sábado, 9 de fevereiro de 2013

Carnaval psicodélico: Eu prefiro ser mutante a sambar cambaleante

Chegamos a mais um período de carnaval e, diferente do ano anterior, em que o blog se dedicou a essa grande festa nacional, em 2013 o blog não vai sambar conforme a música. Aproveitando o tema do próximo  Sarau Solidões Coletivas In Bar, em homenagem ao rock e aos demais movimentos contraculturais da década de 1970, que acontecerá no sábado após o carnaval (dia 16/02), às 19 h, no Mineiru's Restaurante, no Centro de Valença/RJ, e inspirado na poética anticarnaval de Paulo Ras (ano passado, ele compartilhou um poema anticarnaval aqui no blog e, neste ano, ele já produziu outra obra-prima contra a carnavalização brasileira - veja no link: http://impressoesedigitais.blogspot.com.br/2013/02/impressao-de-des-carnavalizar.html ), hoje apresento-lhes um poema que inventa um novo ritmo, muito popular entre aqueles que nadam contra a corrente: o "não sambo"! 
O poema traz várias referências a nomes de bandas, álbuns e músicos brasileiros da década de 1970 (entre eles, Som imaginário; "Um passo a frente", da banda A Bolha ; "Hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas", de Rita Lee; "Revolver", de Walter Franco, "Miragem", de Os Lobos; "Jardim elétrico", dos Mutantes; "A divina Comédia ou Ando meio desligado", dos Mutantes, "Loki?", de Arnaldo Baptista, entre outros; além de citações de músicas de Raul Seixas e Roberto Carlos) e cria um antigo ritmo novo, um possível hit para os amigos leitores que fogem do carnaval: o "não sambo"!
Bem-vindos ao não samba desse Carnaval 2013, amigos leitores!

Não sambo 
(ou Eu prefiro ser mutante 
a sambar cambaleante)

Um som imaginário retoca meus sentidos contra os velhos micos e mitos,
Me tira da bolha, um passo a frente pra fugir do povo espremido,
Sambo rock louco, sambo soul concreto, sambo o que sou,
Sambo o que somos, sambo o “não sambo”,
Sambo e não sambo, sambo sem ou, ou, ou!

Os repiques populares são miragens no som nosso de cada dia,
Pois atrás da folia o que se vê são ruínas
De um samba que ninguém sambou, de uma identidade que se inventou;
O meu carnaval é Loki zombando das marteladas suingadas que o povo criou,
O meu carnaval é o bloco que ficou em casa e não desfilou.

Eu sambo o inexistente, eu sambo contra o panis et circenses que se formou,
Eu sambo porque não sambo non sense,
Porque não quero ficar aí parado esperando um disco voador surgir
Num carro escarrado da Marquês de Sapucaí.
Eu já caí nesse engano e, pra evitar novo tombo, eu sambo o “não sambo”,
Pois sou do bando de Flicts, sou o que não está exposto no carnaval,
Um rosto perdido na fogueira de vaidades da invenção da identidade nacional.

Hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas
E tu queres desfiles, plumas, fantasias,
Enquanto os revólveres dos francos atiradores da falta de comida
Apontam seus canos endividados, ameaçando nossos últimos dias?

Ah, eu que não me perco nesse universo irreal
De maravilhosas cidades, de portos seguros, de diversão banal,
Pra me entreter na falsidade, no fosso exposto, na ignorância fatal;
Eu sambo o que não se samba na farsa da avenida,
Minha folia é depois da quarta-feira de cinzas, a alegoria destruída,
A percepção tortuosa da vida mascarada de mundo real.

Há um jardim elétrico de pessoas amontoadas em torno da bateria do capital:
Por isso que eu ando meio desligado, por isso eu não sambo nesse gingado,
Por isso que eu sou mutante, por isso que não estou assim assado de sambar assim,
Por isso que eu não sambo nesse baile de mascarados;
Não quero me fazer outrem, não quero me iludir!

Eu batuco o difuso, posso parecer confuso, mas se chorei ou se sorri,
O importante é que não sambei sem saber – o certo é que sou rei de mim;
O “não sambo” é o não samba que eu fiz
Pra sobreviver na corda bamba desse sambado país. 

3 comentários:

  1. Eu não sou muito chegado ao carnaval exatamente por isso...são tantas questões a serem resolvidas,tantas dividas ainda não pagas!!!tantos impostos para se divertir tanto!!!Gosto de samba,mas não do carnaval!!!belo poema...
    abraço Carlos!!

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  2. Muito bem colocadas as referências!
    Curti a sonoridade do poema sem batucada!

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