segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Rita Lee, a Polícia Militar e nós, os errados


Rita Lee errou. “O rock errou” (trocadilho com a palavra “rock’n roll”, colocado como título de uma canção de Lobão, na qual o compositor aponta os diversos problemas mundiais que tal gênero musical enfrentou e não resolveu). As duas afirmações poderiam ser condenadas como um julgamento arrogante ao episódio da briga entre Rita Lee e os policiais militares de Sergipe no último show (de encerramento da carreira) da cantora, que culminou na prisão da eterna musa do rock brasileiro. Poderia ser um julgamento arrogante, mas a atualidade diz que não é.
Com o surgimento da internet e a possibilidade de sermos autores e defensores de nossos próprios pontos de vistas, a realidade dos fatos passou a ser cada vez mais relativa. Podemos alterá-la, fragmentá-la, distorcê-la e contorcê-la à vontade. Vivemos um admirável mundo novo virtual, de possibilidades; a realidade é mera vítima de milhões de pontos de vista que nos permitem sermos incoerentes e inconsequentes com nossas verdades. Assim é fácil condenar Rita Lee, condenar o rock n’ roll, condenar os policiais militares do Estado de Sergipe, condenar a proibição da maconha; é fácil condenar qualquer coisa hoje em dia. E gostamos do que é fácil, sim, nós adoramos condenar tudo sem analisar nada na realidade.
O ato violento dos policiais militares ao revistarem e agredirem o público do evento, em desrespeito aos pedidos e ao show da cantora, é condenável. Então milhões de pessoas condenam e expressam frases moralizantes de ódio, calúnias e insultos aos funcionários do Estado. A agressão verbal de Rita Lee aos policiais foi exagerada e, consequentemente, se torna condenável. Então milhões de pessoas condenam e expressam frases moralizantes de ódio, calúnias e insultos à cantora. Os dois lados pecaram e exageraram nos seus atos; não, para os milhões de pessoas isso não importa. O que importa é defender um lado, um ponto de vista e usar a liberdade de expressão para agredir, esfolar, triturar, massacrar, desrespeitar e impossibilitar a liberdade de expressão do outro.
Esse é o problema e é por isso que digo que Rita Lee errou. Ao dizer aos policiais que o show era dela (“Esse show é meu!”), Rita esqueceu das câmeras, esqueceu do mundo atual, esqueceu que, quando registrado por todos, o show se torna nosso. E todo mundo esquece a importância da artista (destaco a canção “Obrigado não” – tanto a música quanto o clipe -, um hino rock de repúdio aos nossos mais tórridos preconceitos), e todo mundo esquece os homens por trás das fardas, e todo mundo esquece que errar é humano, e todo mundo esquece que é humano pra se tornar juiz onipotente da humanidade. E ninguém respeita a carreira de grandes sucessos e revoluções musicais da Rita Lee, e ninguém respeita as dificuldades de um policial militar, e ninguém nunca faria algo parecido com o que ambos os lados fizeram, e ninguém erra, e ninguém pode tirar o direito de cada um exibir sua estupidez em forma de discurso moralizante. Quando brinco chamando a atualidade de “trevas coloridas” é isso que observo: vivemos na obscuridade de nossas clarezas, usamos e abusamos dos benefícios da diversidade, ocultando a ditadura das individualidades guardada em nossa falta de cor própria.

Rita Lee errou. O rock errou. A polícia militar errou. Todos nós erramos. E Rita Lee foi presa. E o rock foi mais uma vez interrompido. E a polícia militar foi mais uma vez autoritária. E nós, os errados, condenamos os já condenados e não enxergamos a nós mesmos. Somos juízes corruptos impunes a julgar o mundo entre erros e acertos, entre curtir e compartilhar, entre bloquear e retuitar, reinamos absolutos em nossos próprios umbigos, insultando e condenando os umbigos do mundo. 

sábado, 28 de janeiro de 2012

Poema de amor encarcerado: O prisioneiro

Sábado sem sol, chuvinha melancólica pela manhã; hoje posto mais um angustiado poema de amor, publicado em meu quarto livro "O último adeus (ou o primeiro pra sempre)" (2004):

O prisioneiro

Quantas vezes eu ouço ela dizer
Que a noite acabou
O rock'n roll acabou
O álcool evaporou
E bastava apenas dar um aceno de adeus.

Toda vez que aceito seu abraço de compaixão
Imagino uma cerca de arame farpado
Em meus braços
Enrolando e aprisionando
Como uma coleira no pescoço de um cachorro
Cuja dona não gosta de animais de estimação.

Sou sua sombra que não aparece
Pois ela esconde o sol
Sou sua maconha que não vicia
Pois ela não fuma

Nunca ouço ela dizer
Que estou numa prisão
Pois basta um mínimo sinal dela
Pra meu coração abrir uma cela
E mais uma vez me aprisionar...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Poema clássico: Mozart Vagabundo

No dia 27 de janeiro de 1756, nasceu um dos maiores compositores da música clássica, o fantástico Wolfgang Amadeus Mozart. O compositor austríaco foi autor de mais de seiscentas (!!!) obras, muitas delas referenciais na música sinfônica, concertante, operística, coral, pianística e de câmara. Mozart é visto pela crítica especializada como um dos maiores compositores do ocidente, conseguiu conquistar grande prestígio mesmo entre os leigos, e sua imagem se tornou um ícone popular. Devido a esse caráter popular de Mozart, um novo devaneio lírico meu e minha melancolia clássica, ouvindo principalmente "Andante (trecho), do Concerto para Piano e orquestra n.º 13 em dó maior K. 415", executado pela Orquestra do Festival de Lucerna, regida por Rudolf Baumgartner (de um CD promocional da edição n.º 1 da revista Diapason, "em comemorações aos 250 anos de nascimento de Mozart"), um poema veio lentamente se compondo dentro de mim. Assim surgiu o "Mozart vagabundo" (vagabundo, pois entendia pouquíssimo dos meandros da música clássica - estudei um bocado pra criar meu eu lírico maestro). Em homenagem aos 256 anos de nascimento de Mozart, publico o poema que fiz inspirado em suas composições e que chegou a ser premiado com 4.º lugar no Concurso de Poesia Contemporânea 2009, em Santos/SP (na premiação, o poema recebeu um clipe todo especial da Contemporânea, que, em breve, passarei para o youtube e, logo mais, pro blog). Deixo também um vídeo de apresentação da composição que mais me inspirou (não é com a mesma orquestra, nem o mesmo clima de outrora, mas o ritmo que mexe com a partitura de meu coração e o clássico contágio de lirismo são os mesmos):



Mozart vagabundo

Noturno no meu quarto iluminado pela escuridão
A canção persegue minha mente, me cega
A noite com suas luzes negras
                                   Essa lua, nua, tua, sem fronteiras
Apenas curvas, infinitas, infindáveis
                                   Inefáveis curvas, te curvas sobre meu leito
Suíte sutil, sonata insone
                                   Amador Amadeus, meus olhos contemplam
Teu corpo - piano macio
Allegro desejo - música dentro de mim
Mozart vagabundo, meus dedos percorrem
                                               Tuas teclas alvas, róseas, melodiosas
1.º Movimento: boca, pescoço, orelhas, seios
            2.º Movimento: contínuo descendo
              3.º Movimento: oh! doce veneno ah! caixa de Pandora!
De ti escapam todas as notas
                        Que cego tateio na partitura do vento,
                                                                       Na composição da aurora

                                   Dó maior: o sol me acorda
E meus dedos estão inativos, inúteis, vazios...
Concerto em desconserto: meus dedos perdidos
No piano ardente de tristes e solitários
Raios de sol.   


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Sarau Solidões Coletivas in Praia (e agora também in Video)


Praia da Ponta do Francês, Itaipuaçu, Maricá/RJ, Sexta-feira, 20 de janeiro de 2012 - Juliana Guida Maia, Zé Ricardo e eu realizamos o "Sarau Solidões Coletivas in Praia", durante o Narcose Rock Clube #2, Edição Especial Praia do Rock 10 anos, no Bar, Restaurante e Pizzaria do Portuga. A qualidade de som do vídeo não ficou muito boa (no local, o som estava excelente; o problema deve-se devido possivelmente à máquina usada na filmagem), mas serve como registro do sarau em Itaipuaçu. 
Em clima de festa, o evento contou com a participação de artistas alternativos de Itaipuaçu e região e teve um estilo mais underground (o espaço permitia tal ousadia - que o "Sarau Solidões Coletivas in Roça", realizado na semana anterior ao Narcose). É a arte valenciana estendendo seus horizontes pelo Brasil!



Solidões compartilhadas: O avesso de Arthur Leite


Hoje compartilho minhas solidões com mais um grande poetamigo que conheci no grupo do facebook "prana puro" (mais conhecido como "uma espécie de oficina poética do Kareca" - eterno artista plástico de Valença/RJ); hoje quem aceitou o convite de trazer um novo olhar poético para a solidão é Arrthur Leite. Carioca, crescido em Valença/RJ, Arthur declara ser "uma pessoa comum", informação autodescritiva questionável quando nos deparamos com os poemas deste fabuloso escritor. Segundo o autor, o poema compartilhado aqui foi escrito há algum tempo; porém Arthur Leite nos promete novos poemas: "Penso em escrever algo novo mas preciso algum tempo para amadurecer a ideia em mim." Torçamos, leitores, pela continuidade e multiplicação dessas solidões poéticas coletivas:



Avesso

Por que me sinto assim tão alheio, impertinente, avesso
Que lugar poderá me acatar? E o que há não me olho lá
Se não sei o querer de mim, se sou o revés do espelho

Ao mesmo tempo, ir-me querendo, deixar-se ir me virar
Brincando de ser deus, Eu. E brincar de ser um mesmo
Não me cobre posições também não tente me demostrar

Se até Deus sabe que desse jeito vão bem vejo e creio
Que não há verdade que se mostre crua, nua a olhar
Menos pelo avesso, e não me escondam os desejos
Caminhos se inventam, pelos olhos, os meus poros

Mesmo cerrado, o que deixa crescer desvela ensejo
Esse saber que deixa a vida nua a cobrir-se seu colo
Quanto mais se mostra, mais intrincado me entrevejo
Deixo a quem queira encontrar sentido a meu modo

domingo, 22 de janeiro de 2012

Mais um poema ferido contra as pedras no caminho


Após passar por mais alguns equívocos, trapalhadas, armações, omissões, que fazem nós, poeta, sentirmo-nos meio ridículos em nossas armaduras quixotescas, mais um poema surge à beira do precipício. Sim, a Dulcinéia existe e ela não é só um delírio. Deixo aos leitores mais um poema sobre resistir com poemas num mundo anti-lírico, variação de um mesmo tempo e com a mesma insistência que me faz continuar escrevendo neste blog e fazendo/participando de evento – sempre há um olhar carinhoso para um mendigo poeta marginal:

No caminho da poesia, existem muitas pedras sem poesia...
Tento passar ileso por elas, mas quase sempre tropeço nelas
(são tantas pedras não poéticas, meu Deus,
que o rochedo aumenta a cada dia...)
Arranhado em algumas estrofes, sigo minha via crucis,
pois, no final da estrada, sempre há uma dor bonita que me ressuscita,
sempre há um verso salvador pra me curar.

Mesmo que algum lirismo meu se machuque no caminho,
as pedras passageiras sem poesia permanecem estagnadas,
enquanto meus poemas seguem o infinito,
como britadeiras macias que abrem ruas inteiras só com palavras.

Solidões compartilhadas: O mergulho iluminado de Pedro Sol

Hoje compartilho minhas solidões poéticas com um pensamento, originalmente postado no facebook, de Pedro Sol. Conheci esse poeta e pensador teresopolitano, hoje residente no Rio de Janeiro, na rede social facebook e percebi, por suas postagens, que o rapaz possui talento e estilo brilhantes de escrita. Pedi a ele a cessão de um de seus pensamentos para iniciar sua promissora carreira de escritor. Deixo a vocês, leitores, esse pensamento de Pedro Sol; que ele nos ilumine como uma tarde clara e linda de pleno verão:

"Sem medo do que pudesse encontrar, mergulhei dentro de mim mesmo! Fui um pouco mais fundo, pois sei que dentro do ser humano existem atributos que precisam ser lapidados, e vão muito além de valores e virtudes estonteantes que encantam o mundo."  

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Minha Narcose por Amor Violento (um poema na Praia do Rock)


Chegou o dia, leitores! Hoje à noite vai rolar o Sarau Solidões Coletivas na Festa Narcose Rock Clube #2 (Edição Especial Praia do Rock 10 anos), na Praia da Ponta do Francês, em Itaipuaçu, Maricá/RJ. Ao procurar o significado da palavra “narcose”, encontrei, no site do próprio evento, a seguinte informação: "Também conhecida como Embriaguez das Profundezas, a Narcose por Nitrogênio acomete mergulhadores quando estes se encontram a muitos metros de profundidade. Ocorre quando o Gás Nitrogênio passa a ser dissolvido nos tecidos do corpo devido à pressão que aumenta de acordo com a profundidade. Estado de euforia e embriaguez, alucinações, raciocínio lento e, em alguns casos extremos – quando o Oxigênio, de efeito inversamente proporcional ao Nitrogênio, sob pressão acelera a transmissão de impulsos nervosos aos neurônios, pode provocar convulsões e levar o mergulhador a morte por afogamento." Diante de tais definições e inspirado para ‘narcosear’ a galera neste fim de semana, pensei em como seria a ‘Narcose por Amor Violento’ e criei o poema abaixo. Espero que gostem:

Minha Narcose

Eu mergulho...

cada vez mais fundo,
na embriaguez do absurdo,
no sorriso confuso
de minha embriaguez.

Eu mergulho
nos mistérios profundos
do seu oceano sem nome...

e, sem limites, eu afundo
em suas águas arriscadas,
em seu labirinto aquático
de sereias que matam.

Eu mergulho
em você...

e aqui jaz meu orgulho,
entregue a sua correnteza autoritária
que me arrasta
cada vez mais fundo
pra longe da minha altivez.

Narcose neurose...
nada mais faz sentido;
eu me mato sorrindo
pra poder viver em delírio
mergulhado em você!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Solidões compartilhadas: Wilson Fort vivendo a inexorabilidade do tempo

Hoje compartilho minhas solidões poéticas com o poeta valenciano Wilson Fort, mais um artista do riquíssimo universo virtual do grupo do facebook "prana puro". Às vezes irônico, quase sempre implacável em suas críticas, paradoxalmente, Wilson Fort traz um repertório lírico de sensibilidade apurada e de grandes poemas filosóficos. O poema dele que posto no blog hoje fala sobre a efemeridade do tempo e questiona a forma tola como convivemos com isso. Boa leitura!



E vamos tocando
Os dias passam, inexoravelmente
Por vezes tão mergulhados em um assunto
Quando vemos, quanto tempo!

Na vida fundamental é viver
Não há tempo para cálculos
O que somos, somos!
Mesmo quando não achamos.

Sempre é assim!

Mas há quem pense que dirige a própria atuação
E, pior, pensa que todos fazem assim!

E se importam com os títulos,
Com os nomes e sobrenomes
Status e saldos!

Mergulhados neste assunto,
Não vivem, calculam!
Quando vêem, quanto tempo!

O que sou, sou!
Mesmo que você não ache!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Estupros muito além dos Estúdios Projac: Angela II

Enquanto Sônia Abrão e Cia. discutem se houve um caso de estupro ou não entre Daniel e Monique, participantes do Big Brother Brasil 2012, na casa 'armada' dos Estúdios Projac, da Rede Globo, dez mulheres - ignoradas pela mesma mídia que se escandaliza com os casos do BBB - são estupradas no Estado do Rio de Janeiro; triste estatística nacional de 2011 que só tende a crescer diante da impunidade que impera em nosso país. Estupro é essa tevê que penetra em nossos olhos com tanta bobagem e estupidez, ignorando os perigos reais que passamos na selva desumana de nossas cidades. 
Lamento, leitores, o tema do poema de hoje não traz o reality show que as televisões tanto divulgam com fervor; ao contrário, ele fala sobre a realidade triste e urbana de nossas violentas cidades, um poema do meu quarto livro "O último adeus (ou O primeiro pra sempre)" (2004), preocupado com as vítimas reais da violência assassina de tarados e maníacos (como o serial killer Francisco de Assis Pereira, vulgo Maníaco do Parque, que estuprou, torturou e matou pelo menos seis mulheres e atacou outras nove no ano de 1998, enterrando suas vítimas no Parque do Estado, no sul de São Paulo). Dedicado às Angelas, que, diferentes das fotogênicas e midiáticas BBBs Moniques, são vítimas anônimas dos marginais que passeiam impunes por nosso país:


Angela II (A chuva)


Ele te pediu fogo...
Tua mente distraída nem percebeu
Que ele não tinha cigarro: "Não, não fumo"
Então ele tomou de ti...
Teus seios imaculados... agora tão marcados...
Tua mente virgem... agora corrompida...
Confusa... aflita...
Ele não trouxe flores... preferiu destruí-las...
Ele não fez declarações... preferiu arrancá-las de tuas cordas vocais...
Gritos...
O príncipe encantado... assassinado pelas trevas de um plebeu insano...
Teu sonho... estuprado por um fantasma de carne eternizado na sombra de teu desespero...
Silêncio...
E ele está muito decepcionado...
Não pensou que sangrarias tanto...
Estás na lama seca... confundida pela realidade pornô das noites urbanas...
Tuas mãos não tocam mais o chão... 
                    Tua alma sobe aos céus...
                                    livre...
                              triste...
                     retalhada...
               Chuva...
Os anjos choram
Pois não podem mais contar com tua presença pra existirem no mundo real...


- Cada chuva que cai do céu
É uma pureza perdida na terra...

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sarau Solidões Coletivas in Roça (agora in Video)



Clube da Pousada São Manoel (Clube da Dona Odette), Cambota, bairro rural de Valença/RJ, sábado, dia 14 de janeiro de 2012 - Juliana Guida Maia,  o músico Zé Ricardo (em sua primeira incursão solo) e eu organizamos o Sarau Solidões Coletivas  na zona rural de Valença/RJ. O evento teve a participação especial da poeta carioca Rosangela Castro e de Omar Enrique Moreno (Colômbia) e serviu de preparação para o evento "Festa Narcose #2 - Especial Praia do Rock 10 anos", que ocorrerá na Praia da Ponta do Francês, em Itapuaçu, Maricá/RJ, nos dias 20 e 21 de janeiro. O vídeo conta com trechos do sarau-ensaio e foi filmado pelo cinegrafista interativo Rafael Silva Barbosa, meu irmão.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Velhos poemas juvenis: Poema para os covardes

Em 1605, foi publicada em Madri a primeira edição de "Dom Quixote", obra imortal de Miguel de Cervantes. Comemorar essa data especial é lembrar das condições atuais dos que fazem (ou, pelo menos, tentam fazer) alguma forma de arte. Fazer arte no meio da politicagem corrupta e para uma sociedade que incentiva a banalidade é diversas vezes um ato quixotesco e um tanto inquietante. O artista é ridicularizado como um espécime raro e esquisito ou é visto como um insano que necessita urgentemente de internação e reabilitação através da desconsideração e silêncio. Como dizia um poeta pós-moderno, "hoje não adianta mais gritar, pois os ouvidos tem paredes". 
É muito difícil não desanimar de vez em quando, mas uma Dulcinéia incansável resiste na alma dos artistas; há sempre alguém que te lê, há sempre um canto escuro nas margens do rio onde a água deságua cristalina e rica de poesia. Porém essa minoria, muitas vezes, é atropelada, renegada e impunemente ferida pela maioria que rumina. O poema que posto hoje, escrito no auge de minha jovem rebeldia, publicado no meu primeiro - e ainda imaturo, de título incompreendido (era uma ironia às eternas promessas de fim de mundo e à novela global com tal nome) - livro "Fim do fim do mundo" (1997), é uma (des)homenagem a essa massa escrota que transforma justiça em pizza, presença em bolo e ignorância egocêntrica em pastelão altamente consumível. Pra ser lido ao som de "Blues da piedade", de Cazuza:


Poema para os covardes

Ocultou o seu nome do meu livro
Nem notou que já estava nele todo
Em sua capa, em suas páginas
Nas minhas idéias de ideais
Me decepcionou: foi covarde
Não admitiu uma novidade
E, com isso, não aprendeu
Que não adiantar julgar
Novas palavras
Se não entende o seu
Significado.

- Ocultou o seu nome
Mas se esqueceu de também ocultar
A sua tolice. 

domingo, 15 de janeiro de 2012

Poema adulterado: Quando eu ser mais grande

Hoje o Brasil comemora o Dia do Adulto (sim, crianças, essa estúpida data existe! Como se não bastasse toda chatice dessas trevas coloridas de gente podre de madura...). Em (des)comemoração à essa insossa data, posto hoje o poema "Quando eu ser mais grande", publicado em meu quarto livro "Eu e outras Províncias"(2008), que responde àquela pergunta imbecil que todo adulto faz para uma criança: O que você vai ser quando crescer? Um poema idiota para adultos parvos:






Quando eu ser mais grande
(O que você vai ser quando crescer?)

Quando eu ser mais grande
não serei mais como antes
Quando eu ser mais grande
os brinquedos estarão distantes
numa infância esquecida, perdida, estanque
Quando eu ser mais grande
meu egoísmo crescerá como um elefante
Quando eu ser mais grande
serei um bom negociante
tio, tem dinheiro? não, não sou assaltante
mas permita que eu lhe arranque
tudo que tem - já me será o bastante
Quando eu ser mais grande
a ganância será minha amante
Quando eu ser mais grande
serei apenas mais um burguês iniciante
emocionado com a bolsa balbuciante
de valores inconstantes
feliz com a rotina agonizante
de um capitalismo edificante
que me fará ser mais grande

- QUANDO EU SER MAIS GRANDE
serei apenas mais um ex-estudante
com diploma de ignorante
reconhecido pelo MEC.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Solidões compartilhadas: O amor, segundo Isabella Silva

Hoje compartilho minhas solidões com a jovem escritora e blogueira (ela é dona do blog "Registros do coração". Quem quiser ler mais textos desta autora, é só seguir o link: http://registrosdocoraao.blogspot.com/) Isabella Silva. Ela é mais um dos grandes talentos que encontrei na E. M. Alcino Francisco da Silva, escola da zona rural de Teresópolis/RJ, onde leciono. Desde a primeira redação, Isabella destacou-se e mostrou um estilo próprio e seguro de escrever. Em conversas virtuais (afinal, estamos de férias das aulas), ela topou o desafio de produzir uma crônica para o meu blog. Usando paradoxos (explicando: paradoxo é a figura de linguagem que usamos para construir contradições. Ex.: anjo mau - dar a qualidade de mau para um anjo é um paradoxo, pois o anjo nos lembra coisas boas.), Isabella Silva nos descreve a sua visão do "estranho conhecido" sentimento chamado amor. Confiram o estilo apurado desta sensível e talentosa escritora:


Uma estranha aliança chamada AMOR!!!

Amor... Já ouviu falar em algo mais complicado?! Se já ...parabéns!! Você é o primeiro a conseguir entender esse estranho sentimento.
Muitas das vezes o amor começa sem que percebamos, pois ele é silencioso, e agiu..ele consegue fazer coisas que no começo pode até não ter sentido, mais acredite: no meio fará muito menos do que você possa imaginar...
Mesmo sem fazer sentido, o amor nos envolve, nos contagia,  nos faz perceber lados da  vida que antes dele não fazíamos idéia que existiam... Pois é, esse louco e lúcido, amargo como o limão, mais doce que o mel, esse estranho e mais conhecido sentimento,  nos deixa de cabeça pra baixo, mas ao mesmo tempo... nos dá aquilo de que nós precisamos...
A maioria das vezes,o amor chega e ajuda,.. mas o que fazer quando ele nos confunde?! Pra falar a verdade , o amor não nos confunde, o que nos confunde é a vontade de experimentar esse sentimento de qualquer maneira, em qualquer pessoa....
 PARE COM ISSO! O AMOR NÃO É UM BRINQUEDO!
O amor foi feito para unir pessoas, para fazer nascer laços, alianças de um único sentimento!!! Mas parece que certos corações precisam quebrar para saber o verdadeiro sentido da palavra "dor"...
Nesse mundo, não há quem saiba explicar o que é o amor. Mas de uma coisa podemos ter certeza: ele não veio aos nossos corações à passeio; ele veio para fazer com que aqueles que não sabem o sentido da vida possam ter uma razão para viver... ALGUÉM PARA AMAR!!!! 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Clipoema: Tenha dó

Posto hoje um clipe do poema “Tenha dó”, do quinto livro “Eu e outras províncias” (2008), de minha autoria. Animado no estilo stop motion a partir de fotos tiradas por Juliana Guida Maia, o clipe foi produzido e protagonizado pelo próprio poeta Carlos Brunno S. Barbosa, quando este visitava São Pedro da Serra, distrito de Nova Friburgo. O poema brinca com a sensação melancólica meio bossa nova que quase todo poeta passa em sua trajetória lírica. Abaixo do vídeo, está o (micro)poema inspirador.



Tenha dó

Meu coração é um violão de uma corda só.
Não tem ré, não tem si - só tem dó, tem dó de mim.
E ele toca assim: dó, dó, dói, down em mim...

Solidões compartilhadas: A solidão no sereno dos olhos de Fátima Machado


Hoje compartilho minhas solidões poéticas com a professora e amiga teresopolitana Maria de Fátima Pereira Machado. Após muita insistência minha (imenso lirismo não deveria ficar escondido nas gavetas do esquecimento), Maria de Fátima aceitou ceder um de seus poemas ocultos em seu armário lírico. Nesses tempos chuvosos, a escritora declara que traz dentro de si “poemas em gotas” e busca transmitir a todos alguma mensagem de solidariedade e esperança. 
Em sua estréia no blog, Maria de Fátima nos traz uma solidão pouco explorada ainda nessa seção: a solidão do outro, a solidão daqueles que vivem ao relento e precisam de nosso apoio, um grito sussurrado, um apelo para que nos tornemos mais humanos e menos egocêntricos, um poema para ler e pensar:    

Amigo, que fazes aí no sereno?
Não tens lar por isso fazes da rua tua casa?
A calçada-cama é desconfortável
Mas convidativa depois do trago fatal que te jogou aí...
O vento te nina.
Dormes encolhido como se tivesses medo de roubarem teu sono...
ùnica coisa que tens.
Os homens bem vestidos não te admiram... te criticam
Não querem saber que tu és ser humano,
necessitando só de um apoio para te levantar.
Só hoje, amigo, pensei em ti demais.
Te tornando poesia integrante de uma vida que é minha,
mas é muito mais tua.
Eu falo de dor
E tua vida é uma ferida mal curada
que só uma gota de remédio pode sarar:
A compreensão...
Coitado de ti, amigo!


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Poemas nocivos: Parabéns, Mickey Mouse!


Hoje descobri que Mickey, a grande criação que tirou o desenhista estadunidense Walt Disney da miséria absoluta para o império milionário da Disneylândia, fez 84 anos. E assim como Walt Disney ascendeu a um dos mais altos reinados da animação, os Estados Unidos também se tornaram uma potência mundial a ser constantemente e desastrosamente imitada pelo nosso soberano Brasil. Graças a essa submissão ao império norte-americano, hoje somos considerados a sexta maior potência econômica do mundo, apesar de todas as mazelas que assolam nossa terra gentil. 
Lembrei-me também que hoje é aniversário de meu amigo Teco, que adorava cantarolar a música “I started a joke”, da banda inglesa Bee Gees (depois, regravada pela banda Faith No More), cuja tradução dos versos iniciais é mais ou menos isso: “Eu comecei uma piada / Que fez o mundo inteiro chorar / Mas eu não vi / Que a piada era sobre mim”. Descobri que a canção favorita de meu amigo fez parte da trilha sonora da novela “Beto Rockfeller” (exibida de novembro de 1968 a novembro de 1969), de Cassiano Gabus Mendes, produzida pela extinta TV Tupi (nome mais brasileiro para uma emissora impossível rs), cujo personagem principal era um charmoso representante da classe média baixa que se fazia passar por milionário para penetrar na alta sociedade paulista. 
Pensando no império da Disneylândia, em Beto Rockfeller e na grande brincadeira internacional de tratar o Brasil como um país emergente e super-desenvolvido, deixando de levar em conta os alarmantes índices de pobreza, corrupção, desigualdade social e desvalorização dos profissionais da educação de nossa infame mãe gentil, fiz uma meio paródia com a música “I started a joke”, dos Bee Gees. Eis meu poema-piada-sem-graça em descomemoração aos 84 anos do simpático e milionário camundongo estadunidense Mickey Mouse, dedicado a todos os donos do poder, que continuam irreverentes com suas podres piadas governamentais:

Saudações emergentes ao velho amigo 
podre de rico Mickey Mouse
(ou Eu fiz uma piada muito sem graça)  

Mickey, eu fiz uma brincadeira contigo
e você levou a sério,
fingiu ser meu amigo
e agora a piada sou eu.

Ah, Mickey, eu era só um fanfarrão
e você politicamente correto,
conhecedor do mundo inteiro,
entrei pra sua galera
e agora todo mundo me trata bem,
tenho tantos amigos falsos quanto você.

É, Mickey, você está envelhecendo
e perdendo a graça,
mas continuam os mesmo tapinhas nas costas,
o mesmo jeito estúpido de ser
e eu sigo seus passos;
sou tão rato quanto você.

Mickey, eu sempre fui seu amigo,
enriquecendo em seu lixo,
imitando você
e todos me acham bonito,
então escondo meus podres como você.

Sim, Mickey, eu fui brincar contigo
e caí na sua ratoeira de ambição e prazer.
Nossos falsos amigos me felicitam:
“que lindo camundongo rico fizeram de você!”

Mickey, eu fiz uma piada comigo mesmo
e todo mundo gostou, inclusive você,
sou seu novo rato emergente,
irreverente e nocivo,
desenvolvido e fingido,
podre de rico,
roendo seus queijos corrompidos
sem convencer;
a mais nova piada dos buracos estreitos
de seu podre poder!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Poema embaralhado: Rosana

O verão de 2012 varia entre calores extremos e grandes tempestades, sorrisos de sol e céus cinzas. Diante da variabilidade do tempo, uma opção de muitos que possuem férias em janeiro e nem sempre possuem capital pra viajarem e gastarem a todo momento - ou seja, não possuem verbas públicas políticas para desviarem e fazerem uma caderneta de poupança no exterior - são os jogos virtuais e/ou entre amigos. Entre um dos maiores vícios dos jogadores em férias ociosas está o jogo de baralho (buraco, bisca, mau-mau, etc), do qual sou adepto, exageradamente adepto, tanto que fiz um poema em homenagem ao carteado, seu ritual de perdas e danos e a uma amiga virtual e grande parceira de buraco que conheci virtualmente (o nome dela é Rosana e jogar com ela é vitória quase garantida - não recomendo a aficionados por vitórias que joguem contra ela, a menos que queiram conhecer o doce fel da derrota rs). Para os fãs de baralho desse início de velho ano novo, para os amadores e experts dos jogos que a vida nos dá, um poema inédito com velhos temas:


Rosana



Amo a madrugada, porque nela encontro você
brilhante, geniosa e ousada,
jogando sobre a mesa as cartas marcadas
de um jogo que só você sabe fazer.
Os astros se perdem no céu extenso
enquanto meus olhos devoram a silhueta sutil
de seus seios no vestido preto (perco meu senso
estratégico, me perco em delírios, estou febril...
uma lua se esconde nos seus trajes noturnos,
é dama da noite com seu baralho sedutor
cheio de canastras sem pudor).
Perder ou vencer... meus olhos soturnos
já não veem as possíveis jogadas,
é a dona do jogo, perco mais uma rodada
pra você...
Então virá outro jogo, você voltará à mesa,
dona da triunfante beleza,
você virá e mais uma vez irei perder...
me perder... mais uma vez...
me perder em você!...

domingo, 8 de janeiro de 2012

Poema em retratos: Álbum de família

Hoje é o Dia Nacional da Fotografia e do Fotógrafo. Em homenagem a isso, posto o poema "Álbum de família", publicado em meu quarto livro "O último adeus (ou O primeiro pra sempre)" (2004). O texto homenageia aquele antigo artefato (hoje quase sempre as fotos são colocadas em efêmeros álbuns virtuais; poucos ainda cultuam a prática de colocá-las em álbuns), que, em nossa adolescência, morríamos de vergonha quando nossos pais e avós cismavam de mostrá-los às visitas e que, em nossa fase adulto, olhamos com certa nostalgia, morrendo de saudades das auroras de nossas vidas. Dedico esse poema a todos os fotógrafos, profissionais ou amadores - incluindo aquele tio pentelho que sempre pede pra tirar uma fotinha em toda reunião de família -, que dedicam-se a registrar em uma imagem aquilo que não conseguiríamos descrever em mil palavras.



Álbum de família



Eu vi os olhos maternos derramarem lágrimas felizes
ao sentirem o milagre da vida se concretizar
após nove meses de espera.


Eu vi as palavras nascerem dos lábios imaturos
como flores que só se abrem quando sentem
o sorriso incomum da primavera.



Eu vi os livros humanos cuidarem dos olhos estudantis
com apenas um giz, um quadro negro e um objetivo:
educar os sonhos de seus aprendizes.



Eu vi o batom vermelho engolir a boca da timidez efêmera
acelerando promessas que não poderiam ser cumpridas
nascendo do primeiro amor a primeira mentira.



Eu vi anjos urbanos queimarem suas frágeis asas
pra se entregarem aos prazeres ilusórios
dos vícios capitais.



Eu vi demônios se regenerarem dos males que fizeram
ao julgarem que o mundo giraria
em torno de nossos egocêntricos desejos.



E agora eu não vejo mais
(uma poeira do tempo cai sobre meus olhos
cada vez que chego na última página do álbum de família).



sábado, 7 de janeiro de 2012

Poemas ardentes: O mapa astral do diabo feliz

Verão, dias quentes, despertar de calores, posto hoje um poema ardente, publicado originalmente no meu quinto livro "Eu e outras Províncias" (2008):



O mapa astral do diabo feliz
(Sonho eroxótico)


Li no mapa astral do diabo da maçã
Que o meu futuro estaria na intimidade de teu corpo
E, mesmo no meio da neblina, eu ainda verei
A cigana das terceiras intenções sorrir
Ao prever que o vento do meu inverno
Será regado por chuvas quentes de verão
E nosso deus dormirá no céu de nossas bocas
Enquanto minha serpente rastejará no teu Éden.

Li no mapa astral da paixão ardente
Que o Cupido acertaria tuas partes íntimas
E, no infinito do outro lado do sono, encontrarei
O mais concreto dos sonhos
E os poetas proibidos cantarão livres
Em nossas cordas vocais.

- Quando a intimidade de teu corpo voltar
Ao calor de meus lençóis sem pudor
Eu terei a ti
Eu terei prazer!