segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

In memoriam: Recado ao Senhor Rubem Braga

Hoje a chuva tem razões literárias pra chorar tanto em nossas terras intolerantes: faz 21 anos que o nosso maior e mais poético cronista, o grande e eterno Rubem Braga, faleceu (aconteceu num triste 19 de dezembro de 1990). A crônica inédita, de minha autoria, que posto hoje é uma homenagem a ele (o título é uma homenagem à crônica "Recado ao Senhor 903", de Rubem Braga - o número que dei ao Senhor Rubem é o do ano de nascimento do escritor) e uma reflexão sobre nosso mundo atual, despido do olhar poético de um dos maiores cronistas que o Brasil já teve:


Recado ao Senhor Rubem 1913



Rubem, ontem eu vi uma moça chorando na piscina. Era fim de festa e todos ainda fingiam sorrisos. A moça mergulhou na piscina de roupa e tudo, sem pudor. E tudo era festa naquele momento, até que ela chorou; sem pudor, ela calou todos os sorrisos fingidos daquela farsa festiva. E a água suja da piscina recebeu lágrimas puras, mas só meus olhos viram toda tristeza, Rubem, pois os outros ainda fingiam, todos fingiam, menos a moça triste na piscina festiva.
E hoje chove cada vez mais, Rubem, e todos fingem que as casas atingidas não atingem os sorrisos tristes dos que não procuram abrigos. Chove demais, Rubem, e as gotas divinas profanam o mundo com a lama infernal. As lágrimas daquela moça alcançaram os céus e agora essa chuva machuca e todos fingem não ver – é mais econômico desligar-se do mundo, desligar a tevê; é mais econômico economizar as vistas com a arte de nada ver.
Há muito tempo que só chove dor por aqui, Rubem, o mundo é uma bola oval a sorrir nos campos tristes da destruição total. E, entre uma chuva e outra, há muitas festas, muitas orgias, o mundo ainda finge que é uma bola redonda a rolar faceira por estádios felizes e bailes de pré-carnaval. Enquanto isso, o futuro escorrega pelas estradas de barro, sem planos de asfalto, e morre desabrigado numa casa na ribanceira, sem planejamento racional, sem saneamento básico. Só você acolheria minha melancolia eterna por tudo que se perdeu e eu não conheci, Rubem, só você concordaria que, por alguma lírica falta de razão, aquela moça derramava nossa falta de futuro naquela piscina suja; só você me entenderia...
Sinto saudades de você, Rubem, sinto muito por não ser você, pois só você saberia eternizar essa chuva de dor numa melancólica esperança bonita. Eu sinto muito, Rubem, eu sinto muito e a chuva da moça triste continua além da piscina, além das rugas nos sorrisos ressaqueados de mais uma festa pelo nada. A chuva chora lá fora e a moça que chove triste continua em mim...  



Um comentário:

  1. Voce deve estar de brincadeira comigo, uma cronica despida de olhar poético? Valha-me Deus! Devo ja ter ranço de poesia impregnado ou fiquei retardada, pois meu olhar só captou poesia nessa sua crônica.

    Pode me dizer o que é isso então? Senhor modesto irônico:

    "E a água suja da piscina recebeu lágrimas puras/e as gotas divinas profanam o mundo com a lama infernal. As lágrimas daquela moça alcançaram os céus/o mundo é uma bola oval a sorrir nos campos tristes da destruição total/o futuro escorrega pelas estradas de barro, sem planos de asfalto, e morre desabrigado numa casa na ribanceira, sem planejamento racional/só você concordaria que, por alguma lírica falta de razão, aquela moça derramava nossa falta de futuro naquela piscina suja/Eu sinto muito, Rubem, eu sinto muito e a chuva da moça triste continua além da piscina, além das rugas nos sorrisos ressaqueados de mais uma festa pelo nada. A chuva chora lá fora e a moça que chove triste continua em mim..."

    "A MOÇA QUE CHOVE TRISTE" - P...., se isso não é poesia, o que é então? desculpe o palavrão, mas o verso extrapola o senso comum da polidez.

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