segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Solidões compartilhadas: O Herói de Mariana Máximo


Depois de eleições que pouco decidem, onde quase tudo é um jogo de cartas marcadas pelo sistema corrompido e/ou de políticos fichas sujas populares substituídos por políticos de fichas limpadas desacreditados (porque, na sujeira administrativa e política atual, quem está realmente limpo ou não se candidatou ou não foi levado a sério pelo eleitor, tão corrompido quanto os candidatos de sua preferência), depois dessa ‘festa de democracia’, onde, no final, quem decide o resultado final é o mesmo Legislativo e Judiciário que, quase sempre, agem de acordo com os anseios de poderosos (a suposta ligação de Sérgio Cabral e o empresário Cachoeira, por exemplo, desaguou em tramoias políticas e ninguém nunca viu um cidadão tão íntegro e tão ficha limpa quanto o governador do Estado do Rio de Janeiro), depois de toda essa zombaria eleitoral, só nos resta rezarmos por nossos heróis não humanos, pelos governantes do plano astral.
Essa sensação de impotência, esse desespero que nos faz rezarmos pra que Deus perdoe a nossa pagã DEMOcracia, me fez lembrar de um belíssimo poema da teresopolitana Mariana Máximo, ex-aluna minha na E. M. Nadir Veiga Castanheira (fechada após as tragédias da chuva de janeiro de 2011 e reaberta no meio deste ano). Por muitos desacreditada devido às notas baixas em muitas matérias, Mariana Máximo superou as dificuldades e se revelou uma das poetas mais geniais das turmas de 2010 e o poema dela “Quando acordo”, com o qual compartilho hoje minhas solidões poéticas com a fodástica artista, se destacou nacionalmente, ficando em 5° lugar no IV Concurso Infanto-Juvenil da Biblioteca Adir Gigliotti, de Campinas/SP. O poema de Mariana Máximo me faz lembrar da geração de poetas cristãos do Modernismo, como Jorge de Lima e Murilo Mendes.
Torçamos por nossos heróis íntimos, amigos leitores, pois torcer pelos nossos ‘novos’ velhos governantes é um novo salto livre do povo para o velho precipício das promessas falsas daqueles que regem a falta de regimento no país:

Quando acordo

Quando acordo, meu herói está perto de mim.
Quando acordo, meu herói está me protegendo.
Quando acordo, Deus está me aquecendo.
Quando levanto, eu dou bom dia ao meu herói.
O nome dele é Jesus Cristo,
Ele está comigo em cada momento.

Meu grande herói,
Você poderia acabar com  todas as violências!
Meu querido Deus,
Você me deu a vida,
Salva aquelas pessoas que estão morrendo
Tão rápido!

Vem, meu herói, eu preciso de você...
Aqui na Terra, vem!
Eu preciso de socorro...
Por favor, vem salvar este mundo
De tantas mortes, tantas destruições;
Tantas coisas que preciso muito
dizer
meu herói
venha
socorro
estou morrendo
me socorre
preciso
de
você

Mariana Máximo


domingo, 7 de outubro de 2012

Mais um dia de uma eleição qualquer

Nesse dia de eleição, a crônica que posto hoje não merece grande introdução. É apenas um lamento desiludido. Sinto muito, leitores cidadãos.


Mais um dia de uma eleição qualquer          

Hoje é mais um dia de uma eleição qualquer. Mais um dia em que o adjetivo ‘cidadão’ é dado para mim e para o restante daquilo que chamamos de povo, como se todo mundo fosse a massa do mesmo bolo. Hoje é mais um dia em que somos reis; todos nos procuram e perguntam pra quem arrendaremos o trono do reino falido. Mais um dia de falsos amigos e conspiradores do reinado. Hoje é um dia qualquer de liberdade para escolhermos nossa masmorra de quatro anos. Mais um dia de promoções de sonhos, mas honestamente, desde o fim dos Beatles, eu não sonho mais. Ou seja, hoje é um dia qualquer pra relembrar os sonhos mortos que eu nunca tive.
            Olho a praça do bairro São José das Palmeiras, na cidade de Valença/RJ, queimada pelo sol simpático de outubro. Vejo a praça do bairro São José das Palmeiras destruída, cercada por ruas pichadas por um asfalto novo e efêmero (os buracos foram fechados, mais uma vez antes de uma eleição qualquer, devidamente preparados para reaparecem após esse dia de sonhos falsos e promessas desfeitas). Olho a praça do bairro São José das Palmeiras; crescemos juntos, mas o tempo foi mais cruel com ela... Vejo a praça do bairro São José das Palmeiras, com seus símbolos desfeitos (a escultura despida, o chafariz arrebentado, os bancos apodrecidos, as grades quebradas, a grama sem vida, o sol que não esconde o quanto a praça de minha vida foi ferida pelos reis de todos os outubros, pelos donos do poder dos progressos e regressos, do passado e do futuro). Olho a praça do bairro São José das Palmeiras, corrompida pelos papéis de mais essa eleição qualquer, cercada por homens que carregam números de corrupto poder e sorrisos de photoshop. Vejo a praça do bairro São José das Palmeiras, cada vez mais suja, cada vez menos ela mesma, a cada eleição qualquer.
            Mais uma vez passo pela praça do bairro São José das Palmeiras, ex-beleza da ex-Princesinha da Serra. Mais uma vez passo pela praça do bairro São José das Palmeiras e minha tristeza é um voto nulo nesse dia de mais uma eleição qualquer. Mais uma vez passo pela praça destruída, o meu coração na mão, carregando o título de eleitor sem fé, levando a democracia inútil para mais uma eleição qualquer.
Que venham os próximos porcos e que a praça do bairro São José das Palmeiras sobreviva à poluição de mais esse outubro de eleição de fichas marcadas, limpas pelas águas poluídas de um poder que corrompe os sonhos que nunca tive. Que venham os novos mágicos e que seus truques não desapareçam com a praça do bairro São José das Palmeiras, cansada desse dias de circo de eleições quaisquer. 

sábado, 6 de outubro de 2012

Poema eleitoral gratuito: O preço caro do voto nos camaleões


Hoje é a primeira véspera de eleições que o meu blog encara (lembrando que esse espaço virtual foi iniciado no ano passado, período em que os políticos – tão ‘amigos’ da cultura e do povo pouco nos procuram). Em (des) homenagem a esse período tão fértil de farsas, posto meu poema “Promessas desfeitas IV (De política)”, escrito em 1997 -  período em que o elitista ex-presidente Fernando Henrique Cardoso lançava a moda da reeleição em ‘prol da população’ – e publicado em meu segundo livro “Promessas desfeitas” (1997). O poema foi lembrado pelo ator e amigo Guilherme Ferreira e chega ao blog no momento mais propício: são nesses dias políticos de intenso sol que os camaleões se banham do calor do povo e praticam mais eficazmente os seus hábitos de ilusão.

Promessas desfeitas IV
(De política)

Vinha sempre aqui
Todo humilde
Em busca de atenção
Pedia licença
Entrava em minha casa
E repetia sempre, o seu nome:
CANDIDATO POLÍTICO
Me achava importante
Me nomeava seu ELEITOR
Dizia como o VOTO mudava
A consciência da História
Me falou sobre revolução
Mas me desfiz de suas palavras:
Em troca de um saco de cimento
E umas moedas de centavos
O meu VOTO ele comprou.

Depois do tal EMPOSSAMENTO
Nunca mais ele voltou
Ficou todo importante
Virou o centro das atenções
Mudou até de nome:
POLÍTICO ELEITO
Quando o vi assim
Pensei até ter visto um camaleão
E foi então que aprendi
Que saco de cimento não faz casa
E que moeda de centavo não faz milhão.

Mas, após três anos e meio do acontecido,
Não foi que o desgraçado voltou?...
Com um sorriso amarelo de "humildade"
Invadiu minha casa
E, como se me enganasse, trocou de nome:
CANDIDATO A REELEIÇÃO
Foi então que me irritei
Lhe disse que suas PALAVRAS não desfazem
Seus anos de MÁ ADMINISTRAÇÃO
E que suas PROMESSAS DESFEITAS não lhe dão
O direito de acusar a OPOSIÇÃO
Pois agora eu aprendi
Que ELEITOR que vende VOTO
Dá direito de LADRÃO comprar o nome
De CANDIDATO A REELEIÇÃO.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Contos musicais: Camila, Camila

Hoje a banda gaúcha Nenhum de Nós (que eu amo fã-naticamente!!!) comemora 26 anos de muitos sucessos e belíssimas composições. Ainda me lembro da primeira vez que os ouvi na infância: mamãe tinha um LP chamado "Amor é sempre amor", cuja terceira faixa do lado A era a canção "Camila, Camila". Como eu era criança, ainda não tinha muita compreensão para entender a falta de noção do organizador da coletânea (lembrando que a canção de Nenhum de Nós fala sobre uma Camila violentada por um homem de "olhos insanos" e o fato de ela estar relacionada num disco cujo nome é "Amor é sempre amor", logo após a romântica "Fui eu", de José Augusto, é, no mínimo, um ato insólito do cara que organizou o álbum) e quase acreditei no "amor" citado no título do LP. Quase... pois eu era criança demais para interpretar todas as metáforas da canção da banda Nenhum de Nós, mas não era tão tolo pra ser incapaz de perceber que havia algo diferencial naquela canção, algo que me tocava demais, algo que eu não sabia explicar, apenas sentir, ouvir e sentir... Foi assim que se iniciou minha história de amor com Nenhum de Nós, o refrão de "Camila, Camila" ecoando em meus sentidos - ainda criança, procurei uma Camila que eu pudesse amar e dizer, como no refrão: "Camilaaaaaaaa, oh!"
O tempo passou e o amor pela banda cresceu, assim como compreendi melhor o que "Camila, Camila" queria me dizer. E, inspirado nesse amor impossível por uma Camila ferida e extremamente musical, deixo aos leitores o meu conto inédito, inspirado na banda gaúcha de rock que mais amei, amo e sempre vou amar em toda minha vida:




Camila, Camila

Camila tinha os olhos mais lindos que já vi e eu tinha apenas dezessete anos.
Conheci Camila num tempo em que eu caminhava e fingia que o tempo passava. Melhor dizer que foi num tempo em que não conheci Camila, pois dirigia poucas palavras para minha vizinha. O ano era 1986, papai investia suas economias num sítio improdutivo, 2 km separavam nossas vidas, mas a casa de Camila ficava na mesma estrada que a minha e eu passava pelo caminho de terra batida todos os dias.
Todos os dias só para ver os olhos lindos de Camila me dizerem bom dia, enquanto ela estendia as roupas no varal. Todos os dias eu lhe acenava bom dia e só seus olhos me respondiam. Éramos bichos do mato trocando silêncios naquelas matas – a bela Camila que nada dizia e, eu, a fera que só gesticulava. Eu e minha paixão calada, ela e seu recato de mulher casada. O marido de Camila decretava bons dias formais, enquanto seu corpanzil camponês fazia a sesta no quintal, e eu, jovem e frágil, lhe respondia com um breve levantar e abaixar de cabeça. Bicho mais estranho que nós, o marido de Camila também nada falava, mas uma silenciosa violência gritava em seus gestos formais.
Algumas lembranças de Camila jamais me abandonam quando retorno ao passado. Num fim de tarde nublado, voltava a pé de uma festa de aniversário, levemente embriagado (sim, menores não devem, mas também bebem em festas à americana em casas de amigos), e, por fazer parte de meu solitário trajeto, passei mais uma vez pela casa de Camila para chegar até a minha. Não sei se foi o álcool que me motivou a observar mais detidamente; só sei que parei em frente à casa dela e reparei que a janela de seu quarto estava aberta. Casa pequena de muros baixos e de janelas imensas, meus olhos inquietos de adolescente voyeur tudo espiavam: Camila de perfil, olhava para frente, possivelmente se via no espelho. Por algum motivo, ela se virou para a janela e seus olhos lindos viram meus olhos furtivos, mas dessa vez nenhum cumprimento, nenhuma resposta calada; apenas um silêncio tenso, quase urrado. Hipnotizado por seus olhos lindos e surpreendido pelo fim de meu anonimato, quase não percebi o seu rosto marcado, mas o resto de claridade do fim de tarde, mesmo que nublado, gritava os ferimentos na face de Camila. E eu tinha apenas dezessete anos de pacífica devoção; não entendia que uma deusa poderia ser ferida, eu não sabia que a violência às vezes gritava nas casas alheias. E talvez fosse o momento de romper a mudez, mas foi o marido de Camila quem quebrou o silêncio. Sua voz furiosa ecoava nos fundos da casa: “Camila, Camilaaa!”
E a janela foi fechada, o tempo fechado, e eu corri dali, e a chuva começou, e eu corri e chorei pela minha própria covardia, e foi o início das trevas e das manhãs tristes, e nunca mais vi Camila naquela casa. Em minhas caminhadas seguintes, passei a dar bom dia para uma casa abandonada; não havia mais nada para se ver naquela estrada. Hoje sigo por outros caminhos, mas toda vez que retorno para minha casa e me olho no espelho é a imagem dos olhos lindos de Camila que eu vejo. Os olhos lindos e tristes de Camila e a minha imagem cada vez mais embaçada, cheia de marcas...


         

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Sarau Solidões Coletivas in Circo Volante: Os malabarismos da arte na vida



29 de setembro de 2012, Circo Volante, Bairro Aparecida, Valença/RJ - O Sarau Solidões Coletivas realiza uma apresentação 'pocket' do sarau no Arte Valença 2, evento beneficente organizado por Giovanni Nogueira, aproveitando o espaço do Circo Volante, que estava armado no bairro Aparecida, em Valença/RJ. O sarau contou comigo (declamando poema inédito de Suelen Cristina, talentosa poetaluna da E. M. Alcino Francisco da Silva, de Teresópolis), Karina Silva com inédito poema circense de sua autoria, Juliana Guida Maia com seu poema "O último encontro (ou adeus ao suicida)" e Ronaldinho Brechane The Wall, com um pouco de sua comédia stand up.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Solidões Compartilhadas: Uma longa viagem de Jim (Morrison sem gelo, por favor!)


Hoje posto para vocês, leitores, a solidão poética compartilhada mais louca, psicodélica e hipnótica que esse blog já teve: um poema feito a quatro mãos, um dueto lisérgico realizado por mim e por Carlos Orfeu em homenagem a Jim Morrison, vocalista da banda The Doors. Após realizarmos, há tempos atrás, um poema escrito on-line, em tempo real e em dupla chamado “Ode ao ódio destilado” (em homenagem à cachaça e sua embriaguez – já publicado aqui no blog), Carlos Orfeu me convidou para novamente fazermos um poema em conjunto. Como eu sabia do fã-natismo do poetamigo pelas canções dos The Doors,  propus que o tema / inspiração fosse as canções da banda. Eis o resultado: abrirmos as portas (the doors, em inglês) para um poema alucinado, inspirado nas letras místicas e psicodélicas do lagarto-rei (como chamavam o fodástico poeta, compositor e músico Jim Morrison). As estrofes com a cor branca foram escritas por mim, as escritas em azul são do mais que psicodélico poetamigo Carlos Orfeu.
Em tempo: o poema foi declamado por mim e por Carlos Orfeu, acompanhados dos acordes psicodélicos de hélio Sória, no Identidade Cultural e Movimento Culturista 7, organizado por Janaína da Cunha (postei o vídeo após o poema pra quem quiser conferir como foi essa viagem lírico-musical).
Que comece a viagem, amigos leitores!

Uma longa viagem de Jim

I
Light my fire

Seria falso dizer que você me deixou,
seria frio o escuro se não houvesse tanto calor...
Inspiração Nua, acenda a luz
E me diga: sou sua!

Acenda a brasa de minha alma
com toda vitalidade e vapor,
faça-me dançar como os índios em torno da fogueira na celebração de um rito,
faça-me uivar com meus infinitos lobos despertos no peito

Só precisamos de um pouco de Jim pra acabar com esse pudor,
abrir as portas, curtir esse estranho fulgor...
Qual é, Inspiração Nua, acenda-me a luz, por favor!

Precisamos de ponte para delirarmos no deserto,
precisamos fugir,
precisamos correr eletricamente nas rodas dos carros,
nas patas dos cavalos de fogo

Yeah, Inspiração Nua, já vejo os raios da lua,
a luz da rua tocarem sua substância outrora obscura,
o quarto em chamas, seu corpo cada vez mais exposto, a volta do amor

O retorno de meu desejo,
as crianças vestidas de quimeras,
os leões rugindo na cidade,
os corvos em cada muro em cada avenida grasnando
e eu à espera ardente de seu corpo,
Inspiração Nua, ama-me, venha no cio de minha alma.


II
The Crystal Ship

O verso não está preso, amigo,
são nossos olhos que veem cadeias
e cadeias diante deste Jim
são só ilusão

Vamos desnudar nossa ótica e singrar as ondas de cristal

Sim, é a lua que brilha,
é o lagarto noturno que rasteja,
é essa a música,
é essa liberdade nos olhos fechados
que enxergam o fim da ilusão

Nos reverencia sorrindo lírio delírio, rasteja e rasga o infinito
sob as brisas e prelúdios das aves estelares da garganta eterna do lagarto rei, liberta os corpos das algemas da carne
Além das veredas do fim, do nada o meio entre o abismo e o abstrato, vaga Jim, vaga abrindo fendas, portas, colhendo seus ramos na lavra de cada alma que sonha

O espírito queima e trafega pelas ruas
beijos, delírios, donzelas prostitutas
de um poema sem fim
ah mais uma dose de Jim (Morrison sem gelo, por favor!)

Neste jogo louco, esta eternidade onde vaga, vaga Jim, vaga, Jim

E somos nós e Jim
on the road
na soturna noite
com sorrisos brilhantes
viajemos, companheiro, viajemos!

Bêbadas avenidas, viadutos, asfaltos, postes chorando luzes amarelas, janelas abertas, mormaço, brinde aceito, escorre líquido Jim entre nossas gargantas
E tiramos os sapatos, provamos da estrada com pés descalços, como é bom sentir a terra queimar, a lua a rolar debaixo da pele, logo o sol queimará e pisaremos em tudo, sorveremos tudo; toda paisagem é líquida para nossos brandos peitos abertos como janelas sem fechaduras.
Viajemos, viajemos num carro lunar,
Viajemos entre os trópicos estelares,
Entre os continentes dos astros

E essa lucidez psicodélica é a nossa identidade:
caminhemos pelas ruas escuras,
beijando a luz da loucura,
olhos fechados e mente aberta,
ali a garota de Ipanema vestida de L.A. woman

Peixes, sagitário, aquário em colisão

Os rios de fogo nos copos dos bares

Eis que, com os olhos fechados, contemplamos o indizível desnudo, puro, e tocamos o corpo da garota de Ipanema, numa louca dança, numa dócil orgia

E a garota de Ipanema diz: toque-me
e seu corpo é feito de versos loucos
e seu vestido é a inspiração mais nua

E aceitamos seu convite, e provamos dos seios noturnos, da rosa entre as pernas
acendamos o fogo do cigarro que a garota lisérgica carrega
Seus olhos são epifanias, a diáfana paisagem sem cor definida

Yeah, estamos loucos, amigo
de olhos fechados
a inspiração de pernas abertas
o movimento sensual da mente liberta

E bebemos a fragrância

E os venenos dela são antídotos contra a falta de esperança
a chama da poesia não se apaga
nosso the end é a eternidade, amigo poeta

Entre nossos dedos, dançando num ballet russo enlouquecido, escorrem os versos vertidos do ventre fecundo da terra eterna da alma

Sim, a terra noturna da terra Planeta
a terra Planeta girando em nossa alma
em nossos versos
contínua
frequente
eterna

Girando, girando, giratório o verso transcendental

Somos demônios beatos nessa noite, amigo poeta

E ouvimos as batidas das ruas, dos esgotos, dos becos, de cada praça pública, ouvimos os cantos ocultos, ouvimos a música do coração de cada humano em sua morada, ouvimos, ouvimos os lamentos dos quartos mudos, ouvimos as preces, os sonhos, as esperanças, os sorrisos das crianças ainda em feto no útero da mãe e da mãe das mães que chora pelas mãos que a contaminam com sangue, arrancando suas filhas, as árvores e os animais

Estamos queimando
queimando
girando e queimando
e o inferno é a realidade derretendo em nossos olhos
nas ruas dessa longa viagem de Jim
nas ruas dessa longa viagem de Jim

Dançando, dançando, dançando desprezando os limites do corpo, desgarramos dos sentidos, da pele e osso, sejamos astrais, deixamos as estrelas voarem de nós como borboletas, dançamos, dançamos, dançamos, dançamos nas ruas, queimando nossos pés, contemplando a Ursa Maior, sendo súditos leais de Rimbaud e do Jim que corre em nós como brando tigre
Veja, meu amigo, os leões vestidos de sangue e terno batido
Veja, meu amigo, as serpentes vestidas de prostituição e drogas
Veja, meu amigo, a pomba branca assassinada nas ruas de nossa viagem, vamos renascê-la com nossa lira em fogo etéreo, nos guetos em murmúrios, nestes subúrbios, viajamos no carro lunar, cujo motorista é Jim ao lado de Kerouac

Então abrimos os olhos
e estamos livres
a poesia voltou, meu amigo
o Jim acabou, mas a poesia continua, amigo
amanheçamos
prontos para a calçada de corpos sem poesia
atravessamos ressaqueados com nosso carro invisível a falta de graça lírica desse dia
e sobrevivemos
mais à noite, outra dose de Jim

Não à morte perante a poesia, somente liberdade e reinícios

A poesia voltou, amigo poeta
a poesia nunca nos abandonou

A poesia nos ama, faz amor com nossas almas, nos beija em nossa boca, se torna fruto, em nossa lavra

Vivamos a trágica rotina e ressuscitemos novamente no fim do dia, amigo Orfeu

Somos gigantes em nossa dor, somos pássaros em nossos céus, nossas asas batemos (os ventos na plumagem inefável, nas veredas do horizonte) e dispersamos em quatro pontos cardeais. A poesia, meu amigo, a poesia nos ama e deleita, nos leva no colo tépido como filhos e somos filhos renascidos  a cada dia do ventre desta mãe eterna
Jim descansa em pó e em paz, Jim reverencia os astros, a eternidade na forma de ave azul, e nós vivos, sempre vivos, criando nossos corpos de versos renascidos do campo branco dos vergéis das palavras em movimento, escrevemos como quem faz amor, e goza e grita elétrico transbordando toda lira nos mares desertos de nossas estradas.
A poesia é eterna,
A poesia não morre jamais!


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Solidões Compartilhadas: Os malabarismos poéticos de Suelen Cristina


O sol retorna às nossas tardes e beija mais uma vez as flores primaveris de nossa terra, outrora castigada pelos restos de geadas do inverno! Um dia excelente para compartilhar mais uma vez minhas solidões poéticas com a jovem talentosa poetaluna Suelen Cristina, da E. M. Alcino Francisco da Silva, em Teresópolis/RJ. O novo poema da escritora que publico hoje foi um poema feita ‘sob encomenda’. Devido ao Sarau Solidões Coletivas In Circo Volante, que realizamos na noite do último sábado, dia 29/09, em Valença/RJ, durante o Arte Valença 2, o organizador do evento Giovanni Nogueira me pedira um poema que falasse das alegrias do circo, do poder da superação, para corresponder à proposta beneficente do evento: ajudar o jovem Edilson do Santos, que superou doenças e permanece vivo como por um milagre de Deus e pelo apoio de familiares e pessoas amigas. Como eu estava atolado de eventos – neste mesmo dia, à tarde, Juliana Guida Maia e eu participávamos do Identidade Cultural, organizado por Janaína da Cunha, decidi passar o desafio para minha aluna poeta Suelen Cristina. A jovem artista aceitou o desafio e, no dia seguinte, me trouxe o poema abaixo para revisarmos. Leitores, eis o excelente poema que abriu o “Sarau Solidões Coletivas In Circo Volante: Os malabarismos da arte na vida” e que tanto nos inspirou a superarmos nossos cansaços e realizarmos o sarau no evento “Arte Valença 2” (em breve, posto o vídeo do evento):   

O circo da vida apresenta

Eu sou a equilibrista
andando na corda bamba
da vida:
cada passo uma decisão.

Eu sou o palhaço
não sei chorar:
prefiro rir minhas mágoas
que derramar lágrimas por alegrias em vão.

Eu não tenho medo
sou jovem demais
realizo todos os meus desejos
assim como o mágico faz.

Senhoras e senhores,
o circo da vida apresenta
superação com risada de palhaço
e garra de domador de leão!

Meu filho-poema selecionado na Copa do Mundo das Contradições: CarnaQatar

Dia de estreia da teoricamente favorita Seleção Brasileira Masculina de Futebol na Copa do Mundo 2022, no Qatar, e um Brasil, ainda fragiliz...