terça-feira, 28 de maio de 2013

Poema-viagem sem sair do lugar: Meus Amores Expressos



Hoje eu trago um poema inédito de amor-viagem, um poema-trem com embarque nas loucuras das emoções-vertigens, passagem pelos momentos melancólicos nas frequentes idas e partidas nas estações do amor, um poema-sonho cheio da realidade cotidiana flertando com o impossível, o incabível, o que se está próximo e, mesmo assim, não se alcança, um poema-homenagem-quase-música para todos os momentos e sensações que a música “California Dreamin'”, do Mamas And Papas, sempre ligada no aparelho de som da personagem da atriz Faye Wong, ou "Dreamlover", de The Cranberries, interpretado pela própria Faye Wong, marcam a viagem de meus sentidos diante do excelente filme “Amores Expressos”, do cineasta Wong Kar-Wai, de Hong Kong (o filme citado não é o meu favorito de Kar-Wai, mas é um dos que melhor imprimiram as marcas mais pop-cults em mim), um poema-tributo-a-todas-garotas-de-ipanema-caipiras-que-trilham-nas-vertigens-de-nossos-olhos-camonianos-sedentos-e-febris-rumo-ao-clássico-popular-de-Villa-Lobos, um poema-música-café-trem-expresso-expressionista-com-passagem-por-uma-Minas-caipira-inventada-que-pode-não-ser-Minas-pra-ti-como-pode-ser-pra-mim-para-um-tu-que-poderia-ser-eu-mesmo.
Bem-vindos mais uma vez à Estação Poesia, amigos leitores! Boa viagem!  

Amores expressos

Quando ela passa
É um trem que te leva
Para nenhum lugar;
É um trem mineiro
Que, mesmo imenso,
Cabe em teus olhos tão fatigados;
É um trenzinho caipira
Que, em ti, delira
(Enquanto viajas pelo real e ordinário,
Trazes nos ouvidos o som clássico
De um concerto imaginário).

Quando ela desfila
É um expresso pedido
Na estação de nenhum lugar;
É um expresso indevido,
O ato de viver-se perdido
Nesse lugar que não há;
É um expresso bebido
Na xícara de vidro invisível
(A tua boca sensível
Beija o aroma do café impossível
Que acorda teu paladar iludido).

E, quando ela se aproximar,
Quase a te tocar,
Rápido, o trem te desembarcará
Na estação final de nenhum lugar,
E, mesmo perdido no nada que inventou,
Encontrarás o que não há
E sorrirás sozinho
Bebendo o conteúdo imperecível
Do delicioso expresso que ninguém vê
(E, sentado à espera do verdadeiro trem,
Novamente lerás o que ninguém lê:
Estação Amor,
Estação Ela que passa sempre linda por ti,
Estação que floresce em ti sem Ela perceber).

Então a realidade mais uma vez vem te ferir:
Ela entra em outro trem, no rumo contrário do teu,
Sem te dizer adeus,
Sem nem saber de ti...




segunda-feira, 27 de maio de 2013

Solidões serranas compartilhadas: O paradoxo suicida de Juliana Guida Maia

Juliana Guida Maia e eu vivemos um amor nômade. Por ela morar em Valença/RJ e eu, em Teresópolis/RJ, nos revezamos entre essas duas cidades; num fim de semana, vou para a cidade onde ela mora (por sinal, Valença é uma de minhas musas favoritas, mãe de quase toda a minha poesia), em outro ela vem para cá. E, devido à distância entre as duas cidades, passamos parte de nossas vidas em trânsito, em ônibus, rodoviárias, etc, fatores bastante desgastantes se analisarmos horários, viações incompetentes de transporte coletivo, quilômetros, tempo, engarrafamento, stop and go, etc. Desde que passei para o cargo de professor em Teresópolis e me mudei pra cá, Juliana adquiriu uma relação de ódio e fascinação com as belezas naturais de Teresópolis (ou seja, com a Serra dos Órgãos) que vemos constantemente durante as cansativas viagens de ida e volta para a cidade.
Compartilho hoje minhas solidões poéticas com a fodástica e grandiosa mini-crônica-prosa-poética de Juliana Guida Maia, criada na última viagem de vinda para Teresópolis/RJ.
Pulemos nossos olhos para essa grandiosa impressão de viagem pela região serrana do Estado do Rio de Janeiro, amigos leitores!

Impressões serranas
do paradoxo suicida 


Subir a Serra dos Órgãos em uma manhã de sol me sublima a uma comunhão perfeita com o paradoxo... Como pode o tédio ser tão profundamente belo, como pode a beleza ser tão intensamente entediante. Olhando todos esses penhascos fica inevitável o pensamento suicida...  Como se pular fosse simplesmente algo tão óbvio. A vontade de mergulhar no verde É tão imensa quanto é imenso o próprio verde... O suicídio por aqui me parece um ato ecológico.  

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Rock Poema na Garagem: Espalhando minha arte bad religion

Mais uma vez eu, representando as Solidões Coletivas, espalhei minha “bad religion”, minha adoração à arte rock poética pela região!
O vídeo abaixo mostra minha participação no Rock na Garagem, organizado pelo Feira Moderna Zine, no Metallica Pub, São Gonçalo/RJ, na noite do dia 27/04/2013.

Declamei "Minha religião é terrível", poema-homenagem a Bad Religion, e "Lobotopoeticotomia", poema-tributo à fodástica banda Lobotomia (ambos os poemas podem ser encontrados em postagens anteriores aqui no blog). A declamação contou com a participação de Rafael A. (Banda Inércia) na guitarra.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Ave Solidões Coletivas: Voando como águias no Identidade Cultural & Movimento Culturista


A postagem de hoje envolve voos poéticos realizados em abril deste ano. A convite de Janaína da Cunha, organizadora do Identidade Cultural & Movimento Culturista, Juliana Guida Maia e eu adiamos as férias do Sarau Solidões Coletivas (na verdade, fazemos arte mesmo de férias do sarau rs) nos envolvemos no último evento do Identidade Cultural, no Bar e Restaurante Amarelinho da Cinelândia, Rio de Janeiro/RJ, no dia 27 de abril.
O tema era “O voo da águia” e Janaína da Cunha me enviou o fodástico poema abaixo de autoria da própria organizadora, um convite para uma grande parceria:

O VOO DA ÁGUIA BOÊMIA

Minha alma é águia boêmia...
voa alto sem dimensões explicáveis
e medo de onde vai chegar.
Minha alma é a noite onde cruzam
as esquinas do coração.
É morada das estrelas mais brilhantes,
a luz do meio-dia e a melancolia da solidão.
Minha alma é viajante...
manhã de campos floridos
e amores indefinidos.
É fome insaciável de vida,
sede interminável de justiça
e o dedo que cutuca as feridas!
Minha alma é morada de sentimentos
além do bem e do mal.
É chama ardente,
sopro de rebeldia, água cristalina
e vento que se transforma em vendaval!
Ela é um mar febril e selvagem
onde navega desejos e paixões fugazes.
Minha alma é um grito mudo,
a voz do silêncio.
É a santa que reza e a puta que peca!
Minha alma é mãe, amante, filha
e os acordes inacabados de uma sinfonia.
Ela é cruel e bondosa, fútil e sutil,
é iluminada e sombria,
doce e amarga... ácida e gentil!
Minha alma, em sua essência,
é mentira e verdade...
É um porão de pesadelos obscuros
e sonhos inalcançáveis.
Minha alma é imperfeita...
mas luta para alcançar a perfeição.
É águia boêmia que atravessa
horizontes elusivos
em busca do desconhecido.
Desliza solitária num céu embriagado
entre derrotas e vitórias.
Minha alma voa, voa... mas voa tão alto
que perde-se no infinito.
Mas, não importa...
não importa nada como ela esteja:
ferida e cansada, feliz e realizada
ela sempre encontra o caminho
de volta pra casa!
Janaína da Cunha

Diante do fodástico poema, me ficou o desejo intenso de cumprir a parceria. Inspirado no livro “A Águia e a Galinha”, de Leonardo Boff, que minha prima Marcella Carolina me emprestou na época da faculdade, somado ao som do Eagles (a banda, cujo nome significa Águias em português, é a autora do eterno hit “Hotel Califórnia”) e a minha idolatria à outrora gloriosa Escola de Samba Portela, fiz o meu poema sobre o voo da águia:

A águia e a galinha

Não voamos mais como outrora, águia moça...
Do gozo libertário nos restou apenas
o ar aparentemente cabisbaixo
de quem conhece o gosto do sol,
mas sabe que a chuva demora a passar.
Impossível voar com as asas molhadas
de lágrimas e sangue, águia garota:
há tristeza e violência demais no céu de agora
e por isso guardamos nosso voo pra outra hora;
é melhor nos recolhermos na paz de nossos ninhos
a nos entregarmos aos olhares dos predadores.
E eu queria trazer pra você, águia menina,
um poema no ritmo elétrico ou acústico
bem “Hotel Califórnia”
ou um samba enredo da Portela histórica
tão gloriosa,
mas há tempos que o violão e a guitarra desafinam,
há tempos que minha escola não faz história,
por isso esse lirismo de asa recolhida,
por isso esses versos de efêmera despedida...
Não podemos voar mais como outrora, águia ferida,
mas os últimos trovões estão passando;
em breve, o céu será nosso
e voaremos de novo, águia querida,
nos veremos de novo, águia poesia,
e teremos nossas asas com vida
pra sempre mais uma vez!
Carlos Brunno S. Barbosa

Então dia 27 chegou e Juliana e eu voamos para o Rio de Janeiro e mais uma vez participamos do fodástico evento Identidade Cultural & Movimento Culturista, como vocês podem ver no vídeo abaixo, que registra a minha participação e a de Juliana Guida no evento organizado por Janaína da Cunha.
Nesta apresentação, Juliana perdeu a vergonha e declamou diversos poemas dela. Eu fiz parceria poética com Janaína da Cunha, declamei poemas 'covers', de outros autores - "Dimensões Metállicas", de Karina Silva, e "Ronco D'Água", de Andréia Sineiro - e li o poema de sua autoria "Poema cortante", em homenagem à organizadora do Identidade Cultural e a Maycon Arcanjo.
Que nossos voos poéticos sejam eternos, amigos leitores!

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Aniversário se comemora com rock, metal e MPB: A Festa do Sarau Solidões Coletivas In Bar 13


Devido a um bug do blogger, eles demoraram, mas finalmente chegaram ao blog (já estavam há tempos no youtube e levei uma coça de informatiquês pra colocá-los aqui pra vocês): os vídeos do “Sarau Solidões Coletivas In Bar 13: Astronautas de mármore, donzelas metállicas, passagens pra Saigon, armas químicas e poemas”, em tributo ao rock gaúcho, ao heavy metal e a Emílio Santiago, comemorando 1 ano do Sarau Solidões Coletivas In Bar oficial!
O evento aconteceu na noite de 20 de abril, na Boite Mr. Night, em Valença/RJ, e contou com um grande público, muita música, poesia e diversão!
Abaixo posto os vídeos do evento para os amigos leitores verem (ou relembrarem, caso tenham ido nessa festa lírica) o que rolou na Festa do Sarau Solidões Coletivas:


Neste primeiro vídeo do Sarau Solidões Coletivas In Bar 13, declamei um poema ac/dciano com o músico Breno Meirelles; há o stand-up comedy retrospectiva de Ronaldo Brechane; Wagner Monteiro, Fred Ielpo, Breno Meirelles e Davi Barros interpretando clássicos do rock nacional; eu declamando “Extraño”, letra de música de Nenhum de Nós; a encenação do Grupo Amor e Arte, fazendo um jogral com o poema “Rosinha de Valença”, de Déia Sineiro; o retorno de Erick Ramos; o poema “Promessas desfeitas”, declamado por mim; “Segunda-feira blues”, dos Engenheiros do Hawaii, interpretado por Juliana Guida Maia.



Neste segundo vídeo do Sarau Solidões Coletivas In Bar 13, declamei a letra de música “Piano Bar”, composta por Humberto Gessinger, dos Engenheiros do Hawaii; a composição de Raquel Leal em homenagem aos artistas do Sarau Solidões Coletivas; Patrícia Correa declamando poemas de sua autoria; eu declamando o poema “Animais selvagens”, de Luiz Guilherme Monteiro, acompanhado da guitarra louca de Bruno Luís; Rabib declamando “Se a chuva”, poema de minha ex-poetaluna Alcione Souza; a estréia de Marina Montenegro declamando “Ismália”, de Alphonsus Guimarães; a poesia guerreira de Wagner Monteiro; Luan Barros declamando a letra de música “Telhados de Paris”, de Nei Lisboa; eu declamando “Sob um céu de blues”, da saudosa banda gaúcha Cascavelletes, acompanhado do violão blues de Zé Ricardo; o show rep de Paulo Roberto com o Graveto Old Style.



Neste terceiro vídeo do Sarau Solidões Coletivas In Bar 13, declamei o poema em homenagem ao aniversário de Cíbila Farani; o poema interativo de Gilson Gabriel, uma “ode ao coletivo”, com a participação animada do público; o Acoustic Project em versão elétrica – Gabriel Carvalho e Emanuel Coelho mandando composições elétricas de autoria própria; a prosa poética de Raquel Leal para Cíbila Farani; o poema de Leonel declamado por Patrícia Correa; o retorno de Alexsandro Ramos declamando poemas de Erick Ramos e de Castro Alves; eu declamando Ana (diplose), em homenagem a musa Ana, de “Refrão de Bolero”, dos Engenheiros do Hawaii; a estréia do rapper Diego acompanhado da guitarra de Gabriel Carvalho; a “Miss Tatoo” de Gilson Gabriel; o tributo a Emílio Santiago feito por Erick Ramos e Juliana Guida Maia; mais poemas de Patrícia Correa; a segunda parte do stand comedy de Ronaldo Brechane.


Neste quarto vídeo do Sarau Solidões Coletivas In Bar 13, declamei o poema de Rabib Floriano em homenagem ao heavy metal; o show do Black Cult, com Davi Barros, Eddie Mendonça e Uli Barros, voltando às origens black metal e com a presença ilustre do lendário Metal; o poema “Oração heavy metal ao Cisne negro”, em tributo a Cruz e Sousa e Metallica, declamado por mim, acompanhado da guitarra de Eddie Mendonça e a batera de Uli Barros; a dama entre a guerra e o poema Raquel Leal declamando poema em homenagem ao meu diálogo poético com Aquiles Peleios; novos poemas de Patrícia Correa; o poema “Dimensões Metallicas”, de Karina Silva, declamado por mim e por ela; o poema “Sociedade Maldita”, de Luiz Guilherme Monteiro, declamado por mim, acompanhado da guitarra de Karina Silva. 

Neste quinto e último vídeo do Sarau Solidões Coletivas In Bar 13, declamei o meu poema “Trando folga do sistema”, em homenagem à banda System of Down, acompanhado do violão de Breno Meirelles e a batera de Uli Barros; o show de José Ricardo Maia, mandando Charlie Brown Jr., Legião Urbana, entre outras canções, acompanhado da bateria de Uli Barros. 

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Ensaio sobre a cegueira dos bêbados (de amor)


Sexta-feira, dia em que homens e mulheres solteiros se preparam para a caçada noturna de todo fim de semana: a busca em bares e boites por um remédio contra a solidão: o amor, que cada vez parece mais escasso na cidade. E, às vezes, encontramos esse alguém, mas o alvo de nossos desejos não percebe o que nosso olhar pede, entramos na friendzone, nos tornamos amigos de quem desejamos, então bebemos, bebemos, bebemos; apenas o olhar mantém o desejo que ninguém além de nós mesmos consegue ver. Mas a poesia vê, o poema nos vê além de nossas máscaras.

O meu poema de hoje, inédito ainda, foi construído inspirado na colega Bárbara, que nutria desejos por um amigo meu, com o qual quase sempre ela esbarrava nas noites de sexta-feira e, com ele, bebia até tarde, mas raramente algo acontecia entre eles. Um poema que fala o que os lábios calados deveriam gritar.
Pra ser lido ouvindo “Preciso dizer que te amo”, de Cazuza, ou “Por que não eu?”, do Kid Abelha.

Ensaio sobre 
a cegueira dos bêbados 
(de amor)

Não vejo suas palavras...
O que vejo é a sua timidez
trancada pelos gritos
contidos nos ingredientes alcoólicos
dessa mistura que nos embriaga.

Mas não se cale; isso é apenas um olhar...
Continue falando o que não vou escutar.
Enquanto isso, bebo seu sorriso sério,
sua mímica lírica que me hipnotiza,
seus signos mudos que beijam meus olhos surdos.

Não sinto seus toques...
O que sinto é a sua distância
desviada pelos caminhos
infinitos nos atalhos viciosos
desse líquido superficial.

Mas não pare; isso é apenas um olhar...
Continue apalpando o que não vai me sensibilizar.
Enquanto isso, percorro sua estrada impossível,
suas trilhas oníricas que me iluminam,
seus passos no escuro que alcançam minha cegueira brilhante.

E a conta está sobre a mesa
com valores que nos saltam aos olhos!

Mas não pule; isso não é nada!
Eu pago tudo e partimos!
Enquanto isso, você se despede de minha máscara polida,
dos bolsos vazios em meu olhar sozinho...

Então eu lhe digo:
Até mais, a gente se vê...


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Solidões compartilhadas: A vingança nos olhos de lince ferida de Cristina Lebre


Ainda falando em artes que envolvem o tema vingança, amores e desamores, compartilho hoje minhas solidões poéticas com a fodástica poetamiga carioca Cristina Lebre. Conheci a escritora Cristina Lebre na edição de maio do ano passado do Identidade Cultural & Movimento Culturista, por intermédio da organizadora Janaína da Cunha e de Lucilia Dowslley, organizadora do evento Brinde à Poesia. Na época, Cristina Lebre estava lançando seu primeiro livro, o intenso “Olhos de Lince” (recomendo que visitem o blog da escritora no link: http://crislebre.blogspot.com.br/ ).
Quando adquiri uma edição da obra de Cristina Lebre e li seu conteúdo, fiquei extasiado com alguns poemas, entre eles o sinistro e fodástico “Novembro negro” e o neo-simbolista, um misto de Hilda Hilst com Cecília Meireles, o tenso e mais-que-fodástico “Vingança”, poema que tenho o prazer de compartilhar hoje no blog. Destaco a riqueza de imagens, a tensão sonora em aliterações - uso de palavras diversas cujas letras trazem os mesmos sons - com vocábulos de sons fechados, as rimas internas e externas, somados a reversões de significados a partir de versos parecidos, mas com algumas palavras intencionalmente e genialmente trocadas (é o caso do verso “Procuro o bem no meio do mal” que reaparece na estrofe final como “Encontro o mal no meio do bem”). A “Vingança” é cruelmente bem elaborada, trazendo-me novos significados a cada momento e estado em que os leio; o eu lírico de Cristina Lebre conseguiu: nossos olhos terminam a leitura compartilhando de sua dor vingativa pelo “caminho que ainda não se abriu”.
Seja o mal em meio ao bem, seja o bem em meio ao mal, que a vingança de Cristina Lebre nos seja sempre mortalmente maravilhosa, amigos leitores! 
    
Vingança

Acima da névoa, abaixo do céu
busco o caminho que ainda não se abriu
os punhos fechados na dor cruel
o corpo frustrado de quem não viu,
não sentiu.

Chego cansada, sou flechada
pela chaga do tempo.
Maldoso punhal sombrio
saudade que voa sem vento
afia a lâmina, enfia macio
sangra a carne embolada na noite
agoniza as vísceras
parte a testa queimada de frio.

Me tira o medo que a treva contém
matando meus sonhos calados
ai, quem me dera tirá-los
matando pesadelos, também.

Procuro o bem no meio do mal
Somente ali posso achá-lo.
Menino sem rosto, me deixa no areal
somente ali posso amá-lo.
Planície sem nuvens, dunas sem sal
me leva voando pro topo do mundo,
luz no fim do túnel, irrita meus olhos,
somente assim acordá-los.

Encontro o mal no meio do bem
ai, quem me dera encontrá-lo
machucando teus olhos também.

Meu filho-poema selecionado na Copa do Mundo das Contradições: CarnaQatar

Dia de estreia da teoricamente favorita Seleção Brasileira Masculina de Futebol na Copa do Mundo 2022, no Qatar, e um Brasil, ainda fragiliz...