segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Minha crônica homenagem atrasada ao Dia do Poeta: Um Paraíso especial para artistas


Há quatro dias foi o Dia do Poeta e a postagem não vinha - trabalho na escola, trabalho na arte, fúrias e frenesis no dia a dia faltando pouco pra emblemática eleição, mil e um compromissos e desculpas pra adiar a postagem que não acontece.
Um dia antes do Dia do Poeta, recebi a primeira mensagem de Juliana me informando de uma nova edição da Roda de Leitura Além da Palavra, o tema era democracia, essa musa hoje em dia diariamente espancada; lembrei de Pedro Lage, Mestre Poeta que outrora e sempre nos guia além da palavra.
Na primeira vez que participei da roda de leitura, a convite de Cristiano Mota, Paulo ainda estava entre e em nós, depois o hiato, agora ele em nós, mas distante dos olhos comuns, assistido apenas no tempo quando pelo coração lírico (como dizia Augusto Frederico Schmidt, em “A ausente”, “Só no coração sempre ferido do poeta / É que não vão depressa os que se vão.”). Depois veio uma nova edição da roda de leitura, uma homenagem a Pedro Lage, uma elegia épica coletiva lírica cheia de vida, na qual, mesmo ternamente convidado novamente por Cristiano, naquela enlutada vez, não sei por quê não fui (sempre as pre-ocupações, as mesmas desculpas e as dores inexplicáveis na alma).
Em uma edição do Sarau Florescer Nit, de Niterói, em junho, no Solar do Jambeiro, convidado pela musa divartistativista Jammy Said, declamei um poema dele, “Abismo”, que me toca bastante, recitei como se me desculpasse por minhas ausências em homenagens anteriores e não me perdoo por, num golpe de vista, tropeçar e alterar um verso (mais culpas sem crimes previstos, mais agonias inexplicáveis infinitas).
Muito tempo depois, no Festival de Inverno do Sesc, outro sarau, que tomei conhecimento pela bibliotecária artistamiga Ana Cristina, em um julho festivo tristemente maravilhoso, eternizando Pedro Lage mais uma vez, com a presença ilustre do mago marginal Chacal, assisti ao recital, mas não ousei declamar; sempre ativo em tantos evento, ali passivo, mero tímido espectador não sei por quê (cansaço do corre-corre, do de-lá-pra-cá de eventos, um monte de desculpas pra tentar entender o que não se há pra entender, mais o inconsolável no ponto insistindo em me prender e me apreender).
No ínterim desses tempos passados caoticamente lembrados por mim neste momento (o passado sus-surrando com o presente, fazendo a esquizofrenia sorrir em minha narrativa), um pouco logo após a notícia da ida sem volta de Pedro Lage para o adeus sem despedidas e depois que faltei à primeira homenagem a ele, fiz uma crônica que, durante um tempo, só mostrei ao mestre artistamigo Cristiano, pensei em entregar a Juliana, a outro alguém leitor/leitora na noite do sarau do Sesc, mas não entreguei (sempre que volto naquele evento na Biblioteca do Sesc, me olho atônito: “Vai, Carlos, larga essa postura tímida inexplicável indefinida”, mas nada digo, por mais que retorne, por melhor que seja o idílio máquina do tempo inventora de novos passados, eu nada digo além de parabéns a todos os participantes e envolvidos).
Nesse meio tempo, acabei mandando a crônica para outros ilustres alguéns leitores/leitoras, para um concurso, no qual ela foi finalista (CATEGORIA CRÕNICA, MODALIDADE PÚBLICO EM GERAL, no VII CONCURSO LITERÁRIO PROMOVIDO PELA ACADEMIA LEOPOLDINENSE DE LETRAS E ARTES, em Leopoldina/MG, em setembro de 2022).
E, voltando ao tempo passado recente, no dia 19 de outubro, fui novamente convidado para um Sarau Além da Palavra, desta vez pela primeira vez por Juliana: eles retornariam em um sábado, dia 22 de outubro, simbolicamente, liricamente e realisticamente chuvoso, sim, mais um magnífico evento!... Só que, por razão de outro igualmente magnífico evento (do qual falarei em outra futura postagem com imprevista data), que eu já havia confirmado presença, não fui além, ao Além da Palavra (até tentei passar pelo evento no início, mas a chuva, somada ao meu relógio sempre voltado para os ponteiros em cismas e em cima das horas, não consegui realizar tal feito, restando-me apenas áudios-defeitos, em quixotesco desalento, implorando desculpas para Juliana e para Ana Cristina em mensagens privadas no whatsapp).
E assim, já passados o Dia do Poeta, o Sarau Além da Palavra, os dias e noites de democracia cada vez mais maltratada com a companhia de chuvas esporádicas, a postagem não vinha, por isso esse vazamento sem filtro de tempos e lembranças, numa caótica abertura para oferecer aos amigos (e)leitores a crônica citada, quase que igualmente ‘escritiliricaoticautomaticasentimentalmente’ concebida como esta introdução.
A Pedro Lage, in memoriam
e ad infinitum

Em homenagem atrasada ao Dia do Poeta e a tudo que eu poderia ter publicado há muito tempo e que sempre deixo pra depois, segue a crônica “Um Paraíso especial para artistas”, de minha autoria, em homenagem especial ao Mestre Poeta Pedro Lage, que, como muitos, mas ainda poucos, nos levou, nos leva e sempre nos levará muito além das palavras.
Boa leitura e Arte Sempre!

Um Paraíso especial para artistas
Carlos Brunno Silva Barbosa

Creio, com todo meu coração, que existe um Paraíso especial para artistas. Nenhuma outra crença justificaria melhor toda devoção destes seres excepcionais que se preocupam em criar universos incríveis e, ao mesmo tempo, críveis para a humanidade. E precisamos rezar pela existência desse paraíso, precisamos manter a fé em um lugar melhor para esses seres aparentemente estranhos e extravagantes que se dedicam a nos trazer conforto (mesmo quando nos desconfortam) com outros mundos possíveis e impossíveis, tão próximos e, ao mesmo tempo, afastados, mas sempre melhores (ainda que pareçam e se façam piores) dos que nossas visões limitadas (em comparação às dos artistas) podem alcançar.
Apesar de numerosos, ainda são poucos os mortais que conseguem alcançar a imortalidade onírica, ainda que mortos. Desses numerosos poucos, estão artistas (assim mesmo, concretista abstrato, sem artigos definidores ou indefinidores, em coerência louca com a mística real indefinível e infindável do grupo citado). Acredito muito na crença advinda principalmente de religiões africanas e afro-brasileiras de que um indivíduo só morre realmente quando se é esquecido. E não podemos esquecer de artistas. Mesmo quando morrem, é necessário que façamos um altar de lembranças de suas obras pelo bem da memória humana, pelo bem de toda humanidade.
Tais crenças e reflexões me vêm em um fim de semana triste. Há pouco soube do falecimento de mais um grande poeta que eu conhecera há pouco e por tão pouco tempo. A notícia me veio atrasada por culpa unicamente minha – todos já sabiam e tentaram me informar, mas, às vezes, cometo o pecado de me dessocializar, me desligar do mundo e das notícias. E foi assim que o poeta carioca Pedro Lage, que, como Manuel Bandeira e Olegário Mariano, fixou residência em Teresópolis/RJ, morreu durante vários dias em silêncio pra mim. Houve enterro, depois saraus em homenagem a ele, in memoriam, houve muitos acontecimentos nos quais eu poderia ter comparecido, participado, mas não estive lá, contrariando as ações de minhas crenças citadas e cravando em mim mesmo o estigma do pecado do que poderia ter sido e não foi, da enchente de tudo que poderia ter feito e jamais fiz. E o tempo não volta para expiar tais pecados. E o presente não volta a quem vira passado. Pedro Lage, a pessoa, morreu e o ponto é triste e final. Mas Pedro Lage, artista, reside na imortalidade, não morre. É preciso manter como crença; é o que a culpa e eu - e todos que ousam me ler - precisamos para que a humanidade lírica e sonhada permaneça viva, invulnerável à falência total na falta de sentido da vida sentida sem sentido.
Graças a um grande artista amigo meu, o Cristiano Motta, conheci Pedro Lage em uma roda de leitura com o sugestivo nome “Além da palavra”. Foi na última edição deste evento na qual Pedro Lage ainda estava vivo que o conheci. Foi a primeira vez e também a última. O verso “A primeira vez é sempre a última chance” da letra de música “Teatro dos vampiros”, de Legião Urbana, composta por Renato Russo, me vem à mente agora, mais uma vez em mais uma vez em que alguém perde a vez, tão próximo e tão distante de mim. E lágrimas correm com a mesma infinidade de culpa e (in)consequente vergonha por demorar a me fazer saber e de lembrança de quantas inúmeras vezes esse verso premonitório de canção me avisou e se repetiu como um refrão em minha mente mais uma vez.
A roda de leitura “Além da palavra” era um projeto admirável e com objetivo evidente: os participantes traziam de volta não à vida, mas à eternidade diversos artistas das palavras; cada integrante da roda de leitura reservava um loteamento maravilhoso no devido espaço etéreo do sempre outros artistas ou a si mesmos ou ambos os casos. Fiquei encantado: as crenças nas quais eu acreditava estavam sendo postas em prática e o número de devotos crescia exponencialmente diante de mim. E vi, naquele dia, Pedro Lage crescer, gigante, ascender, enquanto declamava poemas seus e de outros outras outres poetas. Pedro Lage, nos poucos momentos em que estive com ele, me fez rever a eternidade, ainda mais bela e eterna do que antes a vira ou sonhara vê-la; o Paraíso especial para artistas nunca esteve tão elevado e tão próximo. E Pedro Lage, assim como voava enquanto declamava, voou além da palavra e da vida terrena, e, ao mesmo tempo, se mantém elevado e próximo nas palavras publicadas, lembrada, na devida residência no Paraíso especial para artistas, cujas casas de eternidade ele incansavelmente tanto ajudou a construir.
E é preciso crer na imortalidade de artista, é preciso jamais deixá-los no limbo do esquecer, é preciso solidificar a eternidade, e, por isso, eu leio, declamo, escrevo, continuo a escre(crer)ver. Sinto muito, Pedro Lage, por ter ameaçado esquecer as infindáveis lições de fé que, em tão breve e, ao mesmo tempo, infinitos momentos, você me passou em vida terrena e que, agora, me passa de sua eterna (e terna) imortal residência no Paraíso especial para artistas. Mantenho a fé e, apesar de ausente na sua ausência imediata, resgato a crença das possibilidades impossíveis de eternizar você.
Por Pedro Lage e por tantos artistas inúmeros poucos, o Paraíso especial para artistas existe, a imortalidade para artistas existe. E preciso manter essa fé, é preciso ler, divulgar, declamar, escrever, continuar a crer.
In memoriam e ad infinitum.



No vídeo abaixo, declamo atabalhoadamente o poema "Abismo", de Pedro Lage:




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