sábado, 11 de fevereiro de 2012

Solidão moderna pelos 90 anos da Semana de 1922


Hoje se comemora 90 anos do início da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, Brasil. Liderada por Oswald de Andrade e Mario de Andrade, em 11 de fevereiro de 1922, o evento decretou o início de uma grande revolução na arte brasileira: a arte nacional não mais se submetia a mera imitação dos modelos estrangeiros – passava a absorvê-los para criar uma arte nova (em consonância com o avanço industrial de São Paulo), autêntica e mestiça como o Brasil. As regras e modelos foram quebrados, a arte se renovava, sem prisões de rimas, formas definidas, rumo a uma utópica liberdade total (a rejeição de alguns artistas pela total extinção dos elementos tradicionais demonstrou certo exagero; a carroça e o carro andavam – e andam – lado a lado no Brasil real). 
Acima do bem e do mal, o movimento modernista brasileiro repensou a arte nacional e buscou dar a ela uma identidade, uma autenticidade que a cultura do Brasil carecia para ser realmente representada na poesia, prosa, música e artes plásticas. Sempre fui fã desse movimento (os leitores, possivelmente, já reparam que tenho preferência pelo verso livre, apesar de não abandonar outras formas tradicionais, como o soneto, etc), chegando até a tatuar em minhas costas o desenho que o genial artista plástico Di Cavalcanti fez para o cartaz da Semana Moderna de 1922. 
 90 anos depois, dedico o poema abaixo (modernista ao extremo: sem pontuação, em versos livres e quase feito numa escrita automática), publicado em meu quarto livro “O último adeus (ou O primeiro pra sempre)”, de 2004, em homenagem a esse movimento que tanto inspirou meus versos e meus delírios lírico-antropofágicos (quem conhece o modernismo, sabe do que falo; quem não sabe, vale a pena estudar um pouco dessa grande fase da arte brasileira):    


Solidão moderna

A solidão alcançou a madrugada
pra pedir-lhe um segundo de companhia
mas a madrugada fez-se dia
e o sol queimou a esperança da menina vazia

O grande astro revelou a criança-calçada
na notícia-cobertor
o homem bebida nas mãos da saideira
que nunca acaba

Envergonhada, a solidão pediu licença
e escondeu-se
no homem-estatística da fila desemprego
no quarto escuro do desassossego do poeta

Então fez-se noite no mundo dos sonhos
e a solidão brilhou como estrela vadia
não existe mais métrica, não existe mais rima
a poesia moderna acompanha a rotina selvagem

Declamação do poema "Solidão moderna" 
no Sarau Solidões Coletivas in Roça, em Valença/RJ

Um comentário:

  1. Ah meu caro professor-poeta-pateta ou é professor-pateta-poeta ou pateta-professor-poeta (nunca lembro a ordem que voce se autodenomina, se não for essa, me perdoe, acuso sempre minha memória que é péssima mesmo). Sabiaaaaaaaa que eu já tinha visto essa imagem em algum lugar quando vi a sua tatuagem, mas não quis ser indiscreta e perguntar (rsrsr,cheguei até a aventar a ideia do oscar em versão feminina, kkkkk )Menino, entao sua pele vale muito, um Di Cavalcante não é pouca coisa não hein.

    And the oscar goes to "O grande astro revelou a criança-calçada na notícia-cobertor; a poesia moderna acompanha a rotina selvagem"

    Versos maravilhosos Carlos, o poema em si, mas necessito eleger os versos que ficarão guardados na fraca memoria e não podem ser muitos, senão esqueço.

    Mas a nossa cultura ganhou muito com esse deglutir, ruminar, regurgitar rompendo com a tradição dos meramente "imitatórios homogeneizados". Se antes elegiam algumas coisas para além de nosso contexto de vida para "poetar", hoje,com o Modernismo, tudo é matéria-prima para a poesia, matéria que reconhecemos, sabemos e encontramos em nosso dia a dia. Antes restrita a parametros, hoje deliciosamente desmedida, completamente em trânsito e transitável entre os limites.

    UM GRANDE VIVA AO MODERNISMO, A IMAGEM EM SUAS COSTAS (rsrsr)E UM VIVA "MAIS MAIOR" A POESIA SELVAGEM, INDOMÁVEL!

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