Estou
a dois passos do paraíso: hoje à noite verei o show de Biquíni Cavadão e
Ultraje a Rigor na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro/RJ. Citar tal fato
entre meus conhecidos gera 3 reações adversas neles:
1. saudosismo utópico (“ah! os anos 80!...
queria reviver esses momentos...);
2. desdém padronizado (“É... bem ploc, né?”);
3.
entediamento apostólico (“De novo? Você não cansa? Cresce, rapaz!”).
Como
as 3 reações citadas acima são frequentes (raros são aqueles que não julgam ou
rotulam) e nenhuma delas representa o que realmente sinto e busco, resolvi
postar essa
nota-crônica-lírica-sei-lá-como-você-leitor-vai-rotular-fã-nática-e-quase-
sóbria (há sempre um resto de embriaguez sonhada no que escrevo, é inata, me
desculpe se gotas de poesias afetam nossa realidade na pátria que nos pariu...).
Primeiramente,
caros conhecidos da reação 1, informo que não posso reviver o que não vivi,
apesar da “saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi”. Quando a década
de 1980 acabou, eu tinha entre 10/11 anos, era um fedelho com flashs e faixas
musicais das melodias das bandas da época que minha mãe ouvia em K-7s e LPs,
quase sempre fora de meu alcance, para que eu não estragasse. O pouco que ouvi,
quando mamãe ouvia ou se distraía na segurança de seus pertences, guardo bem na
memória e até hoje faz parte de minha história poética, mas não maquiemos um
tempo com tintas de utopia saudosa: os anos 80 foram tão ou mais cruéis com a
humanidade quanto os tempos atuais (“bem-vindo ao mundo adulto”, amigo!); marcarmo-nos
apenas como uma saudade do passado é riscar a possibilidade do Carpe Diem, de
aproveitar o momento do AGORA (nome do cd do Biquíni Cavadão, lançado bem
depois dos anos 1980). Minha poesia carrega resquícios de lembranças, mas, como
Drummond, desejo o presente, os homens presentes. Reviver é serviço pra Jesus,
que sempre se ergue após o terceiro dia pra nos dar o feriado comercial da Páscoa
(“como acreditar se Deus também é teoria?”). Comemoremos tudo que vivemos e não
aprendemos, mas não tentemos reviver, pois seria desaprender o que não aprendeu
de novo.

Quanto
à rotulação ploc, caros conhecidos da reação 2, informo que tal modismo me
diverte, mas não me aflige. Não busco inspirações e shows das bandas da década
de 1980 em busca de algo antigo, perdido no tempo, estático e temporário. As
músicas dessas bandas marcaram minha poesia e ainda marcam pela peculariedade
de se tornarem eternas, libertadas de aprisionamentos temporais. O protesto de
“Inútil”, do Ultraje a Rigor, infelizmente, ultrapassa todas as expectativas de
otimismo lulista da atualidade. Com Copa e Olimpíada ou sem Copa e sem Olimpíada,
a gente ainda não sabemos escolher presidente, não sabemos tomar conta da
gente, escrevemos livros e não podemos publicar, jogamos bola e não sabemos
ganhar (nosso atual técnico Mano Menezes que o diga com conhecimento de causa).
Ainda vivemos “No Mundo da lua” nos espremendo em “Ônibus”, nos julgando “Zé
Ninguém” numa pátria “Filha da Puta”. “O chiclete” que faz ploc tem fundações
líricas eternas em
nossa História sem memória. Amo grande parte do Rock 80, por
sua falta de efemeridade, pois, em qualquer tempo, traz-me a sensação de que não
estou sozinho; enquanto alguns contemporâneos meus seguem na ida para a
cegueira, minha poesia já está na volta, aprendendo com os eternos descaminhos
da existência humana. Efêmera é a vida e essa eu já tenho; quero a eternidade
na arte da sobrevivência como a conquistada por muitas bandas e compositores da
década de 1980. A
vibração é eterna e o show não pode parar; os rótulos passam e a arte continua
e por isso eu pulo e continuo pulando – o céu da boca no beijo sem fim é o
limite.
Sobre
crescer, caros conhecidos da reação 3, lembro que, segundo a ciência humana, o
ser adulto, ao chegar a determinada idade, não cresce mais nem 1 cm sequer (pode encolher;
crescer nunca!) e informo que, aos 32 anos, meu processo de crescimento passou
do prazo de validade. Já cansar é perigoso, vem da atmosfera física e
sentimental humana; há uma linha tênue e extremamente arriscada entre cansar e
desistir e, como sou péssimo malabarista, prefiro não me acomodar no cansaço -
se ele aparece, eu nego; se não dá as caras, deixa o cansaço quieto. Depois de
assistir a diversos shows do Biquíni Cavadão, nas décadas de 1990, 2000 e 2010,
aprendi que a exaustão existe, mas não precisa ser confessada. Cantemos,
pulemos, dancemos pra não dançarmos, o tempo escorre de nossas mãos, então
seguimos juntos, encharcados, mortificados, mas de pé contra o céu; já nos
basta a derrota nas notícias do dia a dia, pra que nos rendermos mais? Se não
tem nada pra dizer, solte um palavrão, mas continue, insista, a vida é dura,
mas nossa existência mole pode bater bastante nela até perfurar uma luz do
túnel de esperança nela e encontrar – por alguns instantes - a impossível
felicidade ou pelo menos uma forte dose de mínimo contentamento. Cada show ao
qual me jogo é um espetáculo novo aos meus olhos.

Pra
encerrar o texto (a vida continua, opiniões mudam e o pra sempre sempre acaba),
a todos conhecidos, deixo meu até logo, vou repetir minha trilha em torno do
velho desconhecido reconhecido; em breve, estarei no show do Biquíni Cavadão e
do Ultraje a Rigor, indiferente às críticas, ao lado da poesia insistente, de
frente pro espetáculo presente!