terça-feira, 23 de agosto de 2011

Verse essa canção: "Um novo amanhã no dia 23" - (Sub)versão da canção de Kid Abelha

Meu blog faz um mês de aniversário coincidentemente no mesmo dia em que a cantora Paula Toller comemora mais um ano de vida. Para celebrar os dois acontecimentos, resolvi fazer o “Verse essa canção” com a música “Amanhã é 23”, hit da Kid Abelha do CD “Tomate” (1987).
Eu era um moleque introspectivo e gordinho, cheio de sardas na cara e muita curiosidade na cabeça, quando tive oportunidade de ouvir a canção pela primeira vez. Mamãe tinha uma fita K-7 da banda (“ah! Que saudade da minha infância querida/Que os anos não trazem mais”, como diria o poeta Casimiro de Abreu) e, apesar de todo cuidado e ciúme dela com tal objeto musical, eu costumava sequestrá-lo da gaveta do quarto dela e ficar ouvindo no aparelho de som Philips da sala. Gostava da música “No meio da rua”, mas era a canção “Amanhã é 23” que me intrigava; eu era um pivete tentando compreender o significado dos versos daquela canção e tentando entender por que a melodia me encantava tanto. Não sabia muito, mas ouvia mesmo assim (uma vez a fita ameaçou embolar, fato que quase me gerou pânico, pois sabia que se tal objeto fosse estragado, o causador do estrago pagaria o crime com uma sentença de uns 10 anos de castigo sem condicional. O que me salvou foi a rapidez em desligar o aparelho e a agilidade de usar uma caneta Bic para reajustar a fita – quem é da década de 80 sabe como se desenvolve tal operação). O fato de a música tocar numa novela que continha personagens sósias enchia mais ainda a sua estrutura musical de mistério para mim... Só um tempo mais tarde fui construindo os sentidos da canção, algo como um eu lírico pai diante da jovem filha crescida.
Pois bem, o tempo passou, a fita K-7 arrebentou, mas a música continua nas rádios, no meu cantar distraído, a música continua construindo sentidos (hoje, mais velho e poeta, tenho mania de recriar, torcer e contorcer a multiplicidade lírica das canções que ouço). Segundo Paula Toller, “essa música é sobre a melancolia da distância entre pais e filhos, do ponto de vista dos pais. Usei meu aniversário como data-base, mas não fiz a letra "para" uma pessoa em particular, e sim para todas as pessoas”. Ao ler esse depoimento da cantora e compositora, tomei a liberdade de construir uma nova versão pra música, lembrando que o “Verse essa canção” não busca as versões literais das canções versadas; ao contrário, essa coluna busca (sub) verter positivamente as músicas homenageadas, construindo um novo sentido pra composição (a ideia é somar significados, explorar a multiplicidade de interpretações, manter as artes da escrita e da música vivas). Hoje, quando ouço a canção, lembro-me da reação pasma de meu pai, sobrecarregado com a visão tradicionalíssima da família – visão esta que ele pretendia manter nas próximas gerações -, diante da confissão de meu irmão, quando este declarou-se homossexual. Que os autores da música original Paula Toller e George Israel me perdoem a ousadia, mas a escolha pesou também porque meu irmão adora as suas canções, e juro ter tentado caprichar nessa (sub) versão lírico-musical:

As entradas do meu rosto
E os meus cabelos brancos
Aparecem a cada ano
No final de um mês de Agosto...

Meus olhos no espelho do armário aberto reconhecem as rugas do século XX. Sinto a poeira do tempo tingir meus cabelos com tons de neve. É fim de agosto, o inverno está passando e as flores da primavera abrem prematuramente seus botões, antecipando perfumes que eu desconhecia.

Há vinte anos você nasceu
Ainda guardo um retrato antigo
Mas agora que você cresceu
Não se parece nada comigo...

Olho para as fotos antigas, guardadas no armário outrora trancado... Meu filho era um menino sensível e silencioso queimado pelo sol de verões passados. Agora, no quarto em penumbra, vejo um jovem inquieto e desesperado, atirando-me palavras incontidas, revelando um presente que minha tradição não consente... Todos os planos pensados para o menino são projetos frustrados por esse jovem ao meu lado... Meus olhos de futuro presos ao passado veem um novo mundo, diferente, desfigurado... Sou um pai ausente ou um ancião despreparado?

Esse seu ar de tristeza
Alimenta a minha dor
Tua pose de princesa
De onde você tirou...

Os olhos tristes desse jovem ao meu lado sorriem para outros homens, o coração dele bate descompassado para meu coração ultrapassado... Há uma princesa no castelo que ele carrega no corpo de príncipe enfeitiçado e tento conter meu rancor, meu reino de varões artilheiros desmoronado por segredos de fadas revelados. Minha dor é não entender os amores do jovem ao meu lado.

Amanhã! Amanhã!
Amanhã! Amanhã!...

Meu Deus, tento me convencer, meu filho é homossexual, isso é normal, então por que meus olhos enrugados de contos passados não param de enxergá-lo como sapo?

Amanhã é 23
São 8 dias para o fim do mês
Faz tanto tempo
Que eu não te vejo
Queria o seu beijo
Outra vez...

O relógio do quarto me aborrece com seus ponteiros apressados; preciso olhar pro jovem ao meu lado, preciso entendê-lo, preciso abraçá-lo... Meus músculos cedem ao meu desespero antiquado – nunca imaginei que necessitasse de tanto esforço pra dar-lhe um afago -, beijo seu rosto sem asco, escondo no corpo um choro engasgado... De volta ao lar, é meu filho outra vez, seja como for, é sempre bom estar novamente ao seu lado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário