segunda-feira, 14 de maio de 2012

Poema abolicionista aprisionado: 13 de maio

O poema que posto hoje, na verdade, é um poema de ontem. Explico: devido ao Dia das Mães, à infinidade de finais de campeonatos estaduais, preferi publicar o poema inédito sobre a abolição da escravatura, que cai no dia 13 de maio - quase esquecido num dia de tantas comemorações - só hoje. Outro fator que atrasou a postagem foi um certo receio quanto à compreensão do poema que publico. Diante de uma pós-modernidade que atualmente processa os próprios afrodescendentes por preconceito racial (estou falando do caso de Alexandre Pires, que está sendo processado pelo Movimento Negro por racismo, devido a um clipe de muito mau gosto [devido à dança do king kong apresentada no vídeo que promove um suposto single de péssima qualidade] - muito ruim mesmo, assim como a canção, porém má [ou falta de] qualidade musical, falta de noção [várias letras funk e de outros ritmos apresentam letras pobres e sem o mínimo respeito ao mínimo lirismo necessário pra uma manifestação artística, ainda que de massa] e produção tosca não devem ser confundidos com preconceito; Alexandre Pires merece ser execrado por sua pobreza artística, mas ser processado pelo que não fez é, no mínimo, um panorama perturbador de nossas paranóias pós-modernas. Temo, cada vez mais, estarmos tropeçando numa previsão preocupante do Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, quando as minorias vão censurando, censurando, a ponto de os livros passarem a serem todos queimados, pois nenhuma arte agrada gregos e troianos (mas lembro que o último clipe de Alexandre Pires conseguiu desagradar a todos os grupos, o que ainda não justifica um processo ligado a preconceito racial por um artist aque já foi considerado um representante do mesmo grupo que o processa). 
Voltando ao poema que publico hoje, informo que, antes que os processos apareçam, não trago em meus versos nenhuma postura preconceituosa com nenhum membro da única raça que conheço: a raça humana. Meu poema critica o lento processo de abolição da escravatura e a continuidade da marginalização daqueles que foram (e ainda são) vítimas de um sistema capitalista, hipócrita e explorador, assim como o fez o escritor afrodescendente Machado de Assis (o maior escritor brasileiro que tive a oportunidade de ler) em suas crônicas da coluna "Bons Dias" quando denunciou em sua época o aproveitamento de alguns membros da hipócrita sociedade carioca para ganharem vantagens diante da mais que urgente (e, por muito tempo, emperrada) abolição da escravatura. Lembro também que o Dia da Consciência Negra não se dá no dia 13 de maio devido a essa ambiguidade da data (a princesa Isabel assina a Lei Áurea, mais por uma pressão política, pela explosão de resistência dos afrodescendentes insatisfeitos com sua situação retrógrada escravagista e por um intenso ativismo dos abolicionistas - sejam aproveitadores da libertação inevitável, sejam autênticos defensores dos direitos humanos). O poema revê esse momento histórico, objetivando a reflexão para essa data e o resultado do processo abolicionista, que retirou os grilhões enferrujados dos pulsos dos afrodescendentes e os atou à marginalização no sub-emprego, na ausência de projetos que lhes aumentassem a perspectiva de uma trajetória mais digna e melhores condições de vida em uma sociedade eurocêntrica hipócrita, conservadora e aproveitadora. Espero que os leitores compreendam o poema e percebam que o caminho pra igualdade não é feito a partir de interpretações unilaterais, nem por restrições defensivas paranóicas ao que se convém chamar de 'politicamente correto' (leia-se hipocrisia pós-moderna):


13 de maio

A escrita branca da princesinha vazia
declara a liberdade negra tardia.

A mão macia que assina a lei progressista
desconhece a mão calejada libertada,
mas entende muito de política:
dá-se a pescaria, mas o peixe, a vara de pescar,
vai se virar, importante é acreditar
na farsa e na utopia.

Cai aflita a já decadente aristocracia,
elege-se contente a nova burguesia
e viva o libertado, mesmo que desempregado;
no Brasil, nasce uma nova forma de trabalho,
empregos sem salários, alforriados escravizados,
a liberdade negra falsificada
pelos brancos protagonistas encenada.

Os pálidos abolicionistas, ainda que meio escravagistas,
comemoram os futuros votos de liberdade postiça
para os analfabetos de uma nova sociedade mestiça.

E hoje em dia Isabel é a heroína
vendida pelo afrodescendente autônomo da esquina.

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