sexta-feira, 11 de maio de 2012

Olhos cegos que veem além


Tudo bem, postar após a meia-noite não é um fato normal pra mim, principalmente se vou trabalhar daqui a pouco, de manhã, mas não posso deixar de registrar o momento especial que vivi na noite de 10 de maio. Fui convidado, por Janaína da Cunha, do Identidade Cultural & Movimento Culturista, para declamar durante as festividades de inauguração da Exposição em Cerâmica “Além da visão”, do Grupo “Luz da Terra”, às 19 h do dia 10 de maio, na Aliança Francesa, em Niterói/RJ.
A Exposição “Além da visão” é o resultado de projeto, que já tem quase 4 anos e é organizado pelo artista plástico Luiz Hazediaz, levanta a questão do sensorial através da argila modelando, esculpindo e misturando artes visuais a terapia para a reabilitação de Deficientes Visuais. Durante o evento, declamei o poema “Uma escadaria em meu céu”, com a voz um pouco prejudicada pela gripe, mas feliz de estar fazendo parte dessa primeira exposição das esculturas dos artistas do grupo “Luz da Terra”. Ouvi o fantástico Otavio Almeida cantando Piaf, acompanhado do maestro Gabriel Gonçalves, fato que merece destaque para ouvidos que curtem um som harmonioso e maravilhosamente executado. Ouvi, pela primeira vez, Janaína da Cunha declamando um poema dela. Vi muitas manifestações artísticas que me maravilharam. Mas o que mais se destacou nisso tudo foi o que não vi.
Explicando: por tratar-se de uma exposição de escultores deficientes visuais, os organizadores realizaram conosco, espectadores, uma dinâmica muito fodástica: eles vendavam nossos olhos e éramos guiados pela exposição por um dos artistas deficientes visuais, que nos expunha suas obras com sua forma de ver sua arte: através do toque, através do tato, através das mãos. Depois, tirávamos as vendas e revíamos a exposição. Ou seja, de meros espectadores das obras, nos tornávamos vivenciadores delas e reconhecíamos, com a visão, as peças que outrora só conhecemos por tato. Fiquei realmente muito encantado com essa experiência, tanto que esse episódio em minha existência artística me fez gerar o poema que vocês, leitores verão / lerão mais abaixo.
Recomendo que passem na Exposição em Cerâmica “Além da visão”, do Grupo “Luz e Terra”, na Aliança Francesa Niterói (as obras vão ficar expostas lá até o dia 1.º de junho), e, quando se depararem com as peças, aconselho que fechem os olhos, as toquem e as vejam muito além da visão. O poema, além de ser inspirado no que vivenciei na exposição citada, faz referência à célebre frase do filme “Avatar”  - “I see you” (“Eu vejo você”), utilizada principalmente por Neytiri quando esta queria dizer ao protagonista Jake Sully que via muito além do corpo dele, que o amava plenamente.

Muito além da visão

Eu te vejo
enquanto cego tateias o infinito...

Os teus porcos de argila,
cofres onde depositas sonhos;
as tuas borboletas de argila
com as asas abertas
para o que tu não vês
(e como elas voam aos meus olhos!);
os teus castiçais de argila
sustentando a vela invisível
de tua cegueira brilhante;
os teus pássaros de argila,
ora ousados, ora retraídos,
cantam o silêncio
em teu olhar sereno,
muito além da visão;
a tua vida na argila,
a tua argila viva,
muito além de qualquer outra vida!

Eu te vejo!
Fecho meus olhos
e finalmente te vejo!...

4 comentários:

  1. I love the last three lines of this poem<3

    I see you!
    I close my eyes
    and finally see you! ....

    That is beautiful and true:)

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  2. Maravilhoso post, poeta!
    Compartilho com vc a mesma emoção. Essa é mais uma prova do quanto a arte nos humaniza, nos faz seres melhores a cada dia ao encontro da evolução do verdadeiro sentido da humanidade dentro de nossas almas. Seus versos encantadores conseguiram expressar o que sentimentos ao "enxergar" o mundo com outra percepção, com a janela da alma, com os sentidos livres de qualquer deturpação de olhos e sentimentos carnais.
    Um grande abraço!

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  3. Somos tão cegos, e somos cegos porque vemos, nos limitamos apenas a poucos sentidos, principalmente a visão, nisso eu discordo de Aristóteles completamente.

    O poema ficou show de bola, como diz o meu filho. Os versos que falam em tatear o infinito, cofres onde se deposita sonhos é pra lá de maravilhoso Carlos.

    O trabalho com os cegos foi para mim algo extraordinario. Gravei algumas historias pra eles, e quando fazia isso, me sentia tão feliz, pena que tive que parar, mas voltarei a fazer isso, pois os financiamentos para editar obras em braile, ainda é, vamos dizer, "inexpressivo". Quem sabe os governos deixem de assaltar os cofres públicos e decidam investir mais na educação de modo geral, principalmente com a questão da inclusão.

    Obrigada pela dica, vou ver se dar para ir a exposição no fim de semana que vem ou durante a semana mesmo.

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  4. Muito legais as esculturas e o poema que nasceu delas, pena q deu deu pra eu ir. Espero poder estar lá na próxima pra ver esse super trabalho!

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