domingo, 23 de outubro de 2011

Contos caninos: Mundo cão


Hoje o blog faz 3 meses de existência, ainda de luto com os últimos acontecimentos (ouço cachorros latindo na distância...). Em homenagem a todos os espíritos caninos, mais sábios que nós, humanos, posto o conto “Mundo cão”, publicado em meu sexto livro "Diários de solidão" (2010):

Mundo cão

“Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem.”
(Jesus Cristo, segundo Lucas 23, v. 34)

            Aniversário de Tatá, titia de Teté. No quintal, tititi de Mimi, mamãe de Teté, com marido Gugu:
            - Festa pra Tatá na nossa casa, Gugu!
            - Festa é cara! Tô duro, Mimi!
        - Irmã Teteca e Dudu, marido dela, vão ajudar a pagar!
            - Festa dá trabalho, mulher!
            - Festa reúne família, homem!
            Molestado pelo colóquio exacerbado do histérico casal, Montgomery Cliff, com sua magnitude canina, solicita aos palestrantes uma compostura mais pacífica: 
            - Au, au!!!
            - CALABOCA, CACHORRO ESTÚPIDO!
            - Não bate no totó da Teté, Gugu!
            Injuriado física e ideologicamente - pelo patético apelido a ele proferido -, Montgomery Cliff, com toda sua soberba, ironiza os algozes com censuras veladas:
            - Au... Au...
            Teté entra no quintal:
            - Mamã briga com papá?
            - Não, filhinha! Papá Gugu tá ficando surdo; mamã Mimi também.
            Estupefato com a farsa monossilábica de seus proprietários, Montgomery Cliff declama um exultante épico caniniano para seus gentios senhores:
            - Au, au; au au au; au au au au...
            - Quieto, totó! – diz Teté.
            Mais uma vez ultrajado, desta vez pela senhorinha, Montgomery Cliff emudece e abandona o corpo na atmosfera artificial deste cativeiro chamado quintal.
            Mimi sorri pra Teté:
            - Festa pra Tatá na nossa casa, Teté!
            Gugu quieto. Teté faz festa:
            - Obá!
            Gugu faz cara feia, mas nada fala. Força sorriso na cara malvada. A tarde e os dentes de Gugu são amarelos. Mão de Gugu dentro dos bolsos vazios.
            - Vô avisá Lalá, Lelé, Lili, Loló e Luciana! – Teté corre feliz.
            Gugu diz:
            - Tá... festa pra Tatá.
            Mimi reza:
            - Amém, homem!
            Doutrinador do empirismo cético, Montgomery Cliff pragueja contra a apocalíptica fatalidade festiva:
            - Au, au, au! – mas sua transviada filosofia não alcança os ouvidos humanos.
            E passam-se dias: festa no quintal da Mimi e do Gugu. Família chega e diz:
            - Viva, Tatá?
            - Viva! – responde Tatá.
            - Viva! – repete Teté.
            Encarcerado por seus proprietários, exilado na obscuridade do canto do quintal (masmorra que lhe é reservada em ocasiões festivas), Montgomery Cliff  lamenta o ritual hipócrita dos quixotescos boêmios:
            - Caim, caim! – comprova liturgicamente o universo fratricida dos homens.
            Família vai, família vem. Mimi, sozinha na cozinha, trabalha como ninguém. Gugu paga tudo, Dudu é pão-duro. Família ri, família bebe, família se perde. É Didi que dança com Dadá, prima de Dedé, esposa de Didi. É Dedé que bate em Dadá. É Chico que xinga Zazá. É Gugu que cobra Dudu. É Teté que pisa no calo de Loló. É Lili que joga boneca em Manuel. É bebê de Bibi que baba no sofá. Que confusão! Só Vovó Vivi não viu e nem vai ver, porque tomou xarope e dorme sem nada saber. Pá! Pum! Crás! Essa festa ainda mata um, essa bagunça tá demais!
            Cataclismado com o desfile caótico daquele inferno dantesco – se não bastasse o purgatório carnavalizante do repertório massificado do aparelho sonoro! – Montgomery Cliff clama pela reabilitação da lucidez pulverizada pela ignorância humana:
            - Au! Au! Au!
            Mimi sai da cozinha e grita contra família. Família pede desculpa. Mimi chora. Todo mundo consola.
            - Família é fogo! – diz um.
            - Família que nada! – diz outro.
            Nostálgico, Montgomery Cliff rememora suas primaveras pueris, quando sua matriarca, ainda viva, lhe transmitia a sabedoria da filosofia canina em latinos latidos:
            - Auuuuuuuu! Auuuuuuuu! – retruca com a Lua todos os saberes e saudades do Infinito.
            Festa continua. Família bate palma, família canta parabéns pra Tatá. Tatá sopra velas, família parte bolo, família come tudo.
            Empertigado, Montgomery Cliff contempla o cenário patético e zomba dos farelos humanos:
            - Au, au, au!
            Fim de festa. Família pra casa. Mimi ainda trabalha. Gugu, muito bebum, liberta o totó de Teté. Gugu pesa a corrente, pensa na dureza; bebida faz Gugu pensar.
            Diante da aparência parva de seu senhor, Montgomery Cliff sensibiliza-se e, enternecido, ensina ao seu estúpido dono pequenas lições de astúcia e esperança:
            - Au au au, au au au, au au au...
            Ilusionado pela inércia amistosa de seu dono, Montgomery Cliff, num ímpeto de solicitude aos desvalidos, salta sobre seu miserável proprietário e o lambe.
            - CACHORRO ESTÚPIDO! – Gugu empurra Montgomery Cliff e vai dormir.     

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