quinta-feira, 16 de maio de 2013

Solidões compartilhadas: A vingança nos olhos de lince ferida de Cristina Lebre


Ainda falando em artes que envolvem o tema vingança, amores e desamores, compartilho hoje minhas solidões poéticas com a fodástica poetamiga carioca Cristina Lebre. Conheci a escritora Cristina Lebre na edição de maio do ano passado do Identidade Cultural & Movimento Culturista, por intermédio da organizadora Janaína da Cunha e de Lucilia Dowslley, organizadora do evento Brinde à Poesia. Na época, Cristina Lebre estava lançando seu primeiro livro, o intenso “Olhos de Lince” (recomendo que visitem o blog da escritora no link: http://crislebre.blogspot.com.br/ ).
Quando adquiri uma edição da obra de Cristina Lebre e li seu conteúdo, fiquei extasiado com alguns poemas, entre eles o sinistro e fodástico “Novembro negro” e o neo-simbolista, um misto de Hilda Hilst com Cecília Meireles, o tenso e mais-que-fodástico “Vingança”, poema que tenho o prazer de compartilhar hoje no blog. Destaco a riqueza de imagens, a tensão sonora em aliterações - uso de palavras diversas cujas letras trazem os mesmos sons - com vocábulos de sons fechados, as rimas internas e externas, somados a reversões de significados a partir de versos parecidos, mas com algumas palavras intencionalmente e genialmente trocadas (é o caso do verso “Procuro o bem no meio do mal” que reaparece na estrofe final como “Encontro o mal no meio do bem”). A “Vingança” é cruelmente bem elaborada, trazendo-me novos significados a cada momento e estado em que os leio; o eu lírico de Cristina Lebre conseguiu: nossos olhos terminam a leitura compartilhando de sua dor vingativa pelo “caminho que ainda não se abriu”.
Seja o mal em meio ao bem, seja o bem em meio ao mal, que a vingança de Cristina Lebre nos seja sempre mortalmente maravilhosa, amigos leitores! 
    
Vingança

Acima da névoa, abaixo do céu
busco o caminho que ainda não se abriu
os punhos fechados na dor cruel
o corpo frustrado de quem não viu,
não sentiu.

Chego cansada, sou flechada
pela chaga do tempo.
Maldoso punhal sombrio
saudade que voa sem vento
afia a lâmina, enfia macio
sangra a carne embolada na noite
agoniza as vísceras
parte a testa queimada de frio.

Me tira o medo que a treva contém
matando meus sonhos calados
ai, quem me dera tirá-los
matando pesadelos, também.

Procuro o bem no meio do mal
Somente ali posso achá-lo.
Menino sem rosto, me deixa no areal
somente ali posso amá-lo.
Planície sem nuvens, dunas sem sal
me leva voando pro topo do mundo,
luz no fim do túnel, irrita meus olhos,
somente assim acordá-los.

Encontro o mal no meio do bem
ai, quem me dera encontrá-lo
machucando teus olhos também.

2 comentários:

  1. Super-obrigada, Carlos Brunno, vc soube captar como ngm a forma e o conteúdo do meu "Vingança", inspiração que me veio de uma vez só, sem exitar, como em vários poemas meus. Obrigada por divulgar meu blog tb, estou seguindo o seu, valeu, querido, juntos somos mais, bjs!

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  2. Não conhecia ainda este teu blog. Como tem coisa boa boa na internet pra quem sabe procurar.
    A vingança é exatamente isto. Tirar o medo, extrair o mal (que é tão relativo quanto o bem).
    Vale muito a pena te seguir.

    Abraços,

    Diego

    http://leaodegaza.blogspot.com.br/

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