terça-feira, 9 de abril de 2013

Kafkando com você e comigo mesmo (ou A esperança na Metamorfose desesperançada)


Às vezes a gente se sente um inseto.

Você é um correntista do banco X e mais uma vez recebe uma cobrança indevida, está numa fila imensa para ser atendido por gerentes que não o compreendem, se sente uma presença incômoda no lugar; ele o atende com desdém, sem olhar pra você, dá justificativas que você não entende, parece enrolá-lo, você está cansado e lá vem aquela impressão de ser um inseto e a sensação de tempo perdido. Ou você é um usuário da operadora Y de telefonia ou internet e mais uma vez ela não oferece uma prestação de serviço satisfatório do produto que tão delicadamente lhe vendeu; ao reclamar, você é passado para ramais e ramais, transferido continuamente como se fosse uma batata quente nas mãos de quem tão rispidamente o atende, de novo a sensação de incômodo, ninguém compreende devidamente seus problemas com o produto, insinuam que você deve estar fazendo algo errado, parecem enrolá-lo, você está cansado e, depois de muito tempo perdido apesar de a lei dizer que você não deveria perder tanto tempo em sua solicitação, vem aquela impressão de inseto. Ou você é um telespectador e a programação da televisão não lhe agrada, mas todos a sua volta estão rindo, felizes com as porcarias que as emissoras nos empurram, você quer reclamar, mas está cansado e teme mais uma vez ser rejeitado pelos seus ‘semelhantes’, a tevê lhe diz que todo aquele lixo contido nela tem tudo a ver com você e eis o silêncio do inseto e a impressão de parasita em lugar aparentemente saudável. Ou você é empregado de uma loja ou operário de uma fábrica e sabe que mais uma vez as negociações por um salário melhor se arrastarão para um final miserável e melancólico, o sindicato diz que vai quebrar tudo, fazer greve, mas parece não ouvir suas reivindicações, você estranha os sorrisos maliciosos do líder sindical, seus patrões exploram você além do limite, você está cansado e, após várias reuniões em vão, o aumento real de salário não veio e amanhã você retornará ao trabalho, será novamente explorado e o tempo passa, suas condições financeiras são precárias, o sindicato só retornará a discutir sobre o assunto no ano seguinte, nada pode ser feito e você é mais uma vez um sábio inseto – o final da novela estava escrito e você interpretou o seu trágico papel a contragosto, conhecia o roteiro, mas jamais dirigiu as cenas que encena. Ou você é professor, teve os mesmos problemas na negociação por melhores salários, seus alunos muitas vezes não o escutam, seus superiores – estatais ou não – têm uma política de educação da qual você discorda, mas tá imposto nas leis, basta obedecer; homens de terno roubam milhões de sua nação, filósofos de quartos trancados impõem as novas tendências de ensino, os responsáveis nem sempre educam as crianças que crescem irresponsavelmente, a ignorância corre solta e perigosamente armada pelas escolas de seu país e, em rompantes de revolta, os seus alunos o escolherão para descontar todas as raivas que eles sentem do mundo à sua volta e mais uma vez você é um inseto no meio da agitação da sala de aula, da burocracia da escola, da pedagogia do pobre coitado que o oprime e lhe ensina que você sempre será culpado pelo que não fez, você tenta ser o herói que traz esperança ao futuro de todos, mas todos o tratam como apenas um mártir que tenta fazer o que mais ninguém faz, suas patas cada vez mais pequenas como as de uma barata e você está cansado demais, continua tentando, mas, no fundo, no fundo, espera ansiosamente que o dia termine sem tomar mais nenhuma chinelada. Ou você é humano e não gosta nada da humanidade ao seu redor, tenta sobreviver à vontade de cortar os pulsos a cada crime atroz, a cada corrupção revelada e, mesmo cansado, você resiste, afinal as baratas são os últimos seres a serem eliminados do Planeta Terra (caso se rendesse aos desejos suicidas, se tornaria apenas mais um ‘mosquitinho da luz’, um inseto que se atira na própria extinção, algo que lamentamos por uns alguns segundos e limpamos e esquecemos quando suja demais a luminária) e vem a sensação de sufoco diário, o mundo imenso e você tão pequeno, inseto valente encarando o inferno e o sereno, enquanto a vida se torna uma musa cada vez mais linda e inalcançável.



Tudo parece perdido, você se sente um inseto sozinho, mas eis o livro na cabeceira, a arte sempre, Kafka e seu livro “A Metamorfose” sempre a mão, um filme melancólico como o “Desapego”, desesperador, mas com cenas finais que aliviam a atmosfera sufocante, a possibilidade de um grito ouvindo canções como “Quem vai limpar o quarto de Gregor Samsa?”, da banda Dance of Days, a construção de um novo mundo a cada escrito seu, você ainda é um inseto, mas agora rege um mundo que é tão gigante quanto o mundo que o atordoa. Sim, você ainda é um inseto, mas é um inseto que cresce. Com a arte, você é um inseto gigante, Davi derrubando Golias; onde parecia não ter alívio, alguma esperança aconteceu. E Kafka, você e eu sabemos que os insetos ainda podem ser mais gigantes. Por isso que Kafka escrevia; por isso que um amigo consciente não deixou Kafka queimar seus escritos; por isso que Gregor Samsa, o personagem que se transforma em um inseto, vive na eternidade; por isso que você e eu escrevemos; por isso que ainda vivemos; por isso que o mundo, mesmo ferido por tantos conflitos, ainda é meu e seu.       

KAFKA COMIGO

Leitura encerrada, livro fechado,
Janela aberta no quarto da consciência...
Uma barata me mordeu:
Gregor Samsa sou eu!












Um comentário:

  1. Quando paramos de corresponder Às expectativas...
    Quando ficamos diferentes...
    Quandos nos sentimos sozinhos, mesmo entre a família...

    Em muitos momentos, todos somos Gregor Samsa...

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