terça-feira, 1 de maio de 2012

Velhos poemas juvenis: O homemáquina


Hoje é o Dia do Trabalhador e, lembrando as palavras do sábio historiador Lucimauro Leite, essa não é uma data para se festejar, e sim para reivindicar melhores condições de trabalho. Por isso posto para os leitores um poema escrito no ardor da juventude, quando eu trabalhava de ‘faz-tudo’ numa editora. A mecanização do trabalho, a exigência de super-produção, a exploração em massa, a miséria de sentimentos, fatores comuns no mercado de trabalho industrial (vistos tanto na editora, quanto no trabalho de ajudante industrial numa fábrica de papel, na qual trabalhei um tempo depois), somados às minhas aspirações neoconcretistas e influências grunges da época, contribuíram para a produção desse poema autodestrutivo, uma triste reflexão sobre as relações anti-humanas trabalhistas de ontem, de hoje e de sempre (enquanto houver ganância, não haverá relação humana em nenhum trabalho). Foi publicado em meu terceiro livro "Note or not ser" (2001):

Homemáquina

Acordar
 levantar
  trabalhar
   ir à escola
    fugir da escola
     amar quem não ama
       odiar quem ama
         ir pra casa dormir.

Remela nos olhos
 pés cansados
  salário mínimo
   inteligência programada
    um coração em chamas
     sem alguém pra queimar
      e um revólver
        pra me defender dos pesadelos.

O HOMEMÁQUINA
Aperte o botão
e eu bato meu cartão.
O HOMEMÁQUINA
Trabalho pra autodestruição.

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