terça-feira, 5 de abril de 2022

Solidões compartilhadas: A perfeita simetria do mais que fodástico poema "Assimétricos", de Maria Eduarda Fernandes

Maria Eduarda Fernandes,
a premiada poeta de "Assimétricos"
Há eventos em nossas vidas que a gente vai adiando indefinidamente sem nem bem saber o porquê. As publicações neste blog – que, no plano inicial, deveriam ser quase diárias – são um exemplo disso: têm sido cada vez mais esporádicas e não sei explicar o porquê (preguiça, desânimo, loucura, surto, desinteresse, cotidiano atarefado demais, insatisfação, mais loucura, falta de inspiração, desleixo e descuido, projeto deixado de lado em detrimento a outros emergentes, irritação com os áridos novos velhos tempos a ponto de provocar imprevista inércia nas ações, cansaço existencial, não sei: são tantos motivos que se tornam motivo algum; um caso explicado pela falta ou excesso de explicação). A postagem de hoje tem a ver com isso: hoje, finalmente, após um longo atraso (os mais que fodásticos poetamigos Renato Galvão, Raquel Leal, Gisele Pacheco e outros tantos que me confiaram seus escritos passaram e/ou passam pelo que retrato, assim como muitos de meus escritos), finalmente, compartilho minhas solidões poéticas com a mais que fodástica Maria Eduarda Fernandes.
Em 9 de novembro de 2019, na II Felivre,
 ao lado da mais que fodástica poetamiga
Maria Eduarda Fernandes e de
Neusa Magali Carvalho, diretora
do polo da Cederj em Volta Redonda/RJ
Conheci Maria Eduarda no segundo dia da II Felivre, organizada pelo Cederj-VR, no setor azul do Estádio Cidadania, em Volta Redonda/RJ, em 9 de novembro de 2019 (uma pequena digressão aqui: na noite anterior ao momento que nos conhecemos, no término de minha louca e cansativa baldeação Teresópolis [partindo direto da escola na qual trabalhei de manhã] – Sapucaia – Três Rios – Volta Redonda para chegar aos arredores do local do evento na véspera do dia em que fui convidado pra participar da Feira [no caso, parei em Califórnia de Barra do Piraí, onde fui visitar minha tia – e descansar, pois a viagem é bastante extenuante], no ônibus de Três Rios x Volta Redonda, numa daquelas coincidências líricas que, se estivesse em um filme, todos desconfiariam como falha/facilitação de roteiro, meu assento foi reservado ao lado de Eduardo Pereira de Azevedo, que eu não conhecia, mas que, durante o bate-papo, soube que era escritor, havia ganhado o 1.° lugar no Concurso de Poesias Cederj e participaria naquela noite da cerimônia de premiação na II Felivre [noite em que não estive presente no evento, pois estava completamente exausto]. Não vi mais o Eduardo, mas tive a honra de conhecer, no dia seguinte, a iluminada Maria Eduarda Fernandes, que conquistara o 3° lugar no mesmo certame literário que ele. Por maravilhosos e líricos encontros assim que torço por mais edições da Felivre – e que eu tenha oportunidade de curtir novamente o evento). Digressão realizada, retornemos ao dia seguinte: no dia 9 de novembro, enquanto expunha meus livros na II Felivre, Maria Eduarda aproximou-se, conversou comigo e observou a minha camisa que fazia referência à Alice no País das Maravilhas. A partir desta observação dela, antes de conversarmos mais, imaginei hipóteses que logo quase e confirmaram: deve cursar Letras (na verdade, cursa Pedagogia, mas as áreas são compatíveis) e tem poder de observação – e olhar brilhante – de escritora. Aparentava uma felicidade imensa e contagiante por estar presente na Feira Literária (mais uma hipótese logo confirmada: é fã de eventos culturais e literários). Contou-me, com orgulho (merecidíssimo, como poderão constatar ao lerem o mais-que-magnífico poema dela), que fora contemplada com o 3.º Lugar no Concurso de Poesias Cederj. Citou também residir em Teresópolis/RJ (mais uma vez, se fosse filme, iriam achar que mais essa coincidência seria conveniência de roteiro [além do fato de, enquanto eu acompanhava a página da Cederj – Polo Volta Redonda – já havia lido a lista dos poetas vencedores do concurso literário – até porque o Paulo Caruso, que conquistou 2.º lugar, era um grande mestre poetamigo meu, com quem estabelecia contato frequentemente -, logo, o nome dela não me foi estranho no momento em que ela me contou sua brilhante conquista literária). Fiquei encantado com a personalidade irradiante de lirismo de Maria Eduarda Fernandes, foi ‘amizade à primeira prosa poética’, o que tornou ainda mais especial a minha já superpositiva participação na II Felivre (lembrando: atenção, organizadores dos eventos culturais da Cederj, precisamos de mais edições de eventos culturais fodásticos como este).
Depois de 9 de novembro, conversamos esporadicamente por WhatsApp, e, assim, tive contato com o mais-que-fodástico poema premiado de Maria Eduarda Fernandes, intitulado “Assimétricos”. O poema apresenta, em versos livres (ou seja, diversos como o tema que aborda) e ritmicamente harmônicos, ao mesmo tempo que diversificados (novamente, observem: conteúdo e forma se abraçam no premiado escrito lírico), a beleza da assimetria na diversidade de nosso povo. Cabe destacar a intencional ausência de padrões de rima, com o uso principal de rimas imperfeitas (quando há correspondência, mas não igualdade, de sons), esporadicamente intercaladas com rimas perfeitas (em que há correspondência total de sons, havendo repetição tanto dos sons vocálicos como dos sons consonantais), mas, neste último caso, também intencionalmente pobres quanto ao valor (quando as palavras que rimam pertencem à mesma classe gramatical), o que mantém um ar de espontaneidade e simplicidade, aspectos tão caros ao tema diversidade proposto pelo poema. Também vale ressaltar a variação de uso de versos [di versos] transbordados com hipérbatos (quando há inversão da ordem natural das palavras de uma oração) na maioria das estrofes, intercalados esporadicamente com versos que seguem a ordem mais natural da oração (sujeito-verbo-complementos), mais uma vez, apresentando, de forma genial, a diversidade tanto na forma quanto no conteúdo. Como vocês sentirão, o efeito da leitura - tanto superficial quanto profunda - do mais que fodástico poema de Maria Eduarda Fernandes é de supernatural maravilhamento diante do magnífico escrito lírico.
Diante da obra prima de Maria Eduarda Fernandes, logo lhe pedi para publicar o poema no blog, solicitação aceita e correspondida pela autora. Mas eis a novela das postagens: envolto em dramas como eu já citara logo no início e que não sei explicar, tenho publicado muito pouco e muito inconstantemente neste espaço lírico coletivo. O mais que fodástico “Assimétricos” foi muito injustamente adiado diversas vezes para as raras postagens que publico nos últimos tempos. Mas hoje, nestes dias iniciais de úmido outono, de folhas melancolicamente caindo e da natureza se renovando, enquanto dança entre climas indefinidos (ora garoa, ora breve calor, quase frio, quase quente, quase sempre quase sendo pleno em sua diversidade), finalmente, faço minha reparação e, hoje – finalmente! -, compartilho minhas solidões líricas com o poema “Assimétricos”, de Maria Eduarda Fernandes. Tenho certeza de que vocês, prezados e atenciosos amigos leitores, irão, como eu, adorar o mais que fodástico poema de Maria Eduarda Fernandes.

Assimétricos
Maria Eduarda Fernandes


Em versos digo
Diversos somos
Assimétricas rimas
Em vidas, em sonhos

De tantos cantos
Fluindo
Abrilhantando

Nossas histórias
Tem muitas cores
Misturas santas
De nossas peles
Diversos são
Nossos amores

Andamos por aí
Apenas humanos
Sem padrões a cumprir

Um olho não vê
Mas a mão afaga
Alguém não te escuta
E outras línguas fala

São versos e flores
Nesta melodia
Diversos sabores
Estes que te espantam

Viva a liberdade de crer
Ou não crer

Além da palavra
A que é dita santa
Ecoam lamentos
De canaviais
Ressoam tambores
Girando nas saias
Brincando nas praias
De tantos Brasis.

Quadro "Operários", de Tarsila do Amaral,
um das mostras mais emblemáticas
da diversidade do povo brasileiro.


sábado, 26 de março de 2022

O desejo publicado: A gratidão do transitório andarilho

Olá, amigos leitores deste inconstante blog (de ‘Diários de Solidões Coletivas’, cada vez mais mostra-se ‘Periódicos de Solidões Coletivas”, apesar da solidão coletiva de cada gente e agente manter-se sólida diariamente), hoje trago um poema que escrevi especialmente para a Coletânea Gratidão, divinamente organizada pela musa superdivartistativistamiga Jammy Said e lançado oficialmente neste ano (para pedidos de compra da coletânea, deixo o contato da organizadora Jammy Said no instagram: https://www.instagram.com/jammy.said/ ).
Conforme o título da coletânea nos informa, o tema da antologia era gratidão, mote com o qual jamais havia trabalhado. Por coincidência ou lírico destino, alguns anos antes, a superprofessoramiga Patricia Ignácio também me pedira um poema com o tema gratidão, o que – por ainda não ter cumprido a solicitação depois de tanto tempo, o desafio de seguir tal mote veio dobrado e sou bastante obsessivo em cumprir a produção de poema que me comprometo a escrever. Mas havia o problema/bloqueio vindo de minha formação e inspirações: sou daqueles adeptos a Cazuza, que, como ele, sempre fui malicioso demais e achava a palavra e suas equivalentes [obrigado, etc] meio bregas, de difícil inserção em obra poética. Mas, também como Cazuza (ele criou uma composição maravilhosa [ e potencialmente subversiva] chamada "Obrigado [por ter se mandado]”), topei o desafio desde que, como o mestre autor do emblemático álbum “Ideologia|”, eu também pudesse fugir do lugar comum e subverter o tema de algum modo. Quis tratar sobre outra gratidão: o agradecimento erótico-amoroso, as gratidões do corpo e do coração saciados por noites de sexo, entre domínios e dominações. Assim decidi produzir um poema erótico, como também, há tempos, não escrevia, e, finalmente, o meu filho-poema sobre gratidão nasceu!
Antes de compartilhá-lo com vocês logo abaixo, deixo algumas informações extras para, talvez, enriquecimento pleno da leitura: cito, no poema, duas grandes personagens mitológicas (sim, também voltei a fazer referência à mitologia grega, como, há tempos, não fazia) Atalanta e Hipomene. Atalanta era uma princesa da Arcádia. Seu pai, o rei da Arcádia, queria um filho, e, quando Atalanta nasceu, ele deixou-a em cima de uma montanha para morrer. Mas Atalanta, alimentada por uma ursa, agarrou-se à vida de forma brava e se tornou uma atlética e poderosa guerreira. De volta ao reino de Arcádia, já com a aceitação do pai (meio que obrigatória, visto que a filha resistiu às intempéries impostas pelo desprezo paterno), depois de um tempo, Atalanta, belíssima, se viu obrigada a receber diversas propostas de casamento, bastante inconvenientes, pos ela, diante de terríveis previsões e velhas promessas, desejava manter sua virgindade resguardada à deusa Ártemis. Vendo que não poderia mais fugir da investida, para afastar os pretendentes de vez, Atalanta impôs uma regra: se casar com quem a vencesse numa corrida (ela sempre foi a mais veloz entre todos os corredores), mas, caso o competidor perdesse (o que era quase certo, ela sabia), a morte seria seu destino. Apesar do risco, muitos candidatos apareceram e morreram tentando vencer Atalanta, até que Hipomene, com o auxílio de Afrodite, concorreu e usou de astúcia para vencê-la: atirou maçãs no caminho, retardando a veloz atleta e, assim, vencendo a corrida. Em meu poema, como fiz no tema, subverto o mito: é a própria Atalanta quem joga as maçãs e ludibria Hipomene para que ele pense ter sido o vencedor, quando seria ela quem o teria escolhido e vitoriosamente conseguido seus vorazes intentos.
Além do poema logo abaixo compartilhado, também trago a minha apresentação do texto lírico selecionado em no Sarau Florescer Nit, no Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Niterói/RJ, na quinta-feira, dia 13/01/2022, cujo evento foi organizado pela musa superdivartistativistamiga Jammy Said.
E, agora, vamos ao poema, amigos leitores. Boa leitura e Gratidão por acompanharem este transitório blogueiro andarilho nas raras vezes que posto. Abraços e Arte Sempre!




A gratidão do transitório andarilho
Carlos Brunno Silva Barbosa

Gratidão mesmo antes que me abras tua porta,
gratidão pela oferta amistosa, gostosa
de dor sem dolo, de infindo amor sem depois.
Sou andarilho à tua porta esperando
que me atendas, que te estendas pra minha fome
de vampiro efêmero, sedento de ti.

Então me abres a porta, presa poderosa,
fatalmente atlética, Atalanta morena
de mil maratonas na arcádia furiosa,
no olimpo ardente de meus sonhos mais febris.

E assim me atiro em teu abrigo sem domínios,
dominado por descontrolados desejos,
caçador ludibriado pela caçada,
dominado pelo indominável, por ti.

Hipomene adverso, tuas maçãs persigo
e caio erguido em cada labirinto teu
e agradeço cada fruto que me arremetes,
cada raiva amorosa, cada amor pagão.
Deuses cultuando a própria apoteose,
teu corpo e meu corpo em erótico ouroboros.
E a noite devora nossos devoramentos...

Após sustentarmos os sussurros da lua,
o sol volta com seu calor assexuado,
cheio de rigor e prazos inadiáveis,
mas, no quarto, ainda é noite, e, novamente,
agradeço pela escuridão partilhada,
pelo perene acolhimento temporário
deste eu farto, mas sempre faminto por ti.


Caso não esteja conseguindo visualizar o vídeo
de minha apresentação no Sarau Florescer Nit por aqui,

sábado, 12 de março de 2022

Meu miniconto inédito de contato desmacarado imediato

Tenho visto governantes divulgarem a sanção de decretos sobre o fim do uso obrigatório de máscaras - até aí tudo bem, faz parte da função e do circo do círculo político vigente, porém, contudo, entretanto, todavia, comemorarem isso como um grande feito político histórico é de uma cretinice sem fim.
O meu miniconto inédito, escrito há pouco, dentro do ônibus, mascarado entre mascarados desmascarados, foi inspirado nisso.
Espero que gostem, queridos leitores mascarados, desmascarados, desmascaradores e/ou (sub/sobre)naturais.


De(s) Mascarados

Comemorou com silencioso sarcasmo o decreto que previa o fim do uso obrigatório das máscaras. Diante do espelho, colocou uma máscara de pano e a retirou. Sorriu novamente maquiavélico: tranquilo, ninguém repararia; sua outra, mais antiga, nenhum decreto lhe retiraria. Saiu de casa, impune, com a máscara lavada para mais um desfile rotineiro pela passarela sórdida de sua vida.

sexta-feira, 11 de março de 2022

Solidões Compartilhadas Magistrais Femininas: A Leal Menina Poeta que ascendeu Leal Poesia Mulher e a Elisa cujo Carvalho serve de abrigo lírico para todas as loucuras líricas lúcidas do mundo físico e imaginário

Hoje compartilho minhas solidões líricas coletivas
com as musas divartistativistamigas mais que fodásticas
Elisa Carvalho (à esquerda da foto) e
Raquel Leal (à direita da foto). 
E eis que retorno ao blog, após um longo período de procrastinação para saídas boêmias carnavalescas e mais após ao retorno e readaptação dos afazeres e trabalhos diários sóbrios. Demorei tanto tempo pra retornar que perdi datas comemorativas que sempre gosto de destacar, entre elas o carnaval e principalmente o Dia Internacional da Mulher. Como não tenho nenhuma justificativa viável pra tamanho sumiço (sou um bipolar virtual – às vezes me conecto demasiadamente, às vezes fico completamente off-line, às vezes por pura preguiça e/ou desinteresse, às vezes por compromissos reais, às vezes só por às vezes só pra variar), trago nesta postagem minha homenagem lírica às mulheres com um carnaval de solidões compartilhadas magistrais femininas.
Para abrir o bloco do desfile de mulheres poetas mais que fodásticas trago duas grandes musas divartistamigas iluminadas, autoras de obras de máximo lirismo e também destacadas artistativistas culturais. São elas as musas divartistamigas volta-redondenses mais que fodásticas Raquel Leal e Elisa Carvalho.
As duas musas divartistamigas mais que fodásticas possuem estilos bem diferentes, mas que, talvez por isso, e apesar de toda completude de cada uma das citadas já ser consolidada, elas se complementam.
Raquel Leal, musa divartistamiga que já foi a menina do quarto de voar, hoje é a mulher do quarto voador, seu lirismo já não apenas almeja o pássaro dourado do lirismo apurado, já gesta suas próprias asas infinitas feridas de imortal beleza. Tem uma poética intimista versátil que se alimenta das influências leitoras dela, mas numa degustação não passiva: suas obras admitem as influências, mas as ressignificam num estilo próprio, só seu, num arrebatamento arrebatador (ou num arrebatador arrebatado?) [vide o poema “Antropologicamente sedenta”, de autoria de Raquel Leal, em outra postagem aqui do blog – se gue o link: https://diariosdesolidao.blogspot.com/2013/01/solidoes-compartilhadas-os-desejos.html ). Tive a honra de ler seus poemas à primeira vista (ela os havia mostrado a poucos) e também de lançá-la no cenário das letras com seu sempre marcante e magnífico “Quarto de voar” (evidentemente também aqui no blog – segue o link: https://diariosdesolidao.blogspot.com/2012/07/solidoes-compartilhadas-o-quarto-de.html ). Hoje em dia, ela possui uma coluna no site da também mais que fodástica divartistamiga Elayne Lacerda. Os poemas de Raquel Leal são lançados no site toda quarta-feira; segue o link (tem magníficos poemas raquelealianos e elaynilacerdianos lá): http://www.elyanelacerdda.com/ . De Raquel Leal compartilho estas solidões poéticas coletivas como duas magníficas prosas poéticas dela e com um poema maravilhoso dela, escrito em 8 de março do ano passado, dedicado ao Dia Internacional da Mulher, e feministimagicamente hiperconsciente e progressista diante dos desafios diante desta nossa terrível realidade doente e retrógrada.
Elisa Carvalho, musa poesia em movimento divartistamiga, dispensa apresentações: parafraseando Drummond, se não gosta dos poemas de Elisa Carvalho, não há nada de errado com ela, foi o seu ouvido leitor que entortou. Sua arte é uma louca magnificamente lírica de peito aberto pro bombardeio de contradições do mundo – sua poética exterioriza suas reflexões ora melancólicas, ora esperançosas, mas sempre fascinada para as melhores loucuras do mundo e combativa para toda sordidez antiestética humana. Elisa, com sua arte multifacetária [incluindo-se em múltiplas experimentações, de premiadas letras de músicas, poemas minimalistas, instapoemas, poema imagem, poemas longos, bate-papos beats, tudo combina com o seu harmonioso caos perfeito de imperfeições gloriosas], abraça o mundo, a vida, consola os perdidos, perde-se junto e junta se reencontra, é a rainha deusa diva musa mortal do caos harmonioso lírico absoluto imortal. Aqui só trago uma mínima mostra do repertório lírico grandioso de Elisa; se quiser conhecer mais (tenho certeza que vai querer, amigo[a] [e] leitor [a] [e]), segue o link do instagram dela, onde são postados os poemas dela que aqui destaco e muitos outros: https://www.instagram.com/elisacarvalho.holos/ . De Elisa Carvalho trago um de seus instapoemas com o vídeo com o qual ela reverencia sua mais que fodástica arte poética, e outro poema com ilustração feita por ela mesma (que me lembra o também magnífico mestre poets influenciador dos beats Kenneth Patchen [ sim, Elisa está à altura e às vezes talvez acima dos mestres autores que me influenciam e tanto me fascinam).
Agora deixemos as mais que fodásticas artes de Raquel Leal e de Elisa Carvalho falarem e nos fascinarem por si só, amigos leitores.

Prosas poéticas de Raquel Leal

Ela provava com a ponta dos dedos cada palavra-verso que encontrava através de um mundo-vocabulário subjetivo e obscuro, por isso, infelizmente, nem sempre compreendia o conceito. Então procurava nas peças de um quebra-cabeças semântico, o léxico do ser que se expressava descontinuadamente. Este dava-se como o vento, imprevisível como o tom de voz de quem carrega muitos em si. Lia com a ponta dos dedos aquele que escrevia como se tivesse visto inimagináveis guerras e também paraísos impenetráveis. Habitava cada horizonte que a lingugem daqueles versos inclassificáveis, mostrados através de frestas, lhe abriam e sorria no intervalo existente entre o encaixe de cada peça do quebra-cabeças e a certeza da imprecisão interpretativa, mas libertava-se com o que imaginava ter compreendido. O sorriso que cada verso ganhava justificava cada dúvida e o que não compreendia deixava de ter seu foco, pois o mundo que era aberto através dos poemas lidos era infinitamente maior que qualquer certeza abstrata, afinal um poema precisa ser sentido e estes tocavam-na. Seus dedos possuíam a abertura necessária para a entrada das luzes sombreadas existentes naqueles versos, então observando a si, pode compreender que o poeta é sempre um poema novo, e assim completou o quebra-cabeças de intermináveis paisagens.
Raquel Leal

******

As férteis horas da madrugada foram alteradas, pela estrela momentaneamente diurna, linear e simétrica aos próprios desejos de vida. Assim, palavras solares se agruparam em constelações e o charme elegantemente comprometido com a literatura, jamais se separaria da sua mão esquerda. Há sublimidade genuína em cada traço que rodeia seu corpo-poema dialógico e transcendental, pois atravessas as bibliotecas com a segurança de quem aprendeu à luz dos antigos mestres, tornando-se o próprio mestre. Seu olhar atento, sagazmente treinado, reconhece de longe a palavra-chave de quem calado ensaia um sorriso lírico, e generoso oferece uma ampulheta com areias de sonhos, contendo segundos intermináveis a quem deseja ter-lhe perto.
Raquel Leal


Resistência é potência

Quem disse que a única mulher, em meio a tantos homens, é o ponto vulnerável na resistência?

Quem disse que não é ela a potência que faz vibrar tornados e vendavais?

Quem disse que ela não é a que faz e refaz, trazendo o justo gosto de haver à frente?

Quem disse que não é ela, a bela aguerrida, a doce saliva da paciência que sabe renascer na renascença de novos tempos, sem vírus e sem dor.

É ela, a dona do calor, as mãos do sol espalhando o fulgor da esperança, da criança, da menina do ventre poético que não se cansa de ser a palavra que faz brotar a força de gerar nos mais infinitos cantos a capacidade de melhorar a vida.

Vacina é ela!!

Aquela, esta, ela, sou eu!!

Somos todas num mesmo tempo protegendo a todos...
Raquel Leal


Instapoema de Elisa Carvalho




Poema com ilustração (Ilustrapoema / Inatapoema / Poema visual / Visual poemático?) de Elisa Carvalho


Para quem sai, sem poder olhar pra trás.
Levando apenas o corpo necessário
para implorar pela paz
enfrentando o deserto da indiferença,
que esta dor não nos tire alguma crença.
Elisa Carvalho

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Leitura lírica à primeira vista: Sejam bem-vindos ao meu município poema corpo inédito Cidade Solidão

"I Transition", de David Wittaker
Depois de um tempo desaparecido (como sempre, sumo esporadicamente deste diário que, há algum tempo, mais parece ‘mensário’, 'momentário’) do blog, vindo de momentos meio que tenebrosos (como o terrível desastre ocasionado pelas chuvas em Petrópolis, que tanto me remetem ao pesadelo da tragédia das chuvas de 2011 em Teresópolis e Nova Friburgo + a pandemia de Covid-19 cujo drama se estende implacável e sem previsão de fim + velhas poluições renovadas permanentemente destrutíveis + tensões e ameaças de novas guerras frias em frígido fogo imperialista arcaico eternamente mercenário assassino), tentando observar com esperança os pequenos instantes de iluminações deste inconstante verão; está difícil, amigos, encontrar poesia e luz nestes dias sombrios e estranhos. Hoje compartilho um poema inédito meu, meio que inspirado nas descrições lírico-fantásticas das cidades apresentadas por um fictício-real-histórico-mítico Marco Polo no mais-que-fodástico romance “As cidades invisíveis”, do mestre da literatura fantástica Ítalo Calvino, e meio que sintonizado com o status melancólico no qual vivemos (o poema traz um corpo-cidade em extrema e solitária-coletiva crise existencial).
Sejam bem-vindos(?) à Cidade Solidão, amigos leitores...

Cidade Solidão

Solidão habita em mim.
Sua principal avenida sem fim
faz contorno nos cantos obscuros do meu cérebro
até a Rua dos Sentimentos Perdidos
protegida por Cérberos fardados e cegos
nos portões do meu peito, no coração da cidade.
Faz um calor dos infernos, mas neva artificialmente em seus bares
da Lapa dos Ouvidos, das Vilas Nasais
aos distritos dos Pequenos e Grandes Lábios.
Nessas áreas de efêmera e desesperada euforia,
a população solitária deixa nos copos esvaziados suas diversões amargas
e leva aos toaletes e mictórios seus resíduos de carências variadas.
A população solitária é mestiça, mas insiste no mito cinza da não diversidade
proferido pelas falsas igrejas e pela hipocrisia social e midiática,
coloridas pela fé teimosa e inabalável no preto e branco.
Há grandes mares de mágoas e reminiscências de monótonos riachos
na Região Larga dos Lagos Olhos Rasos,
onde turistas visitam, curtem e desfilam,
mas sempre passam, sem vontade de voltar.
Os peixes solitários descansam entediados nas baixas temporadas,
mas percebem, após os verões de ilusórias agitações,
seus habitats irremediavelmente poluídos de objetos íntimos e esquecidos
por estranhos conhecidos que não pretendem retornar.
Do Cabo do Baço aos Pulmões Acidentados, os espaços paradisíacos
são lugares invadidos por convulsões químicas e sociais de mal estar.
Na Favela dos Rins e no Morro do Fígado,
há deslizamentos de pedras e uma insegurança ruim
que impede seus moradores de sorrir
– quem cai ali não consegue sair ou se levantar.
Solidão é uma cidade vasta que corta todas as minhas costas
e cobre todo meu ser,
tem estátuas de ídolos mortos e museus de sonhos empoeirados
pela falta de ti,
tem centros históricos sem novas histórias,
casas em ruínas tombadas pelas memórias,
tem um pouco dela, dele, deles e delas, de outros eus e mins.
todos admirados com os excessos de vós e a ausência de nós
nas cortinas puídas das janelas das almas.
Solidão é uma cidade inteira erguida por endereços recusados,
guardados como objetos vivos, bairros inteiros em mim extraviados,
esperando em vão a restauração ou a averbação do amor
de tantos inacessíveis e vis destinatários.
Poema inédito de Carlos Brunno Silva Barbosa

"Reflexo de uma janela de Altamira (Caracas)", do fotógrafo Christopher Anderson


quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Solidões líricas fotográficas compartilhadas: O colorido lírico na arte fotográfica monocromática de Bruno Lanine

Bruno Lanine
No sábado, dia 08 de janeiro de 2022, comemorou-se mais uma vez o Dia do Fotógrafo ou Dia Nacional da Fotografia, e, mesmo que tardiamente (já se passaram quase 12 dias da data comemorativa), o poeta-blogueiro-pateta-no-tempo-agora-sempre-presente-no-eternamente (ou éter-na-mente?) que vos escreve resolveu relembrar o festivo dia já passado com uma solidão compartilhada há muito tempo prometida, mas só agora concretizada: hoje compartilho minhas solidões líricas coletivas com o mais-que-fodástico e premiadíssimo fotógrafo-amigo Bruno Lanine, de Valença/RJ.
Trago duas fotos-poemas premiadas de Bruno Lanine – ambas da categoria Fotografia monocromática (Preto e branco) [lembrando que Bruno trabalha com diversas categorias de fotografia, mas as solidões compartilhadas de hoje destacam obras sublimes da categoria citada]: são obras de arte revigorantes e ricas em poesia – pra serem lidas (sim, imagens também são textos e flertam com diversas outras manifestações artísticas, entre elas a poética) com atenção, fascínio e emoção (de tanto fascínio, talvez gere até lírica devoção).
Aproveito pra divulgar a página do mais-que-fodástico e premiadíssimo fotógrafo-amigo Bruno Lanine – segue o link para que possam curtir: https://www.facebook.com/brunolaninefotografia/ - além de seu instagram para seguirem o mais-que-fodástico artistamigo: https://www.instagram.com/brunolaninefotografia/ .
Agora, amigos, extasiem os seus olhos leitores com o colorido lírico da arte fotográfica monocromática de Bruno Lanine.


Fotografia selecionada para a Exposição Photo Nature Brasil, em maio de 2021,
e para o catálogo impresso da edição 2021 Brasília Photo Show




"Herança coletiva - Um olhar diferente do habitual", fotografia premiada em 1.º Lugar
(votação popular) no Tema "Mesmo no silêncio a arte ecoa" - Categoria Adulto
na Mostra Cultural de Fotografia e Poesia "Olhares sobre o Patrimônio Fluminense" 2021,
parte da programação da Semana Fluminense do Patrimônio (SFP)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Em tempos de cancelamentos e adiamentos, eis meu poema adiado

Quadro da magnífica HQ francesa
"Destino adiado", de Gibrat
Festa de Dia de Reis, tradicionalíssima em Valença/RJ, cancelada, carnavais cancelados, fim de pandemia continuamente adiado diante de novas variantes e ameaças, cancelamentos (impeachments) de desgovernabilidades cancelados, verão, continuamente maltratado pelo invernal nublado, adiado, vivemos perenes tempos de cancelamentos e adiamentos. A minha primeira postagem de 2022 é reflexo disto: trago meu poema quase-pós-pandêmico-não-pós-porque-a-doença-mazela-humana-é-pré-e-histórica-perpétua-e-continuamente-pandêmica “O poema adiado”, selecionado na Antologia do Concurso Contemporânea de Literatura de 2021.
Feliz Ano Velho, amigos leitores – me perdoem o humor nublado – o lirismo calorosamente aberto e otimista está temporariamente (espera-se que não perpetuamente) adiado.

O poema adiado

Bom dia
e a saudação encontra a padaria
sem a cortesia daquela cliente antiga.
O café outrora recém passado na casa vizinha
agora ferve em passado falho
sem ser passado por ninguém.
Entre sonhos mofados e pães dormidos,
versos de ausência se espalham pelo cesto,
como trigos desperdiçados numa fornada de lamentos.
Amanhece e nem o poema, nem a senhorinha vêm.

Boa tarde
e um aceno procura o banco vazio da praça arruinada,
enquanto a estátua carcomida observa o pombo doente
que cisca os arredores, insistentemente,
em busca de grãos ausentes.
Versos de abandono correm como lágrimas,
inúteis como o chafariz sem água.
É tarde para o poema decadente
e muito mais tarde para aquele senhor
que alimentava os pássaros indigentes.

Boa noite
e a escuridão parece acomodada
ao céu incomodado pelas crescentes constelações enlutadas.
Versos de uma nova elegia procuram velhas estrelas, em vão:
são luzes de astros mortos; desilusão na ilusão.
Mais um dia se contamina e, outra vez, o poema é adiado
por falta de uma luz verdadeira, ainda que fugidia,
por ausência de uma vacina de esperança, ainda que temporária.






Meu filho-poema selecionado na Copa do Mundo das Contradições: CarnaQatar

Dia de estreia da teoricamente favorita Seleção Brasileira Masculina de Futebol na Copa do Mundo 2022, no Qatar, e um Brasil, ainda fragiliz...