sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Meus toscos poemas de Natal: A orelha lírica de Van Gogh


Mais uma vez, às vésperas das vésperas do Natal, nos vemos cada vez mais cínicos e castos nas trevas coloridas de nossas festividades de fim de ano. Neste momento tão especial, relembro aos queridos leitores que, há muitos anos, em 23 de dezembro de 1636, nasceu o escritor brasileiro Gregório de Matos, mais conhecido pela hipócrita sociedade colonialista brasileira como o “Boca do Inferno”. Relembro também que, em 23 de dezembro de 1888, o pintor pós-impressionista holandês Vincent Van Gogh corta sua orelha esquerda, a leva para um bordel e a dá a uma prostituta chamada Rachel. Em homenagem ao nascimento de Gregório de Matos (e a pedidos da leitora Helene Camile, que me pedira pra lembrar deste polêmico poeta) e à orelha de Van Gogh, presenteio os leitores com mais um poema inédito, a ser publicado em meu próximo livro “Foda-se e outras palavras poéticas” (previsto para ano que vem, a mais nova data do velho fim do mundo); um presente poético e indigesto como os homenageados.

A orelha lírica de Van Gogh
(ou A orelha de Van Gogh versejada por Gregório de Matos)

Uma orelha corto em vosso garbo
Como correção de meu autorretrato;
Dou arte a sábio e tolos
Assim como dais o rabo
A tarados e solitários.

Que minha orelha penetre em vosso quarto
Como presente de Natal amável e alucinado;
Escutarei sussurros de vossos amantes
E terei, em vossos tristes prostíbulos,
O lirismo mais sincero e mais errante.

Que minha orelha penetre em vossa ceia tétrica
Ao invés dos perus desconhecidos dos donos da ética,
Que, vestidos de moral e cívica,
Vos penetram de forma cínica;
A esses pintarei a pintura mais íntima e suicida.

Celebremos, Rachel,
Com minha orelha e o vosso rabo de mel
A festa lírica dessa nossa eterna lua de fel.

Um comentário:

  1. Adorei essa mistura do não-orgânico que tem vida, Deleuze trata tão bem desse tema na perspectiva cinematográfica.

    O não-orgânico tem uma potencialidade de dizer o que o vivo nao tem coragem. É como a instancia de Memórias Póstumas de Brás Cubas, depois de morto, tem autoridade para dizer tudo o que não tinha enquanto vivo.

    agora a relação entre raquel e a orelha de Gogh muito bacana. a lua de fel, ambos num mundo tão bizarro, em que a bizarrice se dar por conta da pressão que o "normal" da sociedade é tão deformado que o pintor não consegue suportar e surta, assim como a prostituta, que é um banco-poupança depositário das misérias e recalques dos ditos normais aleijados por uma moral aceita apenas da boca pra fora.

    o eu lírico se distancia como uma consciencia onisciente.

    hummmmmmmm eu adoro viajar na maionese e fazer uma salada mista, pois sempre fui agitada da mente (um eufemismo para não dizer louca rsrsrs).

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