domingo, 31 de julho de 2011

(Di)versões Históricas

1, 2, 3... Parabéns pra você!
O aniversário do punk

            A história do punk é controversa e fulminante como kennedys mortos numa cidade qualquer dos Estados Unidos. É violento e sensual como uma pistola sexual apontada para a rainha da Inglaterra. É disfarçado e cínico, está para o rock como Ramone (sobrenome falso usado pelo ex-beatle Paul em registros de hospedagem) está para MCartney. É rejeitado como garotos podres e ratos em cólera no porão das fábricas paulistas. É proibido como abortos elétricos em robôs da plebe rude de Brasília. São camisas de vênus jogadas em becos escuros do pelourinho da Bahia. Neste mês, o punk faz aniversário e sopra as velinhas sobre um bolo cada vez menor, vive dias verdes, chora lágrimas de nirvana e festeja com seus convidados anos de desequilíbrios na corda bamba da sociedade que ridiculariza a anarquia e o comportamento humano, natural e selvagem oculto nas caixas consumistas da massificação. Países e mídias chutam o punk como um filho bastardo, jogam-no por debaixo da mesa como comida indigesta, uma feijoada acidente, mas o punk rasteja nas bocas dos cães vira-latas, à outra margem do rio Ipiranga, onde ninguém samba, onde todos odeiam o país que originou John Travolta.
            O punk nunca foi tão homogêneo e consciente (vide “Botinada – A história do punk no Brasil”, excelente documentário sobre o movimento punk – principalmente paulista – em terras tupiniquins) quanto deliram alguns saudosistas de botina, nem foi tão violento e criminoso quanto as mídias direitistas gostam de registrá-lo e lembrá-lo. Por sinal, seu aniversário foi injustamente comemorado pelos meios de comunicação como algo remoto que mal deve ser lembrado. O “faça você mesmo”, profetizado pelo punk, prevalece nas zonas alternativas da internet e nos subterrâneos daqueles que rejeitam a hipócrita (des)ordem mundial e cresce, feroz e agressivo, na falta de submissão dos anti-heróis sem voz. O punk, por mais que seja negado pelos moralistas da sala de estar elitista, marcou sua existência debaixo dos tapetes empoeirados, lançou poeira sobre a História fingidamente ‘clean’ e derramou seus olhos secos sobre as frutas agrotóxicas do paraíso inexistente. “Punk is not dead!”, gritaria mais uma vez Cahit, protagonista do feroz filme alemão “Contra a parede”. O punk mostra seu sorriso, apesar dos dentes podres, e sopra as velinhas de seu bolo sujo como se atirasse merda no ventilador da humanidade. O mau cheiro que vem do ralo não é do punk, vem de nós mesmos, o punk pode cantar, sem remorsos ou ilusões, “1,2, 3... parabéns e fodam-se vocês!”, porque, mesmo vencido, o punk não perdeu.   

sábado, 30 de julho de 2011

George Harrison e eu em "Outra manhã de sol"

Essa é minha (sub) versão para a canção "Here comes the sun". Usei da ironia no hit beatleaniano, composto por George Harrison e gravada em 1969, para contextualizar com a nossa época e com o que acontecia no Brasil sob domínio ditatorial. Pode parecer subversiva a minha versão, afinal George fez uma belíssima canção simples e alegre sem grandes pretensões, mas acho que o compositor perdoará minha ousadia, pois ele sempre foi amigo de revoluções artísticas:


Outra manhã de sol


É outra manhã de sol,
É outro amanhã sem sal,
E eu me pergunto:
O calor ainda vem?

Vermelha estrelinha,
A comida está congelada e bastante cara.
Vermelha estrelinha,
Parece que foram anos-luz desde que esteve aqui
E o feijão está sem sal,
E é outra esta manhã de sol,
E o mendigo finge
Que está tudo bem.

Vermelha estrelinha,
Os sorrisos amordaçaram os rostos.
Vermelha estrelinha,
Parece que foram anos-luz desde que esteve aqui
E há outro sol
E o mesmo mal
E os tristes dizem
Que estão sorrindo também.

Sol, sol, sol, quem te escondeu tão bem?
Sal, sal, sal, quem ainda tem?
Mal, mal, mal, você ainda vem?
Sol, sol, sol, está tudo bem?
Sal, sal, sal, quem sorri tão bem?

Vermelha estrelinha,
As trevas se coloriram plenamente.
Vermelha estrelinha,
Parece que foram anos-luz desde que partiu
E esse outro sol,
Esse velho mal,
E os Estados Unidos dizem
Que está tudo bem
E eles comem o sal
E é outra manhã de sol
E tudo é ninguém
It’s all right...

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Verse essa canção: Quando a música toca e o poeta retoca

Nosso "Impossível"*




Tudo bem
Quando termina bem

Os seus olhos
E os seus olhos
Não estão rasos d'água
Mas eu sei que no coração
Ficaram muitas palavras
Um vocabulário inteiro
De ilusão...

Imagino você chegando, após algum tempo, com os olhos falsamente secos, dizendo-me em silêncio que está bem. E a verei sorrir como um louco ri de uma piada inaudível, como um tolo espera o espetáculo do palhaço inexistente. E seu sorriso rasgará em lágrimas invisíveis.


Tudo que viceja
Também pode agonizar
E perder seu brilho
Em poucas semanas
E não podemos evitar
Que a vida trabalhe
Com o seu relógio invisível
Tirando o tempo de tudo
Que é perecível...

O relógio exibirá os seus ponteiros lentos, determinando o tempo ágil e feroz. A vida, que não para, estampará em seus olhos as marcas das perdas que não passam. E o que ontem parecia tão vivo novamente estará perdido... pra sempre!

Oh, oh, oh!
É impossível, é impossível
Esquecer você
É impossível
Esquecer o que vivi
É impossível
Esquecer, o que senti...

Sim, ele está em você, que finge sorrir. Olhe, ele está passando do seu lado, está brincando nos braços cruzados que você finge esconder. O sol queima e se esconde, as sombras nos beijam, o crepúsculo procura você e é impossível não ver o que não mais se vê em você...

Tudo que morre
Fica vivo na lembrança
Como é difícil viver
Carregando um cemitério na cabeça
Mas antes que eu me esqueça
Antes que tudo se acabe
Eu preciso

Eu preciso, dizer a verdade...

E, morto, ele viverá em seus olhos que brilham para não chorar. As flores no cemitério germinarão nos jardins que você rega no campo imenso de seu quintal interior e você me falará muito sem nada dizer.

É impossível, é impossível
Esquecer você
É impossível
Esquecer o que vivi
É impossível
Esquecer, o que senti...
É impossível...
É impossível, é impossível
Esquecer você
É impossível
Esquecer o que vivi
É impossível
Esquecer, o que senti...

E a saudade dele estará em você e se repetirá em mim e em mim viverá você sem ele.

Tudo que morre
Fica vivo na lembrança
Como é difícil viver
Carregando um cemitério na cabeça
Mas antes que eu me esqueça

Antes que eu me esqueça
Antes que tudo se acabe
Eu preciso
Eu preciso, dizer a verdade...

E não esconderei que vejo você triste, porque a tristeza estará em mim também e o céu da boca terá o nome dele em todos nós, em todos nós da garganta, que, rouca, gritará o nosso silêncio.

Oh, Oh!
É impossível, é impossível
Esquecer você
É impossível
Esquecer o que vivi

É impossível
Esquecer, o que senti...
É impossível...
É impossível, é impossível
Esquecer você
É impossível
Esquecer o que vivi
É impossível
Esquecer, o que senti...

E a morte estará viva em cada lembrança e a tristeza irá sorrir em mim, em você, como um pesadelo bonito que demora a desaparecer.

*"Impossível" é uma canção da banda Biquíni Cavadão (Composição: Álvaro, Bruno, Sheik, Miguel, Coelho). 

quinta-feira, 28 de julho de 2011

ARTITUDE

Valença, 27/07/11, tarde de quarta-feira - Mais uma vez, os professores em greve da rede estadual de Valença protestaram, dando uma aula pública sobre as mazelas do governo Cabral, declamando poemas, simulando teatralmente conselhos de classe, fazendo arte e protesto. Participação especial minha, declamando o poema inédito "O poema em greve de cada dia":



O poema em greve de cada dia


Meu poema está em greve
Mal educado
Mal remunerado
Corrompido
Esfacelado
Meu poema está em greve

E as autoridades da prosa fácil
Das lábias falácias
Dirão que versos em greve
Não são versos
Alguém sem lirismo dirá
Que a minha greve é démodé

E responderei que meu verso em greve
É tão démodé quanto a injustiça armada
De cada Estado
Tão démodé quanto a calamidade pública
Do poder
Tão démodé quanto os olhos secos de sonhos
De uma nação
E direi que o Estado não tem estado por aqui
E direi que o poder não pode comigo
E direi que a nação não existe nesse país
Como versos que se ausentam de um poema
Que não fiz.

Meu poema está em greve
Porque a vida prometida não é cumprida
E o verso calado que me grita
É o ar negado que os falsos fingem dar

Por favor, passantes impassíveis,
Olhem o poema que não fiz,
Ouçam o ritmo que não há,
Por favor, respirem a nossa falta de ar
Pra retomarem a vida que outros insistem
Em nos sufocar! 

Poema ecológico: Ensaio sobre a cegueira das árvores

Em homenagem ao Dia da Conservação da Natureza, posto o poema "Ensaio sobre a cegueira das árvores", de minha autoria, 1.º lugar no 4.º Concurso de Poesia do Espaço Cultural de São Pedro da Serra, em Nova Friburgo/RJ:


Ensaio sobre a cegueira das árvores

Te vi sonhando no colo de tua mãe.
Era outono e minhas folhas caíam
sobre teu rosto...

Jamais vi natureza tão linda...

Te vi brincando com teu amigo invisível.
Era inverno e tuas pedras frias feriam
meus frutos...

Jamais vi violência tão ingênua...

Te vi declamando o amor impossível.
Era primavera e meu tronco sentia
a tua faca aflita...

Jamais vi ferimento tão infinito...

Te vi desejando urbanas maçãs.
Era verão e teus toques secretos excitavam
minhas raízes...

Jamais vi sementes tão frutíferas...

Hoje vejo teu filho crescido
sem estações, sem tempo, sem bom dia.
O machado feroz caleja suas mãos
que se aproximam...

Amanhã serei lápis, papel, poesia
brotando para sempre ser lida:
“Adeus, amor...
Até outra vida!” 

George Harrison e eu: A resposta do azul

Poema "A resposta do azul", de minha autoria, em homenagem a "For you blue", composição de George Harrison nos Beatles. A canção foi o single número 1 em 1970:


A resposta do azul

 

Porque teu dom é sutil e iluminado, eu te levo.
Porque teu tom é suave e agradável,eu te elevo ao meu anil.
Eu te levo como jamais levei qualquer outro humano.
Eu desejo teu som no sereno da manhã, eu te amo.
Eu desejo teu som feliz em minha chuva triste,
Eu te revivo na eternidade do sol de teu som febril.

(Go, George, go!)

Eu te amo desde a primeira vez que te ouvi,
Tu me tocaste, e agora eu toco em ti,
Eu sinto muito e espero que todos te sintam muito também.
Porque teu fim é frágil e trágico, eu te levo.
Porque teu som é ágil e mágico, és parte de mim,
Eu te elevo como jamais elevei qualquer outro anjo.
Eu realmente te amo.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Ao vivo: "O último adeus (ou o primeiro pra sempre)"

Poema que dá o nome ao meu quarto livro "O último adeus (ou o primeiro pra sempre)", declamado no dia 19 de fevereiro de 2011, no Rock Solidário, evento em prol das vítimas das chuvas da região serrana.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Poema in memoriam pra minha vó Geralda

No dia dos avós, posto o poema que fiz em homenagem a minha avó Geralda, in memoriam, publicado originalmente no meu quarto livro "Último adeus (ou O primeiro pra sempre"), de 2004:

Rosas-poemas


Lhe trouxe uma rosa... rosa
Como os galãs dos filmes antigos... atemporais
Levavam as rosas em preto e branco
Em busca dos eternos finais felizes
Antes do apagar das luzes
Após a última sessão do Cine Glória
É inglorioso este 'The End'
É o fim... é eterno... é temporário
É necessário... Deus, fazei-me entender que é necessário...
E eu?... só?... Eu só... só quero reviver...
Sim... eu quero!
Rever o Botafogo de Mané Garrincha
Ter orgulho do Glorioso apesar de ser vascaíno
Reerguer o Casarão, o Solar dos Nogueira
Recontar a sua infância
Esquecer as cinzas
Refazer-me do presente
Reconhecer seu passado
Eu quero reviver você
Geralda, tolos todos poetas são ignorantes
Por desconhecerem a riqueza sonora de seu nome
Todos tolos poetas! Tantos poemas pras mães
E nenhum pra vó... A vó-
cação, a voz canção, a vó
A voz... que agora só conta histórias no silêncio
Em meu coração...
Sei que meu lirismo não ergue estrelas
Mas - Deus, entendei - levastes de mim uma constelação
Eu preciso escrever estes versos
Ainda que fragmentos desta estrofe única
Maltratem meu sorriso
Serei feliz com a poesia completa
Apesar de incompleto sem a musa inspiradora.
Estou aprendendo a ser menos egoísta
Por isso, Deus, deixo-Vos minha vó
Com minha voz sem mágoa:
"Que ela multiplique seus netos
No Vosso rebanho celeste"
Mas peço-Vos: deixai que leve a rosa rosa...
Como Elisa Marina rima com Continuidade
Minha vó só versifica com pétalas
Deixai as rosas rosas-poemas de minha vó Geralda
Desabrocharem na Eternidade!


Lamento a demora em enviar essa nova postagem, mas estava visitando minha outra avó Irene e meu avô Fernando, pois é preciso velar e sempre relembrar os mortos (para que os mantenhamos vivos em nós), porém é importante também sempre cuidarmos dos vivos, abraçá-los e manter os sonhos e o amor daqueles que ficaram.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Meu poema inédito bukowskiano

O poema abaixo, ainda inédito em livros, foi composto por mim, após uma tarde na rodoviária de Teresópolis, em meio a encontros desencontros com uma estranha, entre leituras de poemas do livro “O amor é um cão dos diabos”, de Charles Bukowski (por sinal, imitei o estilo do mestre):

Livro que me inspirou a fazer o poema.
Quanto a musa que o inspirou, terão que usar
a imaginação de vocês.
Eu vi um poema de Bukowski

hoje eu vi um poema
de Bukowski
caminhando pela rodoviária
eu esperava meu ônibus
e ela o dela
infinitamente doida
infinitamente esguia
ela era o poema mais louco
lírico
e lascivo
de Charles Bukowski

cuidado senhoras moralistas
porque ela para todo mundo
ela fuma
ela é louca
ela grita
conta retalhos imaginários
de uma vida impossível
foi advogada
agora é cineasta
exibe as marcas furiosas
de seu namorado invisível
e ciumento
e intensa arrebata meus ouvidos
com relatos maliciosos
de saudosos sadomasoquismos
de outros tempos
o marido passado invencível
enfurece o namorado ausente
ela expõe suas feridas
com closes amadores
a imagem dói
mas ela sorri

horrível
mentirosa
orgulhosa
louca inatingível
é agora a estrela
das paradas de ônibus
veículos chegam
veículos partem
veículos vêm e vão
e ela permanece
pinta suas unhas
na área de fumantes
não é prostituta
não quer amantes
fala comigo
como se conversasse com o vento
ou consigo mesma
ela grita
ela é louca
ela respira furiosamente
na rodoviária ela é um avião
em turbulência
que sobrevoa mitos
de uma vida inexistente
feia e desengonçada
é a garota mais linda da rodoviária
vai viajar
vai sumir
vai fugir
de tudo
assim como foge de si

ela diz adeus
mas permanece
seu nome hoje é Taís Gonçalves
amanhã ninguém sabe
(talvez apenas o saiba o velho Charlie
aquele velho safado)
ela está de partida
e ninguém a viu chegar
ela está de partida
pra nenhum lugar
ela é sempre
nunca mais
um poema perdido
de Bukowski
ela é a feia mais linda
da rodoviária
um poema vivo
de meu amigo falecido
lá se vai desequilibrada
infinita e inconstante
lá se vai um poema de Bukowski
louca e arrogante
ela se vai
perdida e deslumbrante
lá se vai
adeus!

In memoriam: Delírios líricos com Bukowski

Segunda-feira cinza tem cara de Bukowski

Segunda-feira cinza... Este céu nublado, este ar preguiçoso de férias escolares me lembra poemas de Charles Bukowski – um poeta recomendado para leitores adultos e quase proibido em círculos de leituras estudantis (um livro de contos dele “A mulher mais linda da cidade e outras histórias” – o conto-título é fabuloso! – foi recolhido pela Secretaria Estadual de Educação de São Paulo após protestos de pais evangélicos [quem diria, o livro Fahrenheit 451 tinha razão: a censura aos livros aos poucos retorna ao nosso mundo ‘livre e moderno’]). Alguns me dirão que os poemas do velho Buck – como ele às vezes é intimamente chamado – não são poemas, e sim prosa em verso; não discutirei formatos e estilos – como diria o próprio poeta, ‘estou cagando pra isso’ -, sendo poemas autênticos ou não, seus textos estão impregnados de um lirismo cinza, ressaqueado e doloroso como essa segunda-feira de julho, cheia de expectativas frustradas e sonhos mal dormidos. O velho e safado Buck, seja em prosa ou poema, bêbado ou de ressaca, está neste céu de segunda-feira, eu sei, eu vi!

Francos-fragmentos-atiradores
Eis um poema do velho Charles Bukowski, traduzido por Manoel A. Domingos, encontrável no excelente blog http://oamorumcodoinferno.blogspot.com/:

verdade


uma das melhores passagens de Lorca
é
“agonia, sempre
agonia…”
lembra-te disso quando
matares
uma barata ou
pegares numa lâmina para
fazer a barba
ou acordares de manhã
para
enfrentar o
sol.

domingo, 24 de julho de 2011

Clipoema: "Escravilizado", com o cachorro Tortinho (in memoriam)

Meu poema "Escravilizado", do meu terceiro livro (“¿NOTE OR NOT SER?”), com participação do falecido cachorro Tortinho. Última e única interpretação magistral desse cão vira-latas que me acompanhava nas caminhadas noturnas, com suas revoltas sem causa e seu coração nobre e carente.

Cena de Cinema: Olhares sobre a sétima arte

(E) ternas “Canções de Amor”

     As canções de amor têm ritmo de coração batendo apressado, desesperado. Canções de amor são enganosamente apáticas pela melancólica e complicada matemática de, sendo únicos, tentarmos ser mais que um só. Canções de amor são pegajosas, nos pegam cantando refrões melosos no meio da rua, alheios aos movimentos das grandes e pequenas cidades. Canções de amor trazem o lirismo piegas e angustiado da eterna busca por um sonho ininteligível, um eu perdido em busca de outros eus solidários à solidão. São todas essas (con) tradições das músicas de amor que o diretor francês Christophe Honoré nos traz em seu quinto filme "As Canções de Amor" (Les Chansons d'Amour).
Dividido em três atos - a partida, a ausência e o recomeço -, "As Canções de Amor" (2007) começa por se centrar num triângulo amoroso que é destruído pela súbita morte de um dos jovens que o constitui. O filme segue depois as reações dos outros dois, em especial as de Ismael (Louis Garrel), que ao tentar reconstruir a sua vida inicia vários relacionamentos sem superar, no entanto, a tragédia recente. Interessante destacar que esse enredo é entremeado de belíssimas canções (como o próprio título nos informa, o filme fala de “Canções de Amor”), criando um ótimo musical, gênero cinematográfico incomum para nossos olhos (e ouvidos) desacostumados a leituras requintadamente líricas em uma narrativa comum de amor. Sim, o filme é um musical, mas não se deixe enganar, caro leitor, não ironize o gênero – vulgarmente considerado chato, esquisito, entre outros negativos adjetivos -, pois o tom do filme é poético e sério, como aquelas canções de amor que perseguem nossa mente e nos fazem soluçar, rir, vibrar por dentro e principalmente nos gera aquela vontade desesperada de buscar a pessoa amada, que está próxima e, ao mesmo tempo, tão longe de nós mesmos.
O filme de Honoré nos traz todos os aspectos do amor (o encontro, a perda, o reencontro) em todas as suas formas e estados: o amor familiar, o amor sexual, o amor fetichista, o amor obsessivo, o amor grupal (mais especificamente um ménage a tróis), o amor inconstante o amor heterossexual, o amor piegas, o amor lírico, o amor homossexual – de colocar o apático norte-americano “Segredo de Brokeback Mountain no chinelo, o amor cinéfilo – a partir das referências a cenas de outros filmes, de cineastas como Godard e Truffaut, enfim, o amor Amor, em seu estado puro e lírico. Selecionado em Cannes, o filme “As Canções de Amor” comprova, em luz, câmera, música, ritmo e paixão, que o festival francês de filmes mais uma vez não errou, pois Honoré recoloca, nas telas de cinema, o sentimento maior do ser humano em seu devido papel: o de protagonista. Um filme pra ser visto e, principalmente, ouvido.

Densos Diálogos

“Então queima!
Queima no momento em que se envolve na minha grande cama de gelo
A minha cama como um bloco de gelo que derrete quando você me entrelaça
E mais nada é triste
E mais nada é grave
Se tenho...
O teu corpo como uma torrente de lava
A minha memória suja neste rio de lama
Lava!”
(Tradução de fragmento da canção ‘Ma Mémoire Sale”, cantada por Ismael - quando este reencontra o amor com  Erwann)

Pensamentos amigos: versos de outros eus que carrego comigo II

"Você me pergunta se meu amor vai crescer
Eu não sei, eu não sei
Fique por perto e você verá
Eu não sei, eu não sei"
(George Harrison, tradução de fragmento de "Something")

George Harrison e eu: No bar (parte 1)

No bar (parte 1)

Foi um pouco depois de eu deixar Lúcia com seus céus de diamantes e seu orgulho hostil que comecei a me ver sem rumo. Logo após, nova mudança: Júlia, minha velha amiga, partiu pra longe e, se houve algum gesto de amor platônico em nossa despedida, a geografia da distância agora mapeia continentes de esquecimentos. Dois dias depois, vi Jude chorando copiosamente, disse-me que aceitou Deus Pai Todo Poderoso e que eu devia aceitá-lo também, antes que fosse tarde demais. É, amigos, o sonho acabou... Agora bebo sozinho, sabendo que nunca transcendemos, que nunca inventamos nenhum submarino amarelo, que a revolução nunca existiu, argh! O álcool desce amargo!
Olho o tempo – hoje é mais um dia antes do amanhã que será igual a hoje. Toda vez que entro neste bar, reconheço que a minha juventude está cada vez mais envelhecida. O jornal ranzinza sobre o balcão me lembra que agora os heróis são baleados por seus próprios companheiros. Por isso, prefiro o silêncio revoltado dos comuns; só assim posso escrever e descrever o incomum em paz; só assim em silêncio que consigo gritar mais que esse novo mundo barulhento; só trancado em mim mesmo dentro desse bar que evito a chuva violenta que ainda chora lá fora.
Mas não é a chuva que chora agora... e sim uma guitarra! Meu silêncio beija suas ondas sonoras, nota por nota, meus ouvidos procuram, então abro meus olhos e vejo o homem que toca a guitarra que chora e o trio que o acompanha. Me aproximo de sua mesa e, por algum motivo, esse desconhecido parece-me um velho amigo. Os amigos dele fazem o sinal de paz e amor, são amistosos com minha aproximação. Atento à musicalidade de meus passos, o dono da guitarra interrompe por um momento sua jornada sonora, sorri sem olhar pra mim e, sem desviar uma das mãos dos acordes, aponta para a cadeira vazia a sua frente:
- Sente-se, amigo!
Aceito o seu convite – depois de tanto tempo perdido, reencontro meu lugar.
  
(continua em forma de poema em próximos posts) 

Amy Winehouse e o fiasco da hipocrisia pós-moderna



Hoje a maldição musical dos 27 anos fez mais uma vítima: Amy Winehouse se juntou ao grupo dos jovens rebeldes sem causa que definiram, como diz Carlos Drummond, “sua dis-solução”. Antes dela, Kurt Cobain, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin, Brian Jones e tantos outros sucumbiram com a mesma idade de Amy, em momentos diferentes, mas com personalidades escandalosas e tendências suicidas bem próximas às da cantora inglesa.
Porém a desventura final de Amy Winehouse merece destaque por sua época: a cantora aprontou todas (drogas, prisões, etc) numa época em que os popstars fazem campanha por um mundo colorido em que as composições são feitas a base de guaraná e doces M&M’S. Amy sempre foi meio visceral , mostrando a farsa oculta por trás do admirável mundo novo careta construído com caras de pau e tintas de hipocrisia, e, ao destruir-se, desmoronou também com ela o universo perfeito e saudável inventado pelas mídias e ‘falsiedades’ pós-modernas. Sua imagem destrutiva, ‘persona non grata’ declarada pelos Estados Unidos da utopia, revelou mais uma vez o ambiente frágil do mito consumista; um ambiente hostil, rico em drogas pesadíssimas como crack e falsamente confortável para a juventude faminta por identidade num mundo que prega que, como nos lembra Humberto Gessinger e George Orwell, ‘somos todos iguais, uns mais iguais que os outros’.
Como diz a tradução de ‘Rehab’, composição da própria Winehouse, “Tentaram me mandar pra reabilitação / Eu disse "não, não, não" / É, eu estive meio caída, mas quando eu voltar / Vocês vão saber, saber, saber”. Adeus, Amy, durma bem e acordem, jovens, antes que outros os transformem em mais um defunto efêmero e vendável, num mundo onde se prega a loucura consumista e as ilusões sem fundamento, num mundo onde não há reabilitação.

A Amy Winehouse e tantos outros poetas malditos dedico o poema de minha autoria “Benditos sejam os malditos”, originalmente publicado no extinto jornal valenciano “Correio do Vale” e a ser republicado em um dos meus próximos livros-projetos, que eu singelamente intitulei como “Foda-se e outras palavras poéticas”:

Benditos sejam os malditos

“Alcançai para mim
A Hospedaria dos Jamais Iluminados”
Mário de Andrade, “Religião”

I

Benditos sejam aqueles que fazem luz na escuridão.
Benditos sejam aqueles que não gritam para serem ouvidos.
Benditos sejam os malditos que não têm ouvidos
para escutar os que mal lhe dizem.
Benditos sejam os loucos, os tortos, os perdidos
que seguem seus caminhos sem fins lucrativos
sem olhar para trás.
Benditos sejam os vivos que sobrevivem famintos,
aceitam os sacrifícios
e não se julgam Jesus.
Benditos sejam os incompreendidos
que compreendem os tolos que não aceitam as suas razões.

- Benditos sejam os malditos
que aceitam as suas maldições.

II

Vândalo Rimbaud que fez uma temporada no inferno,
amaldiçoadas sejam todas as flores do mal de Baudelaire