quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

A (re)volta natural: Do alto das árvores líricas da praça Emília Jannuzzi, a maritaca assiste e canta aos homens, durante a pandemia

Como os psicodélicos Mutantes, andei meio desligado por esses dias – principalmente em espaços virtuais. Tenho passado por um processo parecido ao do que chamo “Descivilização” (tirei o termo de uma canção homônima da década de 1990 do Biquíni Cavadão): esqueci-me de contar os dias após o recesso de home slave office, desconectei-me quase inteiramente de redes sociais virtuais e passei a distribuir meus dias com banhos de ducha no quintal, tomadas de sol, ventos ocasionais e chuvas de verão, desenvolvimentos geeks, nerds, árcades, pós-modernos e clássicos com leituras constantes de obras literárias e gibis, maratonas de séries e filmes de diversos gêneros, audição de músicas dos mais diversos gêneros (com preferência à MPB e ao rock) e som dos pássaros que visitam minha casa em quarentena e a praça em frente ao lar agridoce lar, mergulhos em mim mesmo e episódios lúcidos de embriaguez desconexa em intervalos regulares. Diferentemente dos que se cansaram do período de isolamento, muitas vezes acho que a solidão (não a completa, claro, mas a complexa, de autocontrole, divertimento consigo próprio e amadurecimento intelectual) até que cai bem – o que me cansou mesmo (e até me parece tedioso) é bater na mesma tecla da merda que nosso mundo está e no bando de gente merda que acha que essa merda é perfume ou remédio pra grande crise de valores. Estamos na merda que nós mesmos (ou outros infernais nós outros mesmos) nos colocamos, mas insistir em pregar nas paredes ocas o quadro horrível real em que vivemos me aparenta ser tão surreal, cansativo e improdutivo quanto explicar para uma mula que ela está sendo explorada por seu pseudo-dono – destaca-se mais a publicidade patética da cena quixotesca que qualquer ínfima possibilidade da conscientização da mensagem bem intencionada; a mula continua a zurrar, Quixote continua vendo Dulcineias em estalagens contaminadas de aborrecimento e ignorância e o tempo passa atropelado por todos nós e outros nós outros que nós nunca admitiríamos ser nem entender, pois é incompreensível (sim, o zurro humano ainda é uma língua virulenta, inapreensível, incompreendida e incompreensiva). Preferi dar um tempo dessa loucura toda (não me alienar – ação impossível para qualquer ser minimamente pensante em tempos complexos de autodestruição existencial e humana, dramas sórdidos e tragédias espetaculares - , mas manter minha insana sanidade mental em um ambiente menos hostil, confuso, contagioso e abusivo).
Nesses tempos, refugiei-me em mim mesmo, na natureza próxima e na arte – pode parecer (e é) meio egoísta, mas é de um egoísmo altruísta: preciso estar bem comigo mesmo para estar bem com todos em um ambiente tão doente e tão doentio. Mas agora, depois de tanto tempo e graças aos apelos de amadas amigas e amados amigos, resolvi retomar as postagens do blog.
E, voltando aos cantos dos pássaros aos quais tenho prestado atenção com mais constância, foram nesses tempos de quarentena que as aparentemente escandalosas (eu as defendo como sábias incompreendidas) maritacas me inspiraram um poema, “Do alto das árvores líricas da praça Emília Jannuzzi, a maritaca assiste e canta aos homens, durante a pandemia”, com o qual concorri à Mostra Olhares sobre o Patrimônio Fluminense – 2020 , da 10.ª Semana Fluminense do Patrimônio – “Cultura e cidadania em tempos de crise”. O poema foi selecionado e recebeu 2.º lugar pelo júri técnico e 2.º lugar pelo voto popular no tema “Recortes da Paisagem”, categoria adulto na Mostra Cultural. Hoje, trago o poema, com o seu seu clipoema [pra quem está no celular, percebo que os vídeos não têm aparecido, por isso deixo o link do mesmo no youtube: 
https://youtu.be/DdAPNV4MM7E ] (agradecimentos às maritacas por concederem seus cantos durante a gravação do áudio do poema e ao meu irmão Rafael Silva Barbosa e ao seu namorado Wellington Victor de Lima pela participação teatral, atuando como os homens assistidos e cantados pela maritaca da praça Emília Jannuzzi), para vocês, amigos leitores, estreando as postagens líricas virtuais de 2021 deste constantemente inconstante blog.
Já que os homens não escutam a seus próximos iguais diferentes, que, pelo menos, escutemos a natureza à nossa volta e aprendamos com as sábias maritacas sobre a importância da lucidez e da vida nesse contexto genocida de sobrenatural loucura.

Do alto das árvores líricas da praça Emília Jannuzzi, a maritaca assiste e canta aos homens, durante a pandemia


Eis meus vizinhos, de canto apagado,
Os tais homens, seres desemplumados
Que ciscam livres pela minha praça.
Ao longe vejo o vírus que os caça:
O predador, para eles, invisível,
Entre eles, vaga letal e impassível
E, por eles, se propaga invencível.
Animal estranho esse tal homem,
Espécie ensandecida e selvagem:
Contra o vírus, alguns se protegem,
Enquanto outros o infausto propelem.
Uns corretamente tapam seus bicos,
Enquanto outros exibem cantos cínicos.
Aviso aos tolos: “Protejam seus bandos!”
Mas, do meu canto, vivem reclamando.
Têm olhos insanos, incendiários,
Queimam as matas, seus próprios erários,
Tratam-me qual carcará gavião
E, ainda assim, lhes tenho compaixão;
Faltam-lhes asas, amor, união
E sábio senso de preservação.
Brado-lhes orações contra a ruína,
Mas, surdos, seguem destrutiva sina.
Mortíferos mortais sem disciplina,
Pra arrogância deles, não há vacina.
Bando ingrato às belezas da vida,
Minha clemência não lhes é sentida,
Não lhes bastam doenças em surdina,
A humanidade se auto assassina.
Mas, como pássaro poeta e amigo,
Mesmo difamado como inimigo,
Faço arte contra a pandemia insana,
Insisto em salvar a espécie humana.









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