Olá, caros leitores, bem vindos ao blog daqueles que guardam um sorriso solitário no canto dos lábios que versam sonhos coletivos. Bem vindos ao meu universo virtual poético, bem vindos ao mundo confuso e fictício ferido de imortal realidade. Bem vindos ao inóspito ambiente dos eus líricos em busca de identidade na multidão indiferente, bem vindos ao admirável verso novo.
Guris e gurias, amigos leitores, hoje compartilho pela
primeira vez minhas solidões poéticas com a escritoramiga Juci Dias, de São
Leopoldo/RS. Conheci a autora virtualmente através das milhares de redes
sociais as quais me conectei. Se não me engano, nosso primeiro encontro virtual
foi no dihitt, uma espécie de comunidade de blogueiros. A partir daí, segui o
blog de Juci Dias (aí vai o link: http://bahguriafaceira.blogspot.com.br/ ),
twitter, etc. Por sinal, foram alguns versos no twitter dela que me despertaram
muito a atenção para essa fodástica poeta; logo em sua descrição no perfil, Juci
apresenta-se assim: “A frieza do relógio não compete com a quentura do meu
coração...”. Passei a acompanhar sua poética e trago aqui a seleção de alguns
textos fodásticos dela (tem muitos outros mais no link do blog "Guria Faceira", que passei
acima pra vocês).
Que o tempo não esfrie o calor de nossas emoções, amigos
leitores!
Quando soube que o filme “As
aventuras de Pi” estava passando no Cine Glória, de Valença/RJ, não sei por que
tive uma reação de ojeriza ao filme (talvez – talvez não: com certeza - pelo
fato de ter 11 indicações ao Oscar – muitas indicações de um festival de filmes
que prima pela politicagem, com raras exceções, apego a valores estadunidenses
de patrotismo cego e autorreferências de nação narcisista, me fez desconfiar do
mais novo sucesso de bilheterias. Em resumo: não vi esse novo filme do diretor
Ang Lee (ainda, pois, como vários outros filmes, pretendo me despir dessa
pré-conceituação e assisti-lo – o que não tira minha desconfiança a obras
‘dignas de Oscar’), assim como não li o livro que o gerou (ainda também, por
ainda não ter acessado a obra – fato que resolvo em breve), não é o que me
importa agora, nem é o assunto dessa crônica que inicio. O fato é que tive uma
ojeriza inicial ao filme e não sei explicá-la direito; algo me fazia
antipatizar com a obra e me fez, inconscientemente, ignorar as notícias sobre ela.
Moacyr Scliar, o fodástico escritor
"meio desconhecido"
Algum tempo depois, ouvindo distraidamente
uma conversa alheia (sim, não há moralidade nesse quesito de produção
literária: cronistas têm ouvidos de fuxiqueiros e buscam assuntos pras suas
crônicas muitas vezes através desse viés), soube que o livro “Life of Pi”, do
canadense Yann Martel, obra que gerou o filme, foi acusada de ser um plágio de
uma obra de um escritor brasileiro do Rio Grande do Sul “meio desconhecido”.
Fiquei tentando imaginar qual era esse escritor gaúcho “meio desconhecido”.
Mais tarde, numa investigação virtual, descubro que o escritor gaúcho “meio
desconhecido” era o fodástico MOACYR SCLIAR (!!!) e o livro, possível vítima do
plágio, era “Max e os felinos” (1981). Sim, MOACYR SCLIAR, vencedor de 3
Prêmios Jabuti de Literatura (1988, 1993 e 2009), 1 Prêmio APCA (1989) e 1
Premio Casa de Las Américas (1989), sétimo ocupante da cadeira 31 da Academia
Brasileira de Letras, autor de mais de 60 livros, em sua maioria muito
elogiados pela crítica nacional e internacional, com obras traduzidas em
diversas línguas – inclusive para o inglês, cuja possível tradução o escritor
Yann Martel deve ter lido para realizar seu premiado (o autor ganhou o Prêmio Boker) 'quase plágio' bem-sucedido (as desculpas
esfarrapadas do canadense só comprovam mais sua culpa e a falta de fineza ao
considerar ter melhorado a "ideia" de outros escritores).
Obra de Moacyr Scliar,
traduzida para o
inglês
Mas não é o caso do plágio que me
ofende (o próprio Scliar não quis processar o pretensioso Yann), não é o fato de o filme concorrer ao
Oscar que me chama a atenção, não, nada disso é o assunto dessa crônica, isso é
só uma introdução pra explosão, a montagem para a dinamite que me detona: o que
me dói é o “meio desconhecido”, é a falta de conhecimento da maioria da
população brasileira para escritores nacionais fodásticos como Moacyr Scliar
(ah, ninguém tem a obrigação de saber tudo, né? Pois a mídia nacional e
internacional sabia bem quem era Scliar, inclusive o escritor canadense Yann
Martel); o que me faz baixar a cabeça de vergonha é lembrar que sou brasileiro
numa hora dessas.
O tigre de bengala
da capa de "Life of Pi"
debochando do
patriotismo brasileiro
Dá vontade de chorar de raiva,
amigo leitor, e se você acha esse comportamento completamente inconcebível e/ou
inexplicável, só posso ter mais vontade de chorar de raiva, de medo de
mantermos pra sempre essa identidade nacional de povo que samba, é feliz e que
só valoriza as coisas de seu país nos momentos de folia parva. Aumentaram a
passagem do ônibus? Putaquepariu, vou reclamar no facebook, no twitter, e ficar
em casa. Mais
um político corrupto no Congresso Nacional? No próximo ano, vou votar no
Neymar, nada pode piorar, nosso negócio é driblar. Plagiaram a ideia de Moacyr Scliar? Ah,
é mesmo... e quem é esse cara?
Há muito mais que 50 tons de cinza na nossa relação
com a bandeira verde, azul, amarela e branca; maltratamos a pátria idolatrada, somos sadomasoquistas, gostamos de bater, gostamos de apanhar. Só não gostamos muito de pensar.
Me
desculpem, foi só um desabafo sem nexo, sei que vocês têm que sair, afinal hoje
é domingo de carnaval. Me desculpem, podem ir pra folia, curtam a vida, que é
bonita e é bonita; só me deixem aqui quieto no meu canto. Acho que vou ler “Max
e os felinos”, ficar diante da fera mais uma vez pra me distrair...
Chegamos a mais um período de carnaval e, diferente do ano anterior, em que o blog se dedicou a essa grande festa nacional, em 2013 o blog não vai sambar conforme a música. Aproveitando o tema do próximo Sarau Solidões Coletivas In Bar, em homenagem ao rock e aos demais movimentos contraculturais da década de 1970, que acontecerá no sábado após o carnaval (dia 16/02), às 19 h, no Mineiru's Restaurante, no Centro de Valença/RJ, e inspirado na poética anticarnaval de Paulo Ras (ano passado, ele compartilhou um poema anticarnaval aqui no blog e, neste ano, ele já produziu outra obra-prima contra a carnavalização brasileira - veja no link: http://impressoesedigitais.blogspot.com.br/2013/02/impressao-de-des-carnavalizar.html), hoje apresento-lhes um poema que inventa um novo ritmo, muito popular entre aqueles que nadam contra a corrente: o "não sambo"!
O poema traz várias referências a nomes de bandas, álbuns e músicos brasileiros da década de 1970 (entre eles, Som imaginário; "Um passo a frente", da banda A Bolha ; "Hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas", de Rita Lee; "Revolver", de Walter Franco, "Miragem", de Os Lobos; "Jardim elétrico", dos Mutantes; "A divina Comédia ou Ando meio desligado", dos Mutantes, "Loki?", de Arnaldo Baptista, entre outros; além de citações de músicas de Raul Seixas e Roberto Carlos) e cria um antigo ritmo novo, um possível hit para os amigos leitores que fogem do carnaval: o "não sambo"!
Bem-vindos ao não samba desse Carnaval 2013, amigos leitores!
Não sambo
(ou Eu prefiro ser mutante
a sambar cambaleante)
Um som imaginário retoca meus sentidos contra os velhos
micos e mitos,
Me tira da bolha, um passo a frente pra fugir do povo
espremido,
Sambo rock louco, sambo soul concreto, sambo o que sou,
Sambo o que somos, sambo o “não sambo”,
Sambo e não sambo, sambo sem ou, ou, ou!
Os repiques populares são miragens no som nosso de cada dia,
Pois atrás da folia o que se vê são ruínas
De um samba que ninguém sambou, de uma identidade que se
inventou;
O meu carnaval é Loki zombando das marteladas suingadas que
o povo criou,
O meu carnaval é o bloco que ficou em casa e não desfilou.
Eu sambo o inexistente, eu sambo contra o panis et circenses
que se formou,
Eu sambo porque não sambo non sense,
Porque não quero ficar aí parado esperando um disco voador
surgir
Num carro escarrado da Marquês de Sapucaí.
Eu já caí nesse engano e, pra evitar novo tombo, eu sambo o
“não sambo”,
Pois sou do bando de Flicts, sou o que não está exposto no carnaval,
Um rosto perdido na fogueira de vaidades da invenção da
identidade nacional.
Hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas
E tu queres desfiles, plumas, fantasias,
Enquanto os revólveres dos francos atiradores da falta de
comida
Apontam seus canos endividados, ameaçando nossos últimos
dias?
Ah, eu que não me perco nesse universo irreal
De maravilhosas cidades, de portos seguros, de diversão
banal,
Pra me entreter na falsidade, no fosso exposto, na
ignorância fatal;
Eu sambo o que não se samba na farsa da avenida,
Minha folia é depois da quarta-feira de cinzas, a alegoria
destruída,
A percepção tortuosa da vida mascarada de mundo real.
Há um jardim elétrico de pessoas amontoadas em torno da bateria
do capital:
Por isso que eu ando meio desligado, por isso eu não sambo
nesse gingado,
Por isso que eu sou mutante, por isso que não estou assim
assado de sambar assim,
Por isso que eu não sambo nesse baile de mascarados;
Não quero me fazer outrem, não quero me iludir!
Eu batuco o difuso, posso parecer confuso, mas se chorei ou
se sorri,
O importante é que não sambei sem saber – o certo é que sou
rei de mim;
Hoje compartilho minhas solidões poéticas pela primeira vez
com o poeta e músico valenciano Bruno Couto. Conheci o fodástico artista no último
Sarau Solidões Coletivas In Bar, quando ele me mostrou um poema de sua autoria
e topou declamá-lo ao vivo, acompanhado pelo violão de Eddie Mendonça. Trago
dois poemas do jovem autor. O primeiro, “Disfarce negro”, é rico em atmosfera gótica
e em musicalidade (segundo Bruno, a obra foi concebida como letra de música,
mas pareceu-lhe melhor como poema), uma crítica feroz ao autoritário “fazer
direito” da sociedade (lembra-me muito os poemas de Baudelaire e da primeira
fase de Cruz e Sousa – aquela do “Acrobata da Dor” entre tantos outros grandes
poemas). O segundo, que batizei de “Negado”, desfaz a visão dogmática de ver Lúcifer
simplesmente como um ser do mal (“acho que julgar que erra não é ser mau”,
afirma Bruno Couto) e me lembra um pouco o “Rock do Diabo”, de Raul Seixas, e “Simpathy
for devil”, do Rolling Stones (por sinal, os versos finais do poema “Negado” de
Bruno Couto trazem um ritmo muito parecido ao do refrão da música dos Rollings
Stones).
Encontremos nossos disfarces negros, sem hesitações, através do fodástico universo poético de
Bruno Couto (todo mundo tem algo oculto por trás das máscaras do dia a dia, não
adianta negarem, amigos leitores).
Disfarce negro
Há uma máscara para cada um de seus pecados,
Há uma indulgência que paga por cada violação,
Há um desprezo por tudo o que existe,
Mas como se não há nada além de tudo isso?
Sob a luz
Teatro da desgraça,
Negação da vida,
Miséria é breve...
No frio da noite,
Meu espírito vai queimar,
Precisando "fazer direito"
Para se esconder e não aprender!
Diante da cruz - lágrimas em vão!
Nos representando no palco de novo ...
Cubra os olhos para não ver a sua vida.
Mas até lá fique na escuridão meu coração!
Sob a luz
Teatro da desgraça,
Negação da vida,
Miséria é breve...
No frio da noite,
Meu espírito vai queimar,
Precisando "fazer direito"
Para se esconder e não aprender!
Sob um disfarce negro!
Oh, disfarce negro!
(Nos rendemos!)
Negado
Do seu lar fui negado por algo que não fiz,
Hoje pago por pecados pelos quais nem mesmo cometi,
Alguns cineastas que marcaram meu retiro cinéfilo das férias
desse último janeiro foram os asiáticos Wong Kar-Wai (Hong Kong) e Hirokazu Koreeda (Japão). Assisti à parte (e
pretendo assistir a muitas outras mais) das obras deles – de estilos bem diferentes,
mas ao mesmo tempo extremamente poéticos, cada um em sua forma peculiar - graças
ao blog Sonata Première, pois seus filmes Cult são de difícil acesso / locação
(antes eu só havia assistido ao premiado “Beijo roubado”; através do blog, pude
conhecer “Amores expressos”, “Felizes juntos” – que prefiro chamar de “Happy
Together”, pois o título original faz referência à famosa canção do The Turtles
–, os três de Wong Kar-Wai e “Boneca inflável” – este de Hirokazu Koreeda). De
todos esses, apesar da maravilhosa fotografia e roteiro de “Felizes juntos”, o
que mais me marcou foi o fodástico “Boneca inflável”. O filme causa um
estranhamento no início, pois seu pacto ficcional (o ato de adentrarmos no
universo imaginário do filme) se dá no plano do realismo fantástico: uma boneca
inflável, objeto sexual de um homem solitário, toma vida e, durante as manhãs e
tardes de ausência de seu dono, passa a andar pela cidade, conhecendo a
atmosfera opaca do cotidiano humano. Caminhando com ela pelo vazio da cidade
moderna, nós, os espectadores, nos damos conta de nós mesmos e o quanto da
conhecida solidão nossa coletiva há no universo que a boneca vê; o
estranhamento passa e estamos absolutamente envolvidos na trágica trajetória da
boneca inflável. O filme e os universos dos cineastas asiáticos citados me
marcaram tanto que o fenômeno da criação poética aconteceu naturalmente: como
tudo que amo e absorvo, a obra se tornou uma inspiração para um novo poema.
Para a produção desse poema, me baseei na temática de amor e
desamor, comum nos filmes de Wong Kar-Wai, e de vazio, impresso na obra-prima
de Hirokazu Koreeda. Para isso, também retomei a personagem “Ela” (referência a
uma música fodástica da antiga banda valenciana “Província”) de um conto
fantástico meu chamado “Figuras de linguagem”, ainda não publicado no blog, mas
presente em meu sexto livro “Diários de solidão” (2010). Inverti os papéis do
filme – o boneco inflável é o eu lírico e “Ela”, a dona, que, após algum tempo
de uso, abandona o homem-objeto. Os capítulos são divididos por frases de
efeito ditas pelos personagens do filme “Boneca Inflável” ou impressões
deixadas nos olhos do espectador (como é o caso do título do capítulo I). O
poema traz várias referências pops nacionais (há citações de músicas da Legião
Urbana, Herva Doce, Engenheiros do Hawaii, Biquíni Cavadão e até de funk – o “Bonecão do
posto”), imitando a característica de inspiração pop dos cineastas Wong Kar-Wai e Hirokazu Koreeda (em “Felizes
juntos”, há a clara referência “Happy together”, do The Turtles; em “Amores
Expressos”, “Califórnia Dreams”, do Mamas And Papas, é tocada frequentemente;
em “Boneca Inflável”, há referência a poemas e a filmes – como a “Pequena
sereia”, procurada incessantemente por um pai na locadora onde a boneca
inflável passa a trabalhar). Meu poema
traz uma temática menos densa que a do fodástico filme homenageado, mas tenta
seguir uma constante do universo cinematográfico de Wong Kar-Wai e Hirokazu Koreeda: a fragilidade e sutilezas
das relações humanas.
Nos enchamos de ar e caminhemos pelos universos poéticos de Wong
Kar-Wai e Hirokazu Koreeda, amigos leitores!
Mais de um mês se passou que o artistamigo Adriano Gonçalves partiu e suas músicas permanecem e sempre permanecerão conosco. Hoje compartilho mais uma de suas antigas composições, a melancólica e fodástica "Nada vale a pena", composta na época em que Adriano Gonçalves tocava na banda Arcádia (também publicada na última edição do jornal Valença em Questão e disponível no blog do VQ: http://blogdovq.blogspot.com.br/2013/01/vq-48-poesia.html). Segundo outro integrante da banda, o Bruno Gonçalves, Adriano omitiu na última versão dada à música os versos "nada vale a pena se não se tem o amor de Jesus, que expressa a
verdadeira razão de viver". Seja como for, mantenho a versão final solo optada por Adriano, sem esquecer do registro citado por um dos integrantes da banda.
Deixo aqui o registro em vídeo da última dessa música gravada pelo próprio Adriano Gonçalves. O vídeo foi gentilmente cedido por Zé Ricardo Maia.
A liberdade continua inspirando a arte dentro de nós, amigos leitores!
Nada vale a pena
Parecia mentira quando você apareceu
Abri meus olhos quando ouvi a sua voz me chamar
Depois de muito tempo eu acordei
Depois de muito tempo eu enxerguei
Nada vale a pena
Se não se é feliz
Nada vale a pena
Se não se tem o amor
Parecia mentira quando você apareceu
Tirou as vestes de solidão que cobriam o meu olhar
Hoje compartilho minhas solidões poéticas pela primeira vez
com o fodástico compositor, músico e escritor carioca Marcio Bragança, o Marquês
de Cascadura. Conheci Marcio Bragança através da poetamiga Janaina da Cunha, durante uma edição do fodástico evento, organizado por ela, o Identidade Cultural & Movimento Culturista (atualmente, Marcio Bragança é o produtor musical do evento). Autor do blog “Conjugando sonhos” (vale a pena conferir - segue o
link: http://conjugandosonhos.blogspot.com.br ), Marcio declarou, no facebook, que o poema lhe surgiu no meio de um
engarrafamento: “Estava no meio de um engarrafamento e veio o texto. Estranho
falar de amor num momento tão estressante como esse.”
Para os amigos leitores que sabem que o amor não tem hora nem lugar: