quinta-feira, 10 de julho de 2014

Solidões Compartilhadas: Como ser indiferente ao lirismo de Marcio Fazenda?

Nesta segunda postagem da goleada de 7 que postarei hoje, compartilho minhas solidões poéticas com um craque da poesia, um dos professores poetas que tive e que auxiliou em minha formação poético: o fodástico professor-poeta Marcio Souza (que assina seus poemas como Marcio Fazenda), de Valença/RJ.
Lembro-me, com algumas fantasias (ah, amigo leitor, a nossa memória é uma coisa louca, traz o real e o imaginário misturados em nossos passados), que minha turma na escola não foi nada fácil, tanto que, no ano em que Marcio lecionou para nós, ele já era o nosso segundo ou terceiro professor de Português. Lembro que a primeira professora que tivemos trazia um tom meio ditatorial e afastou-se da turma logo na primeira semana, até porque realizamos um motim contra o autoritarismo dela. O professor-poeta Marcio surgiu como apaziguador de nossa adolescência selvagem: trazia uma fala mansa, bem pausada, um ar meio calmo, às vezes quase zen, mas quando percebia abusos dos alunos, defendia-se com firmeza e colocava um tom rígido na voz que calaria até a torcida organizada mais feroz e barulhenta. Mas não era isso que mais se destacava pra mim: havia na sua aparente calma, um leve desespero de querer nos passar a intensidade dos textos que interpretávamos na sala, seus olhos explodiam em brilho quando a turma colaborava e deixava-o passar a mensagem poética que o texto nos dava. Ele quase sempre vinha sem livros e, ás vezes, aparentava um roteiro indefinido para a aula... grande engano do olhar imaturo adolescente: a aula estava pronta dentro dele e Marcio nos passaria tudo que planejou, custe o que custasse. Essas lembranças que tenho dele marcam minha vida profissional: eu ainda não me imaginava professor, mas desejava um emprego no qual pudesse usar aquela força lírica e surpreendente que o professor Marcio possuía. Não sei se já fui completamente bem-sucedido como Marcio, mas continuo tentando.
Ao reencontrar o professor Marcio Souza no facebook, encontrei um lado novo e fodástico de meu ex-mestre: o lado Poeta (sim, o lado poeta de Marcio Souza é Poeta com letras maiúsculas). A partir daí, fui acompanhando suas postagens e, dos diversos poemas que ele postou em sua linha do tempo, um me marcou mais que os outros, por sua genialidade e técnica sublime: o reflexivo e mais-que-fodástico “Como ser indiferente?”, que tenho a honra de postar hoje no blog.
Sim, amigos leitores, é impossível ser indiferente diante do mais-que-fodástico poema de Marcio Souza (ou Fazenda ou Mestre dos Mestres)!

Como ser indiferente?

Por dois dias tentei escrever um texto sobre indiferença...
Incompetente, não consegui. As palavras não se criaram
Porque não saíam de meu velho (in?)fiel coração canino.
Nem para proteção é-me permitido escolher as ideias!...
E vou soltando, incessante, “amo você”, “amo você” ...

Há muitas pessoas que se ofendem com essas declarações.
Nunca consegui entender como elas diferem isso daquilo!...
“Amo meu marido!” / “Gosto de você!” Qual é o sentido?
Assim penso enfrentarem problemas sérios de convivência...
Em que jamais alguém será tão bom e encantado como o seu.

Todos querem ser amados, ainda que não sejam maridos.
Talvez os maridos nem mereçam tanto quanto os demais.

Que mal há em hastear a bandeira do Amor e juramentá-la?
Não seria a falta dele que ocasiona as mazelas do mundo?
Não será Ele o próprio Deus? Que faz-nos pensar no outro?
Que impinge a cada dia as ternuras das reuniões de Natal?
Só o Amor insiste em nos fazer querer o outro mais próximo.

E não há definições para este sentimento divino. Não há.
Por isso, deveria ser desprovido de todos os preconceitos.
Uma criança branca adotada por negros ou o contrário...
Um filho gay que não precisa sair de casa por ser querido...
A tolerância religiosa em todos os cantos do mundo.

Ser humano não é uma garantia. É um exercício permanente.
E fazer o que a unanimidade faz pode não ser humanidade...

Não é preciso que o cão seja o seu para tirá-lo da chuva...
Nem que os olhos que choram sejam os seus para secá-los.
As alegrias têm de ser sentidas por todos nós, viventes,
Que a morte é certa! Vem ao seu marido, a você, a mim...
Pontuando a todos um fim solitário e por certo indefinido. 
Marcio Fazenda

16/12/ 2012

Quadro do artista plástico Rinaldo Silva, de Recife.
O quadro traz cores fortes, tornando a indiferença impossível.
Conheça mais quadros de Rinaldo em http://www.cyberartes.com.br/artigo/?i=814&m=44

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