Olá, caros leitores, bem vindos ao blog daqueles que guardam um sorriso solitário no canto dos lábios que versam sonhos coletivos. Bem vindos ao meu universo virtual poético, bem vindos ao mundo confuso e fictício ferido de imortal realidade. Bem vindos ao inóspito ambiente dos eus líricos em busca de identidade na multidão indiferente, bem vindos ao admirável verso novo.
Depois
de eleições que pouco decidem, onde quase tudo é um jogo de cartas marcadas
pelo sistema corrompido e/ou de políticos fichas sujas populares substituídos
por políticos de fichas limpadas desacreditados (porque, na sujeira
administrativa e política atual, quem está realmente limpo ou não se candidatou
ou não foi levado a sério pelo eleitor, tão corrompido quanto os candidatos de
sua preferência), depois dessa ‘festa de democracia’, onde, no final, quem
decide o resultado final é o mesmo Legislativo e Judiciário que, quase sempre,
agem de acordo com os anseios de poderosos (a suposta ligação de Sérgio Cabral
e o empresário Cachoeira, por exemplo, desaguou em tramoias políticas e ninguém
nunca viu um cidadão tão íntegro e tão ficha limpa quanto o governador do
Estado do Rio de Janeiro), depois de toda essa zombaria eleitoral, só nos resta
rezarmos por nossos heróis não humanos, pelos governantes do plano astral.
Essa
sensação de impotência, esse desespero que nos faz rezarmos pra que Deus perdoe
a nossa pagã DEMOcracia, me fez lembrar de um belíssimo poema da teresopolitana Mariana
Máximo, ex-aluna minha na E. M. Nadir Veiga Castanheira (fechada após as
tragédias da chuva de janeiro de 2011 e reaberta no meio deste ano). Por muitos
desacreditada devido às notas baixas em muitas matérias, Mariana Máximo superou
as dificuldades e se revelou uma das poetas mais geniais das turmas de 2010 e o
poema dela “Quando acordo”, com o qual compartilho hoje minhas solidões poéticas
com a fodástica artista, se destacou nacionalmente, ficando em 5° lugar no IV
Concurso Infanto-Juvenil da Biblioteca Adir Gigliotti, de Campinas/SP. O poema de Mariana Máximo me faz lembrar da geração de poetas cristãos do Modernismo, como Jorge de Lima e Murilo Mendes.
Torçamos
por nossos heróis íntimos, amigos leitores, pois torcer pelos nossos ‘novos’
velhos governantes é um novo salto livre do povo para o velho precipício das
promessas falsas daqueles que regem a falta de regimento no país:
Nesse dia de eleição, a crônica que posto hoje não merece grande introdução. É apenas um lamento desiludido. Sinto muito, leitores cidadãos.
Mais um dia de uma eleição qualquer
Hoje é mais um dia de uma eleição
qualquer. Mais um dia em que o adjetivo ‘cidadão’ é dado para mim e para o
restante daquilo que chamamos de povo, como se todo mundo fosse a massa do
mesmo bolo. Hoje é mais um dia em que somos reis; todos nos procuram e
perguntam pra quem arrendaremos o trono do reino falido. Mais um dia de falsos
amigos e conspiradores do reinado. Hoje é um dia qualquer de liberdade para
escolhermos nossa masmorra de quatro anos. Mais um dia de promoções de sonhos,
mas honestamente, desde o fim dos Beatles, eu não sonho mais. Ou seja, hoje é
um dia qualquer pra relembrar os sonhos mortos que eu nunca tive.
Olho a
praça do bairro São José das Palmeiras, na cidade de Valença/RJ, queimada pelo
sol simpático de outubro. Vejo a praça do bairro São José das Palmeiras
destruída, cercada por ruas pichadas por um asfalto novo e efêmero (os buracos
foram fechados, mais uma vez antes de uma eleição qualquer, devidamente
preparados para reaparecem após esse dia de sonhos falsos e promessas
desfeitas). Olho a praça do bairro São José das Palmeiras; crescemos juntos,
mas o tempo foi mais cruel com ela... Vejo a praça do bairro São José das
Palmeiras, com seus símbolos desfeitos (a escultura despida, o chafariz arrebentado,
os bancos apodrecidos, as grades quebradas, a grama sem vida, o sol que não
esconde o quanto a praça de minha vida foi ferida pelos reis de todos os
outubros, pelos donos do poder dos progressos e regressos, do passado e do
futuro). Olho a praça do bairro São José das Palmeiras, corrompida pelos papéis
de mais essa eleição qualquer, cercada por homens que carregam números de
corrupto poder e sorrisos de photoshop. Vejo a praça do bairro São José das
Palmeiras, cada vez mais suja, cada vez menos ela mesma, a cada eleição
qualquer.
Mais uma
vez passo pela praça do bairro São José das Palmeiras, ex-beleza da
ex-Princesinha da Serra. Mais uma vez passo pela praça do bairro São José das
Palmeiras e minha tristeza é um voto nulo nesse dia de mais uma eleição
qualquer. Mais uma vez passo pela praça destruída, o meu coração na mão,
carregando o título de eleitor sem fé, levando a democracia inútil para mais
uma eleição qualquer.
Que venham os próximos porcos e
que a praça do bairro São José das Palmeiras sobreviva à poluição de mais esse
outubro de eleição de fichas marcadas, limpas pelas águas poluídas de um poder
que corrompe os sonhos que nunca tive. Que venham os novos mágicos e que seus
truques não desapareçam com a praça do bairro São José das Palmeiras, cansada
desse dias de circo de eleições quaisquer.
Hoje é a primeira véspera de eleições que o meu blog encara
(lembrando que esse espaço virtual foi iniciado no ano passado, período em que
os políticos – tão ‘amigos’ da cultura e do povo pouco nos procuram). Em (des)
homenagem a esse período tão fértil de farsas, posto meu poema “Promessas
desfeitas IV (De política)”, escrito em 1997 - período em que o elitista ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso lançava a moda da reeleição em ‘prol da população’ –
e publicado em meu segundo livro “Promessas desfeitas” (1997). O poema foi
lembrado pelo ator e amigo Guilherme Ferreira e chega ao blog no momento mais
propício: são nesses dias políticos de intenso sol que os camaleões se banham
do calor do povo e praticam mais eficazmente os seus hábitos de ilusão.
Hoje a banda gaúcha Nenhum de Nós (que eu amo fã-naticamente!!!) comemora 26 anos de muitos sucessos e belíssimas composições. Ainda me lembro da primeira vez que os ouvi na infância: mamãe tinha um LP chamado "Amor é sempre amor", cuja terceira faixa do lado A era a canção "Camila, Camila". Como eu era criança, ainda não tinha muita compreensão para entender a falta de noção do organizador da coletânea (lembrando que a canção de Nenhum de Nós fala sobre uma Camila violentada por um homem de "olhos insanos" e o fato de ela estar relacionada num disco cujo nome é "Amor é sempre amor", logo após a romântica "Fui eu", de José Augusto, é, no mínimo, um ato insólito do cara que organizou o álbum) e quase acreditei no "amor" citado no título do LP. Quase... pois eu era criança demais para interpretar todas as metáforas da canção da banda Nenhum de Nós, mas não era tão tolo pra ser incapaz de perceber que havia algo diferencial naquela canção, algo que me tocava demais, algo que eu não sabia explicar, apenas sentir, ouvir e sentir... Foi assim que se iniciou minha história de amor com Nenhum de Nós, o refrão de "Camila, Camila" ecoando em meus sentidos - ainda criança, procurei uma Camila que eu pudesse amar e dizer, como no refrão: "Camilaaaaaaaa, oh!"
O tempo passou e o amor pela banda cresceu, assim como compreendi melhor o que "Camila, Camila" queria me dizer. E, inspirado nesse amor impossível por uma Camila ferida e extremamente musical, deixo aos leitores o meu conto inédito, inspirado na banda gaúcha de rock que mais amei, amo e sempre vou amar em toda minha vida:
Camila, Camila
Camila tinha os olhos mais lindos que já
vi e eu tinha apenas dezessete anos.
Conheci Camila num tempo em que eu
caminhava e fingia que o tempo passava. Melhor dizer que foi num tempo em que
não conheci Camila, pois dirigia poucas palavras para minha vizinha. O ano era
1986, papai investia suas economias num sítio improdutivo, 2 km separavam
nossas vidas, mas a casa de Camila ficava na mesma estrada que a minha e eu
passava pelo caminho de terra batida todos os dias.
Todos os dias só para ver os olhos
lindos de Camila me dizerem bom dia, enquanto ela estendia as roupas no varal.
Todos os dias eu lhe acenava bom dia e só seus olhos me respondiam. Éramos
bichos do mato trocando silêncios naquelas matas – a bela Camila que nada dizia
e, eu, a fera que só gesticulava. Eu e minha paixão calada, ela e seu recato de
mulher casada. O marido de Camila decretava bons dias formais, enquanto seu
corpanzil camponês fazia a sesta no quintal, e eu, jovem e frágil, lhe
respondia com um breve levantar e abaixar de cabeça. Bicho mais estranho que
nós, o marido de Camila também nada falava, mas uma silenciosa violência
gritava em seus gestos formais.
Algumas lembranças de Camila jamais me
abandonam quando retorno ao passado. Num fim de tarde nublado, voltava a pé de
uma festa de aniversário, levemente embriagado (sim, menores não devem, mas
também bebem em festas à americana em casas de amigos), e, por fazer parte de
meu solitário trajeto, passei mais uma vez pela casa de Camila para chegar até
a minha. Não sei se foi o álcool que me motivou a observar mais detidamente; só
sei que parei em frente à casa dela e reparei que a janela de seu quarto estava
aberta. Casa pequena de muros baixos e de janelas imensas, meus olhos inquietos
de adolescente voyeur tudo espiavam: Camila de perfil, olhava para frente,
possivelmente se via no espelho. Por algum motivo, ela se virou para a janela e
seus olhos lindos viram meus olhos furtivos, mas dessa vez nenhum cumprimento,
nenhuma resposta calada; apenas um silêncio tenso, quase urrado. Hipnotizado
por seus olhos lindos e surpreendido pelo fim de meu anonimato, quase não
percebi o seu rosto marcado, mas o resto de claridade do fim de tarde, mesmo
que nublado, gritava os ferimentos na face de Camila. E eu tinha apenas
dezessete anos de pacífica devoção; não entendia que uma deusa poderia ser
ferida, eu não sabia que a violência às vezes gritava nas casas alheias. E
talvez fosse o momento de romper a mudez, mas foi o marido de Camila quem
quebrou o silêncio. Sua voz furiosa ecoava nos fundos da casa: “Camila,
Camilaaa!”
E a janela foi fechada, o tempo fechado,
e eu corri dali, e a chuva começou, e eu corri e chorei pela minha própria
covardia, e foi o início das trevas e das manhãs tristes, e nunca mais vi
Camila naquela casa. Em minhas caminhadas seguintes, passei a dar bom dia para
uma casa abandonada; não havia mais nada para se ver naquela estrada. Hoje sigo
por outros caminhos, mas toda vez que retorno para minha casa e me olho no
espelho é a imagem dos olhos lindos de Camila que eu vejo. Os olhos lindos e
tristes de Camila e a minha imagem cada vez mais embaçada, cheia de marcas...
29 de setembro de 2012, Circo Volante, Bairro Aparecida,
Valença/RJ - O Sarau Solidões Coletivas realiza uma apresentação 'pocket' do
sarau no Arte Valença 2, evento beneficente organizado por Giovanni Nogueira,
aproveitando o espaço do Circo Volante, que estava armado no bairro Aparecida,
em Valença/RJ. O sarau contou comigo (declamando poema
inédito de Suelen Cristina, talentosa poetaluna da E. M. Alcino Francisco da
Silva, de Teresópolis), Karina Silva com inédito poema circense de sua autoria,
Juliana Guida Maia com seu poema "O último encontro (ou adeus ao
suicida)" e Ronaldinho Brechane The Wall, com um pouco de sua comédia
stand up.
Hoje posto para vocês,
leitores, a solidão poética compartilhada mais louca, psicodélica e hipnótica que esse
blog já teve: um poema feito a quatro mãos, um dueto lisérgico realizado por
mim e por Carlos Orfeu em homenagem a Jim Morrison, vocalista da banda The
Doors. Após realizarmos, há tempos atrás, um poema escrito on-line, em tempo
real e em dupla chamado “Ode ao ódio destilado” (em homenagem à cachaça e sua
embriaguez – já publicado aqui no blog), Carlos Orfeu me convidou para
novamente fazermos um poema em conjunto. Como eu sabia do fã-natismo do
poetamigo pelas canções dos The Doors,
propus que o tema / inspiração fosse as canções da banda. Eis o
resultado: abrirmos as portas (the doors, em inglês) para um poema alucinado,
inspirado nas letras místicas e psicodélicas do lagarto-rei (como chamavam o
fodástico poeta, compositor e músico Jim Morrison). As estrofes com a cor
branca foram escritas por mim, as escritas em azul são do mais que psicodélico
poetamigo Carlos Orfeu.
Em tempo: o poema foi declamado por mim e por Carlos Orfeu, acompanhados dos acordes psicodélicos de hélio Sória, no Identidade Cultural e Movimento Culturista 7, organizado por Janaína da Cunha (postei o vídeo após o poema pra quem quiser conferir como foi essa viagem lírico-musical).
Que comece a viagem, amigos leitores!
Uma longa viagem de Jim
I
Light my fire
Seria falso dizer que você me
deixou,
seria frio o escuro se não
houvesse tanto calor...
Inspiração Nua, acenda a luz
E me diga: sou sua!
Acenda a
brasa de minha alma
com toda
vitalidade e vapor,
faça-me
dançar como os índios em torno da fogueira na celebração de um rito,
faça-me
uivar com meus infinitos lobos despertos no peito
Só precisamos de um pouco de Jim
pra acabar com esse pudor,
abrir as portas, curtir esse
estranho fulgor...
Qual é, Inspiração Nua, acenda-me
a luz, por favor!
Precisamos
de ponte para delirarmos no deserto,
precisamos
fugir,
precisamos
correr eletricamente nas rodas dos carros,
nas
patas dos cavalos de fogo
Yeah, Inspiração Nua, já vejo os
raios da lua,
a luz da rua tocarem sua substância
outrora obscura,
o quarto em chamas, seu corpo
cada vez mais exposto, a volta do amor
O
retorno de meu desejo,
as
crianças vestidas de quimeras,
os leões
rugindo na cidade,
os
corvos em cada muro em cada avenida grasnando
e eu à espera ardente de seu corpo,
Inspiração Nua, ama-me, venha no cio de minha alma.
II
The Crystal Ship
O verso não está preso, amigo,
são nossos olhos que veem cadeias
e cadeias diante deste Jim
são só ilusão
Vamos
desnudar nossa ótica e singrar as ondas de cristal
Sim, é a lua que brilha,
é o lagarto noturno que rasteja,
é essa a música,
é essa liberdade nos olhos
fechados
que enxergam o fim da ilusão
Nos
reverencia sorrindo lírio delírio, rasteja e rasga o infinito
sob as
brisas e prelúdios das aves estelares da garganta eterna do lagarto rei,
liberta os corpos das algemas da carne
Além das
veredas do fim, do nada o meio entre o abismo e o abstrato, vaga Jim, vaga
abrindo fendas, portas, colhendo seus ramos na lavra de cada alma que sonha
O espírito queima e trafega pelas
ruas
beijos, delírios, donzelas
prostitutas
de um poema sem fim
ah mais uma dose de Jim (Morrison
sem gelo, por favor!)
Neste
jogo louco, esta eternidade onde vaga, vaga Jim, vaga, Jim
E somos nós e Jim
on the road
na soturna noite
com sorrisos brilhantes
viajemos, companheiro, viajemos!
Bêbadas
avenidas, viadutos, asfaltos, postes chorando luzes amarelas, janelas abertas,
mormaço, brinde aceito, escorre líquido Jim entre nossas gargantas
E
tiramos os sapatos, provamos da estrada com pés descalços, como é bom sentir a
terra queimar, a lua a rolar debaixo da pele, logo o sol queimará e pisaremos em tudo,
sorveremos tudo; toda paisagem é líquida para nossos brandos peitos abertos como
janelas sem fechaduras.
Viajemos,
viajemos num carro lunar,
Viajemos
entre os trópicos estelares,
Entre os
continentes dos astros
E essa lucidez psicodélica é a
nossa identidade:
caminhemos pelas ruas escuras,
beijando a luz da loucura,
olhos fechados e mente aberta,
ali a garota de Ipanema vestida
de L.A. woman
Peixes,
sagitário, aquário em colisão
Os rios de fogo nos copos dos
bares
Eis que, com os olhos fechados, contemplamos o indizível desnudo, puro, e tocamos o corpo
da garota de Ipanema, numa louca dança, numa dócil orgia
E a garota de Ipanema diz:
toque-me
e seu corpo é feito de versos
loucos
e seu vestido é a inspiração mais
nua
E
aceitamos seu convite, e provamos dos seios noturnos, da rosa entre as pernas
acendamos
o fogo do cigarro que a garota lisérgica carrega
Seus
olhos são epifanias, a diáfana paisagem sem cor definida
Yeah, estamos loucos, amigo
de olhos fechados
a inspiração de pernas abertas
o movimento sensual da mente
liberta
E
bebemos a fragrância
E os venenos dela são antídotos
contra a falta de esperança
a chama da poesia não se apaga
nosso the end é a eternidade,
amigo poeta
Entre
nossos dedos, dançando num ballet russo enlouquecido, escorrem os versos
vertidos do ventre fecundo da terra eterna da alma
Sim, a terra noturna da terra
Planeta
a terra Planeta girando em nossa
alma
em nossos versos
contínua
frequente
eterna
Girando,
girando, giratório o verso transcendental
Somos demônios beatos nessa
noite, amigo poeta
E
ouvimos as batidas das ruas, dos esgotos, dos becos, de cada praça pública,
ouvimos os cantos ocultos, ouvimos a música do coração de cada humano em sua morada, ouvimos, ouvimos os lamentos dos quartos mudos, ouvimos as preces, os
sonhos, as esperanças, os sorrisos das crianças ainda em feto no útero da mãe e da mãe das mães que chora pelas mãos que a contaminam com sangue, arrancando suas
filhas, as árvores e os animais
Estamos queimando
queimando
girando e queimando
e o inferno é a realidade
derretendo em nossos olhos
nas ruas dessa longa viagem de Jim
nas ruas dessa longa viagem de Jim
Dançando,
dançando, dançando desprezando os limites do corpo, desgarramos dos sentidos,
da pele e osso, sejamos astrais, deixamos as estrelas voarem de nós como
borboletas, dançamos, dançamos, dançamos, dançamos nas ruas, queimando nossos
pés, contemplando a Ursa Maior, sendo súditos leais de Rimbaud e do Jim que corre em nós como brando tigre
Veja, meu
amigo, os leões vestidos de sangue e terno batido
Veja, meu
amigo, as serpentes vestidas de prostituição e drogas
Veja, meu
amigo, a pomba branca assassinada nas ruas de nossa viagem, vamos renascê-la com
nossa lira em fogo etéreo, nos guetos em murmúrios, nestes subúrbios, viajamos
no carro lunar, cujo motorista é Jim ao lado de Kerouac
Então abrimos os olhos
e estamos livres
a poesia voltou, meu amigo
o Jim acabou, mas a poesia
continua, amigo
amanheçamos
prontos para a calçada de corpos
sem poesia
atravessamos ressaqueados com
nosso carro invisível a falta de graça lírica desse dia
e sobrevivemos
mais à noite, outra dose de Jim
Não à
morte perante a poesia, somente liberdade e reinícios
A poesia voltou, amigo poeta
a poesia nunca nos abandonou
A poesia
nos ama, faz amor com nossas almas, nos beija em nossa boca, se torna fruto, em
nossa lavra
Vivamos a trágica rotina e
ressuscitemos novamente no fim do dia, amigo Orfeu
Somos
gigantes em nossa dor, somos pássaros em nossos céus, nossas asas batemos (os
ventos na plumagem inefável, nas veredas do horizonte) e dispersamos em
quatro pontos cardeais. A poesia, meu amigo, a poesia nos ama e deleita, nos
leva no colo tépido como filhos e somos filhos renascidos a cada dia do ventre
desta mãe eterna
Jim
descansa em pó e em paz, Jim reverencia os astros, a eternidade na forma de ave
azul, e nós vivos, sempre vivos, criando nossos corpos de versos renascidos do
campo branco dos vergéis das palavras em movimento, escrevemos como quem faz amor,
e goza e grita elétrico transbordando toda lira nos mares desertos de nossas
estradas.
O sol retorna às nossas tardes e
beija mais uma vez as flores primaveris de nossa terra, outrora castigada pelos
restos de geadas do inverno! Um dia excelente para compartilhar mais uma vez
minhas solidões poéticas com a jovem talentosa poetaluna Suelen Cristina, da E. M. Alcino Francisco da Silva, em Teresópolis/RJ. O
novo poema da escritora que publico hoje foi um poema feita ‘sob encomenda’. Devido
ao Sarau Solidões Coletivas In Circo Volante, que realizamos na noite do último
sábado, dia 29/09, em Valença/RJ, durante o Arte Valença 2, o organizador do
evento Giovanni Nogueira me pedira um poema que falasse das alegrias do circo,
do poder da superação, para corresponder à proposta beneficente do evento: ajudar
o jovem Edilson do Santos, que superou doenças e permanece vivo como por um
milagre de Deus e pelo apoio de familiares e pessoas amigas. Como eu estava
atolado de eventos – neste mesmo dia, à tarde, Juliana Guida Maia e eu participávamos
do Identidade Cultural, organizado por Janaína da Cunha, decidi passar o
desafio para minha aluna poeta Suelen Cristina. A jovem artista aceitou o
desafio e, no dia seguinte, me trouxe o poema abaixo para revisarmos. Leitores,
eis o excelente poema que abriu o “Sarau Solidões Coletivas In Circo Volante:
Os malabarismos da arte na vida” e que tanto nos inspirou a superarmos nossos
cansaços e realizarmos o sarau no evento “Arte Valença 2” (em breve, posto o vídeo do
evento):