sábado, 16 de outubro de 2021

Relembrando meu primeiro poema pandêmico de 2020 em um sábado nublado de 2021: O último teorema de Fermat ([En]ferma{t})

Quadro "Dia Nublado",
de Jose Navarro Llorens
Dia nublado, ambiente melancólico, mais um sábado pandêmico pra refletir, buscar forças em si, em qualquer lugar (somos sobreviventes; parece pouco, mas, dado o contexto necro-ilógico, não é), recordar, retomar o presente e re-acordar os sonhos.
Hoje trago “O último teorema de Fermat ([En]ferma{t})”, o primeiro poema que escrevi no período da pandemia (data de maio/junho de 2020, quando a ansiedade e incerteza e solidão e reflexões de passados explodiam em melancolia escrita buscando a felicidade de um bom verso mesmo que triste – eterna necessidade de manter a chama viva, ainda que adoecida).
Em tempo: o poema do qual vos falo foi premiado com o 1.º lugar no Concurso Contemporânea de Literatura 2020, em Santos/SP, e, consequentemente, entrou na Coletânea Contemporânea 2020 (interessados em comprar o livro e ajudar na continuidade deste fodástico projeto de promoção cultural, recomendo que procurem o organizador e superartistativistamigo santista Maurilio Campos – por sinal, no vídeo dos premiados [que pode ser assistido no link https://fb.watch/8GD2dZJmTB/ vocês também conferem a versão em vídeo do poema que trago abaixo, numa interpretação maravilhosa feita por ele e reinterpretada em vídeo pelo Mestre da Mídia Lírica Jardel Pacheco] pelo e-mail maurilio.campos@hotmail.com ). Em tempo II: esta postagerm também celebra o mais-que-fodástico fato de que sou um dos 30 finalistas do Concurso Contemporânea de Literatura 202’ (consequentemente, meu poema concorrente deste ano também estará em antologia Contemporânea 2021, o que já é fodástico demais, independentemente do resultado final).
Fiquemos com “O último teorema de Fermat ([En]ferma{t})”, uma tentativa de calorosa leitura lírica para um sábado melancolicamente nublado (e ainda que triste, magnífico).


O último teorema de Fermat ([En]ferma{t})


A primeira variante é o contágio:
a febre dos lábios encontra apenas travesseiros gelados
- a morte ronda o colchão imenso
cheio de espaços.
O que não é, o que não deveria ser
agora é permanente
                  presente
                     doente!
Pandêmicas, as ausências se espalham,
contaminam toda casa.
E a nós, ilhas de um continente despedaçado,
resta o pertencimento ao mesmo arquipélago
aglomerado de naufrágios.
O que quase não foi é o que nunca vai ser.
A segunda variante é o isolamento,
o ato forçado de evitar ruas, praias e festas,
pois estás em todas elas.
Mesmo trancado pro mundo,
tua falta desfila em meus mais obscuros pensamentos
me intimando
      intimidando
        intumescendo a minha nova solidão...
Passadas as variantes mais graves,
chega-se à resolução irresoluta do novo normal:
distância calculada em proximidade casual,
sorrisos amarelos em coloridas máscaras
- Oi, tudo bem?
(No céu da boca, o sol da verdade se cobre em nuvens que o implodem)
Resposta superficial, até logo... tchau,
como gripe que passa, doença banal...



terça-feira, 12 de outubro de 2021

Homenagem às crianças: O poema que Tia Patricia me pediu sobre os Direitos das Crianças do Brasil


Hoje é Dia das Crianças e o poetamigo e eventual blogueiro que vos escreve traz um poema inédito e uma boa recordação. Em 2019, a professora Patricia Ignácio, na época do Pré II da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, com quem já havia realizado em parceria dois fodásticos projetos (um poema sobre a Primavera para o Pré II [que se encontra aqui no blog no link:
https://diariosdesolidao.blogspot.com/2018/09/de-volta-velha-infancia-no-equinocio-da.html ], e a participação teatral-iluminada do Pré II com os nonos anos na peça “Monólogos de Dor & O Circo Musical do Amor”[precisava muito dos pequenos para amenizar o clima dolorido da peça e trazer alguma esperança – também está aqui no blog no link: https://diariosdesolidao.blogspot.com/2019/07/lembrando-momentos-marcantes-do.html ]), pois bem, voltando, a Patrcia me propôs um novo pedido-desafio: escrever um poema em homenagem aos 10 princípios dos Direitos da Criança (no Brasil, amparados pela lei n.º 8.069, de 13 de julho de 1990, também chamada de Estatuto da Criança e do Adolescente [ECA]). Passei por um processo de crise criativa, mas a superei e consegui, um mês após o pedido, criar o poema (não foi dos meus mais inspirados – considero o da Prima Primavera muito melhor -, mas foi uma vitória conseguir escrevê-lo, pois 2019, como o ano anterior e os anos consecutivos a ele foram [e continuam sendo] bastante complicados).
Deixo aqui o resultado-poema da proposta-desafio de Patricia para a apreciação dos amigos leitores, sempre em agradecimento e oferenda pela insistência sublime em apoiar com todos os olhos líricos e coração este relapso blogueiro que prossegue com o blog em atualizações inconstantes, mas ainda apaixonadas como dos primórdios do blog - obrigado pelo apoio e magnífico DIa das Crianças a todos, todas e todes (não se engane: independentemente da idade, ainda trazemos a infância latente e radiante em nós).


Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez direitos vou contar pra vocês


Um, dois, três,
Nós vamos aprender
Com tia Patricia,
Comigo e com vocês
Todos os dez direitos
Que as crianças devem ter.

O primeiro direito
É fácil de entender,
Mas o adulto às vezes
Finge esquecer:
Toda criança tem direitos garantidos por lei,
Seja menino, menina ou o que quiser ser,
Brasileiro ou estrangeiro,
Branco, negro, amarelo, vermelho,
Moreno, cafuzo, mameluco, mulato ou pardo,
Católico, evangélico, judeu, islâmico,
Sem religião ou de religião oriental ou afro,
Filho de esquerda, de direita ou de centrão,
Toda criança tem vez,
Por isso xô preconceito,
Abaixo a discriminação!

O segundo direito
É mais fácil ainda,
Mas ainda tem adulto
Que pra lei faz birra:
Toda criança tem direito à proteção
Para se desenvolver bem
Em toda sua amplidão.
Por isso devemos defender:
Deixa o menor bem crescer
Pra ser um maior legal,
Com desenvolvimento bem natural.

O terceiro direito
Parece bobo,
Mas é certeiro
E reforça uma necessidade:
Toda criança tem direito a nome e nacionalidade.
Todo nascido ganha um nome bonito,
Pode ser curto ou comprido,
Simples ou difícil,
Por isso nada de “Ei, psiu, ei, você aí, psiu!”
Todo nome é lindo e merecido,
Que deve ser falado, cantado e celebrado
Em um país, em um Estado, em uma cidade.
Todo nascido tem nome e localidade.

Um, dois, três,
Quatro, cinco, seis,
Nós vamos aprender
Com tia Patricia,
Comigo e com vocês
Todos os dez direitos
Que as crianças devem ter.

O quarto direito
É complicado
E muito adulto esquecido
Precisa que ele seja lembrado:
Toda criança tem direito à alimentação, à recreação
E à assistência médica.
Por isso a arrecadação de impostos, a contribuição,
A colaboração de toda a nação.
Precisamos acreditar no bom trabalho, na boa ação,
No respeito maduro, na boa administração,
E é por isso que dizemos pra todo mundo:
Abaixo o político mentiroso e narigudo,
Abaixo a corrupção,
Queremos honra com o dinheiro público,
Queremos boa distribuição de recursos!

O quinto direito
À criança especial
Diz respeito
E é importante lembrar:
Toda criança portadora de necessidades especiais
Terá direito a tratamento, educação e cuidados especiais,
Lembrando que o diferente não é doente,
E sim, como todos nós, carente,
Mas carente de uma forma diferente.
Todo especial merece carinho especial,
Com respeito, ser diferente é normal.

O sexto direito
Fala da arte do afeto
Diz respeito
A sentimentos eternos:
Toda criança precisa de amor e compreensão,
Por isso façamos da troca de amor infinito
Uma grande revolução:
Abrace sua amiga e o seu amigo
Como se todos fossem seus irmãos,
Jamais negue afeto ou carinho
Às meninas e aos meninos desse mundão
Tão carente de emoção.

Um, dois, três,
Quatro, cinco, seis,
Sete, oito, nove
Até o dez nos comove.
Hoje nós vamos aprender
Com tia Patricia,
Comigo e com vocês
Todos os dez direitos
Que as crianças devem ter.

O sétimo direito
Fala de ensinamentos,
Da educação
Dos nossos pequenos:
Toda criança terá direito a receber educação,
Que será gratuita pelo menos no grau primário.
Por isso temos escolas em toda região
Pra garantir a matrícula da criancinha e do crianção,
Podemos chegar nela a pé, de carro, de carroça e de buzão,
Lá aprendermos o abecedário e a ser mais cidadão.
Por isso respeitemos o profissional da educação,
É na escola que aprendemos a ser uma grande nação.

O oitavo direito
Fala de saúde e prioridade,
Ajudar primeiro a criança
É nossa responsabilidade:
Toda criança estará, em qualquer circunstância,
Entre os primeiros a receber proteção e socorro.
Por isso, se o pequeno ou a pequena passa mal,
Ele ou ela é nossa preocupação única e principal.
Se a criança está em perigo,
O futuro bonito que ela constrói
Também está em risco.
Por isso corre, adulto herói,
Corre ao seu auxílio!

O nono direito
Está na nossa cara,
Mas tem adulto que avacalha;
Criança é criança – não trabalha!
A criança será protegida contra qualquer crueldade e exploração,
Por isso nada de trabalho escravo, trabalhinho pesado ou trabalhão,
Nem abandono, violência ou opressão.
Bico de criança é chupeta,
Bico de trabalho pra criança só dá treta
E o responsável irresponsável pode parar no camburão.
Pequenos estudam, brincam, fazem recreação;
Trabalho é coisa de adulto, não me venha com inversão!

Chegamos no décimo e último direito
Com muito carinho e muito respeito:
Toda criança terá proteção contra atos de discriminação.
Por isso aceitemos a todos sem diferenciação.
Com cada vez mais amor no coração,
Transformamos o afeto em revolução;
Abracemos sempre a outra e o outro com muita emoção!
Xô, preconceito, xô,
Chega de ódio e de horror,
Agora somos feitos só de paz e de amor!

Um, dois, três,
Quatro, cinco, seis,
Sete, oito, nove,
Dez direitos nos movem
E um futuro lindo eles constroem.
Acabamos de aprender
Com tia Patricia,
Comigo e com vocês
Todos os dez direitos
Que as crianças devem ter
E nem eu, nem tia Patricia, nem vocês
Jamais devemos nos esquecer
Os direitos que fazem a gente direito crescer.

Respeitem as normas, respeitem as leis,
Nós, crianças, somos os futuros de vocês!



domingo, 26 de setembro de 2021

A educação como prática de manipulação: Paulo Freire e eu passeando pela Educação Capitã Gancho da Terra do Nunca

Paulo Freire faria 100 anos neste ano (possivelmente, dificilmente fizesse diante de tantos surtos que encararia vendo os seus detratores no poder manipulando planos de 100 anos de atraso para educação). Além de escritor, sou professor. E, como professor, devo meus aplausos à educação como prática de liberdade de Paulo Freire; sim, ele é um dos poucos pedagogos que realmente me inspirou plenamente. E, diante de antipedagógicos planos de retorno às aulas presenciais, ouvindo a denominação de ensino híbrido ao que está longe do real e potencial híbrido e muito próximo do burocrático, new-skinnerano-fascistocrático e bizarro (se liguem: primeiramente atiraram pessoas ao vírus sem proteção numa subversão tosca da expressão “imunidade de rebanho” – que só acontece com vacinação -; agora, com menor visibilidade [porque, no fundo, no fundo, no fundo, pode confessar, ninguém liga bulhufas pra educação há muito tempo, desde que a família seja preservada com os filhos bem ocupados, atirados à responsabilidade de outrem], fazem escolas de repositórios pra politiqueiro poder se orgulhar enquanto a expressão “ensino híbrido” ganha deformações aliens; a educação nunca esteve tão mal educada, para felicidade dos infelizes governadores da Retrogracia Dominante), diante dessa porra toda (não gostou do palavrão, fui mal educado? Pois é... né... foda-se: falar atualmente de educação – como apaixonado por ela - me deixa bastante mal educado diante da farsa que se encena) e diante de um convite do escritor-amigo Alessandro, da Oficina Poesia & Criação, fiz uma crônica inspirada nas minhas idas e vindas com Paulo Freire.

 Paulo Freire e eu passeando pela Educação Capitã Gancho da Terra do Nunca

Carlos Brunno Silva Barbosa

 

Minha relação com Paulo Freire foi marcada por idas e vindas, ausências e plenitudes.

Confesso que o conheci mais tardiamente que esperava. Dirigindo-me ao túnel do tempo, nos redemoinhos que a memória faz, meu eu presente, ao rever caminhos e descaminhos do meu passado, viajando aos meus tempos de aluno, até ouve alguns sussurros de Paulo Freire que saíam meio sufocados em algumas raras práticas pedagógicas. Mas basicamente vejo-me orientado por um ensino mais tradicional e, muitas vezes, ainda engessado do tecnicinismo da recém-encerrada, porém, infelizmente, jamais suplantada, era ditatorial brasileira. Salvos alguns professores brilhantes, lutando desarmados contra tanques de automatização, fui educado no regime mais tradicional e imbecilizante conservador possível, num processo muito bem elaborado, competente, mas frígido. Minha formação escolar me gera sentimentos contraditórios: não há como negar o enriquecimento enciclopédico que me forneceram, mas também não se pode ignorar que me fizeram um estudante coberto de conhecimentos extravagantes, untado numa forma uniforme, fabril, mas falível em inteligência emocional e burro para entendimentos de meu papel social.

Só vim a conhecer e reconhecer a educação pela prática de liberdade de Paulo Freire na faculdade. E, mesmo assim, de forma paradoxal: conheci o trabalho do formidável pedagogo através de aulas expositivas e da leitura de seus livros, fiquei admirado, mas toda essa revolução educacional fascinante ainda me era apresentada por acadêmicos geniais, mas ainda entranhados de tradicionalismo e tecnicinismo. Muitas palestras e declarações apaixonadas sobre Paulo Freire, mas tudo transmitido em estruturas rígidas, conservadoras e consciente e inconscientemente conservantes. A educação preconizada por Paulo Freire continuava sendo uma menina linda, cantada por todos, mas relação prática íntima com ela, nada (você está na faculdade, rapaz, se vira!).

Ainda hoje, como professor, convivo com este paradoxo. Conservo o legado e inspiração de Paulo Freire, tento, com os meios parcos que possuo, praticar – este é o verbo, que fica só sendo verbalizado, e raramente aplicado – sua educação libertária. Pratico algumas adaptações de suas técnicas: evito livros didáticos como muletas, produzo meu próprio material de acordo com o contexto dos alunos (em aulas iniciais, uso gêneros como autodescrição em sites de redes sociais virtuais, autobiografia, etc, para colher informações pessoais dos estudantes para melhor conhecimento das turmas, numa tentativa de replicar a genial ideia freiriana de se entrevistar e conhecer a realidade de sua comunidade escolar antes de elaborar o seu material de aula), me desdobro com atividades que possibilitem que os alunos tomem consciência de seus papéis sociais e tenham voz no processo ensino-aprendizado, mas, de vez em quando, o próprio sistema de ensino e a sociedade engessam os profissionais da educação, limitando-nos com preconceitos e/ou sufocando-nos com papelada e documentações que empacam em tradicionalismo e tecnicinismo. Confesso que, às vezes, exausto, traio Paulo Freire e caio em facilitações, mas só damos um tempo; depois voltamos e nos revoltamos aos princípios retrógrados que ainda regem a educação brasileira.

E, nesses longos anos de harmoniosa relação, com breves hiatos de instabilidade, Paulo Freire e eu xingamos os opositores da educação libertária freiriana, que, em sua maioria, nunca leram nada deste formidável pedagogo e ainda têm a audácia de fakenewar que a educação brasileira está no fundo do poço por causa do magnífico – e agora centenário – pedagogo. A verdade é o oposto: a educação brasileira está no fundo do poço, porque atiram a pedagogia freiriana como se ela fosse um conjunto de frases motivadoras, ao invés de realmente praticá-la. Salvo raras exceções, nunca tivemos a educação freiriana realmente praticada, executada. Fica aqui a minha conjuração, a minha confessa inconfidência: educadores, tiremos a educação freiriana do mundo das ideias e pratiquemos mais a educação concretamente libertária. Só assim tiraremos as algemas que prendem a educação brasileira ao fundo do poço, situação ignorantemente empoçada (e empossada) por nós mesmos.

 

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Conto de vergonha alheia solitária coletiva: Estocolmo (Ou Colmo Estamos)

Foto de manifestantes nos atos
democraticamente permitidos, 
mesmo que proclamando a
antidemocracia (alguns consideram
a foto fake, pois todos sabemos
que eles são contra o uso de máscaras
em aglomerações pandêmicas).
Faz um tempo que não venho ao blog (sim, vivemos tempos em que precisamos, o tempo todo, dar tempo para, de tempos em tempos, suportamos os eternos maus tempos diários), mas hoje, no Dia de nossa ‘Independência’, fulminado por manifestações psicopatas de cancelamento da já vilipendiada nação democrática (nem sei se ainda podemos nos considerar como civilizados ou como suspiros – daqueles agridoces bem toscos de boteco, quase totalmente ocos por dentro – de civilização) salve salve, não sei por quê (ironia detect), me inspirei e resolvi escrever um novo conto (fictício) da vergonha alheia (real e nada nobre) solitária coletiva:

Estocolmo (ou Colmo Estamos)

De tanto apanhar psicologicamente, a população escrava do Sítio Nova Decrepitolândia pegou simpatia pelas chibatadas invisíveis.
Seu senhor chicoteador de todos, o autoproclamado Dom Ito Varom, preguiçoso e abusivo, decidiu dar um Dia de Liberdade aos seus violentados:
“Hoje vocês têm independência para passearem comigo às Praias de Estocolmo e escolherem onde carregarem essas minhas trouxas farpadas e pesadas: no ombro esquerdo, no direito ou nos dois. Hoje comemoramos a liberdade, mas com responsabilidade: cada um precisa carregar meus fardos de fardas pesados, mas com direito de escolhas de onde pretendem melhor os músculos desgastar”.
Todos aplaudiram (havia um velho mandamento decrepitolandinense, das Abençoadas Escrituras da Tortura, que dizia: “Tudo posso naquele que sobre mim se impusesse”, e, por isso, toda população sabia que a formalidade era aplaudir toda vez que Dom Ito Varom terminasse de falar – por mais ininteligível que fosse, a palavra de seu senhor chicoteador é lei soberana).
E seguiram juntos com Dom Ito Varom às Praias de Estocolmo, contentes com a liberdade impossível, tão etérea que parecia fazer milagres nas costas das almas marcadas. Os fardos de fardas de seu senhor chicoteador, mesmo que podres, farpados e pesados, naquele fatidivínico dia, não fediam, não doíam, nem pesavam tanto assim...



sexta-feira, 19 de março de 2021

Solidões Compartilhadas em tempos de pandemia: O bem e o mal na lírica dúvida do Bem da magnífica poetamiga Andressa de Oliveira Silva

Mais uma vez retorno ao blog após um longo período de ausência; mais uma vez vocês me perguntarão se está tudo bem, enquanto o genocídio nos (des)governa, enquanto os antiéticos presidem Comissões de Ética, enquanto os corruptos corrompem a justiça, enquanto a liberdade de expressão é estuprada por discursos de ódio, enquanto Hitler sorri em sua nova moradia no céu de bíblias corrompidas, enquanto a morte, a tristeza, as doenças incuráveis e as violências explícitas e implícitas desfilam por todas as rodas e moinhos desse tempo louco chamado contemporaneidade (a música “Crônica”, dos Engenheiros do Hawaii, atemporal, repete seu refrão como um disco arranhado: “Você que tem ideias tão modernas/É o mesmo homem que vivia nas cavernas”). Não, amigo leitor, não está nada bem e aquela frase – “I can’t breathe” (“Eu não consigo respirar”) – ecoa em novas bocas, em novos velhos contextos, em novos velhos lugares.
Refletindo sobre todo o mal que nos ronda, me recolhi mais uma vez. E como é difícil e, por vezes, ilusoriamente inútil, retornar do poço sem fundo que nos metemos (ilusoriamente, pois a resistência, a persistência, a arte ainda é muito útil para nossa sufocada existência apesar de toda a sua aura de aparente inutilidade). Mas, mesmo com o ar rarefeito, mesmo quase moribundos, nós voltamos.
E, desta vez, eu volto, nós voltamos com uma solidão poética compartilhada marcante... Há pouco tempo – para ser mais exato, em 24 de fevereiro, a querida, jovem e hipertalentosa poetamiga Andressa de Oliveira, de Teresópolis/RJ, me enviou um poema novo (não recebia escritos novos dela desde que ela havia deixado de ser artistaluna da Escola Municipal Alcino) que reflete bem os problemas contemporâneos do ‘estar bem’ diante do nossa nova realidade, do anormal novo normal de nosso problemático cotidiano. O magnífico poema “Bem?”, de Andressa de Oliveira Silva, que trago hoje nas Solidões Compartilhadas do blog, tem o formato dos poemas de Álvaro de Campos: como os versos deste famoso heterônimo do mestre poeta português Fernando Pessoa, os versos da jovem e hipertalentosa artistamiga primeiramente se controlam e, depois, vazam do espaço limitado da folha do verso, transbordando emoções gradativa e intensamente em uma lírica quase-prosa de desabafo, com uma maturidade impressionante e mensagem tocante. Vale ler e reler o poema de Andressa, percebendo todas suas nuances (dos questionamentos enérgicos ao transbordamento de raivas e lamentações até a melancólica elegia inquisitória).
Leiamos o magnífico poema de Andressa de Oliveira Silva e reflitamos, amigos leitores. Que nosso novo velho retorno seja firme, que realmente fiquemos e desejemos bem a nós mesmos, aos próximos e aos distantes.


Bem?

Estar bem, estar bem com você mesmo
Estar bem com seus amigos e família
Estar bem fisicamente emocionalmente e espiritualmente.
Por que é tão difícil ficar bem?
Por que não consigo socializar com ninguém? Por quê? Alguém me diga!
Será algo nas pessoas: elas são o problema ou eu sou?
Será eu a causa interna e externa?
Será que eu e minha crises atrapalham?
Se sim, por quê?
Por que que eu não durmo a noite o incomoda,
Por que meus soluços e choros lhe interessam tanto?
Você não se importa se eu estou bem, se eu falo que estou bem mesmo você vendo as marcas espalhadas pelo meu corpo e lágrimas em meus olhos, você apenas diz “Que bom” e vai embora.
Você não liga para o meu bem ou mal estar.
Você só se importa quando ouve a notícia de que alguém se foi e fala:
- Ela era tão legal - mas não falava com ela
- Era tão bela - mas só julgava ela
- Se foi tão nova - mas ela lhe dava sinais de que estava mal.
Esse “tudo bem” que ela falava, você vai ver que era mentira, mas não quis insistir.
Ela só queria que você insistisse um pouco mais para ela desabafar.
Ela só queria alguém para que ela pudesse contar sem receber nenhum julgamento.
Mas agora não importa mais, ela finalmente está em paz.
Ela agora está bem, só que não entre nós...
Poema de Andressa de Oliveira Silva



quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

A (re)volta natural: Do alto das árvores líricas da praça Emília Jannuzzi, a maritaca assiste e canta aos homens, durante a pandemia

Como os psicodélicos Mutantes, andei meio desligado por esses dias – principalmente em espaços virtuais. Tenho passado por um processo parecido ao do que chamo “Descivilização” (tirei o termo de uma canção homônima da década de 1990 do Biquíni Cavadão): esqueci-me de contar os dias após o recesso de home slave office, desconectei-me quase inteiramente de redes sociais virtuais e passei a distribuir meus dias com banhos de ducha no quintal, tomadas de sol, ventos ocasionais e chuvas de verão, desenvolvimentos geeks, nerds, árcades, pós-modernos e clássicos com leituras constantes de obras literárias e gibis, maratonas de séries e filmes de diversos gêneros, audição de músicas dos mais diversos gêneros (com preferência à MPB e ao rock) e som dos pássaros que visitam minha casa em quarentena e a praça em frente ao lar agridoce lar, mergulhos em mim mesmo e episódios lúcidos de embriaguez desconexa em intervalos regulares. Diferentemente dos que se cansaram do período de isolamento, muitas vezes acho que a solidão (não a completa, claro, mas a complexa, de autocontrole, divertimento consigo próprio e amadurecimento intelectual) até que cai bem – o que me cansou mesmo (e até me parece tedioso) é bater na mesma tecla da merda que nosso mundo está e no bando de gente merda que acha que essa merda é perfume ou remédio pra grande crise de valores. Estamos na merda que nós mesmos (ou outros infernais nós outros mesmos) nos colocamos, mas insistir em pregar nas paredes ocas o quadro horrível real em que vivemos me aparenta ser tão surreal, cansativo e improdutivo quanto explicar para uma mula que ela está sendo explorada por seu pseudo-dono – destaca-se mais a publicidade patética da cena quixotesca que qualquer ínfima possibilidade da conscientização da mensagem bem intencionada; a mula continua a zurrar, Quixote continua vendo Dulcineias em estalagens contaminadas de aborrecimento e ignorância e o tempo passa atropelado por todos nós e outros nós outros que nós nunca admitiríamos ser nem entender, pois é incompreensível (sim, o zurro humano ainda é uma língua virulenta, inapreensível, incompreendida e incompreensiva). Preferi dar um tempo dessa loucura toda (não me alienar – ação impossível para qualquer ser minimamente pensante em tempos complexos de autodestruição existencial e humana, dramas sórdidos e tragédias espetaculares - , mas manter minha insana sanidade mental em um ambiente menos hostil, confuso, contagioso e abusivo).
Nesses tempos, refugiei-me em mim mesmo, na natureza próxima e na arte – pode parecer (e é) meio egoísta, mas é de um egoísmo altruísta: preciso estar bem comigo mesmo para estar bem com todos em um ambiente tão doente e tão doentio. Mas agora, depois de tanto tempo e graças aos apelos de amadas amigas e amados amigos, resolvi retomar as postagens do blog.
E, voltando aos cantos dos pássaros aos quais tenho prestado atenção com mais constância, foram nesses tempos de quarentena que as aparentemente escandalosas (eu as defendo como sábias incompreendidas) maritacas me inspiraram um poema, “Do alto das árvores líricas da praça Emília Jannuzzi, a maritaca assiste e canta aos homens, durante a pandemia”, com o qual concorri à Mostra Olhares sobre o Patrimônio Fluminense – 2020 , da 10.ª Semana Fluminense do Patrimônio – “Cultura e cidadania em tempos de crise”. O poema foi selecionado e recebeu 2.º lugar pelo júri técnico e 2.º lugar pelo voto popular no tema “Recortes da Paisagem”, categoria adulto na Mostra Cultural. Hoje, trago o poema, com o seu seu clipoema [pra quem está no celular, percebo que os vídeos não têm aparecido, por isso deixo o link do mesmo no youtube: 
https://youtu.be/DdAPNV4MM7E ] (agradecimentos às maritacas por concederem seus cantos durante a gravação do áudio do poema e ao meu irmão Rafael Silva Barbosa e ao seu namorado Wellington Victor de Lima pela participação teatral, atuando como os homens assistidos e cantados pela maritaca da praça Emília Jannuzzi), para vocês, amigos leitores, estreando as postagens líricas virtuais de 2021 deste constantemente inconstante blog.
Já que os homens não escutam a seus próximos iguais diferentes, que, pelo menos, escutemos a natureza à nossa volta e aprendamos com as sábias maritacas sobre a importância da lucidez e da vida nesse contexto genocida de sobrenatural loucura.

Do alto das árvores líricas da praça Emília Jannuzzi, a maritaca assiste e canta aos homens, durante a pandemia


Eis meus vizinhos, de canto apagado,
Os tais homens, seres desemplumados
Que ciscam livres pela minha praça.
Ao longe vejo o vírus que os caça:
O predador, para eles, invisível,
Entre eles, vaga letal e impassível
E, por eles, se propaga invencível.
Animal estranho esse tal homem,
Espécie ensandecida e selvagem:
Contra o vírus, alguns se protegem,
Enquanto outros o infausto propelem.
Uns corretamente tapam seus bicos,
Enquanto outros exibem cantos cínicos.
Aviso aos tolos: “Protejam seus bandos!”
Mas, do meu canto, vivem reclamando.
Têm olhos insanos, incendiários,
Queimam as matas, seus próprios erários,
Tratam-me qual carcará gavião
E, ainda assim, lhes tenho compaixão;
Faltam-lhes asas, amor, união
E sábio senso de preservação.
Brado-lhes orações contra a ruína,
Mas, surdos, seguem destrutiva sina.
Mortíferos mortais sem disciplina,
Pra arrogância deles, não há vacina.
Bando ingrato às belezas da vida,
Minha clemência não lhes é sentida,
Não lhes bastam doenças em surdina,
A humanidade se auto assassina.
Mas, como pássaro poeta e amigo,
Mesmo difamado como inimigo,
Faço arte contra a pandemia insana,
Insisto em salvar a espécie humana.









domingo, 15 de novembro de 2020

Crônicas crônicas eleitorais: O voto inútil

É a segunda eleição consecutiva que vou para votar com a alma já derrotada. Sei – infelizmente sei e considero que seria mais infelizmente não saber (é a única forma de conforto para me manter menos doente e ainda consciente) – quais são os jogos tenebrosos recentes de poder (se já não eram, em minhas fases de maior inocência num cenário em que crises não flertavam tanto com o animalesco instinto homicida-suicida humano) e sinto úlceras ancestrais só de ver os jogadores que podem ser escalados na perpetuação da kamikaze partida.
Esqueça seus sonhos, encare a realidade e escolha entre o pior que tá, o pior que tá não fica e o pior que pode piorar – eis suas principais opções. Outras alternativas? Talvez um novo tão velho quanto aquele aristocrata que alimenta as traças da tradicional história confundida com a História maiúscula, das grandes minorias, do verdadeiro povo, que não têm noção que foram, são e sempre deveriam ser os protagonistas de sua História, mas que, por instinto primitivo de sobrevivência devido à quase total miséria média-classicamente e milionária-predatoriamente imposta, preferem se aliar aos seus usurpadores num contrato de migalhas temporárias e perdas permanentes. Ou talvez um novo com velhos sonhos, quase sem chances, que busca representar as grandes minorias, o verdadeiro povo, sem conhecê-los, sem perceber que elas não se veem tão representadas quanto ele as conclama estarem. Ah, e o pior: o novo e o velho abraçados ao mesmo monstro, que prega dogmas e fascismos antiquíssimos, tão antigos e peçonhentos que as grandes minorias, o verdadeiro povo, com a memória empobrecida pela desilusão das inglórias imediatas fortificada pelos venenos esquecidos, os confundem com elixires divinos e se iludem com remédios que são, na verdade, placebos, como se doenças erradicadas no passado fossem curas para doenças modernas, quando doenças comprovadas, parasitas seculares e venenos mortais continuam sendo, em qualquer tempo, doenças comprovadas, parasitas seculares e venenos mortais. 
Sim, confesso, ando há algum tempo cético e cada vez mais perturbado com as partidas políticas. Antes, ao menos, se parecia mentir por um projeto político; hoje, apenas se mente – não há mais nenhuma necessidade de aparentar ter um projeto. Há carreiras políticas como carreiras de cocaína – todos querem enfiar o nariz na droga do poder. Tem-se planos sem planejamentos; tem-se intenção sem objetivos; tem-se propostas sem contrapropostas. Ninguém projeta e os desperdícios, despreparos e a falta de empatia e respeito às normas básicas mínimas de cuidados consigo e com o próximo durante esse período de pandemia são uma evidência dos descaminhos da involução humana. Minha utópica anarquia chora, pois não se pode sonhar mais sonhar que cada um pode cuida de si em prol do coletivo, porque este é um sonho humano e somos cada vez menos humanos. E, em tempos de eleição, somos menos humanos votando em busca do menos desumano – o que não muda o fato de estarmos escolhendo jogadores que trazem a desumanidade em algum lugar para uma partida destrutiva que durará mais quatro anos de proliferação da desumanização que, de tanto sagrar-se vitoriosa, seja qual for o time desumano que ganhar, enraíza-se e perpetua a nossa gradativa e cada vez mais íntima assimilação da desumanização – sim, tenho me elegido menos gente a cada eleição. 
Saio da seção eleitoral com a alma derrotada. No caminho, vejo bocas escancaradas, com ou sem máscaras. O Homo Sapiens se tornou o homem que finge que não sabe a involuir ao homem que não sabe até chegar ao Des Homo, Des Gente, todos Obrigados e Des Nadas. “Quem será o desumano da vez?”, algum eleitor fantasma, que já sabe a resposta, me pergunta só para me aterrorizar. “Será um desumano, como eu ou você, ou mais desumano, como futuramente vamos ser.”, ameaço responder, mas calo-me outra vez; às vezes omitir é uma humilhação mais confortável, dói menos que a insuportável revelação. Mas ainda assim é derrota, ainda assim é mais uma humilhação. Ainda assim dói demais. 
Retorno para casa e minha alma derrotada descansa sem descanso em mais um domingo morno meio morto.

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