Oficialmente, hoje, dia 13 de
agosto, em São Paulo ,
é o 'Dia dos Vampiros'. A data, comemorada há 10 anos, é uma lei na capital
paulista, que colabora com uma bela campanha solidária de doação de sangue. Em
comemoração a essa data, posto hoje meu conto de vampiro “Eduardo”,
recentemente apresentado por Anny Lucard, no programa “Contos sobrenaturais”,
da Rádio Digital Rio Jacarepaguá (o audioconto foi exibido no último final de
semana na rádio. Pra saber mais, confira o link: http://contossobrenaturaisdigitalrio.blogspot.com.br/2012/08/novo-autor-chegando-as-ondas-da-digital.html ).
O conto é uma homenagem aos
vampiros de Ane Rice e aos fãs da literatura sombria com pitadas machadianas de
Rubem Fonseca. Pra ser lido, ouvindo “Midlife Crisis”, do Faith No More.
Eduardo
“Your menstruating
heart
It ain't bleedin'
enough for two
It's a midlife crisis...” *
(* “Seu coração menstrual
Não está sangrando o bastante para dois
É uma crise da meia idade”)
(Fragmento de “Midlife
crisis”, Faith No More)
Acordei mal
com a chegada do crepúsculo. Dificilmente me levanto de bom humor, mas, desta
vez, acordei com uma fome diferente, tão intransigente quanto uma dor de dente.
Durante a
manhã, sonhei que uma ruga nascia em meu rosto, pesadelo que julgava impossível
de acontecer até deparar-me com o espelho. Minha imagem continuava ali,
perfeitamente não refletida, mas a ruga aparecia, inexoravelmente assumida em
meu rosto que eu não via.
Essa revelação
aumentou minha fome; meu estômago passeando em meu âmago numa valsa faminta de
ânsia e desespero. É verão, dias quentes e claros demais, com poucas sombras,
com muito pouco do que sempre gostei.
Com
dificuldade, aguardo o anoitecer. Já não me arrumo calmamente como antigamente.
Ah, reflito sufocado, como um ser imortal pode envelhecer? A noite vem e eu
penetro nela, com uma pressa que, ao meu estilo furtivo, não convém.
Sigo os ritmos
da cidade desespero, com um certo desconforto no peito. Não suporto os ruídos
escandalosos dos habitats recreativos desses seres inferiores, mas hoje tenho
pressa, hoje estou tão desesperado quanto eles e constatar isso me deixa ainda
mais faminto e furioso.
Lá está ela,
saindo sozinha do habitat recreativo, suada e bêbada. Leio os seus pensamentos
ralos: brigou com o namorado, ele a traiu e ela quis vingança. Como pensa com o
corpo, veio dançar, rebolar, desfilar, irritá-lo. Mas aconteceu o contrário:
ela hesitou quando o viu com a outra fêmea. Então ela bebeu, se arrependeu de
sair, se perdeu e está ali: uma presa fácil, de sabor possivelmente vulgar. Relendo
seus pensamentos, imagino que o seu ex-macho deve ser mais saboroso, mas isso
pode ser apenas uma ilusão da mente contaminada de estupidez dela; melhor ou
pior, estou com fome e tenho pressa.
Estou agora à
sua frente. Ela se acha muito atraente, se acha a ‘bela’ e meu sorriso
docemente sarcástico finge concordar (concentro-me na admiração de seu pescoço,
mas até esse único pedaço humano que realmente me interessa não me atrai tanto
nela).
Ela lê-me com
olhos de raso leitor: dedica-se a imagens e não repara nas entrelinhas.
- Olá, bela,
já é, meu nome é Eduardo – blefo rápido por puro escárnio. Então beijo seus
lábios, tentando apressar as etapas.
Minha fome
aumenta e, para não mordê-la em território impróprio, convido-a para irmos para
um lugar mais aconchegante. Com muito esforço, sussurro o meu convite aos seus
ouvidos. Ela olha o falso brilho em meus olhos e aceita. Ela pensa com o corpo,
lê com os olhos, uma presa fácil.
Conduzo-a para
minha casa. Antes de entrarmos, deixo notas caírem desastradamente do bolso, só
para vê-la ajoelhada, bêbada, o seu pescoço bem ao meu lado.
- Eu tenho
dinheiro, mas só desejo um amor de verdade. – Rá, rá! Ela não me ama, mas
acredita em minha farsa. Uma presa fácil e eu cada vez mais irônico e faminto.
– Já observou a luz nova, baby? – kkkkkk! Ela sorri, um brilho estúpido nos
olhos para a bola de luz negra que tediosamente acompanha essa terra fosca.
Nos beijamos,
mas os meus caninos estão impacientemente excitados e meu estômago alerta, com
golpes furiosos de dor, que preciso parar de brincar com minha refeição.
Preparo o golpe final, a última piada mortal:
– Eu te amo!
Você é a mais bela e mais gostosa de todas, baby! – Rá, rá, ela também se acha
a mais bela, a mais gostosa, ela vai concordar; o queijo na ratoeira seduzindo
o camundongo e o xeque-mate está pronto.
- Você acha
mesmo? Como vou saber se está sendo sincero? Então prova! – a vítima convida o
criminoso.
Com seu
consentimento ingênuo, mostro-lhe minha verdadeira face e ela grita de horror.
Tola! Ninguém a ajudará, não há ninguém aqui além de mim. Não entendo para que
tanto escândalo. Humana e tola! Não percebe a beleza desse momento, a riqueza
lírica e lógica dessa cadeia alimentar? O cervo nobre deveria saber admirar a
destreza e arte de seu leão. Mordo-a com mais fúria por sua inconsciência
inconveniente à minha superioridade.
Sinto náuseas;
o sangue dela era realmente ruim. Atualmente, tenho tido caçadas fáceis, mas as
presas trazem cada vez menos sangue dentro de si. Sou um imortal envelhecido ou
é real essa impressão de que o sangue humano está cada vez mais poluído de
vazios?
Olho o rosto
da ‘bela’; morta, a sua aparência me parece mais inútil que outrora. Desloco
seu pescoço, pois não desejo companheiras fúteis em meu clã solitário. Me olho
no espelho mais uma vez: a mesma imagem não refletida somada à ruga que fere
minha nobre inexistência. Temo que a má qualidade de meus alimentos mais
recentes esteja privando meu corpo de uma imortalidade saudável e serena.
Os primeiros
raios de sol do amanhecer ameaçam beijar minha janela. Estico a cortina e
retorno a minha escuridão segura. Tenho a impressão de que a ruga me sorri e
temo estar contaminado por alguma enfermidade humana. Isso me faz vomitar todo
sangue que bebi.
Mesmo
novamente faminto, preparo-me para dormir. Espero que o próximo crepúsculo
inicie uma temporada de caça menos ruim...
Pobre "Eduardo"! Interessante esse aspecto da qualidade do humano. Tomemos a eternidade (enquanto dure) de Vinícius como parâmetro.
ResponderExcluir1- Eduardo enquanto eterno está em crise de identidade e (in)existencial
2- Sua não-vida está ameaçada de in(extinção)em decorrência da qualidade insípida humana. O sangue que corre em nossas veias é tão de má qualidade que provoca vômito, por quanto tempo Eduardo será capaz de não se alimentar, já que a caçada torna-se cada vez mais escassa e quem pode garantir até quando correrá sangue nas veias humanas?
3- Pensar a condição e a ação humana como doença tipo um cancer que corroi e destroi aos poucos de dentro para fora até os imortais.
4- A feia "Bela"um mero autômato carnal, um corpo que anda, já não pensa e o pouco que pensa é só uma repetição de ações esteriotipadas midiáticas (dar o troco no namorado, definir o que é amor segundo o que ve em malhações e em novelas ou em filmes)perder tempo com isso, digo eu: - merda a gente dá descarga(desculpe o palavrão). A humanidade não concebe que as relações são construídas e não devem ser imitadas ou encaixadas em ideais que nada mais são do que ideais? Esquecemos de ver o outro e de nos articularmos com ele de modo construtivo, mas o modo que prevalece é o modo da cobrança de que o outro seja o ideal.
Eita, vou parar por aqui, ainda estou digerindo algumas coisas do conto. Estou a pensar na linearidade estrutural do conto (quanto a não haver as ditas reviravoltas) mas está de acordo com a concepção do caminhar humano (uma desumanização crescente) já sabido desde agora ou sempre (não sei, pois não vivi sempre)
saudações crepuscular Carlos