmera... Alcino 2019, composta
pelos monólogos que os artistalunos escreveram: a peça "Monólogos de Dor e
a Alegria do Circo Musical", sobre a violência nas escolas e um pedido de paz e
esperança, com o histórico encontro dos artistalunos dos nossos anos com o Pré
II, da formidável professoramiga Patricia Ignácio. Deixo aqui nesta postagem agradecimentos
especiais à super equipe diretiva da Escola Municipal Alcino Francisco da
Silva, de Teresópolis/Rj, que acreditaram no projeto e permitiram que o evento
fosse realizado, aos professores amigos que apoiaram o evento, aos artistalunos
da direção artística (Ana Júlia Ana Julia Duarte e Ana Clara Oliveira) e aos novos
e veteranos artistalunos do Luz, Câmera...Alcino. Foi lindo demais!
A apresentação teve sonoplastia dos Professores Daniel e
Genaldo Lial. A peça, resultado de redações de monólogos escritas pelos
artistalunos do nono ano + performance elaborada pelo Pré II de Patricia
Ignácio, aconteceu na Quadra da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva na
quinta-feira, dia 11/04/2019, e a filmagem foi realizada pelo Professor Júnior,
lírico matemático.
Amemos mais os próximos e os distantes, amigos leitores, e
fiquemos em paz. Arte Sempre e nós sempreabraçados, ao lado (e não acima) de todos.
Monólogos da dor
I
Meu Deus, o que está aconteceu com esse mundo? Tantas
pessoas morrendo, tantas famílias sofrendo, o que mais podemos fazer para ter
um mundo melhor? As pessoas estão indo de mal a pior. Precisamos de paz e
união; jovens estão morrendo e se matando por depressão.
Monólogo escrito por Ramon, Guilherme, Gustavo Silva, Jonathan e
Miguel
II
Naquele dia, foi feito um dos maiores massacres já
acontecidos no mundo. Naquele dia, eu só lembrei de correr para bem longe, eu
só escutava barulho de tiros, alunos gritando e correndo com medo. Corri, fugi
da escola para chamar alguém pra ir lá ajudar os outros. Mais de 10 alunos
foram mortos a tiros.
Isso tudo foi feito por dois ex-alunos da escola. Eles nunca
gostaram dos professores, nem da escola toda. No final de tudo, os dois garotos
se mataram a tiros.
Agora está tudo bem comigo e com os outros sobreviventes do
massacre na escola. Mas uma marca de sangue fica em nossa memória, uma mancha
que sempre sangra em nossa mente.
Monólogo escrito por Marcus Vinicius e Ana Gabriela
III
Sou Columbine e infelizmente a mais famosa escola vítima de
um massacre.
No dia 20 de abril de 1999, minhas paredes foram manchadas
de sangue, pois dois jovens chegaram e mataram 13 alunos. Um dos atiradores
tinha 17 e o outro 18.
Às 11h19, presenciei Eric Harris e Dylan Klebold, dois
alunos que viviam dentro de mim, ferirem, matarem e, depois, se matarem.
Foi o momento mais triste da minha vida.
Monólogo escrito por Vitória, Camila, Livia, Kawan e Kayk
IV
Eu sou Columbine High School, da cidade de Littletown, no
Colorado. Peço desculpas pelo meu humor triste, pois, desde o dia 20 de abril
de 1999, eu não tenho mais alegria. Nunca fui tão triste em toda minha vida
como naquele dia. Vou tentar explicar o que aconteceu: dois dos meus alunos
entraram armados, matando cerca de 13 alunos e ainda deixaram mais de 20
pessoas feridas, antes de se matarem. O que mais me dói é que se alguém
soubesse que eles eram depressivos, que eram sozinhos, que sofriam bullying,
talvez nada disso teria acontecido, nada, nem ninguém estaria triste como eu
estou.
Se a Swat tivesse chegado antes, talvez seria menos doloroso
lembrar daquelas cenas. E, só de pensar que o número de mortes, era para ter sido
maior e não foi é um ‘alívio’. Mesmo assim, ainda sinto o sangue das vítimas
dentro de mim, ainda escuto os gritos e pedidos de socorro ecoando pelas
paredes da biblioteca. E só de pensar que os assassinos escolhiam suas vítimas
chega até a dar raiva dentro de mim. E o mais incrível é que em 16 minutos eles
mataram 12 alunos e 1 professor.
Isso tudo é uma triste e horrível história e, de coração,
não quero que aconteça com ninguém! Porque vocês não sabem o que estou, estava
e sempre vou sentir dentro de mim. Já faz quase 20 anos e não passa!
Monólogo escrito por Andressa, Katheleen, Ingrid, Isabelle e
Emily
V
Olá, meu nome é Virginia Tech, sou um instituto politécnico
e uma universidade estadual.
No dia 16 de abril de 2008, um de meus estudantes, de 23
anos, matou 32 colegas e professores antes de cometer suicídio.
Com minhas paredes ensanguentadas, vi no olhar dos alunos
que ainda permaneciam vivos o desespero, a angústia e a tristeza.
O estudante psicopata foi até um alojamento por volta das
7:15 e matou duas pessoas, um homem e uma mulher.
Ele fugiu do local antes de as autoridades chegarem e todos
pensaram que ele já havia me abandonado, porém, com mais ódio e raiva, o
estudante voltou duas horas depois, começando a cometer o terrível segundo
ataque, que tirou a vida de 30 pessoas e logo em seguida suicidou.
Nunca entendi o motivo pelo qual ele fez aquilo; ele sempre
parecia estar sorrindo em meus corredores, mas nunca imaginei que aquele
sorriso era tão maldoso.
Sim, eu sou considerada a universidade com o maior número de
mortos dentro de mim, esse é um crime que eu nunca mais esquecerei.
Queria ter evitado tudo isso, mas não foi possível.
Me desculpem.
Monólogo escrito por Ana Clara, Ana Julia, Tayssa, Pedro
Henrique e Marcelo
VI
Ser um dos pais do assassino não é fácil... Me sinto culpado
por não ter cuidado direito dele. Pra mim, que sou pai, não é fácil, não
consigo parar de pensar nessa desgraça que ele fez a essas crianças e a si
mesmo. Já procurei uma forma para tentar diminuir esse sentimento de culpa que
fica agoniando dentro de mim; estou sofrendo muito com tudo isso, com essa
amargura que me agonia todos os dias, já pensei em desistir, sabia? Queria ter
sido um pai mais presente na vida de meu filho para que ele não tivesse feito
essa escolha. Nunca imaginei que um dia ia sofrer tanto como estou sofrendo
hoje, já procurei várias maneiras pra esquecer, mas não é fácil pra mim.
Monólogo escrito por Walace, Romullo e Gustavo Lopes
VII
Olá, me chamo Sandy Hook, desculpas eu peço por não
demonstrar sorrisos, pois, no dia 14 de dezembro de 2012, um atirador chamado
Adam Lanza, de 20 anos, me invadiu e matou 26 pessoas que estavam dentro de
mim. 20 destas pessoas eram crianças entre cinco e dez anos. Eu fico muito
triste em saber que um homem de 20 anos planejou assassinar crianças. O que o
levou a fazer isso? Até hoje ninguém sabe...
Monólogo escrito por Brenda,
Evelly, Julia e Rafael
VIII
Oi, sou Sandy Hook. Em dezembro de 2012, aconteceu um
massacre em mim. Um rapaz chamado Adam Lanza abriu fogo em mim, matando 26 pessoas,
vinte delas crianças de cinco a dez anos.
Soube que, depois desse crime, a mãe dele foi encontrada
morta em sua casa.
Não sabemos os motivos que levaram Adam Lanza a fazer esse
massacre. Ele tinha familiaridade com o acesso a armas de fogos e munições e
uma obsessão por assassinatos em larga escala. Dizem que ele se inspirou no
tiroteio que ocorreu na escola de Columbine em abril de 1999.
Monólogo escrito por Gabriela e Camille
IX
Como podes entrar assim tão de repente matando jovens
inocentes. Por que matou sua mãe, por que matou essas crianças, elas podiam ter
crescido, montado suas vidas; e seus familiares como achas que estão, chorando
agora, sem pensar e perdão.
Oh, Adam Lanza, por que fez isso com crianças, crianças com
apenas cinco, dez anos de idade, faz-me pensar o que será de nós, será que você
tinha problemas, ou fez por diversão, você nunca parou para pensar; já não
bastava o massacre em Columbine, agora vem você querendo imitar, matar
professores, sem ao menos pensar por quê...
Monólogo escrito por Alice dos Santos, Juslaine Bepler,
Maria Eduarda Rodrigues, Patrick e Ruan
X
Ah, se eu soubesse que seria desse jeito (choro) só queria
ter o abraço pra ver se pelo menos eu consigo continuar a viver. O mundo tira
de nós nossos bens mais preciosos... sinto tanto sua falta... se você pudesse
pelo menos ouvir, ah, como eu queria dizer que te amo, te abraçar, não sei mais
o que faço da minha vida se você era a minha vida... Por que se foi assim? Um
menino tão bom, estudioso, educado... Minha vida se foi com você e a saudade
ficou quando você se foi.
Monólogo escrito por Carine e Livia
XI
Olá, sou Tasso da Silveira, uma simples escola. Todos os
dias em mim, é simplesmente um dia comum de aula. Mas algumas lembranças minhas
não são muito boas...
No dia 7 de setembro de 2011, na parte da manhã, aqui em
Realengo, um ex-aluno disse que iria fazer uma palestra. Já em minha sala, esse
ex-aluno, na época um jovem de 23 anos, sacou uma arma e matou doze
adolescentes. O ataque só parou quando um sargento da polícia baleou sua perna.
Ferido, o assassino se matou.
Até hoje me lembro daquelas cenas. Depois daquilo, meu
coração tem a mancha do sangue daqueles jovens.
Monólogo escrito por Victhor Hugo, Maria Eduarda Bravim,
Kethelin Oliveira, Débora de Faria e Eduardo.
XII
Cenas horríveis... Como vou fazer para apagar da minha
mente?
Eu estava na porta da secretaria quando escutei um barulho
muito forte. Na hora, eu não me virei para ver o que estava acontecendo. Pensei
que era alguma brincadeira de alunos bagunceiros, mas de repente comecei a
escutar pedidos de socorro, correria, então me virei para ver o que estava
acontecendo.
Quando me virei, minha amiga que estava ao meu lado caiu no
chão e... morreu na hora. Eu fiquei desesperada, tentei acordar minha amiga,
mas o assassino me viu e apontou a arma para mim.
Nesse momento, comecei a pedir a Deus para me proteger.
Então, nesse momento, eu corri. Ele atirou e acertou meu braço. Consegui correr
para o banheiro, que estava cheio na hora que eu entrei. Todos estavam
desesperados, ligando para seus pais. Eu imediatamente vi a professora e pedi a
ela para ligar para meus pais. Ela tentou ligar, mas só dava caixa de mensagem.
Então se passaram 20 minutos e eu desmaiei.
Quando acordei, estava no hospital e, graças a Deus, me
recuperei bem, mas as cenas não saíram da minha mente.
Monólogo escrito por Vitor Sepolar, Raiane, Daniel e Maria
Victória.
XIII
Goyazes me chamo, marcas de sangue eu tenho, 2 vítimas
jovens com sonhos. Em minhas paredes sangue derramado, sonhos quebrados, vidas
perdidas, pessoas feridas... Há mais de um ano isso tudo aconteceu, esquecidos
fomos, porém a dor nunca nos esqueceu...
Monólogo escrito por Michele
XIV
Sangue, munição, duas puxadas de gatilho e um frio que nada
tira. Eu entro em coma, um coma do qual é melhor não acordar. Violência é maior
que tristeza, tiroteios são maiores que as melhores lembranças e uma arma é
maior que duas vidas. Hoje choramos e nos machucamos mais e mais quando
lembramos. Meu nome é Goyazes e estou desabando...
Monólogo escrito por Yuri, Cleyton, Kauan e João Pedro
XV
Eu sou o Colégio Goyazes. Tenho marca de sangue em mim desde
outubro de 2017. Estava tudo tranquilo comigo até que um aluno que sofria
bullying assassinou 2 alunos a tiros e aquilo causou o pior desespero a todos.
O garoto de 14 anos tinha planejado isso há 2 meses e tinha se inspirado no
massacre de Columbine. Isso foi assustador, sim... Dizem que ele queria
assassinar somente o garoto que fazia bullying com ele, mas sentiu vontade de
assassinar mais e matou mais outro garoto. Vou levar essa marca para sempre em
mim.
Monólogo escrito por Daniele, Estela e Maria Eduarda França
XVI
Olá, eu sou
Marjory Stoneman Douglas High School, de Parkland. Em 2018, sofri um
atentado por um jovem pisicopata cheio de ódio. Com 19 anos, ele foi capaz de
matar 13 pessoas na minha parte interna, 2 pessoas na parte externa e outras 2
não resistiram aos ferimentos e foram a óbito. Eu nunca mais fui a mesma depois
do ocorrido, fico triste e com medo – não sei se pode vir a acontecer de novo.
Ainda estou muito abalada... como um jovem daquele pode cometer um ato tão
violento comigo?
Monólogo escrito por Wesley, Romário, João Vitor e Wallace
XVII
Era uma manhã como qualquer outra (ou, pelo menos, parecia.
Acordei, fui fazer café e, logo em seguida, fui acordar a Elizabeth para ir
para a escola. Quando cheguei na cozinha, senti algo diferente, como se algo me
prendesse naquele momento para sempre, porém não achei que deveria levar a
sério, pois esse sentimento já tinha se repetido algumas vezes. Então a
Elizabeth desceu e fomos à mesa para tomar café, e, pela primeira vez, olhei
para os olhos dela, como se nunca tivesse olhado antes. Mas, logo após tomarmos
o café, percebemos que estávamos atrasadas.
Fui até a garagem pegar o carro, enquanto Elizabeth escovava
os dentes, então pegamos estrada até a escola. Chegando lá, dei um beijo nela
como de costume, dei tchaul e ela logo entrou para o pátio. Esperei ela entrar
e voltei para casa com aquele aperto no coração.
Logo que cheguei em casa, fui fazer as tarefas de costume e,
então, por volta das 10:30, resolvi fazer o almoço para o meu marido Edward e
para a Elizabeth, pois como sempre ela chegava faminta da escola. Edward então
chegou para almoçar e voltou ao trabalho. Por volta das 11:40, eu já estava
esperando Elizabeth chegar.
Por volta das 12 horas, eu já estava ficando preocupada,
pois Elizabeth de costume chegava por volta das 11:50, mas achei que era algum
atraso normal, pois já tinha ocorrido algumas vezes. Mas, quando o relógio
indicou 12:20, resolvi fazer uma ligação. Talvez parecesse exagero, mas nunca tinha
acontecido antes como naquele dia, então fui para a cozinha, peguei o telefone
e, em seguida, liguei para a escola, porém não fui atendida. Liguei algumas
outras vezes e nada, então resolvi esperar alguns minutos a mais. 10 minutos se
passaram e ela não tinha chegado ainda, então resolvi ir até a escola.
Chegando lá, vi o pátio em desespero, então senti uma enorme
dor me corroendo por dentro. Saí do carro desesperadamente, entrei correndo
pela porta principal. Quando me aproximei, tive a notícia do que tinha
acontecido. Não conseguia parar de chorar e pensar o que poderia ter acontecido
com minha filha Elizabeth. O corredor estava coberto de sangue. Entrei
novamente em desespero. Foi quando encontrei alguns policiais e perguntei o que
havia naquele lugar. Eles isolaram o local e pediram para eu descrever como era
a Elizabeth.
De tanto chorar, eu não conseguia falar. Eles me acalmaram,
na medida do possível, para que eu fizesse a descrição de Elizabeth, então
pediram que eu aguardasse. Impaciente, esperei, como se não tivesse acontecido
nada, na esperança de que ela logo estaria em meus braços, mas, no fundo, eu
sentia que não estava nada bem.
Então eles voltaram, olhando para mim cabisbaixos e me
disseram: “Eu sinto muito”. Depois disso, algo me puxou para baixo, me
desmoronando completamente por dentro, eu senti como se tivessem tirado algo de
mim, uma grande parte de meu coração.
Por um momento, me senti culpada por não ter levado a sério
meus pressentimentos, por não ter mudado isso. Me tiraram lá de dentro, eu
lutei para ficar lá e juro que lutei o máximo que pude, mas minhas forças
acabaram.
É, eu perdi quem eu mais amava na minha vida e sinto uma
infinita solidão.
Jamais queiram sentir o que eu senti – perder um pedaço de
você e não poder fazer nada!...
Monólogo escrito por Samara e Milena
XVIII
Desde 13 de março ainda ouço gritos de horrores e desespero
pelos meus corredores, minhas paredes foram manchadas com sangue inocente.
Um dia, eles serão esquecidos por muitos, mas eu não
esquecerei, nem os familiares das vítimas, como superar tamanha tragédia? Como
será daqui pra frente?
Meu nome é Raul Brasil e não é um prazer me apresentar a
vocês.
Monólogo escrito por Ryan Portilho, Pedro Ferraz, Esther
Aquino, Marlon Augusto e Ester Monnerat
XIX
Oi, eu sou a escola Raul Brasil. A manhã de quarta-feira,
dia 13 de março, ficou marcada na minha história. Como podem ter feito isso
comigo, vocês eram como meus filhos e, agora, minhas paredes têm manchas de
sangue.
Sempre terei lembranças dos tiros - tiros que foram
disparados aleatoriamente e a sangue frio – e eu vi os corpos ali; eu via e não
podia fazer nada, estava ali imóvel, enquanto Guilherme e Taucci abriam fogo
contra mim. Os tiros e os gritos de desespero me assombram até hoje; por mais
que passem os dias, meses e até mesmo anos, eu sempre vou ter essas memórias
vagando. E isso dói muiti, não consigo mais ter um sorriso em meu rosto.
Monólogo escrito por Maria Gabriela e Maria Vitória Souza
XX
Só hoje eu pude perceber o quão perdido está o mundo e que
precisamos andar sempre desconfiando de tudo e de todos. Quando me ligaram da
escola para me contar do acontecido, a minha ficha não caiu enquanto não vi o
meu filho morto. Assim que eu o vi, meu mundo desabou e eu nem conseguia falar
de tanto que eu chorava. Mas, do mesmo jeito que aconteceu com o meu filho,
poderia ter acontecido com qualquer pessoa. O maior problema é que andamos por
aí com o pensamento de que nunca irá acontecer com a gente ou com nosso filho,
e, quando acontece, você está completamente despreparada. Na hora que você
descobre a notícia, você não acredita e, quando sua ficha realmente cai, você
fica realmente sem chão. No começo, eu sofri muito e senti muita falta, mas não
é só dos momentos bons que me lembro; sinto falta até das brigas que nós
tínhamos quando ele não arrumava o quarto ou não fazia as tarefas de casa... Só
que a gente só dá o valor necessário que a pessoa merece depois que a gente
perde ela, e, hoje, eu percebo que ele e eu podíamos ter passado muito mais
tempo juntos, feito muitas coisas que não fiz porque eu achava aquelas coisas
bobas.
É muito triste você perder uma pessoa que você ama desde o
primeiro batimento cardíaco, desde o primeiro sorriso e até desde o primeiro
choro. Eu presenciei ele nascer, crescer e desenvolver, eu participei de tudo
desde o primeiro passo até o último. Eu o amava mais que a mim mesma e, se
pudesse, eu teria ido no lugar dele. Às vezes, me pego pensando nele e, por
mais que eu finja estar bem e siga minha vida, é super complicado, porque ele
era um pedaço de mim, e, por sinal, o mais importante. Agora eu vou ter que
conviver sem ele e sei que vai ser muito difícil, mas eu vou tentar, porque sei
que, se ele pudesse me ver lá de cima, não iria querer me ver triste e chorando
porque ele se foi.
Eu queria poder, pelo menos, dar um último abraço e também
poder dizer um “Eu te amo” pela última vez, e, agora, percebo que tinha que ter
dito isso mais vezes do que eu falei, mas não imaginava que ele pudesse ir tão
cedo.
E agora eu ando pelas ruas, com medo no coração, porque,
depois do acontecido, passei a ser muito mais desconfiada do que era antes. E
eu queria que as pessoas também começassem a ser mais cuidadosas consigo mesmas
e com seus filhos, porque - eu falo por uma experiência própria – não adianta
ser cuidadosas só depois que acontece algo inacreditável, tipo o que aconteceu
com o meu filho; devemos cuidar mais para isso não acontecer mais, e as
escolas, os governos, sei lá quais responsáveis pela verba da educação nesse
país, poderiam contribuir com tratamentos psicológicos para os estudantes para
eles receberem a orientação desde cedo, porque eles serão não só o futuro do
país, e sim do mundo todo.
Precisamos melhorar nossas atitudes, sermos mais protetores
com os nossos filhos e darmos muito amor, carinho e dedicação a eles, porque
nós não sabemos a hora que eles irão partir. Devemos aproveitar cada segundo
como se fosse o último, pois não sabemos o dia de amanhã.
Monólogo escrito por Leticia e Tiago
XXI
(adaptação da letra de música de Charlie Brown Jr. “Onde não
existe a paz não existe o amor”)
Fico sem saber pra onde eu vou
Quando vejo a situação no mundo em que estou
Destilar meu ódio
Ou só falar de amor
Sabe-se lá a diferença
Entre os olhos que enxergam
E os que não querem enxergar
Mas se eu berrar no microfone
Onde não existe a paz não existe o amor...
A subida é longa
E o chão é de pedra
Dificuldade em domar as próprias pernas
O mundo que se move nem sempre a seu favor
Você precisa ter coragem pra provar o seu valor
Mas ao contrário da vontade esquecida por nós dois
O tempo não muda
Não deixa nada pra depois
Mas se eu puder, viver, amar intensamente
Bem mais do que eu odeio tudo ao meu redor
A gente tem que provar todo dia quem a gente é
Onde não existe a paz não existe o amor...
Onde não existe a paz não existe o amor...
Onde não existe a paz não existe o amor...
Onde não existe a paz não existe o amor...
Fique em paz e nos
tire desse horror
Fique em paz e ressuscite o amor
A peça em vídeo:
Luz, Câmera...Alcino! apresenta Monólogos
de Dor & O Circo Musical do Amor