terça-feira, 20 de dezembro de 2011

George Harrison e eu (bônus track): Um grande amor fora de si para "Sour Milk Sea"


Hoje o sol retorna aos nossos céus e seca o mar de leite azedo de meu tradicional mau humor com nossa (des)humanidade. Assim como o astro rei retoma seu trono no reino celeste, retomo os poemas georgeharrisonianos. A canção vítima de minha (sub)versão poética é a admirável "Sour Milk Sea", composição com a qual George Harrison presenteou seu amigo músico de Liverpool Jackie Lomax. A letra original sugere aos seus ouvintes que eles saiam da estagnação e abandonem esse “mar de leite azedo” no qual vivem. Na minha releitura, esse mar é substituído por um grande amor fora de si, que, ao contrário do mal citado na composição original, ele é um bem que deve ser mantido para a insustentável sustentabilidade de um casal, ou seja, na minha versão, a canção fala sobre as contradições comuns de dois diferentes se fazerem um e o paraíso infernal do amor a dois.

Amor fora de si

Eu lhe trago o mundo inteiro, mas não a satisfaço;
Ela prefere o Fluminense e eu torço pro Vasco;
Quando começo a jogar, descubro que ela já ganhou;
Se lhe mostro o azul, ela já trocou de cor!

Ela é o meu grande amor fora de si,
Se estou perto, me quer longe...
Ninguém sabe o quanto eu já sofri
Pra viver nesse lindo horizonte.

Se ela me mostra novas roupas, eu prefiro o nu;
Se ela fica à vontade, eu desconfio de tudo;
Se ela declara seu amor, eu finjo não crer;
O simples são coisas difíceis de se entender.

Eu sou seu grande amor fora de si,
Ela chega perto, estou longe...
Ninguém sabe o quanto ela me sorri
Pra eu não me sentir distante.

E, ainda assim, somos felizes na limitação;
Sofremos muito bem essa louca iluminação
E ninguém consegue apagar essa nossa luz,
Seguiríamos tristes sem essa nossa cruz.

Somos dois em um grande amor fora de si,
Não nos suportaríamos longe...
Ninguém sabe o quanto seria infeliz
Se ficássemos sempre distantes.


Um comentário:

  1. Mas esse tipo de amor tensionado é perfeito. Tão bom não ter chão sempre, não ter certeza de nada, nunca contar com o prosaico.

    Lendo a poesia me lembrei da amizade entre Goethe e Schiller, quando este morreu, Goethe afirma algo como rebentou-se o fio que movia e impelia minha obra ser melhor (Schiller era um crítico ferroz, adversário mais que presente)

    Outra que lembro nesse limiar tenso é de Amy Winehouse com sua conturbada paixão por seu marido, não conseguia conviver com, menos ainda viver sem.

    Afinal de contas, AMOR É FALTA, EROS é filho da penúria, sempre haverá falta.

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