terça-feira, 17 de março de 2015

Crônicas Coxi-lhas (Crônicas dos tempos de Coxinhas versus Petralhas)

A onda de protestos que ocorre no Brasil, que envolve, principalmente, aqueles que defendem a continuação da presidente Dilma no poder (quase sempre chamados pelo ofensivo apelido “petralhas” – junção da sigla “PT” com os vilões de desenho animado “metralhas”) e os que defendem o impeachment da presidente eleita (quase sempre chamados pelo ofensivo apelido “coxinhas” – apropriado da gíria criada em São Paulo que servia para ofender os adolescentes riquinhos, burgueses, que usam roupas de marca, vão na famosa balada Disco, frequentam a Starbucks), tem complicado a comunicações de fatos banais no cotidiano das pessoas, como podemos ver nas crônicas abaixo:

Crônica Coxi-lhas 1: Por que Osteovaldo perdeu a mulher

Após uma viagem de negócios bem sucedida, Osteovaldo chegou em casa festivo. A esposa Etelvina, petralha convicta, recebeu o marido cheia de mimos:
- Está com fome, querido? Quer que eu improvise algo na cozinha para você comer?
- Ah, não precisa, querida! Comi duas coxinhas no aeroporto, estou satisfeito.
Osteovaldo foi expulso de sua própria casa pela própria esposa a pontapés.
- E não adianta vir com intervenção militar, seu traidor, que aqui você não entra mais e daqui ninguém me tira! – foram as últimas palavras que ouviu da esposa, antes de Etelvina trancar a porta. Jamais ouviria o som da voz de sua esposa novamente, nem seria ouvido por ela; Osteovaldo estava definitivamente bloqueado na sua relação conjugal.

Crônica Coxi-lhas 2: Por que Astolfo se tornou petralha

Torcedor fanático do América/RJ, Astolfo nunca ligou para os acontecimentos de seu país – tanto que, na última eleição, elegeu na urna eletrônica o número 82 em homenagem ao título conquistado por seu time de coração em 1982 (o Torneio dos Campeões, organizado pela CBF, com a presença dos maiores clubes do Brasil). De segunda a segunda, toda vez que saía, Astolfo usava uma das suas sete camisas do América, em defesa do não-esquecimento de seu grande clube de coração.
Preocupado com a situação de seu time, atualmente na segunda divisão do Campeonato Carioca, Astolfo passeava cabisbaixo pela Cinelândia na fatídica sexta-feira, 13 de março (véspera da estréia do América no campeonato estadual, contra o terrível rival Audax), e acabou confundido como manifestante na aglomeração de pessoas que trajavam camisas vermelhas e defendiam a permanência de Dilma na presidência (fato que deixou Astolfo confuso: “mas o presidente do América não é o Léo Barros Almada?”). Puxado para o canto por um dos manifestantes, Astolfo recebeu do apressado homem o pagamento por sua participação no ato: R$ 35,00. Astolfo até pensou em negar a propina (“torcer pelo América não tem preço, amigo”, pensou em dizer), mas o homem já havia desaparecido na multidão de camisas vermelhas.
Astolfo retornou para casa feliz, pensando que aquele acontecimento sinalizava que, no dia seguinte, o América brilharia em sua estréia na Segunda Divisão do Campeonato Carioca. Mas não foi bem assim: jogo duro no Estádio Moça Bonita, placar final Audax 2 x América também 2. “Até que um empate não foi nada mal, afinal é estréia, jogo fora de casa, o Audax é um time experiente; o negócio é ganhar o próximo jogo no nosso campo e se manter próximo das primeiras posições.”, Astolfo avaliava o resultado com os seus solitários botões.
No dia seguinte, após tantas emoções na torcida do jogo passado, Astolfo resolveu repor as energias dando um passeio pela praia de Copacabana. Passou por uma aglomeração de pessoas com camisas verdes e amarelas (“ué, teve jogo da seleção hoje?”, se perguntou Astolfo). Viu que aquela aglomeração de pessoas defendia o impeachment da presidente Dilma (“mas o presidente da CBF não era o Marin?”, perguntou-se) e, meio assustado (“não vou me meter nisso não; a CBF já persegue demais meu América pra eu entrar nessas polêmicas”, refletiu), Astolfo assistiu à manifestação de longe. De longe e por pouco tempo. Seu passeio por Copacabana naquele domingo, dia 15 de março, seria marcado como um dos dias mais trágicos de sua vida: vários defensores do impeachment de Dilma, incitados por um manifestante míope, correram atrás de Astolfo, atirando-lhe objetos e xingando-o de “comunista petralha”. A PM, a fim de evitar o confronto, jogou Astolfo num camburão e levou-o para longe da manifestação. “Se nem os opositores do Marin são a favor do América, o que será do meu time?”, perguntou Astolfo ao policial, antes de seguir seu caminho de volta pra casa. O policial não entendeu a pergunta, mas, dado a expressões filosóficas de efeito, deixou-lhe uma enigmática resposta: “Vivemos tempos loucos, amigo... Agora segue seu caminho.”
De volta pra casa, Astolfo refletiu sobre os acontecimentos dos últimos dias e concluiu: “se petralha é como chamam aqueles torcedores do América que conheci na sexta-feira, ok, sou petralha com muito orgulho e com muito amor!”

Crônica Coxi-lhas 3: Por que aquele jovem casal enamorado passou a viver um drama de Shakespeare

Aos prantos, Ele escreveu para sua Amada a mensagem pelo e-mail:
“Minha eterna e terna amada,
Vivemos tempos difíceis neste mundo intolerante e cheio de ódio. Os visitantes de nossas atualizações no facebook, desconhecedores do real sentido da palavra amor, nos últimos dias, condenam minhas declarações públicas de afeto por ti, minha querida mulata.
Jamais esqueci nossos beijos naquele baile de máscaras no último dia de carnaval e conto os dias para revê-la, por isso fiz aquela declaração de amor para ti no grupo de casais apaixonados do qual éramos membros naquele famigerado facebook. Mas os monstros corruptores do verdadeiro amor invadiram minha linha do tempo e quiseram pôr meu amor por ti a prova; condenavam nossos nomes e incluíram comentários de ódio e repulsa por odiarem os nomes que nossas famílias nos deram. Maldita era essa que vivemos, minha amada, pois sofremos pelo mal da leitura superficial e somos condenados e bloqueados pelo que trazemos desde o berço. Diante de tantos ataques desses infelizes, não pude resistir, minha querida, e tomei uma atitude drástica: me matei virtualmente, excluí minha conta no facebook. E agora sou injustamente exilado do direito de acompanhar as tuas atualizações nessa rede social. Escrevo-te em prantos esse e-mail para justificar meu desaparecimento de teu grupo de amigos; queria continuar em teus círculos virtuais, mas não toleraria mais nenhum minuto diante do computador, assistindo aos milhões de impropérios colocados em minha linha do tempo contra o teu nome e o meu. A única solução possível para assegurar a pureza de minha declaração de amor por ti era afastá-la do facebook e trazê-la para esse e-mail, onde só tu e eu podemos ver:
Sempre te amarei, Dilma, és a única que governa meu coração.
De teu amante e escravo,
Luís Inácio.” 

5 comentários:

  1. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK Uhauhauhauhaaahahuahuhauhauahahah ... respira KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK uhauahuahuahauhauhauau ...
    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK uahuhauhauahuahuahuahuahauhauhauhauhauhauhauahuahuahuahuauahuaa.
    Muito, muito, muito bom!

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  2. Fodásticos textos, como diria o próprio autor.

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