quinta-feira, 5 de julho de 2012

Poema a quatro mãos: "Ode ao ódio destilado", escrita por mim e por Carlos Orfeu

Hoje a solidão poética é escrita a quatro mãos: o poetamigo Carlos Orfeu e eu produzimos a ode abaixo em homenagem à cachaça e à vida lírico-boêmia, a partir de um bate-papo no chat do facebook. É uma ode meio de repentistas, uma ode de ódio destilado, um poema sóbrio embriagado, um poema cheio de cinzas no meio das trevas coloridas. Pra que entendam melhor a construção do poema-diálogo, coloquei as estrofes criadas por Carlos Orfeu em branco e as minhas em azul.
Mais abaixo, os leitores têm a oportunidade de ver o mesmo poema escrito a quatro mãos, declamado em dueto: o vídeo mostra Carlos Orfeu e eu apresentando o inédito poema no "Identidade Cultural & Movimento Culturista - Tema Cachaça" do dia 30 de junho de 2012. Organizado por Janaína da Cunha, o evento acontece todo último sábado de cada mês, no Bistrô Café do Bom, Cachaça da Boa, na Rua da Carioca, no Rio de Janeiro/RJ, e, na última edição, tive a oportunidade de fazer um dueto lírico teatral experimental com o poetamigo de São Gonçalo/RJ Carlos Orfeu. a garrafa usada durante a presentação possui pinturas do artista plástico Welington de Sousa. Como diria Baudelaire, embriaguem-se, leitores, embriaguem-se de vinho e versos (no nosso caso, de cachaça e poema escrito a quatro mãos):


Ode ao ódio destilado (ou Os cinzas no bar das trevas coloridas)

- Tempos estranhos e os caminhos distantes,
Prisão de grades invisíveis e tubos de conexão...

- Por isso bebemos lúcidos, amigo Orfeu, essa água amarga,
Essa embriaguez destilada de loucura sem solução...

- É, camarada, sinto este gole entupindo nossas reflexões,
Abrindo a porta de nossas indignações,
Derramando cada saliva cáustica de água-ardente,
Deixando a nossa lira nestas horas com asas de ave fênix.

- Estamos sem Eurídice, Orfeu, meu camarada,
Cortaram-lhe as asas
E a nós, alcoólatras do nada, resta-nos a viola embriagada.

- Com a viola de nossas cordas vocais,
Precisamos colher as asas de Eurídice...

- Sim, por isso a melodia angustiada
Um amor perdido,
Uma aguardente
E milhões de canções desesperadas.

- Canções embriagadas oferecidas ao vento que invade o boteco,
Inspiradas entre o ardido e o fedido,
Do colega ao lado chorando vômitos,
Enquanto eu e você brindamos feridos

- Os versos que nos restam são cachaças
Que acalentam os frios dessa manhã mal madrugada
Bebamos, amigo, por nossas línguas cortadas
Que as feridas cicatrizem com a substância que embriaga.

- Bebamos!Bebamos! Um brinde à miséria de todos os dias,
Um brinde ao amor perdido nas drogas,
Um brinde às crianças sem escola,
Um brinde a toda nossa sagrada desgraça,
Um brinde de fúria a toda dor que temos que engolir muitas vezes calados.

- Uma ode molhada de ódios destilados,
Um porre das águas ardentes de nossas lágrimas versificadas,

- Um porre sem remédios que amenizam, um porre sem cura.

- Ah, lá vem o dono do bar, com outra garrafa!...

- Com um sorriso, feliz por estarmos consumindo
Com aquela cara de vascaíno tipico português dono de bar

- Seu time ferido, seu sorriso deprimido,
Em todo bar, a mesma falta de luz,
O mesmo excesso de escassez ...

- O mesmo banheiro sujo, com nomes e telefones querendo programas desconhecidos,
A mesma sujeira que se estende para as ruas, planaltos, igrejas, etc...

- E estamos sujos também, amigo, em puro estado de embriaguez,
Numa luta sem trégua, vendo tudo que nos cega,
Eis nossos versos bêbados no guardanapo

- Em bic azul ou preta, nem sei mais,
Eita, cachaça de nossa desgraça, escorrendo nas goelas!
Estamos com a nódoa em nossas roupas, como diz Bandeira em algum poema.

- Bandeira morreu e estamos morrendo também...

- É,caro amigo poeta, estamos morrendo em vida,
A pior morte é viver e por dentro estar morto.

- A morte tá dando Bandeira em nós, amigo Orfeu...

- Mas buscamos renascer das cinzas sempre,
Pois temos nossa inquietação,
Buscamos voar para longe de nossas gaiolas...

 - A bebida já dá tremedeira de tanto desatino, amigo poeta...

- Estamos suando, delirando,
E o bêbado ao lado pedindo algumas humildes moedas
Para tomar mais uma dose de cana.

- Mais um gole, voemos, amigo, voemos pra longe...
E eis que o dono do bar nos dispara sua voz cansada
Ele quer fechar o bar.

- Mais um gole, as paredes cantam, as mesas cantam,
As garrafas dançam alguma canção antiga
Cantada pelo costumeiro cantor dos bares com seu velho violão.

- É hora de nossa retirada... Não podemos adiar...

- Vamos pedir uma saideira, pois hoje é sexta,
Vamos pedir uma música ao cantor,
Algo que como sempre ele dirá que não ensaiou.

- Bebemos demais, amigo Orfeu, o músico já partiu,
A música acabou,
O que ouves é o silêncio que ficou.

- O que faremos agora?
O músico acabou, a música partiu,
O bêbado no fundo do boteco que dormiu.

- A Eurídice que não voou, nem voltou

- É, meu amigo, ela nos deixou...

- O jeito é partir, amigo... Fingir que o sonho acabou
E voltar amanhã, pedir outra dose, continuar...

- Apertar a mãos dos que ficaram e dar um sorriso descolorido

- Contra as trevas coloridas que acinzentam nossa cara aborrecida
Pelos sorrisos cheios de lágrimas;
Voemos, amigo, pra fora do bar.

- É, voltaremos amanhã com o mesmo dono do bar,
Os mesmos fiéis bêbados nos seus cristianismos da cachaça
E nós com as mesmas inquietações que não mudam,
Com a mesma vontade de seguir descalços buscando transformações,
Voemos e não dissolvemos no ar

- Sim, amigo, partimos, embriagados e feridos...

- Partimos para outros dias estranhos e distantes caminhos...

- Mas inteiros seguimos;
Seja como for, a poesia vai continuar

- Com nossas almas erguidas e nossas armas azuis, pretas ou vermelhas
Ditas nas linhas do horizonte infinito

- Até logo, amigo,
Até logo, dono do bar,
Até logo,
Porque adeus não há!

- Até logo é garantia de amanhã,
O adeus deixamos para os moribundos e os inocentes,
Os que buscaram e sentiram nos lábios o beijo da meretriz de preto.

- Sim, adeus, monstros coloridos,
Partimos cinzentos, mas plenos;
Até logo, Orfeu!

- Partimos, mas antes nos abracemos, apertemos as mãos;
Até logo, caro amigo Carlos Brunno,
Amanhã é outro dia de nossa desgraça engarrafada e vendida para consumirmos

- Sim, amanhã voltamos mais uma vez pela Eurídice que se perdeu
E beberemos por tudo que não aconteceu;
Até logo, amigo Orfeu,
Até logo sem adeus!



3 comentários:

  1. Maravilha , maravilha simplesmente maravilha e obrigado pela inclusão da minha humilde arte no grande trabalho de vocês !!! abraço poeta do amigo " welington de Sousa "

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  2. Muito show!
    Prof e Orfeu, que dupla!!!
    Bjoks

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  3. Ficou maravilhoso,é o grande poder da arte
    unir,duas almas nas mesmas linhas.
    E que estas mesmas linhas em diferentes folhas virgens,seja desvirginadas pelos nossos dedos
    e contruiremos novos versos unidos.
    Um forte abração grande amigo,e grande poeta

    "A arte é longa á vida é breve"

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