domingo, 14 de outubro de 2012

Velhos poemas juvenis da fossa nossa de cada dia: Poema do depois do adeus


Há pouco tempo conversava com uma jovem colega no chat do facebook e ela me contava sobre seus problemas amorosos com o ex-namorado. Ela achava que não gostava mais dele, mas ele agora estava com outra pessoa – uma conhecida dela – e aquela velha dor-de-cotovelo adolescente atingiu a minha colega em cheio, provocando-lhe uma certa irritação e desespero. Lembrei-me de meus 16 anos e minha tendência poética à fossa: sim, minha aborrecência foi um vasto laboratório de desastres amorosos, beirando os trágicos ultrarromânticos; colecionei minhas desventuras românticas com arte e os transportei para o papel, antes que me explodissem por completo. Tudo isso, somado à influência de baladas românticas rock de 80 e de Roberto Carlos (músico que ouvi intensamente na infância, pois meu tio João Gomes idolatrava o cara e tocava todas as fitas – e, mais tarde, todos os CDs - do Rei incessantemente em nossos passeios de carro), acrescentado a micos das crises de dores-de-cotovelo da adolescência, gerou o “Poema do depois do adeus”, publicado em meu segundo livro "Promessas desfeitas" (1997) e mais conhecido como o ‘poema em que o eu lírico com dor-de-corno que abraçava postes’ (quando eu bebia, ainda muito jovem e cheio de ‘sofrimentos no coração’, realmente terminava abraçando postes, reclamando da crueldade das ex-amantes de minhas trágicas e parcas relações amorosas aborrecentes). É clara nos versos finais do poema a influência da canção “Estupidez”, de Roberto Carlos, na época recém-ouvida na versão e voz do titã Paulo Miklos (Cd “Tributo ao Rei” – já quase sequestrei essa obra musical das relíquias de meu tio João, mas nunca tive instinto corrupto político para fazê-lo e resisti à tentação). Não há nada mais dramático - beirando o tragipatético - que um adolescente sofrendo dores de amor.
Em tempo: Minha namorada Juliana me contara que sua prima, na adolescência, recebera de um ex-pretendente frustrado uma carta com o poema que eu posto hoje (yeah, dores solitárias compartilhadas rs). Foi o primeiro contato que ela teve com minha obra poética.
Num dia friozinho e com ares melancólicos como esse domingo, relembremos nossas angústias aborrecentes, com todas qualidades e defeitos, e deixemos a fossa nossa de cada dia sorrir e se libertar em poesia mais uma vez, amigos leitores.

Poema do depois do adeus
(tudo o que eu quis dizer e você não quis ouvir)

Eu ontem abracei um poste
Por um momento pensei que era você
O poste era tão frio que pensei
Que era você...
Mas a ilusão acabou
O outro lado da rua revelava
Seu corpo abraçado com outro
Do outro lado da rua eu vi
Seu corpo
Mas não sua alma...

Você viu meu sofrimento
Você sorriu
Como se trouvesse ganhado
Um jogo que nunca existiu
Mas eu a conheço
Sei quais são os seus pontos fracos
E se hoje estou pra baixo
Quero que saiba
Que todo o que o seu coração faz
O seu coração paga.

Pode até chamar de tolice
Mas eu acredito em tudo que sinto
Pois meu coração é um absorvente
Que suga todas as bobagens
Da novela das seis
Que suga todas as bobagens
Que você me disse
Que suga a esperança
De que um dia você vai voltar
E descobrir que nunca mais
Será sempre tempo demais
Pra nós dois.

Talvez essa poesia não faça sentido
Pra quem não sabe sentir
Talvez essa poesia não faça sentido
Pra você.
Não a culpo...
O seu coração novato
Deve estar tão acostumado
A fazer os outros sofrerem
Que não consegue ver
Que tudo o que eu quis dizer
São coisas que sua estupidez
Não consegue ouvir.

Um comentário:

  1. Kkkkkkk, Abraçando postes Carlos. Que patético! Eu morri de rir quando li esse poema. Não é à toa que Bethânia fala do ridículo das cartas de amor.

    Essa musa só podia ser um poste frio mesmo. Rir do seu sofrimento. Escarnecer de sentimento tão genuino. Ah! que desgraçada. Deu vontade de torcer-lhe o pescoso. Quanto a ela ter ganhado um jogo, vou te falar um segredo: provavelmente ganhou.

    Voces, homens, também tem seus jogos. São cruéis as vezes sim. Mas nessa idade a consciencia é bloqueada por hormônios e desejos incontroláveis. Vez ou outra, quando nos apaixonamos, esse sentimento queridamente primitivo, retorna com intensidade, mas agora já tem alguns filtros, mas nem tanto.

    Droga, porque você tinha que me lembrar disso. Aos 15, depois de beijos acalorados em meu primeiro namorado ( o tuninho), a mãe dele nos flagra e proibe que namoremos, porque sou nordestina (paraibana da peste). Minha mãe ao saber da proibição, proibiu-me também de namorar o portuguesinho (tão desengonçado o meu, por breves momentos, cartógrafo rsrsr). Lembro que minha mãe me colocou pra dentro de casa e fechou a porta e (agora vem o ridículo) eu deslizei pela porta completamente mole de tanto choro e desgosto (aquele deslizar novelesco - o Ó kkkk), pensava eu: logo agora que tinha tomado gosto pelo gosto do beijo, pois no primeiro quase quebrei os dentes do infeliz. Ficamos namorando por um tempo pelas frestas das janelas, mas reconheço que esse contato em nada lembrava da quentura e das piruetas com as linguas (era tudo experimental)do meu Tuninho, de modo que logo esfriou e eu busquei consolo nos braços de um soldado do exército.

    Sem dúvida esse poema desperta em nós nossos passados patéticos. E eu que queria falar dos outros poemas, agora não sobrou espaço. Gastei tudo com esse testemunho adolescentesco.

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