sexta-feira, 19 de março de 2021

Solidões Compartilhadas em tempos de pandemia: O bem e o mal na lírica dúvida do Bem da magnífica poetamiga Andressa de Oliveira Silva

Mais uma vez retorno ao blog após um longo período de ausência; mais uma vez vocês me perguntarão se está tudo bem, enquanto o genocídio nos (des)governa, enquanto os antiéticos presidem Comissões de Ética, enquanto os corruptos corrompem a justiça, enquanto a liberdade de expressão é estuprada por discursos de ódio, enquanto Hitler sorri em sua nova moradia no céu de bíblias corrompidas, enquanto a morte, a tristeza, as doenças incuráveis e as violências explícitas e implícitas desfilam por todas as rodas e moinhos desse tempo louco chamado contemporaneidade (a música “Crônica”, dos Engenheiros do Hawaii, atemporal, repete seu refrão como um disco arranhado: “Você que tem ideias tão modernas/É o mesmo homem que vivia nas cavernas”). Não, amigo leitor, não está nada bem e aquela frase – “I can’t breathe” (“Eu não consigo respirar”) – ecoa em novas bocas, em novos velhos contextos, em novos velhos lugares.
Refletindo sobre todo o mal que nos ronda, me recolhi mais uma vez. E como é difícil e, por vezes, ilusoriamente inútil, retornar do poço sem fundo que nos metemos (ilusoriamente, pois a resistência, a persistência, a arte ainda é muito útil para nossa sufocada existência apesar de toda a sua aura de aparente inutilidade). Mas, mesmo com o ar rarefeito, mesmo quase moribundos, nós voltamos.
E, desta vez, eu volto, nós voltamos com uma solidão poética compartilhada marcante... Há pouco tempo – para ser mais exato, em 24 de fevereiro, a querida, jovem e hipertalentosa poetamiga Andressa de Oliveira, de Teresópolis/RJ, me enviou um poema novo (não recebia escritos novos dela desde que ela havia deixado de ser artistaluna da Escola Municipal Alcino) que reflete bem os problemas contemporâneos do ‘estar bem’ diante do nossa nova realidade, do anormal novo normal de nosso problemático cotidiano. O magnífico poema “Bem?”, de Andressa de Oliveira Silva, que trago hoje nas Solidões Compartilhadas do blog, tem o formato dos poemas de Álvaro de Campos: como os versos deste famoso heterônimo do mestre poeta português Fernando Pessoa, os versos da jovem e hipertalentosa artistamiga primeiramente se controlam e, depois, vazam do espaço limitado da folha do verso, transbordando emoções gradativa e intensamente em uma lírica quase-prosa de desabafo, com uma maturidade impressionante e mensagem tocante. Vale ler e reler o poema de Andressa, percebendo todas suas nuances (dos questionamentos enérgicos ao transbordamento de raivas e lamentações até a melancólica elegia inquisitória).
Leiamos o magnífico poema de Andressa de Oliveira Silva e reflitamos, amigos leitores. Que nosso novo velho retorno seja firme, que realmente fiquemos e desejemos bem a nós mesmos, aos próximos e aos distantes.


Bem?

Estar bem, estar bem com você mesmo
Estar bem com seus amigos e família
Estar bem fisicamente emocionalmente e espiritualmente.
Por que é tão difícil ficar bem?
Por que não consigo socializar com ninguém? Por quê? Alguém me diga!
Será algo nas pessoas: elas são o problema ou eu sou?
Será eu a causa interna e externa?
Será que eu e minha crises atrapalham?
Se sim, por quê?
Por que que eu não durmo a noite o incomoda,
Por que meus soluços e choros lhe interessam tanto?
Você não se importa se eu estou bem, se eu falo que estou bem mesmo você vendo as marcas espalhadas pelo meu corpo e lágrimas em meus olhos, você apenas diz “Que bom” e vai embora.
Você não liga para o meu bem ou mal estar.
Você só se importa quando ouve a notícia de que alguém se foi e fala:
- Ela era tão legal - mas não falava com ela
- Era tão bela - mas só julgava ela
- Se foi tão nova - mas ela lhe dava sinais de que estava mal.
Esse “tudo bem” que ela falava, você vai ver que era mentira, mas não quis insistir.
Ela só queria que você insistisse um pouco mais para ela desabafar.
Ela só queria alguém para que ela pudesse contar sem receber nenhum julgamento.
Mas agora não importa mais, ela finalmente está em paz.
Ela agora está bem, só que não entre nós...
Poema de Andressa de Oliveira Silva



quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

A (re)volta natural: Do alto das árvores líricas da praça Emília Jannuzzi, a maritaca assiste e canta aos homens, durante a pandemia

Como os psicodélicos Mutantes, andei meio desligado por esses dias – principalmente em espaços virtuais. Tenho passado por um processo parecido ao do que chamo “Descivilização” (tirei o termo de uma canção homônima da década de 1990 do Biquíni Cavadão): esqueci-me de contar os dias após o recesso de home slave office, desconectei-me quase inteiramente de redes sociais virtuais e passei a distribuir meus dias com banhos de ducha no quintal, tomadas de sol, ventos ocasionais e chuvas de verão, desenvolvimentos geeks, nerds, árcades, pós-modernos e clássicos com leituras constantes de obras literárias e gibis, maratonas de séries e filmes de diversos gêneros, audição de músicas dos mais diversos gêneros (com preferência à MPB e ao rock) e som dos pássaros que visitam minha casa em quarentena e a praça em frente ao lar agridoce lar, mergulhos em mim mesmo e episódios lúcidos de embriaguez desconexa em intervalos regulares. Diferentemente dos que se cansaram do período de isolamento, muitas vezes acho que a solidão (não a completa, claro, mas a complexa, de autocontrole, divertimento consigo próprio e amadurecimento intelectual) até que cai bem – o que me cansou mesmo (e até me parece tedioso) é bater na mesma tecla da merda que nosso mundo está e no bando de gente merda que acha que essa merda é perfume ou remédio pra grande crise de valores. Estamos na merda que nós mesmos (ou outros infernais nós outros mesmos) nos colocamos, mas insistir em pregar nas paredes ocas o quadro horrível real em que vivemos me aparenta ser tão surreal, cansativo e improdutivo quanto explicar para uma mula que ela está sendo explorada por seu pseudo-dono – destaca-se mais a publicidade patética da cena quixotesca que qualquer ínfima possibilidade da conscientização da mensagem bem intencionada; a mula continua a zurrar, Quixote continua vendo Dulcineias em estalagens contaminadas de aborrecimento e ignorância e o tempo passa atropelado por todos nós e outros nós outros que nós nunca admitiríamos ser nem entender, pois é incompreensível (sim, o zurro humano ainda é uma língua virulenta, inapreensível, incompreendida e incompreensiva). Preferi dar um tempo dessa loucura toda (não me alienar – ação impossível para qualquer ser minimamente pensante em tempos complexos de autodestruição existencial e humana, dramas sórdidos e tragédias espetaculares - , mas manter minha insana sanidade mental em um ambiente menos hostil, confuso, contagioso e abusivo).
Nesses tempos, refugiei-me em mim mesmo, na natureza próxima e na arte – pode parecer (e é) meio egoísta, mas é de um egoísmo altruísta: preciso estar bem comigo mesmo para estar bem com todos em um ambiente tão doente e tão doentio. Mas agora, depois de tanto tempo e graças aos apelos de amadas amigas e amados amigos, resolvi retomar as postagens do blog.
E, voltando aos cantos dos pássaros aos quais tenho prestado atenção com mais constância, foram nesses tempos de quarentena que as aparentemente escandalosas (eu as defendo como sábias incompreendidas) maritacas me inspiraram um poema, “Do alto das árvores líricas da praça Emília Jannuzzi, a maritaca assiste e canta aos homens, durante a pandemia”, com o qual concorri à Mostra Olhares sobre o Patrimônio Fluminense – 2020 , da 10.ª Semana Fluminense do Patrimônio – “Cultura e cidadania em tempos de crise”. O poema foi selecionado e recebeu 2.º lugar pelo júri técnico e 2.º lugar pelo voto popular no tema “Recortes da Paisagem”, categoria adulto na Mostra Cultural. Hoje, trago o poema, com o seu seu clipoema [pra quem está no celular, percebo que os vídeos não têm aparecido, por isso deixo o link do mesmo no youtube: 
https://youtu.be/DdAPNV4MM7E ] (agradecimentos às maritacas por concederem seus cantos durante a gravação do áudio do poema e ao meu irmão Rafael Silva Barbosa e ao seu namorado Wellington Victor de Lima pela participação teatral, atuando como os homens assistidos e cantados pela maritaca da praça Emília Jannuzzi), para vocês, amigos leitores, estreando as postagens líricas virtuais de 2021 deste constantemente inconstante blog.
Já que os homens não escutam a seus próximos iguais diferentes, que, pelo menos, escutemos a natureza à nossa volta e aprendamos com as sábias maritacas sobre a importância da lucidez e da vida nesse contexto genocida de sobrenatural loucura.

Do alto das árvores líricas da praça Emília Jannuzzi, a maritaca assiste e canta aos homens, durante a pandemia


Eis meus vizinhos, de canto apagado,
Os tais homens, seres desemplumados
Que ciscam livres pela minha praça.
Ao longe vejo o vírus que os caça:
O predador, para eles, invisível,
Entre eles, vaga letal e impassível
E, por eles, se propaga invencível.
Animal estranho esse tal homem,
Espécie ensandecida e selvagem:
Contra o vírus, alguns se protegem,
Enquanto outros o infausto propelem.
Uns corretamente tapam seus bicos,
Enquanto outros exibem cantos cínicos.
Aviso aos tolos: “Protejam seus bandos!”
Mas, do meu canto, vivem reclamando.
Têm olhos insanos, incendiários,
Queimam as matas, seus próprios erários,
Tratam-me qual carcará gavião
E, ainda assim, lhes tenho compaixão;
Faltam-lhes asas, amor, união
E sábio senso de preservação.
Brado-lhes orações contra a ruína,
Mas, surdos, seguem destrutiva sina.
Mortíferos mortais sem disciplina,
Pra arrogância deles, não há vacina.
Bando ingrato às belezas da vida,
Minha clemência não lhes é sentida,
Não lhes bastam doenças em surdina,
A humanidade se auto assassina.
Mas, como pássaro poeta e amigo,
Mesmo difamado como inimigo,
Faço arte contra a pandemia insana,
Insisto em salvar a espécie humana.









domingo, 15 de novembro de 2020

Crônicas crônicas eleitorais: O voto inútil

É a segunda eleição consecutiva que vou para votar com a alma já derrotada. Sei – infelizmente sei e considero que seria mais infelizmente não saber (é a única forma de conforto para me manter menos doente e ainda consciente) – quais são os jogos tenebrosos recentes de poder (se já não eram, em minhas fases de maior inocência num cenário em que crises não flertavam tanto com o animalesco instinto homicida-suicida humano) e sinto úlceras ancestrais só de ver os jogadores que podem ser escalados na perpetuação da kamikaze partida.
Esqueça seus sonhos, encare a realidade e escolha entre o pior que tá, o pior que tá não fica e o pior que pode piorar – eis suas principais opções. Outras alternativas? Talvez um novo tão velho quanto aquele aristocrata que alimenta as traças da tradicional história confundida com a História maiúscula, das grandes minorias, do verdadeiro povo, que não têm noção que foram, são e sempre deveriam ser os protagonistas de sua História, mas que, por instinto primitivo de sobrevivência devido à quase total miséria média-classicamente e milionária-predatoriamente imposta, preferem se aliar aos seus usurpadores num contrato de migalhas temporárias e perdas permanentes. Ou talvez um novo com velhos sonhos, quase sem chances, que busca representar as grandes minorias, o verdadeiro povo, sem conhecê-los, sem perceber que elas não se veem tão representadas quanto ele as conclama estarem. Ah, e o pior: o novo e o velho abraçados ao mesmo monstro, que prega dogmas e fascismos antiquíssimos, tão antigos e peçonhentos que as grandes minorias, o verdadeiro povo, com a memória empobrecida pela desilusão das inglórias imediatas fortificada pelos venenos esquecidos, os confundem com elixires divinos e se iludem com remédios que são, na verdade, placebos, como se doenças erradicadas no passado fossem curas para doenças modernas, quando doenças comprovadas, parasitas seculares e venenos mortais continuam sendo, em qualquer tempo, doenças comprovadas, parasitas seculares e venenos mortais. 
Sim, confesso, ando há algum tempo cético e cada vez mais perturbado com as partidas políticas. Antes, ao menos, se parecia mentir por um projeto político; hoje, apenas se mente – não há mais nenhuma necessidade de aparentar ter um projeto. Há carreiras políticas como carreiras de cocaína – todos querem enfiar o nariz na droga do poder. Tem-se planos sem planejamentos; tem-se intenção sem objetivos; tem-se propostas sem contrapropostas. Ninguém projeta e os desperdícios, despreparos e a falta de empatia e respeito às normas básicas mínimas de cuidados consigo e com o próximo durante esse período de pandemia são uma evidência dos descaminhos da involução humana. Minha utópica anarquia chora, pois não se pode sonhar mais sonhar que cada um pode cuida de si em prol do coletivo, porque este é um sonho humano e somos cada vez menos humanos. E, em tempos de eleição, somos menos humanos votando em busca do menos desumano – o que não muda o fato de estarmos escolhendo jogadores que trazem a desumanidade em algum lugar para uma partida destrutiva que durará mais quatro anos de proliferação da desumanização que, de tanto sagrar-se vitoriosa, seja qual for o time desumano que ganhar, enraíza-se e perpetua a nossa gradativa e cada vez mais íntima assimilação da desumanização – sim, tenho me elegido menos gente a cada eleição. 
Saio da seção eleitoral com a alma derrotada. No caminho, vejo bocas escancaradas, com ou sem máscaras. O Homo Sapiens se tornou o homem que finge que não sabe a involuir ao homem que não sabe até chegar ao Des Homo, Des Gente, todos Obrigados e Des Nadas. “Quem será o desumano da vez?”, algum eleitor fantasma, que já sabe a resposta, me pergunta só para me aterrorizar. “Será um desumano, como eu ou você, ou mais desumano, como futuramente vamos ser.”, ameaço responder, mas calo-me outra vez; às vezes omitir é uma humilhação mais confortável, dói menos que a insuportável revelação. Mas ainda assim é derrota, ainda assim é mais uma humilhação. Ainda assim dói demais. 
Retorno para casa e minha alma derrotada descansa sem descanso em mais um domingo morno meio morto.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Vamos viralizar coisas boas: A Pandemia da Leitura em Homenagem ao Dia Nacional do Livro

Hoje, dia 29 de outubro, é o Dia Nacional da Leitura e o blogueiro-professor-escritor-poeta-pateta que vos escreve e os magníficos super alunos leitores das escolas onde leciono não poderiam ficar de fora da comemoração desta data super especial!
Abaixo seguem dois vídeos com a campanha da Pandemia da Leitura: Coordenados por mim, com apoio das equipes diretivas e demais profissionais da educação das escolas, os alunos leitores da turma 602 da Escola Municipal Nadir Veiga Castanheira, onde leciono Língua Portuguesa, e os alunos leitores do turno da manhã da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva (ambas as escolas da região rural de Teresópolis/RJ) trazem, cada grupo, um vídeo para viralizar com uma campanha de muito amor ao livro, nosso grande herói e companheiro nessa prolongada quarentena: a “Pandemia da Leitura da Escola Municipal Nadir Veiga Castanheira”, com magníficas dicas de leitura para todos que nos assistem e acreditam no poder da literatura e na nossa educação pública de qualidade.
Curta, compartilhe, viralize coisas boas, viralize literatura! E contribua na pandemia: deixe nos comentários, uma dica de leitura sua.
Educação, Literatura e Pandemias de Coisas Boas Sempre!

Vídeo 1: Pandemia da Leitura da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, de Teresópolis/RJ, em Homenagem ao Dia Nacional do Livro

Vídeo 2: Pandemia da Leitura da Escola Municipal Nadir Veiga Castanheira, de Teresópolis/RJ, em Homenagem ao Dia Nacional do Livro


quarta-feira, 21 de outubro de 2020

O exílio sem título e a vida em família da mais que fodástica poetamiga Gisele Pacheco

Ontem foi o Dia do Poeta (é, eu queria ter postado antes da meia-noite para a homenagem ser plena, mas a terça-feira foi frenética; ainda não parei nem me desliguei um minuto sequer, porém, contudo, todavia, apesar de todo corre-corre, não descansaria sem deixar uma postagem nova aqui para vocês). E nada melhor para homenagear a data dos navegantes que cursam seus barcos para além do infinito que relembrar poemas antigos, que até hoje me enchem de fascínio, da mais que fodástica poetamiga teresopolitana (outrora, minha poetaluna dos meus primórdios em sala de aula, na Escola Municipal Nadir Veiga Castanheira, entre 2006 e 2008) Gisele Pacheco. 
Sim, hoje (ela deve estar com aquele sorriso de orgulho, mas disfarçando a alegria, com marra: “Finalmente, né, professor...”), depois de milênios de atraso, sim, finalmente, compartilho minhas solidões poéticas com a magnífica poetamiga Gisele Pacheco! Gisele sempre teve um talento fenomenal, um lirismo maduro muito além das limitações que encontramos, quase sempre, quando iniciamos nas veredas poéticas; era a rainha do paradoxo (domava esta ardilosa figura de linguagem a seu bel talento como poucos, tanto que sua arte, em alguns certames literários escolares, era compreendida por poucos), sempre teve um senso crítico enorme, como poderão ver na paródia da Canção do Exílio que ela construiu em parceria com a colega Pâmela, no 7.º Ano (!), e sempre foi positivamente marrenta (quem é genial pode desfilar marra; poucas artistas, como ela, podem ostentar um título internacional [3.º lugar no 1.º Concurso Internacional de Poesias Gioconda Labecca, em Campanha/MG] quando ainda cursava o oitavo ano do ensino fundamental [nessa época, eu, por exemplo, engatinhava na redação comum, pois meu despertar poético só aconteceu quando eu cursava o 1.º ano do hoje chamado Ensino Médio]). Em seu facebook, Gisele já manda o recado na descrição: “O que dizem sobre mim é apenas a perspectiva deles...” É meio que uma drummondiana seguindo o verso do mestre: "Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou". 
Sim, os deuses da poesia gostam muito de mim, afinal, eu comecei minha carreira no magistério premiado com hipertalentosas artistalunas com personalidades líricas autênticas e iluminadas como a Gisele Pacheco. E lembrança boa é para ser compartilhada, poemas mais que fodásticos que flertam com o tempo infinito então nem se fala: ela tem toda razão, estes poemas deveriam estar aqui no blog há tempos. 
Sim, finalmente, amigos leitores, vamos curtir o lirismo magnífico e enamorado com o tempo infinito da mais que fodástica poetamiga teresopolitana Gisele Pacheco! 


Exílio sem título 

Minha terra tem políticos
Onde canta o mensalão. 
As guerras que aqui têm
Nunca lá terão.

Nossos céus são mais cinzas, 
Nossas estrelas mais amarelas, 
Nossas Várzeas têm mais prédios, 
Nossos bosques têm mais favelas.

Minha terra tem ladrões
Que cantam como sabiás.
Os ladrões que aqui roubam
Não roubam como lá.

Aqui encontro crimes
Que não encontro lá. 
Minha terra tem ladrões
Que cantam como sabiás.

(Poema escrito por Gisele e Pámela, quando estas cursavam o 7.º ano [na época, ainda chamado de 6.ª série]. Percebam desde a super originalidade irônica do título até os versos críticos ferozes. Gregório de Matos, o Boca do Inferno, está louvando o nome destas duas jovens poetas até os dias atuais!)


Vida em família

Com o doce som da voz da minha mãe a me chamar,
com a voz serena e meiga a chamar
minha irmã no meio dos manguezais a namorar
e, pobre de mim, tenho que ocultar.
Meu pai a trabalhar, trabalhar sem descansar
até que o dia chega ao fim
e todos vão se deitar
pois amanhã é um novo dia
e tudo continuará.

(Poema de Gisele Pacheco, quando ela cursava o 8.º Ano, premiado com o 3.º lugar no 1.º Concurso Internacional de Poesias Gioconda Labecca, em Campanha/MG na Categoria Juvenil [de 13 a 17 anos]. O texto foi publicado em uma coletânea. Podemos perceber no poema a influência de poema como “Infância”, de Carlos Drummond de Andrade, mas com um método completamente personalizado, que me lembra mais os poemas de Conceição Evaristo sobre suas memórias de infância. Reparem o uso incomum da gradação, tornando o poema inicialmente suave e divertido para uma criticidade mordaz ao dia a dia laborioso e inexorável do pai que trabalha sem parar e da continuidade infalível da rotina do ciclo familiar).



sexta-feira, 16 de outubro de 2020

As ilusões dos anzóis, as noites e os caminhos, às vezes, sem rumos, mas só possível com amor: Pelas musas e por vocês, amigos leitores, as solidões líricas compartilhadas de Renato Galvão

Esta semana que vai chegando ao fim é um período que traz datas importantíssimas; foi nela, por exemplo, que, em 12 de outubro, comemoramos, além do Dia de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, e do Dia das crianças, também saudamos o Dia do Mar e o Dia Nacional da Leitura (sim, precisamos, com milhares de datas, lembrar muito desta prática pouco exercida – ou exercida preguiçosa e descuidadamente - pela maioria da população brasileira). Além de muitas outras datas comemorativas desta semana, o blog, na seção Solidões Compartilhadas, institui o Dia do Mais Que Fodástico Multiartistamigo Renato Galvão, Artista Plástico, Escritor e Poeta na empresa Ateliê Ren-Artes, além de idealizador do Jornal Alecrim (segue o link deste formidável site: https://www.jornalalecrim.com/ ) e nosso artistamigo aniversariante do dia 15 de outubro (sim, ele teve a proeza lírica de nascer no comemorativo e super louvável Dia dos Professores). Como podem já perceber, hoje, compartilho minhas solidões coletivas neste espaço lírico-virtual com o grande mestre multiartistamigo Renato Galvão, autor de quatro de livros de poesia e de milhões contribuições poéticas nas artes plásticas (ele próprio confessa que a arte plástica lhe veio quando começou “a escrever um livro sobre ficção e realidade...”).
O próprio Renato Galvão humildemente se define: “Sou o que se pode chamar de escritor amador. Um homem que gosta de juntar letras, formar palavras e construir textos que tentam traduzir gestos, olhares, sorrisos. Simplesmente traduzo sentimentos”. Sobre seus temas, o autor comenta: “Escrevo para pessoas, sobre pessoas, suas palavras e frases, suas lágrimas, seus sorrisos, suas alegrias, suas paixões, seus sofreres, suas felicidades, suas nostalgias. Enfim, seus sentimentos. Também escrevo sobre situações e ações do nosso dia a dia, protestos e desigualdades sociais, contos e outros gêneros. A grande maioria dos textos que escrevo são frutos da observação da vida humana. Costumo também retratar e até homenagear pessoas que sequer me conhecem, que não fazem a menor ideia de minha existência e que figuram ou são a razão de minhas palavras. Naturalmente aos amigos(as), parentes e tantos outros se incluem nesta procura por palavras observando o ser humano. Escrevo também sobre os meus sentimentos e os externos através de poesias...”
Foi o mais que fodástico multiartistamigo Renato Galvão quem comemorou, ontem, mais um aniversário de infinidade lírica (como ele próprio diz, “Continuo fazendo arte e não devo parar nunca mais...”), mas quem ganha as oferendas líricas são vocês, amigos leitores! Naveguemos nos universos líricos que a arte do mais que fodástico multiartistamigo Renato Galvão nos traz! 

Série Lua Drágna - Tela n.º 13


Ilusão do anzol 


Quem irá se perder,
Praticando o medo de uma nova relação
Ou distanciando-se de um nobre coração?

Quem irá se perder,
Pela própria culpa ou
Por trocar a coragem pela dúvida?

Quem irá se perder,
Por não se permitir uma nova chance
Ou por encarar tudo como revanche?

Você está me perdendo, 
Não para uma nova relação
Ou para outro coração.

Você está me perdendo
Para suas cansadas desculpas
Ou por não admirar a lua.

O tempo escurecerá,
Quando a ilusão do anzol passar,
Quando o fim chegar.

Aqui também escurecerá,
Mas sem ilusão ou anzol.
Encontrarei o caminho de volta ao sol...



Não há caminhos que se possa trilhar 

Não há caminhos que não se possa trilhar.
Não há rainhas ou reis de gelo, de ouro ou prata
Que o amor possa enclausurar.

Nem sábios ou ignorantes,
Nem poderosos ou humilhantes
Que possa o amor descartar.

Foi por amor que viemos,
Foi por amor que Michael de Nebadon
Surpreendeu os universos com seu dom.

Foi por amor que recebemos
A dádiva do Criador.
Foi por amor que o Criador Michael nos enviou.

Foi por amor que o mais
Humilde dos humanos
Ousou despertar o amor nos estranhos.

Foi por amor que tudo se fez luz.
Foi por amor que nos perdoou.
Foi por amor que, nossas vidas, transformou.

Não há caminhos que não se possa trilhar.
Não há amor que se possa desprezar.
Não há amor que se possa ignorar.

Sem amor só haverá escuridão.
Sem amor não se praticará o perdão.
Sem amor somos servos da solidão.

Sem amor não haverá luz,
Sem amor não se pode brilhar.
Sem amor não haverá caminhos que se possa trilhar...



Série Lua Drágna - Tela n.º 14


Noites

Pelas noites a procuro em espaços errados.
É nas noites que descubro que estou abandonado.
São em noites escuras que sonho sonhos desesperados.
Pelas ruas não a encontro nem mesmo para um abraço.

Deito-me na cama do acaso,
Do direito de perder,
Mesmo que o desejo venha me dizer
Que você não quer fazer parte do meu viver.

As estrelas me visitam
E recolhem o brilho das lágrimas
Que iluminam o delírio de um
Coração apaixonado.

As lembranças se transformam em
Abismos de saudades.
E assim sigo esperando por milagres,
Castigado pela sua falta de coragem...


Por você... 

Por você
Dedicar-me-ia.
Perseguiria o impossível. 
Controlaria o impassível.

Por você
Desenharia seu infinito.
Seria um soldado lutando por sua paz.
Mudaria sua vida fugaz.

Por você
Transformar-me-ia num escudo.
Tiraria você desse poço fundo.
Defender-lhe-ia de suas dores,
Curaria suas feridas. 
Dizimaria seus horrores.

Por você.
Eu seria você.
Mas... Se, somente se,
Você fizesse por me merecer...

Sem rumos

Quando vieste
Era puro encanto.
Quando partiste
Veio solidão ao meu encontro.

Quando eu disse: amo-te.
Meu mundo eu esqueci em instantes.
Quando saíste, trancaste as portas,
Esquecendo-me num canto.

Quando sorrias
Via-se a magia.
Quando vinhas
Era pura alegria.

Tua voz enchia de alegria a casa.
Hoje, não há mais nada.
Ficamos para trás na tua estrada.
Só restou o silêncio das frias madrugadas.

Agora não tenho teu sol.
Só me deixaste a chuva.
Os dias são escuros.
Vivo sem destino, sem rumos.

Esquecer-te meu coração não quer.
A saudade me deixa triste.
Amar-te é o que me mantem de pé
Sem ti, nem eu e nem a nossa casa existe.

Sonhar? Sim...
Foi o que me restou.
Com teu sorriso,
Tua alma
E teu amor...

Alguns livros de Renato Galvão

CurtaPoesia: 
Renato Galvão ao vivo
no Sarau em Cores,
organizado por Thay Lucas





domingo, 11 de outubro de 2020

Solidões Compartilhadas: A premiada poeta Andresa Ferreira da Silva nos conta como foi depois que tudo começou

Hoje o blog traz uma notícia cultural chique demais: Andresa Ferreira da Silva, aluna do 9.º Ano A na Escola Municipal Alcino Francisco da Silva (e da Sociedade dos Poetas Vivos do Alcino), unidade de ensino onde leciono Redação, em Teresópolis/RJ, foi a representante de Teresópolis na 8.ª Edição do Festival Intermunicipal de Poesias nas Escolas, evento organizado pelo artistativistamigo Alex Sandro Oliveira (quem quiser assistir ao maravilhoso evento é só clicar neste link da live do Festival: 
https://www.facebook.com/100003913187579/videos/1851958098277945/ ) e, na última sexta-feira, dia 09/10, conquistou, com louvor merecido, o 3.º lugar neste tradicional e formidável certame literário estudantil!
Por esse motivo, retomo as Solidões Compartilhadas do blog com o premiado poema “Depois que tudo começou”, de autoria da magnífica e hipertalentosa poetaluna Andresa Ferreira da Silva, por escrito e declamado pela própria autora, em vídeo dirigido pela também magnífica e hipertalentosa (e também premiadíssima) poetaluna do 8.º Ano A e cinegrafista Jamile Ferreira Silva, irmã de Andresa, membro também da Sociedade dos Poetas Vivos do Alcino e artistaluna efetiva-faz-tudo do Grupo Teatral Escolar Luz, Câmera...Alcino! 
Em tempo: Além de ser uma obra prima, rica em recursos (ritmo, figuras de linguagem, etc), o belíssimo poema “Depois que tudo começou” também merece destaque especial pela visão lírica diante do problema contemporâneo – a pandemia de Covid-19 -, retratado de maneira tocante, singela e com uma mensagem final de esperança que todo nosso universo em crise merece ler. 
Agradeço a todos os amigos leitores que sempre deixam sua torcida lírica e vibração positiva pelo blog, pelas conquistas de nosso ensino público, cheio de poesia e luz, mesmo em tempos de crises e insanidades. Meus aplausos a todos os envolvidos direta e indiretamente nesta nossa maravilhosa conquista; todos vocês tornam a íngreme trajetória em defesa da boa educação e da poesia mais linda e mais aprazível para ser seguida e continuada! Ao infinito e avante! Educação, Amor e Arte Sempre! 

Depois que tudo começou 

A vida mudou bastante 
Depois que tudo começou 
E parece que, em um instante, 
A porta se fechou. 

Sair não posso mais; 
Muita gente se isolou, 
Pois esses vírus são mortais 
E a nossa rotina ele mudou. 

Logo tudo vai voltar ao normal, 
Acredite que tudo vai passar, 
Mas, enquanto esse dia não chega, 
Você precisa se cuidar. 

Tenha esperança, 
Juntos vamos além, 
Porque, depois da tempestade, 
O arco-íris sempre vem. 
Poema de Andresa Ferreira da Silva, aluna do 9.º A da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, de Teresópolis/RJ



Solidões Compartilhadas em tempos de pandemia: O bem e o mal na lírica dúvida do Bem da magnífica poetamiga Andressa de Oliveira Silva

Mais uma vez retorno ao blog após um longo período de ausência; mais uma vez vocês me perguntarão se está tudo bem, enquanto o genocídio nos...