sexta-feira, 3 de junho de 2022

Lembranças de um carnaval que dizem que não aconteceu: Um pouco de minha folia lírica entre o fim de fevereiro e início de março de 2022

2022 desfilando sua extravagância
2022 pode ser considerado, em diversos aspectos, como um ano atípico, nada convencional. Uma prova disso podemos perceber no fato de que o carnaval deste ano, previsto para o fim de fevereiro e início de março, não aconteceu (oficialmente), recebendo um puxadinho festivo no fim de abril, pela inédita (e inusitada) vez após a Páscoa. Sim, foi um lance muito esquisito, contrariando quaisquer teorias lógicas da metodologia humana em tentar absurdamente quantificar o tempo e buscar tradições rituais em períodos temporais.
Seja como for, ao menos, o calendário letivo em escolas foi meio que seguido tradicionalmente, mantendo a semana de carnaval entre o fim de fevereiro e início de março, convencionalmente antes da Páscoa, possibilitando assim o também tradicional recesso escolar na semana citada, consequentemente permitindo que o blogueiro-poeta-professor que vos escreve ficasse com bastante tempo para doce prática do ócio criativo (os astrólogos afirmam que taurinos, apesar de trabalhadores, curtem uma preguicinha sempre que podem e uma pausa pontual sempre que uma oportunidade surge, e eu, taurino, amigo das artes esotéricas, tento não contradizê-los, quando me convém).
Apesar de não ter havido festividades oficiais no período que seria o carnaval, devido à preocupação justa de que se evitasse novas incidências de aumento de casos de Covid-19, sabemos que o povo, contrariando tais precauções, fez sua própria festividade carnavalesca no período de fim de fevereiro e início de março (e o político que deu recesso sem fazer a festa e afirmar que não previa que o povo supriria, de forma improvisada, a ausência de festividades merece 4 anos de bolsa óleo de peroba pra cara de pau). No mesmo período, com carnaval oficializado no calendário, mas marginalizado nas comemorações, no melhor estilo “fumo, mas não trago”, lá pras bandas da Europa, uma violenta guerra se iniciava entre Rússia e Ucrânia. Toda essa folia, contrariedade e violência contidas serviram de material bruto (no sentido literal e simbólico) e de oportunidade para abstrações paradoxais e, consequentemente, para a manifestação artística.
No Sarau Florescer Nit.
"Sou do bloco da poesia
"
Foi nesse exato período, entre o fim de fevereiro e início de março, que, a convite da supermusartistativistamiga Jammy Said, participei do maravilhoso Sarau Florescer Nit. “Sou do bloco da poesia”, no Jardim da Cafeteria Casa de Helena (quer nome mais literariamente inspirador que Helena, meus caros Homeros, Machados de Assis e Manoéis Carlos?), em Niterói/RJ. Na sexta-feira de pré-carnaval, dia 25/02/2022, a partir das 17:30h, naquele espaço, tive a honra de representei o Sarau Solidões Coletivas, a arte do sul do Estado do Rio de Janeiro, e homenageei o maravilhoso e queridíssimo Bloco do Zé Pretinho do Morro, de Valença/RJ, declamando alguns poemas meus que se referiam ao tema carnaval (“Carnacarência”, de meu terceiro livro “Note or not ser”, “Carnaval do terceiro milênio”, de meu quarto livro “O último adeus (ou o primeiro pra sempre)” e “Tenha dó”, de meu quinto livro “Eu & Outras Províncias” – dois desses três poemas podem ser encontrados aqui no blog; “Carnacarência” no link:
https://diariosdesolidao.blogspot.com/2012/02/poemas-carnavalescos-carnacarencia.html e “Tenha dó” em: https://diariosdesolidao.blogspot.com/2012/01/clipoema-tenha-do.html - “Carnaval do terceiro milênio” vou ficar devendo a vocês, por enquanto). O Sarau Florescer Nit. “Sou do bloco da poesia” foi uma folia lírica fodástica, onde o lirismo desfilou poderosa na passarela de todos os corações dos participantes e espectadores. E, nessa postagem, finalmente, após mais de 3 meses, trago a vocês o vídeo, tardiamente colocado em meu canal do Youtube, com os registros de minha participação no evento.
Em tempo: Amanhã, sábado, dia 04/06, das 14 às 17h, novamente a convite da superdivartistamiga Jammy Said, participarei mais uma vez do Sarau Florescer Nit, desta vez no Solar do Jambeiro (será a primeira vez que declamarei neste importante espaço cultural niteroiense), em Ingá, em Niterói/RJ. Entrada franca. Aguardo vocês lá!
Com meu primo Charles Franck,
na quarta-feira de cinzas,
curando ressacas na Piscina da Tia Odete
algum tempo antes de cismar de escrever
"2022 cinzas de quarta"
Entre o fim de fevereiro e início de março, também me aconteceu um novo poema, que batizei de “2022 cinzas de quarta”, escrito na tarde da quarta-feira de cinzas, dia 02/03/2022, enquanto vivenciava as cinzas da quarta ensolarada na Piscina da Tia Odete (Pousada São Manoel, no interior de Valença/RJ), com direito a vídeo e foto arte de Charles Franck. Nesta postagem, também trago o vídeo no qual declamo o novo poema (outro vídeo tardiamente colocado em meu canal do Youtube; é, tenho andado bastante relapso com as divulgações artísticas de meu eu artista) e o texto integral em sua permanente desintegralidade (ou desintegralidão?, não sei qual neologismo melhor se encaixa).
Assim, deixo para vocês, amigos leitores, mesmo com enorme atraso, algumas lembranças minhas pontuais de um carnaval que, apesar de bem carnavalizado, dizem que não aconteceu, muitas folias líricas minhas do período, um pouco de minhas solidões coletivas diárias que sempre chegam ao blog um bocado atrasadas e, mais uma vez, meu agradecimento por permanecerem firmes acompanhando as parcas velhas novidades deste meu espaço lírico-virtual nosso. Espero que gostem. Abraços e Arte Sempre!

Vídeo de minha participação no Sarau Florescer Nit "Sou do Bloco da Poesia" na Cafeteria Casa de Helena, em Niterói/RJ, em 25/02/2022
Se não estiver visualizando o vídeo, eis o link direto: https://www.youtube.com/watch?v=NRNdAqqf3sE  

Vídeo de meu poema inédito “2022 cinzas de quarta”, escrito e declamado na Pousada São Manoel, em Cambota, no interior de Valença/RJ, em 02/03/2022
Se não estiver visualizando o vídeo, eis o link direto: https://www.youtube.com/watch?v=ACGWrX7hDlU 


2022 cinzas de quarta

Ressaca,
toalha pesada sobre a cabeça...
Ele pensava nas cinzas de quarta-feira,
enquanto o sol queimava seu rosto.
Do outro lado do mundo,
explosões anunciavam o calor da nova guerra fria,
enquanto outra guerra em seu corpo detonado e alienado
lhe implodia.
As ruínas distantes, ignoradas,
apenas lembradas pelo corpo brilhante
da libélula falecida
por mergulhar demais,
se embebedar demais...
Nunca mais voará...
Agora ele diz pra si que jamais beberia novamente assim
num dia de sol assim
em um dia assim,
mas, como no velho poema,
o verso reverso se repetia
como promessas vazias.
E o céu anil no dia das cinzas...
o sol abrasador... próximas e distantes cinzas...
Cinzas...
Hoje a quarta-feira arde ressentida
pelas novas e velhas batalhas perdidas da vida.
Carlos Brunno Silva Barbosa

Foto arte de Charles Franck para o meu poema "2022 cinzas de quarta"


sábado, 30 de abril de 2022

Meu conto quase inédito do tempo em que eu não tinha certeza, mas que a arte acalmou minha mente, postado em um sábado nublado de final de mês: In Patience

Fim nublado do último final de semana do último dia de abril. Costumeiramente, os últimos fins de semana de fins de mês são períodos tradicionalmente melancólicos de encerramentos de ciclos (um mês que se vai, o salário que se esgota, o bolso, inutilizado, ansioso pelo quinto dia útil, um jargão ‘como este ano está passando rápido’, repetido entre os compadres e as comadres), ao mesmo tempo, que a renovação, o novo mês pede passagem. Num outono sereno como o de 2022, a sensação de melancolia entre novos fins e velhos recomeços se expande, enquanto o desejo de dias melhores (ah, o jargão ‘esse mês eu resolvo todas as pendências’ ressurge das cinzas de fracassos dos meses anteriores) e a sensação de iminência de uma nova garoa de pessimismo (ah, ‘tenho de medo de dizer que vai piorar, pois, atualmente, sempre piora, é outro jargão influenciado pelos meses de trevas anteriores) se beijam num tenso e, ao mesmo tempo, delicioso paradoxo. Um sereno, quase chuva, um mês que quase chega, um quase meio ano, quases “Quase” como a poética cheia de melancólicos vazios de Mário de Sá-Carneiro, escritor modernista português, autor do primoroso “Céu em fogo”, mestre artista que nasceu no fim do mês de abril (Lisboa, 19 de Maio de 1890) e escolheu o mês de maio para sua autodissolução (Paris, 26 de Abril de 1916).
O conto, de minha autoria, que trago hoje, inédito no blog, mas já publicado em coletânea do Grêmio Barramansense de Letras, traz essa boemia melancólica, repleta de cheios vazios, de quases (por sinal, o texto quase foi classificado em alguns certames literários; é um dos preferido de leitores queridos por mim, como a vizinha amiga Cláudia, chegando ao quase gosto popular, mas fadado ao sucesso do fracasso de ser sempre um quase algo) e traz como inspiração o clima sereno enigmático da poética do mestre Mário de Sá-Carneiro, um pouco do canastrão dramático personagem Arturo Bandini dos romances “Pergunte ao pó”, “Espere pela primavera, Bandini”, entre outros, de John Fante (coincidentemente, outro mestre escritor que idolatro, também nascido em abril [(Denver, Colorado, 8 de Abril de 1909] e falecido em maio [Los Angeles, Califórnia, 8 de Maio de 1983]), uma das cenas de dança em filme mais emblemáticas que já assisti em filmes (a cena do magnífico filme sul-coreano “Burning” [“Em Chamas”], de 2018, em que a personagem Hae-mi dança, transmitindo sensualidade, resquícios de boemia vazia, desejos de amor, vida contraditória, liberdade vã e tristeza e despertando nos que a veem (isso vaza além da cena] poderosos desejos de amor incondicional, perigosas fúrias serenas, posses, ciúmes e invejas – o filme é mais-que-fodástico, amigos, é impressionante; tanto que o meu conto surgiu alguns dias depois) e noites ligeiramente embriagadas no Bar Aqualume, do tio Jorge e da tia Rosana, em Valença/RJ, quando lá havia uma jukebox, que, volta e meia, aleatoriamente, alguém escolhia, para ouvir nela, a canção “Patience”, de Guns’n Roses. "Céu em fogo", "Em Chamas", pós melancólico-festivos de Bandini, fogos efêmeros no Aqualume, toda essa mistura de influências, regadas a mais algumas (over)doses de álcool, e uma ressaca melancólica existencial geraram o conto “In Patience”.
Para corroborar com os ares melancólicos deste fim nublado do último final de semana do último dia de abril, deixo para os amigos leitores o conto “In Patiente”. Leiam (e bebam-no) com ou sem moderação.

In Patience
Mais um conto embriagado de Carlos Brunno Silva Barbosa, escrito em guardanados de botequim (no Bar Aqualume, ou Bar do Tio Jorge, pra ser mais específico)

    Será que existe algo mais deprimente do que ouvir “Patience” numa jukebox antiquada, posta no canto do botequim recém pintado, às 3 e pouca da madrugada, após a nona ou décima cerveja? Meus ouvidos embriagados perguntam-me isso, enquanto meus olhos assistem à dança solitária da moça (não tão moça) cambaleante (muito cambaleante) que selecionara no velho aparelho musical o dramático e pasteurizado hit da banda Guns n’Roses.
    A moça, nem tão moça, dança sozinha com movimentos trôpegos, perigosamente intensos, e, mesmo assim, desajeitadamente suaves e harmônicos, como se reencontrasse e abraçasse um velho amigo em uma dessas festas de ex-colegas de faculdade. Sua dança parece acompanhar um par invisível e irresistível, um fantasma hipnótico e sensual. Os olhos dela estão fechados, como se o antigo sucesso a transportasse para outros tempos, talvez a um futuro alternativo, talvez a um passado que se mantém no presente, fora do prazo.
    Meus olhos semiabertos vigiam a moça impunemente, pois ela me ignora, atenta apenas aos acordes da canção. Talvez eu devesse ir embora, afinal já bebi demais; talvez eu estivesse alucinando diante daquela balada antiga e daquele inusitado ritual; talvez nem houvesse moça, nem “Patience”; talvez nada faça sentido, mas, há muito tempo, cansei-me de buscar sentidos. Por isso, talvez, eu fiquei.
    Por mais que a moça me pareça uma completa estranha, sinto que estamos conectados – talvez ambos ignorássemos os versos em idioma estrangeiro e só nos guiássemos pelo ritmo melancólico; talvez os nossos passados tivessem o mesmo prazer sádico de não passarem completamente e nos fazerem sempre olharmos pra trás; talvez não houvesse moça, nem “Patience”, nem conexão, nem talvez e eu simplesmente fiquei ali estagnado, altamente alcoolizado, sem saber o que fazer.
Então a música acaba; a jukebox exige mais fichas que a moça não lhe dá. Ela acorda de seu frenesi e, de repente, me olha com aquele ar de criança brincalhona surpreendida por um adulto taciturno e intrometido. O estranhamento e a surpresa são mútuos, mas duram poucos segundos. Uma poeira imperceptível passa entre nós, então uma luz bonita e triste ilumina seu rosto e ela me sorri.
    - Vamos embora, Artur, é hora de partir.
    Talvez não tivesse que rimar; talvez fosse apenas (d)efeito de muito álcool no sangue; talvez eu escrevesse tudo isso num monte de guardanapos enquanto me sentia cada vez mais sozinho e embriagado; talvez “Patience” continuasse na jukebox; talvez empregasse mal os tempos verbais; talvez não houvesse nada entre mim e a moça; talvez jamais saiba dizer se, algum dia, realmente houve tempo, música, moça e talvez .
    Só sei que pego nas mãos dela decidido e algo hesitante entre mim e ela chora enquanto partimos. Pra onde vamos agora, eu não sei...



A cena do filme sul-coreano "Burning" que inspirou o conto.

"Patience", de Guns N'Roses



terça-feira, 5 de abril de 2022

Solidões compartilhadas: A perfeita simetria do mais que fodástico poema "Assimétricos", de Maria Eduarda Fernandes

Maria Eduarda Fernandes,
a premiada poeta de "Assimétricos"
Há eventos em nossas vidas que a gente vai adiando indefinidamente sem nem bem saber o porquê. As publicações neste blog – que, no plano inicial, deveriam ser quase diárias – são um exemplo disso: têm sido cada vez mais esporádicas e não sei explicar o porquê (preguiça, desânimo, loucura, surto, desinteresse, cotidiano atarefado demais, insatisfação, mais loucura, falta de inspiração, desleixo e descuido, projeto deixado de lado em detrimento a outros emergentes, irritação com os áridos novos velhos tempos a ponto de provocar imprevista inércia nas ações, cansaço existencial, não sei: são tantos motivos que se tornam motivo algum; um caso explicado pela falta ou excesso de explicação). A postagem de hoje tem a ver com isso: hoje, finalmente, após um longo atraso (os mais que fodásticos poetamigos Renato Galvão, Raquel Leal, Gisele Pacheco e outros tantos que me confiaram seus escritos passaram e/ou passam pelo que retrato, assim como muitos de meus escritos), finalmente, compartilho minhas solidões poéticas com a mais que fodástica Maria Eduarda Fernandes.
Em 9 de novembro de 2019, na II Felivre,
 ao lado da mais que fodástica poetamiga
Maria Eduarda Fernandes e de
Neusa Magali Carvalho, diretora
do polo da Cederj em Volta Redonda/RJ
Conheci Maria Eduarda no segundo dia da II Felivre, organizada pelo Cederj-VR, no setor azul do Estádio Cidadania, em Volta Redonda/RJ, em 9 de novembro de 2019 (uma pequena digressão aqui: na noite anterior ao momento que nos conhecemos, no término de minha louca e cansativa baldeação Teresópolis [partindo direto da escola na qual trabalhei de manhã] – Sapucaia – Três Rios – Volta Redonda para chegar aos arredores do local do evento na véspera do dia em que fui convidado pra participar da Feira [no caso, parei em Califórnia de Barra do Piraí, onde fui visitar minha tia – e descansar, pois a viagem é bastante extenuante], no ônibus de Três Rios x Volta Redonda, numa daquelas coincidências líricas que, se estivesse em um filme, todos desconfiariam como falha/facilitação de roteiro, meu assento foi reservado ao lado de Eduardo Pereira de Azevedo, que eu não conhecia, mas que, durante o bate-papo, soube que era escritor, havia ganhado o 1.° lugar no Concurso de Poesias Cederj e participaria naquela noite da cerimônia de premiação na II Felivre [noite em que não estive presente no evento, pois estava completamente exausto]. Não vi mais o Eduardo, mas tive a honra de conhecer, no dia seguinte, a iluminada Maria Eduarda Fernandes, que conquistara o 3° lugar no mesmo certame literário que ele. Por maravilhosos e líricos encontros assim que torço por mais edições da Felivre – e que eu tenha oportunidade de curtir novamente o evento). Digressão realizada, retornemos ao dia seguinte: no dia 9 de novembro, enquanto expunha meus livros na II Felivre, Maria Eduarda aproximou-se, conversou comigo e observou a minha camisa que fazia referência à Alice no País das Maravilhas. A partir desta observação dela, antes de conversarmos mais, imaginei hipóteses que logo quase e confirmaram: deve cursar Letras (na verdade, cursa Pedagogia, mas as áreas são compatíveis) e tem poder de observação – e olhar brilhante – de escritora. Aparentava uma felicidade imensa e contagiante por estar presente na Feira Literária (mais uma hipótese logo confirmada: é fã de eventos culturais e literários). Contou-me, com orgulho (merecidíssimo, como poderão constatar ao lerem o mais-que-magnífico poema dela), que fora contemplada com o 3.º Lugar no Concurso de Poesias Cederj. Citou também residir em Teresópolis/RJ (mais uma vez, se fosse filme, iriam achar que mais essa coincidência seria conveniência de roteiro [além do fato de, enquanto eu acompanhava a página da Cederj – Polo Volta Redonda – já havia lido a lista dos poetas vencedores do concurso literário – até porque o Paulo Caruso, que conquistou 2.º lugar, era um grande mestre poetamigo meu, com quem estabelecia contato frequentemente -, logo, o nome dela não me foi estranho no momento em que ela me contou sua brilhante conquista literária). Fiquei encantado com a personalidade irradiante de lirismo de Maria Eduarda Fernandes, foi ‘amizade à primeira prosa poética’, o que tornou ainda mais especial a minha já superpositiva participação na II Felivre (lembrando: atenção, organizadores dos eventos culturais da Cederj, precisamos de mais edições de eventos culturais fodásticos como este).
Depois de 9 de novembro, conversamos esporadicamente por WhatsApp, e, assim, tive contato com o mais-que-fodástico poema premiado de Maria Eduarda Fernandes, intitulado “Assimétricos”. O poema apresenta, em versos livres (ou seja, diversos como o tema que aborda) e ritmicamente harmônicos, ao mesmo tempo que diversificados (novamente, observem: conteúdo e forma se abraçam no premiado escrito lírico), a beleza da assimetria na diversidade de nosso povo. Cabe destacar a intencional ausência de padrões de rima, com o uso principal de rimas imperfeitas (quando há correspondência, mas não igualdade, de sons), esporadicamente intercaladas com rimas perfeitas (em que há correspondência total de sons, havendo repetição tanto dos sons vocálicos como dos sons consonantais), mas, neste último caso, também intencionalmente pobres quanto ao valor (quando as palavras que rimam pertencem à mesma classe gramatical), o que mantém um ar de espontaneidade e simplicidade, aspectos tão caros ao tema diversidade proposto pelo poema. Também vale ressaltar a variação de uso de versos [di versos] transbordados com hipérbatos (quando há inversão da ordem natural das palavras de uma oração) na maioria das estrofes, intercalados esporadicamente com versos que seguem a ordem mais natural da oração (sujeito-verbo-complementos), mais uma vez, apresentando, de forma genial, a diversidade tanto na forma quanto no conteúdo. Como vocês sentirão, o efeito da leitura - tanto superficial quanto profunda - do mais que fodástico poema de Maria Eduarda Fernandes é de supernatural maravilhamento diante do magnífico escrito lírico.
Diante da obra prima de Maria Eduarda Fernandes, logo lhe pedi para publicar o poema no blog, solicitação aceita e correspondida pela autora. Mas eis a novela das postagens: envolto em dramas como eu já citara logo no início e que não sei explicar, tenho publicado muito pouco e muito inconstantemente neste espaço lírico coletivo. O mais que fodástico “Assimétricos” foi muito injustamente adiado diversas vezes para as raras postagens que publico nos últimos tempos. Mas hoje, nestes dias iniciais de úmido outono, de folhas melancolicamente caindo e da natureza se renovando, enquanto dança entre climas indefinidos (ora garoa, ora breve calor, quase frio, quase quente, quase sempre quase sendo pleno em sua diversidade), finalmente, faço minha reparação e, hoje – finalmente! -, compartilho minhas solidões líricas com o poema “Assimétricos”, de Maria Eduarda Fernandes. Tenho certeza de que vocês, prezados e atenciosos amigos leitores, irão, como eu, adorar o mais que fodástico poema de Maria Eduarda Fernandes.

Assimétricos
Maria Eduarda Fernandes


Em versos digo
Diversos somos
Assimétricas rimas
Em vidas, em sonhos

De tantos cantos
Fluindo
Abrilhantando

Nossas histórias
Tem muitas cores
Misturas santas
De nossas peles
Diversos são
Nossos amores

Andamos por aí
Apenas humanos
Sem padrões a cumprir

Um olho não vê
Mas a mão afaga
Alguém não te escuta
E outras línguas fala

São versos e flores
Nesta melodia
Diversos sabores
Estes que te espantam

Viva a liberdade de crer
Ou não crer

Além da palavra
A que é dita santa
Ecoam lamentos
De canaviais
Ressoam tambores
Girando nas saias
Brincando nas praias
De tantos Brasis.

Quadro "Operários", de Tarsila do Amaral,
um das mostras mais emblemáticas
da diversidade do povo brasileiro.


sábado, 26 de março de 2022

O desejo publicado: A gratidão do transitório andarilho

Olá, amigos leitores deste inconstante blog (de ‘Diários de Solidões Coletivas’, cada vez mais mostra-se ‘Periódicos de Solidões Coletivas”, apesar da solidão coletiva de cada gente e agente manter-se sólida diariamente), hoje trago um poema que escrevi especialmente para a Coletânea Gratidão, divinamente organizada pela musa superdivartistativistamiga Jammy Said e lançado oficialmente neste ano (para pedidos de compra da coletânea, deixo o contato da organizadora Jammy Said no instagram: https://www.instagram.com/jammy.said/ ).
Conforme o título da coletânea nos informa, o tema da antologia era gratidão, mote com o qual jamais havia trabalhado. Por coincidência ou lírico destino, alguns anos antes, a superprofessoramiga Patricia Ignácio também me pedira um poema com o tema gratidão, o que – por ainda não ter cumprido a solicitação depois de tanto tempo, o desafio de seguir tal mote veio dobrado e sou bastante obsessivo em cumprir a produção de poema que me comprometo a escrever. Mas havia o problema/bloqueio vindo de minha formação e inspirações: sou daqueles adeptos a Cazuza, que, como ele, sempre fui malicioso demais e achava a palavra e suas equivalentes [obrigado, etc] meio bregas, de difícil inserção em obra poética. Mas, também como Cazuza (ele criou uma composição maravilhosa [ e potencialmente subversiva] chamada "Obrigado [por ter se mandado]”), topei o desafio desde que, como o mestre autor do emblemático álbum “Ideologia|”, eu também pudesse fugir do lugar comum e subverter o tema de algum modo. Quis tratar sobre outra gratidão: o agradecimento erótico-amoroso, as gratidões do corpo e do coração saciados por noites de sexo, entre domínios e dominações. Assim decidi produzir um poema erótico, como também, há tempos, não escrevia, e, finalmente, o meu filho-poema sobre gratidão nasceu!
Antes de compartilhá-lo com vocês logo abaixo, deixo algumas informações extras para, talvez, enriquecimento pleno da leitura: cito, no poema, duas grandes personagens mitológicas (sim, também voltei a fazer referência à mitologia grega, como, há tempos, não fazia) Atalanta e Hipomene. Atalanta era uma princesa da Arcádia. Seu pai, o rei da Arcádia, queria um filho, e, quando Atalanta nasceu, ele deixou-a em cima de uma montanha para morrer. Mas Atalanta, alimentada por uma ursa, agarrou-se à vida de forma brava e se tornou uma atlética e poderosa guerreira. De volta ao reino de Arcádia, já com a aceitação do pai (meio que obrigatória, visto que a filha resistiu às intempéries impostas pelo desprezo paterno), depois de um tempo, Atalanta, belíssima, se viu obrigada a receber diversas propostas de casamento, bastante inconvenientes, pos ela, diante de terríveis previsões e velhas promessas, desejava manter sua virgindade resguardada à deusa Ártemis. Vendo que não poderia mais fugir da investida, para afastar os pretendentes de vez, Atalanta impôs uma regra: se casar com quem a vencesse numa corrida (ela sempre foi a mais veloz entre todos os corredores), mas, caso o competidor perdesse (o que era quase certo, ela sabia), a morte seria seu destino. Apesar do risco, muitos candidatos apareceram e morreram tentando vencer Atalanta, até que Hipomene, com o auxílio de Afrodite, concorreu e usou de astúcia para vencê-la: atirou maçãs no caminho, retardando a veloz atleta e, assim, vencendo a corrida. Em meu poema, como fiz no tema, subverto o mito: é a própria Atalanta quem joga as maçãs e ludibria Hipomene para que ele pense ter sido o vencedor, quando seria ela quem o teria escolhido e vitoriosamente conseguido seus vorazes intentos.
Além do poema logo abaixo compartilhado, também trago a minha apresentação do texto lírico selecionado em no Sarau Florescer Nit, no Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Niterói/RJ, na quinta-feira, dia 13/01/2022, cujo evento foi organizado pela musa superdivartistativistamiga Jammy Said.
E, agora, vamos ao poema, amigos leitores. Boa leitura e Gratidão por acompanharem este transitório blogueiro andarilho nas raras vezes que posto. Abraços e Arte Sempre!




A gratidão do transitório andarilho
Carlos Brunno Silva Barbosa

Gratidão mesmo antes que me abras tua porta,
gratidão pela oferta amistosa, gostosa
de dor sem dolo, de infindo amor sem depois.
Sou andarilho à tua porta esperando
que me atendas, que te estendas pra minha fome
de vampiro efêmero, sedento de ti.

Então me abres a porta, presa poderosa,
fatalmente atlética, Atalanta morena
de mil maratonas na arcádia furiosa,
no olimpo ardente de meus sonhos mais febris.

E assim me atiro em teu abrigo sem domínios,
dominado por descontrolados desejos,
caçador ludibriado pela caçada,
dominado pelo indominável, por ti.

Hipomene adverso, tuas maçãs persigo
e caio erguido em cada labirinto teu
e agradeço cada fruto que me arremetes,
cada raiva amorosa, cada amor pagão.
Deuses cultuando a própria apoteose,
teu corpo e meu corpo em erótico ouroboros.
E a noite devora nossos devoramentos...

Após sustentarmos os sussurros da lua,
o sol volta com seu calor assexuado,
cheio de rigor e prazos inadiáveis,
mas, no quarto, ainda é noite, e, novamente,
agradeço pela escuridão partilhada,
pelo perene acolhimento temporário
deste eu farto, mas sempre faminto por ti.


Caso não esteja conseguindo visualizar o vídeo
de minha apresentação no Sarau Florescer Nit por aqui,

sábado, 12 de março de 2022

Meu miniconto inédito de contato desmacarado imediato

Tenho visto governantes divulgarem a sanção de decretos sobre o fim do uso obrigatório de máscaras - até aí tudo bem, faz parte da função e do circo do círculo político vigente, porém, contudo, entretanto, todavia, comemorarem isso como um grande feito político histórico é de uma cretinice sem fim.
O meu miniconto inédito, escrito há pouco, dentro do ônibus, mascarado entre mascarados desmascarados, foi inspirado nisso.
Espero que gostem, queridos leitores mascarados, desmascarados, desmascaradores e/ou (sub/sobre)naturais.


De(s) Mascarados

Comemorou com silencioso sarcasmo o decreto que previa o fim do uso obrigatório das máscaras. Diante do espelho, colocou uma máscara de pano e a retirou. Sorriu novamente maquiavélico: tranquilo, ninguém repararia; sua outra, mais antiga, nenhum decreto lhe retiraria. Saiu de casa, impune, com a máscara lavada para mais um desfile rotineiro pela passarela sórdida de sua vida.

sexta-feira, 11 de março de 2022

Solidões Compartilhadas Magistrais Femininas: A Leal Menina Poeta que ascendeu Leal Poesia Mulher e a Elisa cujo Carvalho serve de abrigo lírico para todas as loucuras líricas lúcidas do mundo físico e imaginário

Hoje compartilho minhas solidões líricas coletivas
com as musas divartistativistamigas mais que fodásticas
Elisa Carvalho (à esquerda da foto) e
Raquel Leal (à direita da foto). 
E eis que retorno ao blog, após um longo período de procrastinação para saídas boêmias carnavalescas e mais após ao retorno e readaptação dos afazeres e trabalhos diários sóbrios. Demorei tanto tempo pra retornar que perdi datas comemorativas que sempre gosto de destacar, entre elas o carnaval e principalmente o Dia Internacional da Mulher. Como não tenho nenhuma justificativa viável pra tamanho sumiço (sou um bipolar virtual – às vezes me conecto demasiadamente, às vezes fico completamente off-line, às vezes por pura preguiça e/ou desinteresse, às vezes por compromissos reais, às vezes só por às vezes só pra variar), trago nesta postagem minha homenagem lírica às mulheres com um carnaval de solidões compartilhadas magistrais femininas.
Para abrir o bloco do desfile de mulheres poetas mais que fodásticas trago duas grandes musas divartistamigas iluminadas, autoras de obras de máximo lirismo e também destacadas artistativistas culturais. São elas as musas divartistamigas volta-redondenses mais que fodásticas Raquel Leal e Elisa Carvalho.
As duas musas divartistamigas mais que fodásticas possuem estilos bem diferentes, mas que, talvez por isso, e apesar de toda completude de cada uma das citadas já ser consolidada, elas se complementam.
Raquel Leal, musa divartistamiga que já foi a menina do quarto de voar, hoje é a mulher do quarto voador, seu lirismo já não apenas almeja o pássaro dourado do lirismo apurado, já gesta suas próprias asas infinitas feridas de imortal beleza. Tem uma poética intimista versátil que se alimenta das influências leitoras dela, mas numa degustação não passiva: suas obras admitem as influências, mas as ressignificam num estilo próprio, só seu, num arrebatamento arrebatador (ou num arrebatador arrebatado?) [vide o poema “Antropologicamente sedenta”, de autoria de Raquel Leal, em outra postagem aqui do blog – se gue o link: https://diariosdesolidao.blogspot.com/2013/01/solidoes-compartilhadas-os-desejos.html ). Tive a honra de ler seus poemas à primeira vista (ela os havia mostrado a poucos) e também de lançá-la no cenário das letras com seu sempre marcante e magnífico “Quarto de voar” (evidentemente também aqui no blog – segue o link: https://diariosdesolidao.blogspot.com/2012/07/solidoes-compartilhadas-o-quarto-de.html ). Hoje em dia, ela possui uma coluna no site da também mais que fodástica divartistamiga Elayne Lacerda. Os poemas de Raquel Leal são lançados no site toda quarta-feira; segue o link (tem magníficos poemas raquelealianos e elaynilacerdianos lá): http://www.elyanelacerdda.com/ . De Raquel Leal compartilho estas solidões poéticas coletivas como duas magníficas prosas poéticas dela e com um poema maravilhoso dela, escrito em 8 de março do ano passado, dedicado ao Dia Internacional da Mulher, e feministimagicamente hiperconsciente e progressista diante dos desafios diante desta nossa terrível realidade doente e retrógrada.
Elisa Carvalho, musa poesia em movimento divartistamiga, dispensa apresentações: parafraseando Drummond, se não gosta dos poemas de Elisa Carvalho, não há nada de errado com ela, foi o seu ouvido leitor que entortou. Sua arte é uma louca magnificamente lírica de peito aberto pro bombardeio de contradições do mundo – sua poética exterioriza suas reflexões ora melancólicas, ora esperançosas, mas sempre fascinada para as melhores loucuras do mundo e combativa para toda sordidez antiestética humana. Elisa, com sua arte multifacetária [incluindo-se em múltiplas experimentações, de premiadas letras de músicas, poemas minimalistas, instapoemas, poema imagem, poemas longos, bate-papos beats, tudo combina com o seu harmonioso caos perfeito de imperfeições gloriosas], abraça o mundo, a vida, consola os perdidos, perde-se junto e junta se reencontra, é a rainha deusa diva musa mortal do caos harmonioso lírico absoluto imortal. Aqui só trago uma mínima mostra do repertório lírico grandioso de Elisa; se quiser conhecer mais (tenho certeza que vai querer, amigo[a] [e] leitor [a] [e]), segue o link do instagram dela, onde são postados os poemas dela que aqui destaco e muitos outros: https://www.instagram.com/elisacarvalho.holos/ . De Elisa Carvalho trago um de seus instapoemas com o vídeo com o qual ela reverencia sua mais que fodástica arte poética, e outro poema com ilustração feita por ela mesma (que me lembra o também magnífico mestre poets influenciador dos beats Kenneth Patchen [ sim, Elisa está à altura e às vezes talvez acima dos mestres autores que me influenciam e tanto me fascinam).
Agora deixemos as mais que fodásticas artes de Raquel Leal e de Elisa Carvalho falarem e nos fascinarem por si só, amigos leitores.

Prosas poéticas de Raquel Leal

Ela provava com a ponta dos dedos cada palavra-verso que encontrava através de um mundo-vocabulário subjetivo e obscuro, por isso, infelizmente, nem sempre compreendia o conceito. Então procurava nas peças de um quebra-cabeças semântico, o léxico do ser que se expressava descontinuadamente. Este dava-se como o vento, imprevisível como o tom de voz de quem carrega muitos em si. Lia com a ponta dos dedos aquele que escrevia como se tivesse visto inimagináveis guerras e também paraísos impenetráveis. Habitava cada horizonte que a lingugem daqueles versos inclassificáveis, mostrados através de frestas, lhe abriam e sorria no intervalo existente entre o encaixe de cada peça do quebra-cabeças e a certeza da imprecisão interpretativa, mas libertava-se com o que imaginava ter compreendido. O sorriso que cada verso ganhava justificava cada dúvida e o que não compreendia deixava de ter seu foco, pois o mundo que era aberto através dos poemas lidos era infinitamente maior que qualquer certeza abstrata, afinal um poema precisa ser sentido e estes tocavam-na. Seus dedos possuíam a abertura necessária para a entrada das luzes sombreadas existentes naqueles versos, então observando a si, pode compreender que o poeta é sempre um poema novo, e assim completou o quebra-cabeças de intermináveis paisagens.
Raquel Leal

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As férteis horas da madrugada foram alteradas, pela estrela momentaneamente diurna, linear e simétrica aos próprios desejos de vida. Assim, palavras solares se agruparam em constelações e o charme elegantemente comprometido com a literatura, jamais se separaria da sua mão esquerda. Há sublimidade genuína em cada traço que rodeia seu corpo-poema dialógico e transcendental, pois atravessas as bibliotecas com a segurança de quem aprendeu à luz dos antigos mestres, tornando-se o próprio mestre. Seu olhar atento, sagazmente treinado, reconhece de longe a palavra-chave de quem calado ensaia um sorriso lírico, e generoso oferece uma ampulheta com areias de sonhos, contendo segundos intermináveis a quem deseja ter-lhe perto.
Raquel Leal


Resistência é potência

Quem disse que a única mulher, em meio a tantos homens, é o ponto vulnerável na resistência?

Quem disse que não é ela a potência que faz vibrar tornados e vendavais?

Quem disse que ela não é a que faz e refaz, trazendo o justo gosto de haver à frente?

Quem disse que não é ela, a bela aguerrida, a doce saliva da paciência que sabe renascer na renascença de novos tempos, sem vírus e sem dor.

É ela, a dona do calor, as mãos do sol espalhando o fulgor da esperança, da criança, da menina do ventre poético que não se cansa de ser a palavra que faz brotar a força de gerar nos mais infinitos cantos a capacidade de melhorar a vida.

Vacina é ela!!

Aquela, esta, ela, sou eu!!

Somos todas num mesmo tempo protegendo a todos...
Raquel Leal


Instapoema de Elisa Carvalho




Poema com ilustração (Ilustrapoema / Inatapoema / Poema visual / Visual poemático?) de Elisa Carvalho


Para quem sai, sem poder olhar pra trás.
Levando apenas o corpo necessário
para implorar pela paz
enfrentando o deserto da indiferença,
que esta dor não nos tire alguma crença.
Elisa Carvalho

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Leitura lírica à primeira vista: Sejam bem-vindos ao meu município poema corpo inédito Cidade Solidão

"I Transition", de David Wittaker
Depois de um tempo desaparecido (como sempre, sumo esporadicamente deste diário que, há algum tempo, mais parece ‘mensário’, 'momentário’) do blog, vindo de momentos meio que tenebrosos (como o terrível desastre ocasionado pelas chuvas em Petrópolis, que tanto me remetem ao pesadelo da tragédia das chuvas de 2011 em Teresópolis e Nova Friburgo + a pandemia de Covid-19 cujo drama se estende implacável e sem previsão de fim + velhas poluições renovadas permanentemente destrutíveis + tensões e ameaças de novas guerras frias em frígido fogo imperialista arcaico eternamente mercenário assassino), tentando observar com esperança os pequenos instantes de iluminações deste inconstante verão; está difícil, amigos, encontrar poesia e luz nestes dias sombrios e estranhos. Hoje compartilho um poema inédito meu, meio que inspirado nas descrições lírico-fantásticas das cidades apresentadas por um fictício-real-histórico-mítico Marco Polo no mais-que-fodástico romance “As cidades invisíveis”, do mestre da literatura fantástica Ítalo Calvino, e meio que sintonizado com o status melancólico no qual vivemos (o poema traz um corpo-cidade em extrema e solitária-coletiva crise existencial).
Sejam bem-vindos(?) à Cidade Solidão, amigos leitores...

Cidade Solidão

Solidão habita em mim.
Sua principal avenida sem fim
faz contorno nos cantos obscuros do meu cérebro
até a Rua dos Sentimentos Perdidos
protegida por Cérberos fardados e cegos
nos portões do meu peito, no coração da cidade.
Faz um calor dos infernos, mas neva artificialmente em seus bares
da Lapa dos Ouvidos, das Vilas Nasais
aos distritos dos Pequenos e Grandes Lábios.
Nessas áreas de efêmera e desesperada euforia,
a população solitária deixa nos copos esvaziados suas diversões amargas
e leva aos toaletes e mictórios seus resíduos de carências variadas.
A população solitária é mestiça, mas insiste no mito cinza da não diversidade
proferido pelas falsas igrejas e pela hipocrisia social e midiática,
coloridas pela fé teimosa e inabalável no preto e branco.
Há grandes mares de mágoas e reminiscências de monótonos riachos
na Região Larga dos Lagos Olhos Rasos,
onde turistas visitam, curtem e desfilam,
mas sempre passam, sem vontade de voltar.
Os peixes solitários descansam entediados nas baixas temporadas,
mas percebem, após os verões de ilusórias agitações,
seus habitats irremediavelmente poluídos de objetos íntimos e esquecidos
por estranhos conhecidos que não pretendem retornar.
Do Cabo do Baço aos Pulmões Acidentados, os espaços paradisíacos
são lugares invadidos por convulsões químicas e sociais de mal estar.
Na Favela dos Rins e no Morro do Fígado,
há deslizamentos de pedras e uma insegurança ruim
que impede seus moradores de sorrir
– quem cai ali não consegue sair ou se levantar.
Solidão é uma cidade vasta que corta todas as minhas costas
e cobre todo meu ser,
tem estátuas de ídolos mortos e museus de sonhos empoeirados
pela falta de ti,
tem centros históricos sem novas histórias,
casas em ruínas tombadas pelas memórias,
tem um pouco dela, dele, deles e delas, de outros eus e mins.
todos admirados com os excessos de vós e a ausência de nós
nas cortinas puídas das janelas das almas.
Solidão é uma cidade inteira erguida por endereços recusados,
guardados como objetos vivos, bairros inteiros em mim extraviados,
esperando em vão a restauração ou a averbação do amor
de tantos inacessíveis e vis destinatários.
Poema inédito de Carlos Brunno Silva Barbosa

"Reflexo de uma janela de Altamira (Caracas)", do fotógrafo Christopher Anderson


Meu filho-poema selecionado na Copa do Mundo das Contradições: CarnaQatar

Dia de estreia da teoricamente favorita Seleção Brasileira Masculina de Futebol na Copa do Mundo 2022, no Qatar, e um Brasil, ainda fragiliz...