quarta-feira, 30 de maio de 2012

Solidões compartilhadas: As viagens líricas do passado de Flávia Vargens Parte 2

Hoje seguimos viagem pelos poemas adolescentes que a professora de Ciências Flávia Vargens por tanto tempo guardara. Dica do guia nessa segunda parte da viagem: observem as vírgulas, colocadas entre sujeitos e predicados, em "Seguir vivendo" - é sintaticamente incorreto para o Português, mas encaixa-se perfeitamente em um poema que fala sobre a impossibilidade de viver junto com a pessoa amada; lamento, puritanos das Normas Gramaticais Brasileiras, mas a poesia é ainda mais bela, quando quebra as leis da gramatiquice! Também recomendo observarem o toque concretista - principalmente pelo encerramento genial do poema - em "Somos...".
Que nossa máquina do tempo siga com a mesma intensidade a sua viagem lírica pelo passado lírico da escritora:

Tempo a passar

O dia já é noite,
O sol já é lua,
Gaivotas são estrelas.
No decorrer das horas,
Vejo tudo mudar.

Minutos viram horas,
Horas viram dias,
Dias transformam-se em semanas...
E o tempo a passar...

O tic-tac do relógio
Ninguém sabe explicar,
Também o vai e vem
Das ondas do mar,
Das pedras do Arpoador,
É o sol a queimar a água
Fazendo tudo mudar.

E isso tudo junto
É o tempo a passar...
(04/07/1998)

Seguir vivendo

O seu abraço querido,
Partiu.
O beijo doce,
Sumiu.
A pele macia,
Não posso tocar.
O cheiro gostoso,
Perdeu-se...
Como sândalo no ar,
Eu sem você
Preciso, apenas, seguir vivendo.
(14/08/1998)

Acabou

Engraçado,
Há um tempo atrás,
Contava os dias
Esperando sua volta.
Agora
Deixo eles passarem
E nem sinto.

Passei momentos difíceis
E agora você não faz falta:
O seu beijo ficou sem gosto,
Seu abraço perdeu a graça
E consigo rir da minha preocupação.
(17/01/2000)

Somos...

Natureza
branco, preto
sim, não
tudo, nada.

Diferença, igual, sonho
arte, lágrima, suspiro
silêncio, coração, livres,
ideia, razão.

Fantasia, saudade, alegria
paixão, solidão, desejo
surpresa, verdade.

Aventura, mistério, carinho
palavra, música, corpo
vida, brilho.

Passado
             presente
                          futuro

Pó, nó, GENTE
(05/07/2000)

Sol e lua

És sol, luz...
Brilhar quente,
Presente no dia,
Acolhe.

Sou lua, fria...
Bela Luna,
Longe...
Sou a dama da noite.

Vejo´te de longe...
Amo-te loucamente,
Desejo o teu calor
Para aquecer meu tempo sombrio.

Nunca nos cruzamos,
Somos caminhos opostos...

Deixo-te aqui,
Parto para mais um sono...
Sigo desejando-te,
Amando-te...
Basta!
Aqui é o fim
Do que nunca começou.
(04/08/02)    

4 comentários:

  1. Adorei conhecer a face poética da Flávia adolescente!

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  2. Esse poema é muito, muito... me identifiquei e ri muito também, assim como o eu lírico do poema que riu antes de mim, mas abriu precedente ou diria jurisprudencia para mim. Ahhhh! a poesia nem nessas horas ela não nos abandona. rsrsrsr

    Acabou

    Engraçado,
    Há um tempo atrás,
    Contava os dias
    Esperando sua volta.
    Agora
    Deixo eles passarem
    E nem sinto.

    Passei momentos difíceis
    E agora você não faz falta:
    O seu beijo ficou sem gosto,
    Seu abraço perdeu a graça
    E consigo rir da minha preocupação.
    (17/01/2000)

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  3. Agora esse eu gostaria de compartilhar no clube da lua que faço parte, sera que a Flávia Vargens autorizaria Carlos?

    Sol e lua

    És sol, luz...
    Brilhar quente,
    Presente no dia,
    Acolhe.

    Sou lua, fria...
    Bela Luna,
    Longe...
    Sou a dama da noite.

    Vejo´te de longe...
    Amo-te loucamente,
    Desejo o teu calor
    Para aquecer meu tempo sombrio.

    Nunca nos cruzamos,
    Somos caminhos opostos...

    Deixo-te aqui,
    Parto para mais um sono...
    Sigo desejando-te,
    Amando-te...
    Basta!
    Aqui é o fim
    Do que nunca começou.
    (04/08/02)

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    Respostas
    1. Acho que sim, Helene Camile. Depois que os poemas dela saíram do armário, agora passeiam livremente aos nossos olhos. Pode confiar - eu aviso a fêssora poeta Flávia!

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