quinta-feira, 26 de junho de 2014

Um Tributo aos Nossos Monstros: O plesiossauro em Mim

 
Dois filmes que baixei no fodástico blog cult “Sonata Première” e que chamaram minha atenção nos últimos tempos foram os premiados “Real”, da diretor japonês Kiyoshi Kurosawa (aqui vai o link pra poderem baixá-lo e assisti-lo: http://sonatapremieres.blogspot.com.br/2014/02/real.html) e “Mel”, da diretora italiana Valeria Golino (aqui vai o link: http://sonatapremieres.blogspot.com.br/2014/04/mel.html). Aparentemente, os dois filmes não têm nada a ver um com outro, mas somei os dois em minha cabeça devido a um fato e a um peculiar fator comum: assisti aos dois filmes no mesmo dia e, assim, ambas as histórias ficaram misturadas em minha cabeça; além disso, em ambos os filmes, seus personagens vivem (ou melhor, sobrevivem) se equilibrando (ou se desequilibrando) na linha tênue que separa a vida da morte.
Dos dois, o que me marcou mais intensamente foi “Real”, filme com uma leve ligação com a ficção científica e com uma forma peculiar e alucinante de análise do inconsciente humano (altamente recomendado para análise da escritoramiga e psicóloga Raquel Freire do Amaral) – o classificaria como um drama psicológico com pitadas de ficção científica e suspense. Reparem na sinopse: “Os médicos japoneses contactam dois cérebros em um misto de realidade virtual e telepatia. Koichi passa a conversar com sua garota, Atsumi, que desde uma tentativa de suicídio, há um ano, está em coma profundo. Ele consegue entrar no subconsciente dela e ali Atsumi, desenhista de mangás, faz um pedido a ele: procurar um esboço de plesiossauro para que ela possa sair do torpor. Koichi encontra o monstro e eles passam a entender o porquê dele e a ver que a verdade não é o que parece ser.” Com uma fotografia estonteante, o filme é uma viagem incrível pelo universo do inconsciente e o quanto nossas culpas podem se transformar num vigoroso plesiossauro e dominar todo nosso interior. Tenho meus poréns com a solução final do filme (que não vou contar, amigos leitores, “Real” é uma experiência que vocês devem assistir e tomarem suas próprias conclusões), por conta do tamanho e força do plesiossauro que criamos dentro de nós, quando nosso inconsciente se prende a ele, mas isso não afeta a viagem magnífica que meus olhos tiveram diante do filme.
Já o filme “Mel”, completamente despido de qualquer aproximação com a ficção científica de “Real”, nos leva àquele velho questionamento: temos ou não temos direito de escolhermos a nossa dissolução (quanto essas decisões influenciam as pessoas a nossa volta e qual é o sentido – ou falta de sentido – nisso)? A personagem Irene se propõe a fazer um trabalho difícil e ilegal: ajudar pacientes terminais a morrer. Ela busca o medicamento proibido no México. Obviamente, ninguém sabe o que ela faz. Não pode haver envolvimento emocional com o paciente. Certa vez, um engenheiro solicitou seus préstimos. Depois que ela soube que ele não possuía doença alguma, Irene começa a tentar salvar a vida do homem. Foi este personagem – e não a protagonista Irene – que me chamou mais a atenção. Seu passado misterioso, suas razões, nada é explicado no filme, apenas sua ânsia em partir desta vida é declarada por ele, apesar de não aparentar traços suicidas em sua vida – exceto por uma opção de manter-se só, apesar de mostrar-se comunicativo e sociável... será que ele possuía um plesiossauro dentro dele? Não sei... só sei que ambos os filmes se misturam em mim...
Com a mistura desses dois filmes e seus questionamentos, surgiu esse poema louco que posto hoje: o eu lírico inspirado no engenheiro suicida do filme “Mel” passeando pelo universo lírico, dominado por um violento plesiossauro de culpas, do filme “Real”. Não sei dizer se a mistura foi boa (talvez eu tenha escrito o poema para resolver o final que não apoiei do filme “Real”, não sei, só meu inconsciente – esse sujeito mudo em mim – poderia me responder), mas fica o resultado poético final para os amigos leitores poderem curtir e/ou descurtir. É um tributo poético às sensações que os filmes me passaram, são novos eus líricos que vieram pra mim; ao leitor, cabe o julgamento se o poema é bom ou ruim, desde que se dispa dos julgamentos de certo ou errado, são eus líricos que tomam suas próprias decisões, muito acima de minhas disposições.
Boa leitura e Arte Sempre!     

O plesiossauro em mim

Sai daqui, navegadora do amor...
A minha ilha de águas inocentes
foi invadida por um plesiossauro
e a praia outrora serena
machuca meus castelos de areia
com ondas de angústia.
Sai daqui, banhista incauta,
pois minhas águas agitadas
podem afogar o que restou do nosso amor...

Todas as cidades que destruí
com minhas pegadas,
toda a infância que perdi
nessa caminhada,
toda criança que não socorri
e que morreu afogada
é o plesiossauro
que cresceu
em mim,
é o plesiossauro
que hoje invade
a nossa casa.

Deixa o amor dormir em coma, enfermeira apaixonada,
pois o plesiossauro hoje repousa em minhas retinas fatigadas.
Deixa-me adormecer minhas vidas passadas, musa cansada,
que só a morte pode redimir essa alma culpada...




quarta-feira, 25 de junho de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto LXIII

LXIII

Minha carreira de tradutor foi escandalosa: transformei as lendas mais escabrosas de outras línguas em fantasias angelicais minhas. As Velhas Escrituras? Tudo invenção de minha escrita!


terça-feira, 24 de junho de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto LXII

LXII

Não joguei minha escrita nas trevas por cansaço. Foi a sabedoria de velho escritor que me inspirou essa nova ousadia: descobri que o conto fantástico mais bem sucedido se fabrica na mente insaciável do leitor que espera por uma nova fantasia minha. Meu projeto mais ambicioso: a proliferação de ilusionistas através da declaração de mágico ocioso. Conclusão amadurecida: a melhor fantasia está no leitor que tenta prever a minha fantasia.


Solidões Compartilhadas: Caroline de Almeida e Juarez Júnior Balançando as Folhas e a Imaginação

O sol hoje se manteve firme durante grande parte da tarde. Será que ele veio brindar mais um dia de Copa do Mundo no Brasil? Não, imagino que não, afinal, os jogadores sofreram para jogar diante desse sol intenso. Então por que será que o sol se manteve tão firme numa tarde que pedia desesperadamente o inverno? Não sei, mas tenho uma hipótese lírica: o sol veio brindar um dia muito especial, a data em que a ex-poetaluna Caroline de Almeida Rocha comemora mais um ano de luz, mais uma primavera brilhante contrapondo-se ao rigoroso inverno!
Caroline Almeida foi uma das minhas artistalunas mais aplicadas que tive na Escola Municipal Alcino Francisco da Silva. Não havia desafio lírico que ela não topasse; às vezes, quebrava a cabeça, negava o talento poético natural, mas a febre criadora lhe cutucava e lá estava ela escrevendo, escrevendo e vencendo com lirismo todos os desafios e limitações; não havia fronteiras para ela: mesmo que sentisse a alma derrotada, seu lirismo sublimava e ela sempre vencia sua luta lírica com os desafios da busca da palavra certa, que mantém o mundo da imaginação a girar pelo infinito. Não é à toa que, em quase todos os projetos que lancei no ano passado, ela estava à frente, rainha da arte a dar xeque-mate nos reis da realidade sem arte.
Em sua homenagem, compartilho mais uma de suas obras-primas (já há várias delas aqui pelo blog, como nas postagens do “Arcadismo Teen 2012”, nas “Histórias de meninos e meninas más”, nos vídeos dos saraus e no “Movimento da Semana de Arte dos 22 – Poetas mais que modernistas”), feita em parceria com o também ex-poetaluno Juarez Júnior Charles Maia, após uma oficina textual de descrição poética (parecida com aquela que fiz e descrevi na crônica “Pensamentos de um estudante de Letras”, com o acréscimo do filme “De Encontro com o amor”, onde o personagem, um escritor inventado chamado Weldon Parish, dá lições de descrição poética – em breve, mais textos desta oficina estarão disponibilizados no blog).
Desde que ensinei a Caroline de Almeida as características do Arcadismo, somados um ano depois ao Modernismo, ela passou a se identificar com as propostas do “Carpe Diem” (“Aproveite o dia”, em latim, que significa que os eus líricos devem sempre aproveitar o máximo seus dias, pois têm consciência de que a vida é breve e tudo é passageiro demais para não ser aproveitado) e, em quase todos os poemas e prosas poéticas que ela produzia sozinha ou em conjunto, essa filosofia árcade, de vez em quando, reaparecia. A prosa poética de hoje é um belo exemplo disto e, como as poetalunas aniversariantes anteriores com quem compartilhei solidões poéticas, Caroline de Almeida, acompanhada de Juarez Júnior, mantém a tradição: ela faz aniversário, mas quem é presenteado com uma oferenda lírica de fodástica beleza é você, amigo leitor!
Parabéns a Caroline de Almeida por mais uma primavera lírica (espero que nunca abandones esse lirismo suave e natural que trazes em ti) e boa leitura, amigo leitor, é hora de balançarmos as folhas e a imaginação!
  
Balançando as folhas e a imaginação
(Caroline de Almeida Rocha e Juarez Júnior Charles Maia)

            Hoje o sol não apareceu, mas os pássaros continuam a cantar alegremente com seus cantos que acalmam a alma.
            Quando olho para o céu nublado, me sinto triste, pois vejo as nuvens com uma vontade enorme de chorar e o sol escondido entre elas parece não estar a fim de aparecer.
            O vento vai e vem, balançando as folhas, fazendo um som encantador, parece até que estou em um filme.
            Fecho os meus olhos e tento me imaginar daqui a alguns anos, quando essa paisagem linda e maravilhosa não puder mais existir, quando o canto dos pássaros acabar e as nuvens chorarem pra valer...

Como seria? Não sei... Mas, enquanto isso não acontece, vou aproveitar o máximo que posso...


Solidões Musicais Compartilhadas: The Black Bullets contra Aqueles Que Querem O Ouro, A Prata e O Poder

Nesses momentos de intensos protestos contra os gananciosos que levam nosso ouro, nossa prata e que, direta ou indiretamente, estão no poder, vale a pena percebermos que as bandas de rock brasileiras se mantêm atentas aos questionamentos que nosso povo leva para as ruas. Por isso, hoje destaco e compartilho minhas solidões poéticas com a fodástica letra de música “O Ouro e a Prata”, da banda de rock valenciana The Black Bullets, formada pelos competentes músicos João Júnior (vocais), Felipe Martins (guitarra e backing vocal), Rominho Alvernaz (guitarra e backing vocal), Daniel Iunes (baixo) e Baldo Barreto (bateria).
“O Ouro e a Prata” é um rock vigoroso, com claras influências do Pink Floyd, quando Roger Waters liderava a banda (a temática crítica contra os donos do poder era uma constante no Pink Floyd desse período), um hit envolvente para aqueles que só saciam suas vontades quando ouvem uma boa canção de rock’n roll. Vale observar a trajetória harmônica da letra da canção, desde o desenho na primeira estrofe dos gananciosos que  “querem tudo, querem o ouro, a prata e o poder”, alvos da crítica e revolta do eu lírico, prosseguindo por estrofes que apontam o vazio e o desespero que a ganância pode gerar até o refrão que encerra a gradação e finaliza com a autoridade doentia dos gananciosos: eles querem tudo, mas não levam nada desta vida. Destaco a riqueza de figuras de linguagens (ou seja, recursos estilísticos que embelezam o texto) na letra da canção: breves aliterações [colocação de palavras com sons parecidos no mesmo verso] (“a prata e o poder”), antíteses para opor os anseios e delírios às reais conquistas do ganancioso (“querem tudo” versus “E nada / Nada se pode levar”, entre outras oposições similares) e ironia ácida pra terminar de desfazer os gananciosos doentios, por sinal, bem no estilo do floydiano Roger Waters (“Como prefere pagar seus pecados? / Em dinheiro, cheque ou cartão?”)
A letra de música foi premiada, com louvor, como Melhor Arranjo e Melhor canção (e ainda consagrou o vocalista e poetamigo João Júnior como Melhor Intérprete) do IV Festival Intermunicipal de Música de Rio das Flores/RJ, em junho de 2012. E a canção pode alcançar muito mais: atualmente a banda disputa o Concurso da Revista Rolling Stone Brasil com essa canção e conta com o voto popular dos amigos leitores e dos fãs (para votar na banda e na canção, é simples – basta acessar o link  http://rucaa.com/home/Index/Bandas_Doq9ZxCB3P8 e votar na banda [ atenção: quando for votar, desative o bloqueador de pop up pois se ele estiver ativado o voto não será computado!).
Cantemos juntos com a banda The Black Bullets, amigos leitores, nossa revolta contra aqueles que querem levar o nosso ouro, a nossa prata e que vivem, direta ou indiretamente, querendo assumir o poder. Arte e Atitude Sempre e, como sempre diz uma escritoraluna que já esteve nesse blog, Boa Canção!

O Ouro e a Prata (The Black Bullets)

E daqui pode se ver
Vejo escorrer a saliva
Da boca aberta em frente a mesa e o banquete
Tão farto para lhes atender
Com a barriga cheia mas querem tudo
Querem dominar este mundo
Querem o ouro, a prata e o poder
Se esquecem do que vão deixar
E só pensam no que levam

Me diz que o que você vai levar daqui?
E o que você vai deixar...

Deixar
Vai deixar
Sua história escrita nas pegadas que outros irão ler
E nada
Nada se pode levar

Ficar
Vão ficar
Os erros e virtudes que irão lembrar de você
E nada
Nada daqui vai levar

De que adianta querer saber
Se tudo tem preço
- Se não pode compreender
Nem tudo se compra não
Valores não têm preço

Mas daqui pode se ver
Vejo escorrer suas lágrimas
E agora molham sua solidão
Como prefere pagar seus pecados?
Em dinheiro, cheque ou cartão?

Me diz que o que você vai levar daqui?
E o que você vai deixar...

Deixar
Vai deixar
Sua história escrita nas pegadas que outros irão ler
E nada
Nada se pode levar

Ficar
Vão ficar
Os erros e virtudes que irão lembrar de você
E nada
Nada daqui vai levar


segunda-feira, 23 de junho de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto LXI

LXI

A pausa dramática entre uma história e outra foi a fórmula fantástica que minha avó encontrou de me cultivar as melhores histórias que ela jamais me contou.




4 Poemas Mortos de Pessoa escritos por outra pessoa

Hoje o blog comemora 3 anos de existência e resistência! Entre dias nublados e noites claras, o blog Diários de Solidões Coletivas prossegue sua trajetória de sobrevivência lírica, solitária e ao mesmo tempo coletiva. E, como é de costume, pedi, ontem, no facebook, sugestões sobre qual artista eu homenagearia nesta postagem de aniversário.O artistamigo Nilo Canedo sugeriu Gabriel García Márquez, mas, como já há a série “Cem Poemetos de Solidão”, em homenagem ao fodástico escritor colombiano, cubro essa sugestão, publicando, após esta postagem, o 61.º poemeto da série. As outras sugestões vieram dos artistamigos Diogo Aguiar e Sérgio Almeida (mais conhecido como Jardim): o primeiro me pediu, em tom de brincadeira, uma homenagem a ele mesmo, afinal hoje ele faz aniversário junto com o blog, já o segundo me sugeriu um tributo poético ao mais que fodástico poeta português Fernando Pessoa, que recentemente fez aniversário (faria 126 anos em 13 de Junho).
Diogo Aguiar
Fernando Pessoa
De posse destas últimas 2 sugestões citadas, resolvi topar o duplo desafio: homenagear, ao mesmo tempo, o poetamigo brasileiro Diogo Aguiar, de Nova Iguaçu/RJ, e o poeta português Fernando Pessoa, do qual sou discípulo apaixonado. Pra quem não conhece Diogo Aguiar, ele é autor de um fodástico livro chamado “Poemas Mortos”, entre outras obras (participações em antologias, etc). O “Poemas Mortos” é marcante pelo seu lirismo múltiplo, dividido em 3 capítulos: O Dia, A Noite e As Trevas. “O termo “mortos” foi utilizado porque na maioria das vezes quando algo ou alguém morre, acaba sendo esquecido e somente é lembrado vez ou outra quando esbarramos com uma foto, um local marcante, etc. E tudo que morreu deixa, de certa forma, de fazer parte da nossa vida cotidiana.”, afirma o escritoramigo. Já Fernando Pessoa, poeta morto, mas jamais esquecido, é conhecido escrever sob múltiplas personalidades – heterónimos, como Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro (esses três citados não são os únicos, mas os mais conhecidos) –,  cada personalidade inventada com um estilo poético bastante diferente da outra.
Para associar Fernando Pessoa a Diogo Aguiar no mesmo tributo poético, usei o formato do livro “Poemas mortos” de Diogo Aguiar, dividindo meu poema em 4 (o nome do livro e os 3 capítulos que a obra contém), cada poema contendo um estilo de cada heterônimo e do homônimo de Fernando Pessoa. Ou seja, usei a ideia do livro “Poemas Mortos”, de Diogo Aguiar, associada aos diversos estilos poéticos de Pessoa. Não sei que consegui ser eficaz  nessa ousadia lírica, mas eis o resultado final, para aprovação ou repulsa dos amigos leitores, aos quais agradeço de coração por tornarem esse blog poético tão popular, por manterem esse espaço virtual e literário tão vivo e por transformarem tão magnificamente a solidão lírica de cada um em uma solidão coletiva e tão nossa.
Arte Sempre  e, mais uma vez, obrigado por mais essa vitória artística!

4 Poemas Mortos de Pessoa escritos por outra pessoa

O Dia de Alberto Caeiro

O poema deve ser claro como o dia,
sem as sombras da metafísica,
pois a manhã mais bela é simples
e despida das nuvens de magia.
Quanto mais claro é o sol
e mais comum é o céu no qual ele irradia,
mais facilmente enxergamos
a beleza que nos ilumina.
Deveria ser sempre assim,
mas sempre existe um homem só,
nublado por sua melancolia...

A Noite de Ricardo Reis

Equilibra as tuas dores
e evita encheres mais ainda
a lua que já está cheia
porque o poema é noite pensada,
com a escuridão bem descrita,
apesar da alma dolorida.
Suspira para o céu em harmonia,
observa as estrelas em sintonia,
e, se por acaso não resistires,
podes até ver na noite
alguma lágrima perdida,
mas não a açoites
com a tua histeria,
pois a lua já está cheia
da tua queixa vazia.

As trevas de Álvaro de Campos

Há muitos que pensam muito, mesmo que pensar seja nada
diante das trevas nefastas das dores ignoradas,
mas não consigo, oh Deus que não creio, eu não consigo,
pois, pra mim, todo pensamento é refém de um louco balbucio,
quanto mais penso, tanto mais sinto e sentir é mais que o pensar
e sempre assim me desequilibro
e assim são os versos que trago comigo
e quanto mais penso-me liberto, escrevendo-os em delírio,
mais oprimido fico, pois os sentimentos que me escapam no pensar
são mais sentimentos que pensamentos,
logo trazem mais sofrimento que alívio
e todos que me lêem choram comigo por sentimentos cheios de pensamentos vazios
e eu sou todos que me choram mais eu chorando comigo
e mais os sentimentos cheios e mais os pensamentos vazios,
além do infinito em que me vejo tão morto-vivo.
Dei adeus à vida por toda minha vida, mas ela continua aqui viva e aflita
e assim fica a minha poesia sentida e ressentida de tanto pensar em agonia
e, de tanta agonia pensada, fica a razão perdida ao lado da emoção incontida
e eu perdido nesse tudo, pensando muito sobre o muito que penso
e que me escapa como sentimento
e assim sou os muitos que pensam e também os que não pensam em nada
e mais eu transbordando nesses todos como filho único de ninguém.
Por pensar demais, sinto muito e me perco em todos, mas sou eu mesmo...
Abraço os filósofos ateus e a sua melancólica lucidez
e beijo os alegres filhos Teus que ainda convivem dentro da caverna.
Mesmo que ambos os grupos eu não compreenda,
convive o fato de convivermos na mesma cela.
Caminhando pelas ruas de Lisboa, a cidade beija minha boca, mas meus lábios estão intactos...
Cumprimento o professor que me aponta a ausência de estrelas no céu
e parabenizo o padre tranquilo, o noivo nervoso e a noiva, cujo rosto é coberto por um véu,
quanto mais reconheço os outros, mais desconheço a mim mesmo,
mais uma vez, eu sou todos e, ao mesmo tempo, ninguém.
Embriagado por tanta louca lucidez, sobra-me apenas o poema e a sua absurda beleza:
caminhar desesperado pelo calmo e pelo obscuro, de mãos dadas com o mundo.
e me acostumar com o brilho escuro da falta de clareza.
Ah, Deus que não creio, quem me dera não pensar e não sentir e me deixar apenas ir,
mas as trevas já estão aqui e, por mais que as negue, sua falta de luz brilha em todos e em mim,
fazendo-se necessário apenas seguir, apesar de todos e apesar de mim.

Os poemas mortos de Fernando Pessoa

Finjo-me de morto pra que me sintas tão vivo,
pois sei que os vivos preferem os mortos fingidos.
Os sentimentos por um morto são mais compreensivos
que os imaginados para aquele que tem sobrevivido.
Meus poemas se fingem de mortos
pra comemorarem na tristeza do velório
a alegria de um infinito mais vivo.

Meu filho-poema selecionado na Copa do Mundo das Contradições: CarnaQatar

Dia de estreia da teoricamente favorita Seleção Brasileira Masculina de Futebol na Copa do Mundo 2022, no Qatar, e um Brasil, ainda fragiliz...