terça-feira, 20 de setembro de 2011

Solidões compartilhadas: Letícia Corrêa e o prenúncio da primavera lírica


Hoje compartilho meu blog com um dos maiores talentos que conheci da nova geração de escritores: a fantástica Letícia Corrêa, que fez 14 anos ontem (19 de setembro), no quase prenúncio da lírica primavera. A trajetória poética de Letícia cruzou com meus caminhos artísticos desde quando sua mãe, a poeta Patrícia Corrêa (filha de boa poeta promissora poeta é) me informou que "Lelê" (como é conhecida pelos amigos) passou a escrever, após o lançamento de meu livro “Eu e outras Províncias”, em Valença/RJ, em 2008. A partir daí, acompanhei o crescimento dessa talentosa artista e a vi, com orgulho, traçar sua marca autoral em tudo que escreve e tornar-se única, genialmente única! Hoje, Letícia supera o talento deste poeta que lhe homenageia; a jovem poeta já nasceu como cristal e, atualmente, seu valor é infinito, incontável para nossas míseras moedas mortais. Como a obra de um autor fala muito mais que qualquer biografia, abaixo posto, respectivamente, o excelente poema “Neném Culturar”, com o qual Letícia venceu o Concurso de Poesias da Cia do Livro, em Valença/RJ, um outro poema, batizado como “Julieta e a flor de espinhos”, o qual tive o privilégio de escrever em dupla com a autora (o eu lírico dela é Julieta e o meu é a flor de espinhos) e um vídeo inédito em que dividimos o palcoem Rio das Flores/RJ, para declamarmos poemas da genial escritora :

Neném “culturar” 
(Letícia Corrêa da Rocha)    

Oh meu neném,
Chora de fome em meu colo
Fome de cultura
Sede de crescer
Pura vontade
De amadurecer
A cultura que começa a nascer
Deita em teus braços
Se aninha, e começando a sonhar
Mas, o que será que vai dar?

Valença,
Cidade com muitas etnias
E tradições históricas
Agora, começando novamente a chorar
Chorando de alegria
Cresceu finalmente
Veio ao mundo “culturar”!

Julieta e a flor de espinhos 
(Letícia Corrêa da Rocha e Carlos Brunno S. Barbosa)    

JULIETA:
Oh, flor de espinhos,
sujais todo o meu coração,
me deixando aqui esperando
com a imagem de uma bela flor
nas mãos.
Imortal, diante do amor,
morreu sem minha traição.

FLOR DE ESPINHOS:
Não, Julieta,
não posso sujar um puro coração.
Meus espinhos desconhecem
os caminhos da tua falta de razão;
não sou tua lama, e sim a flor
que tens nas mãos,
congelada pela tua dor,
eternizada e sem ação.




segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Poema menstruado: Ciclo

Hoje, dia 19 de setembro, comemoramos o dia em que o primeiro país (Nova Zelândia) instituiu o voto feminino (1893). Em homenagem a este dia, posto hoje o poema, de minha autoria, "Ciclo", premiado com 5.º lugar no IV Concurso de Poesia Contemporânea/Ars Viva, em Santos, e publicado em meu 5.º livro "Eu e outras províncias". 
O poema, inspirado na poética sanguínea de Marina Colasanti (é uma das raras poetas que dá um caráter positivo e feminista à menstruação), utiliza um eu lírico feminino, em busca de reabilitação de seus traumas amorosos. Espero que gostem:


Ciclo

Vermelha vermelha
como a maçã de teu rosto
diante de meu corpo
                                   despido
                                      cedido
                                        sedento
                                                 febril
                                                        naquele dia antigo.

Era rubor ou apenas fúria
o que a cor de tua face me dizia
naquele dia?
(naquele dia...)

Sozinha sozinha
eu e a rosa rubra
que se despetala de meu corpo
todos os meses neste banheiro frio e aflito
(Dor, prazer
                  Dor... prazer!
                                       DOR, DOR!
Espinhos: teu rosto vermelho partindo
                                                           em preto e branco
naquele dia tão bonito e antigo).

Como posso sangrar sangrar
e permanecer viva
ainda?
Ainda!

Nova novíssima
despeço-me das feridas destranco a porta e é outro dia!

O calor do sol sangrento me ressuscita...

sábado, 17 de setembro de 2011

Minha poesia faz ploc: O Rock 80 e eu (mais uma vez)


            Estou a dois passos do paraíso: hoje à noite verei o show de Biquíni Cavadão e Ultraje a Rigor na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro/RJ. Citar tal fato entre meus conhecidos gera 3 reações adversas neles:
            1.  saudosismo utópico (“ah! os anos 80!... queria reviver esses momentos...);
            2.  desdém padronizado (“É... bem ploc, né?”);
            3. entediamento apostólico (“De novo? Você não cansa? Cresce, rapaz!”).
            Como as 3 reações citadas acima são frequentes (raros são aqueles que não julgam ou rotulam) e nenhuma delas representa o que realmente sinto e busco, resolvi postar essa nota-crônica-lírica-sei-lá-como-você-leitor-vai-rotular-fã-nática-e-quase- sóbria (há sempre um resto de embriaguez sonhada no que escrevo, é inata, me desculpe se gotas de poesias afetam nossa realidade na pátria que nos pariu...).
            Primeiramente, caros conhecidos da reação 1, informo que não posso reviver o que não vivi, apesar da “saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi”. Quando a década de 1980 acabou, eu tinha entre 10/11 anos, era um fedelho com flashs e faixas musicais das melodias das bandas da época que minha mãe ouvia em K-7s e LPs, quase sempre fora de meu alcance, para que eu não estragasse. O pouco que ouvi, quando mamãe ouvia ou se distraía na segurança de seus pertences, guardo bem na memória e até hoje faz parte de minha história poética, mas não maquiemos um tempo com tintas de utopia saudosa: os anos 80 foram tão ou mais cruéis com a humanidade quanto os tempos atuais (“bem-vindo ao mundo adulto”, amigo!); marcarmo-nos apenas como uma saudade do passado é riscar a possibilidade do Carpe Diem, de aproveitar o momento do AGORA (nome do cd do Biquíni Cavadão, lançado bem depois dos anos 1980). Minha poesia carrega resquícios de lembranças, mas, como Drummond, desejo o presente, os homens presentes. Reviver é serviço pra Jesus, que sempre se ergue após o terceiro dia pra nos dar o feriado comercial da Páscoa (“como acreditar se Deus também é teoria?”). Comemoremos tudo que vivemos e não aprendemos, mas não tentemos reviver, pois seria desaprender o que não aprendeu de novo.
            Quanto à rotulação ploc, caros conhecidos da reação 2, informo que tal modismo me diverte, mas não me aflige. Não busco inspirações e shows das bandas da década de 1980 em busca de algo antigo, perdido no tempo, estático e temporário. As músicas dessas bandas marcaram minha poesia e ainda marcam pela peculariedade de se tornarem eternas, libertadas de aprisionamentos temporais. O protesto de “Inútil”, do Ultraje a Rigor, infelizmente, ultrapassa todas as expectativas de otimismo lulista da atualidade. Com Copa e Olimpíada ou sem Copa e sem Olimpíada, a gente ainda não sabemos escolher presidente, não sabemos tomar conta da gente, escrevemos livros e não podemos publicar, jogamos bola e não sabemos ganhar (nosso atual técnico Mano Menezes que o diga com conhecimento de causa). Ainda vivemos “No Mundo da lua” nos espremendo em “Ônibus”, nos julgando “Zé Ninguém” numa pátria “Filha da Puta”. “O chiclete” que faz ploc tem fundações líricas eternas em nossa História sem memória. Amo grande parte do Rock 80, por sua falta de efemeridade, pois, em qualquer tempo, traz-me a sensação de que não estou sozinho; enquanto alguns contemporâneos meus seguem na ida para a cegueira, minha poesia já está na volta, aprendendo com os eternos descaminhos da existência humana. Efêmera é a vida e essa eu já tenho; quero a eternidade na arte da sobrevivência como a conquistada por muitas bandas e compositores da década de 1980. A vibração é eterna e o show não pode parar; os rótulos passam e a arte continua e por isso eu pulo e continuo pulando – o céu da boca no beijo sem fim é o limite.
            Sobre crescer, caros conhecidos da reação 3, lembro que, segundo a ciência humana, o ser adulto, ao chegar a determinada idade, não cresce mais nem 1 cm sequer (pode encolher; crescer nunca!) e informo que, aos 32 anos, meu processo de crescimento passou do prazo de validade. Já cansar é perigoso, vem da atmosfera física e sentimental humana; há uma linha tênue e extremamente arriscada entre cansar e desistir e, como sou péssimo malabarista, prefiro não me acomodar no cansaço - se ele aparece, eu nego; se não dá as caras, deixa o cansaço quieto. Depois de assistir a diversos shows do Biquíni Cavadão, nas décadas de 1990, 2000 e 2010, aprendi que a exaustão existe, mas não precisa ser confessada. Cantemos, pulemos, dancemos pra não dançarmos, o tempo escorre de nossas mãos, então seguimos juntos, encharcados, mortificados, mas de pé contra o céu; já nos basta a derrota nas notícias do dia a dia, pra que nos rendermos mais? Se não tem nada pra dizer, solte um palavrão, mas continue, insista, a vida é dura, mas nossa existência mole pode bater bastante nela até perfurar uma luz do túnel de esperança nela e encontrar – por alguns instantes - a impossível felicidade ou pelo menos uma forte dose de mínimo contentamento. Cada show ao qual me jogo é um espetáculo novo aos meus olhos.
            Pra encerrar o texto (a vida continua, opiniões mudam e o pra sempre sempre acaba), a todos conhecidos, deixo meu até logo, vou repetir minha trilha em torno do velho desconhecido reconhecido; em breve, estarei no show do Biquíni Cavadão e do Ultraje a Rigor, indiferente às críticas, ao lado da poesia insistente, de frente pro espetáculo presente!       


quinta-feira, 15 de setembro de 2011

diHITT - Notícias

Crônica empatada: Zero a Zero

Diante de mais um empate em 0 a 0 de nossa empacada Seleção Brasileira, diante de tantos empatões que obstruem nossa rota e diante de tantos zeros a zeros que a vida nos dá, aí vai mais uma crônica inédita:


Zero a zero

            É comum do ser humano viver a vida da mesma forma até a morte, sem ganhar nem perder, como um time da 2.ª divisão que enfrenta um da 1.ª - 0 a 0 é um ótimo resultado.
            Por algum motivo, não admito isso! Pior que perder é não tentar ganhar. E não me importo se cometeste erros demais em alguma vida ou momento anterior: não suporto teus empates!
            Longe de mim julgar-te ou sentir dó de ti... Sei que o julgamento precipitado é a desculpa do criminoso frustrado pra avaliar sua incapacidade e que a compaixão, nestes casos, é repulsiva. Pior que a indiferença, a pena é a maior das ofensas.
            Mas não me peças pra me acomodar com tua filosofia neutra! Este cheiro de acomodação me incomoda! Se não te conhecesse, se não soubesse que tens tantos desejos tensos presos em teu inconsciente triste, talvez até suportasse teus empates... mas não é o caso - me perdoa a sinceridade!
            Melhor que desviar dos obstáculos é enfrentá-los, pois viver não é se manter, e sim tentar se descobrir. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

George Harrison e eu: No bar (parte 2)

Hoje não planejava postar nada além da crônica de Mayara Silva, porém a leitura de "O certo é só metade do que é errado", excelente texto do mestre da prosa Alexandre Fonseca (acessível em http://algumcantoemseusorriso.blogspot.com/2011/09/o-certo-e-so-metade-do-que-e-errado.html) acabou ressuscitando uma discussão georgeharrisoniana que carrego comigo sobre os rumos do triângulo amoroso George Harrison-Pattie-Eric Clapton. 
O resultado disso é a segunda parte em prosa de minhas incursões georgeharrisonianas (pra quem não leu e deseja acompanhar, a primeira parte está em http://diariosdesolidao.blogspot.com/2011/07/george-harrison-e-eu.html, Além disso, há [sub]versões poéticas de canções de George Harrison por todo o blog). Com vocês, George Harrison e eu: No bar (parte 2), lembrando aos amigos leitores que tais incursões só foram concretizadas graças ao incentivo de mestre Alexandre Fonseca:




No bar (parte 2)


- Por favor, não vá!!!
Eu me erguia da mesa, ainda pensando em Lúcia e seus céus de diamantes distantes, quando ele disse isso. Foi a primeira vez, desde que me sentei à mesa, que o vi exaltado. Foi também o único instante que vi seus dedos abandonarem as cordas da guitarra que ele, absorto, dedilhava. Saio do meu transe, torno a sentar-me na cadeira à sua frente, ameaço explicar-lhe que só ia pegar mais uma cerveja, mas sua voz não me vê, seus olhos me sugerem que sua ordem se dirige a tempos remotos:
- Eu era um besouro místico, sabe? Havia ALGO quando Pattie se movia em minha direção... – o sorriso sem graça dele tem a alegria triste de uma criança que não cresceu, mas que perdeu sua infância. O que dizer a ele? Quem é Pattie? È certo apenas ouvi-lo calado, passivo para a dor que sua voz carrega em cada palavra? Nenhuma dúvida minha importa agora – o certo é só metade do caminho que é errado; falo melhor nesse instante aceitando a confissão dele em silêncio.
- “Não é uma pena? Agora, não é uma vergonha? Como nós partimos os corações um do outro e causamos um no outro dor; como nós pegamos o amor um do outro sem nem pensar, esquecendo de devolver, não é uma pena?” – sua voz soa suave e melodiosa. Reparo que seus dedos voltam a dedilhar a guitarra. Confirmo com um movimento rápido de minha cabeça: Sim... O show não pode parar! Outro companheiro de mesa, acho que seu nome é Eric, também concorda, mas sua barba por fazer e o modo singelo como ele acompanha as notas tristes da guitarra de nosso amigo em comum denunciam alguma dor compartilhada.
Esqueço Lúcia, os diamantes distantes, pois a música me leva para uma Pattie misteriosa, dançando entre duas guitarras, com passos divididos e um coração livre, ganhando melodias e prendendo outros corações. Nas correntes, vejo Eric e o meu amigo com sua guitarra que chora; são ilusionistas amigos presos no mesmo truque, serrados ao meio e, ainda assim, mantidos com o corpo são. Pattie agora deve estar dançando outros ritmos no mesmo compasso de ilusão. Lúcia não me importa nessa hora, mas seus diamantes ainda brilham em algum céu eterno de meu inconsciente.
- Neguei que ALGO foi para ela... – uma nota rancorosa destoa a musicalidade de meu amigo, mas sua expressão novamente suaviza a dor lenta em suas cordas. – ALGO era ela... Agora não é mais... - seus dedos encerram uma balada bonita, relembrando que toda beleza é efêmera e toda noção de perfeição é imperfeita. Suas mãos agora aperfeiçoam outras canções, numa constatação serena – Essa guitarra não pode parar de chorar...
     Paradoxal como o sorriso triste de meu amigo é enxergar uma melancolia festiva nas notas que ele toca nesse momento. Mas a dor comemora a passagem alegre desse eterno instante. Eric se afasta da mesa, tem outros compromissos (de volta ao mundo dos vivos, preciso continuar! – seus ombros sorrateiramente parecem sussurrar num desabafo), mas deixa, num encabulado abraço, um adeus amigo para o meu cada vez mais solitário companheiro. Outra composição dança no espaço vazio que Eric nos deixa. Sinalizo ao garçom o pedido de mais uma dose – a embriaguez é doce, mesmo nos copos amargos. O estranho conhecido à minha frente parece ler meus pensamentos; continuo com ele, a melodia que consola os meus ouvidos diz que é sempre preciso continuar... 

Solidões compartilhadas: "Solidão", crônica de Mayara Silva

Em sua segunda participação no blog ( a primeira foi em agosto, com a crônica ecológica "Na época do Trilhão" - evento que ocorre neste fim de semana em Água Quente, Teresópolis/RJ: http://diariosdesolidao.blogspot.com/2011/08/solidoes-compartilhadas-mayara-jorge-e.html), a jovem teresopolitana Mayara Silva, de 14 anos, após ler o poema de Érick Ramos (http://diariosdesolidao.blogspot.com/2011/09/solidoes-compartilhadas-solidao-de.html), também quis definir e compartilhar a sua solidão. Leia agora a inédita e brilhante crônica solitária de Mayara Silva:


Afinal, o que é a solidão? No vocabulário de língua portuguesa a palavra "solidão" significa: estado de quem se sente ou está só. Mas podemos sentir solidão durante uma festa com os amigos, no trabalho e até mesmo dentro de casa com a própria família.
Alguns dizem que cada pessoa vem ao mundo sozinha, atravessa a vida como um ser em separado e, no final, morre sozinha. Outros dizem que precisaríamos nos engajar ativamente uns aos outros e formar o universo na medida em que se comunicam e criam, e a solidão é meramente o sentimento que está fora desse processo.
A falta de compreensão, atenção, carinho e compaixão, um abraço negado, a perda de alguém amado, um amor não correspondido, rejeição, falta de esperança, etc. podem nos fazer sentir sozinhos, Solidão é um sentimento no qual uma pessoa sente uma profunda sensação de vazio e isolamento. Você não precisa estar necessariamente sozinho para se sentir solitário. Todo coração humano necessita de um amigo – alguém em que possa confiar. Precisamos de alguém que realmente nos conheça e nos entenda, que nos envolva com cuidados, quaisquer que sejam nossos problemas. Mas fica a pergunta: Onde, entretanto, podemos achar tal amigo? 

Meu filho-poema selecionado na Copa do Mundo das Contradições: CarnaQatar

Dia de estreia da teoricamente favorita Seleção Brasileira Masculina de Futebol na Copa do Mundo 2022, no Qatar, e um Brasil, ainda fragiliz...