terça-feira, 12 de junho de 2012

Velhos poemas juvenis: Um "Se" para o Dia dos Namorados

O Dia dos Namorados de hoje me faz relembrar tempos passados. Voltemos no tempo: em 1995, ainda aspirante a poeta, eu trabalhava como office-boy 'faz-tudo' no extinto jornal Correio do Vale. Entre minhas milhares de funções, eu deveria escrever poemas para cobrir pequenas espaços que sobravam no jornal entre uma notícia e notícia e outra. Na véspera da edição do Dia dos Namorados, a jornalista editora Elizabeth Mota, a Betinha, exploradora desse jovem artista e também minha prima (cuidado, amigos, os parentes podem ser os seus maiores exploradores, pois pedem-nos horas extras gratuitas sorrindo; mas não se enganem: aprendi muito com esta fase faz-tudo em que trabalhei no jornal com certa liberdade, pois era um faz-tudo que já fazia tudo do meu jeito), me pediu que eu fizesse um poema curto que celebrasse a romântica data e que, ao mesmo tempo, fosse compreensível para todo e qualquer leitor, afinal o jornal tinha distribuição gratuita e caráter extremamente popular. Eu estava iniciando, tinha menos de meia hora e, no fundo, no fundo, desejava ter mais um poema publicado numa mídia popular. Foram nessas condições que surgiu o pequeno poema romântico abaixo, batizado de "Se" - primeiramente publicado no jornal Correio do Vale, em 1995, e, depois, adicionado em meu primeiro livro "Fim do fim do mundo", de 1997. São linhas simples, mas feitas com todo coração que um jovem poeta, iniciante da vida, dos versos e do amor, pôde fazer às pressas:


Se

Se você é realidade,
Eu a ensino a sonhar.
Se você é saudade,
Eu a ensino a voltar.
Mas, se você é nada,
Eu a ensino que nada
Você nunca será,
Porque você é o meu amor
E isso ninguém vai mudar.

Solidões compartilhadas: Nayara Filgueira, uma poetisa enamorada

Hoje, no Dia dos Namorados, compartilho minhas solidões poéticas com um belo poema de amor de mais uma jovem aluna-talento da E. M. Alcino Francisco da Silva: a poetamiga teresopolitana Nayara Filgueira.
Pessoa extrovertida, dedicada à família e às pessoas que ela ama, Nayara ama fazer amizades novas e também adora construir poemas / letras de canções, inspiradas nas músicas que ouve e nos sentimentos que mexem consigo. Leia, com olhos amigos e líricos, uma das últimas produções desta versátil jovem escritora: 

Viver com e sem você


Amar você é tão bom e tão ruim...
Chega de sofrer,
Eu preciso lhe dizer
O que sinto por você;
É mais forte que eu.

Por que você me tocou
E me deixou em suas mãos;
O que você fez comigo?
Por que você me deixou tão obcecada por você?

Você me magoa e me fere...
Por que faz isso comigo?
Por que mexe comigo?
Será que é um castigo?

Você me iludiu, achei que você era diferente,
Um adulto e não um adolescente...
Você não parou para pensar
Que o que eu sentia jamais tinha sentido:
Nós éramos um só corpo e uma nova paixão;
Hoje tento esquecer, mas é difícil...

A saudade vai me machucar;
Pedi pra lua que você voltasse.
Ela me disse:
- Mas pra quê? Se ele só te faz sofrer?
Concordo com a lua, mas é tão duro encarar a vida
Lembrando de você a cada hora, minutos, segundos, milésimos...
O que mais dói é quando estou triste,
É todo momento que você não está aqui...

Acho que era melhor viver com você na ilusão
Que continuar vivendo nesse mundo tão imenso
Chamado solidão... 

domingo, 10 de junho de 2012

Solidões compartilhadas: Apenas palavras de Izabel Pileggi

Hoje compartilho minhas solidões poéticas com a poeta paulista Izabel Pileggi. A escolha de dividir meu espaço virtual com ela hoje se deve por diversas razões: primeiro a jovem poeta de 32 anos se destacou para mim nas redes sociais virtuais por sempre estar divulgando a arte poética (sua e dos outros), segundo - os poemas de Isabel Pileggi são maravilhosos, de um estilo marcante e de um lirismo peculiar que vejo em poucos artistas da contemporaneidade - além de que a artista defende sua preferência sexual com fervor e sem temer represálias (ela é declaradamente lésbica, vive com sua companheira e defende seu estilo de vida com ousadia e contra a homofobia que impera nos dias ignorantes da atualidade, em que precisamos reeducar a humanidade para que ela reaprenda a respeitar o viver coletivo e a arte individual de cada ser social). Em comemoração ao Dia da Língua Portuguesa que coincide com a 16.ª Edição da Parada LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) contra a homofobia em São Paulo, nada mais apropriado que publicar o excelentíssimo poema de uma mestra das palavras declaradamente lésbica como Izabel Pileggi. Nessa primeira participação no blog, ela nos apresenta 'apenas palavras', que, ao contrário do que diz o eu lírico, nos trazem muitos mais que simples frases. Boa leitura!


APENAS PALAVRAS

O que escrevo são apenas letras,
palavras jogadas ao vazio.
Palavras ao tempo distante,
lamentos jogados ao vento,
são só palavras jogadas ao nada,
sem sentimentos,
sem amor , sem dor.
São letras, somente letras.
Não é prosa, nem verso,
nem frases, nem diálogos.
Mas são letras que podem formar palavras...
Palavras? Que palavra
pode escrever no meio do nada?
Então o que escrevo é nada?
Letras jogadas ao nada,
apenas letras sem palavras.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Poema de saudade para os dias frios: De encontro ao nada

Hoje é o Dia Mundial da Saudade! Homenageio esse dia especial com um poema publicado em meu quarto livro "O último adeus (ou o primeiro pra sempre)" (2004), cuja seleção poética foi escolhida a partir do tema 'saudade', palavra única da língua portuguesa, sem tradução para outras línguas (os estrangeiros precisam formar frases imensas pra especificar um sentimento que conceituamos com apenas uma palavra). Pra ser lido ao som da canção "Em algum lugar do tempo", de Biquíni Cavadão, eis um poema de saudade para os dias frios e as madrugadas insones:

De encontro ao nada

Cavalga a madrugada... como os cavalos...
nas estradas de areia... vermelha...
A madrugada galopa em teus cabelos... como o vento...
nas folhas de outono... verdes... amareladas...
A madrugada leva o teu nome...
e o nome de quem ousar levá-la...
A madrugada te leva...
enquanto tento te acompanhar... de encontro ao nada...
mas o medo... a madrugada não leva...
Teus artifícios... aflitos... artificiais...
diante da força do vento... o tempo...
as cinzas do amanhecer... o beijo com sabor de distância...
Teus lábios estão gelados... como neve...
mas não há neve na minha cidade... outono hibernado...
O sol iluminando... tua decisão... de encontro ao nada...
Adeus... não consigo dizer... queria te dizer até mais...
ou volte sempre...
Todo adeus... é uma eterna continuação...
Saudades são reticências disfarçadas de ponto final.



Solidões Compartilhadas: Quem é Julio Uchôa?


Hoje compartilho minhas solidões poéticas com o poetamigo, desenhista, músico e compositor brasiliense Julio Uchoa, autor do blog “O ceifero não chora” (segue o link: http://ceifero22.blogspot.com.br/)  e a eterna busca de seus eus líricos pelo significado do ‘ser eu’. Se perguntamos a Julio quem ele é, sua resposta mais comum é responder: “Pô, eu pareço que sei lá, entende?”. Se perguntamos ao “ceifero”, o eu poético de Julio a resposta é mais complexa e maravilhosamente lírica, como podemos ver logo abaixo:

Eu

Quem pode me dizer quem sou?
apenas eu?
quem pode apenas dizer eu?
eu digo:
posso ser uma lágrima na chuva
que se mistura com as gotas que escorrem do cabelo molhado
se transformando em algo imperceptível
que só se percebe o que é realmente
pelos olhos vermelhos,
um fraco no mundo dos fortes,
um forte no mundo dos fracos,
um mundo de fracos e fortes,
um toque tranquilo nas teclas de um piano,
um piano tocado por quem não sabe o que está fazendo,
mas se agrada do som,
um anjo segurando a mão de um aflito
posso ser,
ser eu
uma história sem começo
que por fim
nada conta
e no fim
não termina;
sou eu
apenas eu...

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Sono sem estrelas: A arte e o desastre de dormir em ônibus


           Chegar a mais um feriadão prolongado poeticamente poderia significar apenas deixar Teresópolis, a cidade onde eu trabalho e que gosto, apesar dos poucos laços além dos profissionais (tenho poucos, mas ótimos amigos por lá – por exemplo, o Max Vitor e a Natasha Kimus, que há certo tempo, devido à correria do dia a dia, não os vejo), e chegar a Valença, minha cidade quase natal, berço da minha poesia e que eu idolatro como musa maior, apesar de todos os crimes que os governantes municipais cometem ao ferirem a beleza da “princesinha da serra”. Chegar a mais um feriadão poderia significar apenas isso, mas a realidade sempre nos dá presentes cobrados com requintes de crueldade: sair de Teresópolis e chegar a Valença exige uma longa viagem de ônibus de, no mínimo, 6 horas de duração – isso caso você consiga o milagre de que os horários de chegada do Teresópolis x Rio coincidam com os horários de partida do Rio x Valença (em meus seis anos de idas e vindas, só consegui esse feito umas 6 vezes, ou seja, aproximadamente uma vez por ano). Mudaram as estações e nada mudou, amigos leitores: aqui estou eu mofando na Rodoviária Novo Rio e a velha espera me consome – alivio isso escrevendo agora para vocês.
            Como eu disse, a viagem dura no mínimo 6 horas, mas, na maioria das vezes, o tempo médio de viagem fica entre 8 horas / 8 horas e meia, devido não só à espera, mas ao tráfego (o Rio de Janeiro sempre deixa um engarrafamento guardado para as minhas viagens, é incrível; sem contar que a Rodoviária Novo Rio é uma das únicas da América Latina que consegue ter engarrafamento dentro dela, devido a grande quantidade de ônibus que chegam nela e as obras intermináveis que ela nos proporciona, sempre se desculpando pelo transtorno e para melhor nos atender, ai, ai...), a vagareza, as surpresas (o pneu do ônibus fura, o ar condicionado está ruim, o número de lugares é menor que o número de passagens vendidas), então é esperar outro e mofar, mofar...
            Todos esses espetáculos do caos rodoviário em cada viagem ao qual me lanço me proporcionam aquela irritante sensação de perda de tempo, de surgimento de novos cabelos brancos, o mundo todo em movimento e eu mofando. Por isso, criei a arte de dormir em ônibus – dormindo não sentiria o tempo passar e ainda economizaria horas posteriores nas quais gastaria no reino de Morfeu, deus grego e soberano do sono. É, na teoria, minha arte mereceria o troféu empreendedor de qualquer firma de economia de tempo, porém, como sabemos, sou humano e, logo, cometo erros por não ter o cálculo exato de uma máquina, como um despertador, por exemplo. E a vida é sacana, meu amigo; quem não sabe disso é porque está sendo sacaneado direto e só sorri pra ela por ser otário de não perceber as peças que a vida nos prega.
            Voltando à arte de dormir em ônibus: minha artimanha pra ganhar tempo me proporcionou horas e horas de sono desconfortável, em poltronas reclináveis e torturadoras do bem estar do artista dorminhoco que vos fala. Mas dormi, dormi muito! Aí que vêm os desastres dessa arte, apontados nos episódios abaixo:
a) Episódio I - Tornei-me um jedi: Uma vez, acordando após praticar a arte de dormir no ônibus Teresópolis x Rio, o passageiro ao meu lado me disse: “Chegamos! Boa sorte e que a força esteja com você!”. Temo ter falado dormindo com o anônimo mestre jedi. A arte de dormir tem esse risco: você pode ser surpreendido por um sonambulismo, um lado seu que você desconhecia completamente. Saí do ônibus me sentindo um Luke Skywalker amarrotado, preparado pra enfrentar o Darth Vader rosa, ou seja, o ônibus Valença x Rio da Util, que, é claro, só sairia da rodoviária duas depois de minha chegada – já avisei aos leitores: os horários quase nunca coincidem.
b) Episódio II – O império contra-ataca: Às vezes, por se tratar de um transporte coletivo, esbarramos com seres inimigos da arte de dormir em ônibus. Esses seres creem na obscura força de sua arte narrativa e memorialística e desatam a contar a você todas as histórias da vida dele. Eles falam, falam, falam cuspindo, cutucam, dão tapinha nas costas e sua arte de dormir em ônibus está arruinada, condenada ao esquecimento nessa viagem. E pode piorar: esses seres das trevas às vezes abusam da impunidade e ficam no celular ouvindo músicas populares (entre eles) ou assistindo a novela da Globo (sempre que vejo o símbolo dessa emissora me lembro do terrível Globo da Morte da Guerra nas Estrelas I) sem fone! Não há arte jedi de dormir em ônibus que consiga vencer tanta agressividade e desrespeito aos direitos universais humanos de conviver em paz com os seus próximos!
c) Episódio III – O retorno do jedi: Nem sempre consigo a poltrona voltada para a janela, onde encosto meu rosto e batendo suavemente a cada solavanco do ônibus vou exercendo minha arte de dormir. Logo, quando isso não acontece, fico na poltrona do lado do corredor e, como a tendência é sempre tentar encostar em algo, quando caio no sono acabo caindo também nos ombros do passageiro vizinho e desconhecido. Às vezes recebo leves cotoveladas – que não me afetam, pois estou acostumado às pancadas de minha cabeça na janela do ônibus –, sermões, cotoveladas mais ferozes a empurrões. Me recupero dos sustos e tento exercer minha arte de dormir em ônibus sem ferir a liberdade dos estranhos vizinhos.
d) Episódio IV – A ameaça fantasma: A arte de dormir pode ser desastrosa se não estiver preparado. Quando estou realmente muito cansado (às vezes, saio direto do trabalho pra me aventurar em viagens pelos ônibus do Brasil), durmo demais. Esse fato não teria nada demais se todos os motoristas se lembrassem de conferir que todos os passageiros tenham descido do ônibus. Mas eles nem sempre lembram. Resultado: já acordei dentro de diversas garagens sem saber nem mesmo quem eu sou e como vim parar ali. Logo que cai a ficha, o guerreiro deve levantar-se, aceitar ser motivo de chacota entre os funcionários da garagem e pegar um ônibus que o leve de volta ao destino ultrapassado a milhas e milhas dali.
e) Episódio V – A guerra dos clones: Outro fato perturbador é quando o seu passageiro vizinho também comete a arte de dormir. E o pior: ele consegue dormir antes de você e ainda ronca demais. Nessas horas, me concentro, mas nem sempre consigo isolar o estrondo adversário – nesses casos, me rendo à velha sensação de perda de tempo.
f) Episódio VI – A vingança dos Sith: Esse é o episódio mais tosco de minha saga. De tanto exercer a arte de dormir em ônibus, consegui um feito inédito: após chegar a Valença, virar a noite de bar em bar, dormi no primeiro circular para a minha casa. E a viagem, que duraria míseros 15 minutos, duraram 3 horas. Fui e voltei diversas vezes, até que o motorista – já cansado da presença deste sonolento passageiro – me intimou que eu finalmente descesse. Pronto: caí no poço das fofocas de meu bairro como um homem perdido, levado pelos vícios, Anakin Skywalker caindo no poço da maldade e virando Darth Vader. Custei a dar continuidade ao ritual de dormir em ônibus após isso, mas, hoje, mais velho e experiente, pago menos micos em minha arte jedi de ‘sonolescência’.
E os leitores podem reparar que modifiquei um pouco minha arte: agora não durmo o tempo todo – uso parte do tempo para escrever, até que o notebook descarregue e se dirija ao reino de Morfeu comigo. Advirto aos adolescentes que não tentem a arte de dormir em ônibus, quando estiverem em excursões escolares, pois, nesse caso, o império do mal – sim, nossos colegas de escola – podem abusar de seus feitos, ora passando pasta em seu rosto, ora fotografando e postando fotos horrendas do artista em estado de sono profundo, ora fazendo coisas terríveis e inimagináveis quando você, jovem jedi, dedica-se à arte sonolenta.
Bem, estou de volta a Valença; mais uma vez o percurso foi arrastado e cansativo, um pouco de angústia pelo tempo perdido de viagem, mas ainda temos todo tempo do mundo: dormindo ou acordado, é hora de curtir o feriado. 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Velhos poemas juvenis: Amante inconstante

Hoje publico mais um velho poema juvenil, publicado em meu terceiro livro "Note or not ser" (2001). Fala sobre o amor, a inconstância de cada um (principalmente na adolescência de nossos sentimentos) e a mistura de ritmos que todo esse ardor gera em nós:


Amante inconstante

Se numa hora ouço rock,
Em outra ouço bolero;
Nem sempre gritar é tudo que eu quero.

Se hoje não lhe der nem um toque,
Amanhã a quero;
Nem sempre você é tudo que espero.

Se numa hora a amo,
Em outra a odeio
E, nas horas restantes, só tenho medo,
Pois um amor tão grande
Não cabe em seu coração pequeno...
Desculpe se me ver chorar:
Não sou tão perigoso
Quanto pareço.

Meu filho-poema selecionado na Copa do Mundo das Contradições: CarnaQatar

Dia de estreia da teoricamente favorita Seleção Brasileira Masculina de Futebol na Copa do Mundo 2022, no Qatar, e um Brasil, ainda fragiliz...