quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Elegia viva pela eternidade do blues do menino azul


A postagem de hoje me sai arrastada, mastigada, dolorida... Há dias me sinto fora do chão, as horas tropeçam em meu rosto e uma pergunta sola, assola, isola o meu coração, mais cortante que o frio lá fora: por que levaste Celso Blues Boy, meu Deus, por que tão cedo, por que tão agora?
Há tempos, o músico, cantor e compositor carioca Celso Blues Boy tem preenchido meu quarto gelado em Teresópolis com renovadores blues pra preencher o vazio dos ventos vadios da solidão. Minha admiração por ele cresceu ainda mais recentemente, quando tive a possibilidade de comprar seu último Cd em uma banca de revistas; “Por um monte de cerveja” me embriagou na primeira dose. Renatinho do Delta Mood está de prova de quanto enchi o saco dele no bar pra que encontrasse e ouvisse o Cd; minha namorada Juliana Guida Maia é testemunha de quantas mil vezes ouvi esse mesmo Cd, declamando poesias monossilábicas como “muito foda”, “do caralho”, “puta que pariu, isso é bom demais!”; meus amigos do face sabem o quanto compartilhei alguns vídeos do último Cd sem nem ao menos saber o que aconteceria com o mago do blues tupiniquim; não escrevo sobre ele aqui por apelação, sempre amei o som do cara, sempre admirei a ousadia do artista em fazer blues de qualidade com letras em português, o cara sempre foi do caralho, me perdoem o palavrão, já nem sei se tô pontuando direito, o meu amigo Osvaldinho sabe o quanto o persegui para que me comprasse o Cd do Celso Blues Boy ao vivo que ele vira num stand de supermercado, lembro dele cantando “Choraaaaa Guitarrrrraaaa” num programa do Jô Soares quando este ainda estava no SBT e eu era um pós-aborrecente que mal compreendia a riqueza do blues e a guitarra chorando entusiasmadamente na mão dele e sabe duma coisa: foda-se a pontuação, eu tô triste pra caralho, há dias fiquei num estado de suprema letargia sem saber o que dizer, um blues de elegia crescendo ferozmente em mim, contendo minha alegria e me lembrando como tudo é passageiro, puta que pariu, Celso Blues Boy morreu e eu, que planejara com minha namorada ver ainda um show dele, agora só o tenho em CDs e putz! essa homenagem é pra ele e a Juliana está de prova que não foi assim que eu planejara: eu tinha bolado fazer a homenagem ao Celso Blues Boy vivo, eu ia fazer um “Verse essa canção” da música “Ele sabia que as luzes se apagam” e vem a porra da ironia do destino e apaga as luzes antes da minha escrita clarear, Merda, me desculpe, Celso Blues Boy, esse poema é um blues elegia pra ti, sinto vontade de chorar, queria ter feito um poema pra ti quando estavas vivo...

Elegia viva pela eternidade do blues do menino azul

Abaixa o som da vida, bebê blues, que agora a morte grita lá fora
E a guitarra que chorava tão alegremente outrora
Hoje toca um silêncio surrado nas ruas longínquas das noites sem aurora.
Ouve a falta de som no incêndio dos milhares de cigarros
Que acendo e apago, queimando no molhado,
Chovendo fumaça por dentro pros ventos vadios não cuspirem o epitáfio da glória.
Ah, Inglória, que fazes aqui em meu quarto a essa hora?
Tão insossa, tão sonsa, tão pouco sonora...
Por que caminhas em meu corpo tão lentamente,
Por que me esfrias de forma tão ardente?
Tento não me lamentar, tento me lembrar do menino azul com sua guitarra mágica
Me dizendo que chorar não vale a pena, mas o menino azul agora é só uma cinza trágica
E eu choro, bebê blues, e nenhum solo sorriso ousa encostar-se à superfície pálida de meu rosto
Ah, o menino azul ainda era tão moço e tão sonoro e tão rico e tão engenhoso
E agora é só mais um garoto perdido, mais um toque silencioso,
E eu choro, bebê blues, e você chora comigo, somos dois chorões e nada podemos fazer
Pra parar de chorar.
Ouve nossas lágrimas, Inglória, sinta-nos te encher, Inglória má,
Porque nós vamos te lamentar até te encher, nós vamos vencer, nós vamos te afogar,
E agora, inundada Inglória, ouve o som dessa guitarra vitoriosa
Que mais uma vez torna tuas supremas derrotas em dores gloriosas e nossas
E agora engole cada gota dessas nossas lágrimas furiosas, afogada Inglória,
E agora afoga nessa tempestade azul das nuvens a solar
A eternidade dessa dor ímpar,
E ouve (choremos o silêncio, bebê blues, não deixemos a revolta desse silêncio se calar)
Ouve, Inglória garbosa, a guitarra falecida do menino azul mais uma vez das cinzas se levantar,
Ouve, Inglória aflita, a guitarra do menino azul gritando no silêncio,
Ouve a tua própria derrota, assustada Inglória: o menino azul renasce em todos nós,
Em cada luz que se apaga, em nossa falta de voz,
O menino azul é o vaga-lume dos olhos que brilham em nosso pesar,
E agora sente a tua escuridão sem par, Inglória batida, sente o menino azul voltar à vida
E agora nós choramos sorrindo, bebê blues, porque a morte é apenas mais uma ilusão
Na armadilha eternidade do blues do menino azul, pra ele nunca deixar de brilhar.
Chora, Dona Efemeridade, que a luz ferida da estrela guitarra do menino azul nunca se apagará!




2 comentários:

  1. Carlos, boa tarde.

    Maravilhosos: o seu texto e o seu poema. Bem mais velho que você, acho que tive mais sorte. Vi muitos shows do Celso Blues Boy. Mas, mesmo assim, ainda acho que não vi o bastante, desse que, pra mim, foi um dos maiores gênios da música que eu tive a felicidade de poder curtir.

    Também fiz minha pequena homenagem ao Celso em:

    http://docedefel.wordpress.com/2012/08/10/celso-blues-boy-o-cavalheiro-do-rock-n-roll/

    Agora nos resta ligar o som...

    'Aumenta que isso aí é rock and rol'!
    Grande abraço!

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    1. Valeu, André!!! Gostei muito do seu texto também e recomendo (amei a expressão "Celso Blues Boy, o homem que ensinou Português ao Blues).

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