segunda-feira, 28 de maio de 2012

Solidões compartilhadas: As viagens líricas do passado de Flávia Vargens

Hoje compartilho minhas solidões poéticas com um lado adolescente que a professora de Ciências Flávia Vargens, por muito tempo, ocultara entre um estudo de células e um aparelho respiratório científico e com poucos ares líricos. Viajante constante, eterna "on the road", Flávia Vargens conhece partes do Brasil e do mundo (Alemanha, Tchecoslováquia, França, Estados Unidos, etc) que muitos brasileiros sonham ir e conhecer. Porém, a viagem que Flávia fez para entrar neste blog, foi diferente de todas as outras: ela invadiu gavetas de sua história e, com o passaporte da memória, viajou no tempo e, em posse de antigos cadernos com escritos de sua adolescência, trouxe-me poemas produzidos na juventude. 
Leitora extremamente crítica, Flávia Vargens questionou muito a arte de seus eus líricos adolescentes e me deixou a cruel tarefa de analisá-lo e decidir se deveria resgatá-los da poeira dos tempos ou condená-los ao terrível esquecimento. Analisando as obras artísticas juvenis de Flávia Vargens, pude viajar com ela num tempo que não retorna mais, mas que deixa marcas líricas em nossos corações. Podemos perceber claras influências do ultrarromantismo, do rock nacional (entre essas tendências, há um quê de Legião Urbana e Titãs em suas obras) e internacional (os cadernos de poemas traziam também em seu final letras de músicas dos Beatles). Há momentos geniais, de raro lirismo, como o poema matemático "X da questão" - raros são os gênios poetas que ousam misturar matemática com poesia - e outro, em que ela aventura questionar pensadores conhecidos na psicologia da educação. 
Em meu julgamento das obras, não posso deixar de ser tendencioso e a favor dessa poeta adolescente guardada na Flávia Vargens adulta; afinal carrego em minha poética um pouco também de meu velho lirismo juvenil e deixo aos leitores a passagem livre pra essa viagem lírica pelos velhos poemas juvenis de Flávia Vargens, com o desejo de que a jovem escritora retorne na professora adulta (a própria autora me informa que continua escrevendo textos literários, agora mais voltados ao gênero crônicas de viagem). A viagem pelo universo lírico adolescente de Flávia Vargens começa hoje e prossegue amanhã. Boa viagem!

Gotas de lembrança

Olho pela janela
E só vejo as gotas de chuva
Que caem nela,
Gotas que me fazem viajar.

Entro nas gotas
E me pego a vagar.
Ando pelo mundo
E meu mundo é você.

Em sua forma perfeita,
Brilha sua essência
E lembro-me de sua ausência.

Que lembrança ruim!
Quero voltar,
Voltar pra dentro de mim!
(22/03/1997)

Tempo

Corre, anda depressa,
Pega o ônibus,
Cuidado com o trânsito,
Voa tempo.

Não vai dar,
Não vou chegar,
Não vai dar tempo,
Voa... voa tempo.

O tempo corre,
O tempo voa,
Vamos pegar uma carona
Para o paraíso,
O paraíso onde não há tempo,
Onde não se corre,
Onde não há atrasos,
Onde o tempo não voa,
Onde não há relógios,
Ponteiros, horas,
Minutos, segundos,
Para tudo dá tempo.

Não há pressa,
Há calma,
Amiga da perfeição.
(14/08/1997)

Desenho no papel
O dia em que você apareceu
Teço minha vida
Que não aconteceu.

Lembra? Pretendíamos
Caminhar juntos
Rumo a eternidade.

Vivo um sonho
Que agora é só meu
O dia já é noite
Agora que você me ESQUECEU...
(15/03/1998)

X da questão

Do meu conceito diminuí as dúvidas,
Somei outras possibilidades,
Dividi por novos caminhos.
Depois que resolvi meus parênteses, colchetes e chaves,
Encontrei o x da questão,
Descobri que o importante não é a solução
E sim a compreensão durante a alfabetização,
A matemática tem SOLUÇÃO!
(27/03/1998, em parceria com Gisela, Renata Michelle, Tatiana e Camila)

Visão adolescente

Vygotsky, Piaget, Freud?
Pra quê? Eu não sou maluca!
Situação de crise?
Freud explica...
Não sei o quê!
A bagunça da minha vida
Só eu consigo entender.

Análise, terapia,
Isso é coisa de maluco!
O vai e vem da vida
Meus amigos ajudam a entender.
O que dizer,
Fazer, pensar e vestir,
Meus amigos indicam.

A vida é um jogo de imitação,
Não há Freud que explique,
Piaget que desenvolva,
Vygotsky que reflita,
Pois quem compreende mesmo é
A Jô, ou então, a Lú,
Que dizem: Just do your best!

2 comentários:

  1. O Carlos Brunno, você é mesmo artista! Fazer a minha vidinha tão cotidiana e regradinha parecer muito interessante é coisa de artista. Muito obrigada por me fazer resgatar muitas coisas e lembranças "dos tempos que não voltam mais". E por enxergar beleza onde eu realmente não vejo! Bjs e ainda mando as narrativas das viagens para você rir um bocado! Flavia Vargens

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  2. Adorei o crítico literário ou diria crítico poeta????? Amei a professora séria,pontual, firme sempre em busca da perfeição mostrar sua "cara"... aguardo novas obras... bjus Carlos...bjus Flávai

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