sexta-feira, 2 de março de 2012

Verse essa canção: Ensaio on the Road sobre a "Ganância"

Voltei, leitores! Lamento a falta de atualização do blog nos últimos tempos, mas foi um recesso necessário para novos textos. Durante esse meu breve desaparecimento, fui a São Paulo conhecer a banda Road, grupo de rock de Santo André, cujas músicas conheci a partir de contatos com membros da banda em redes sociais. Desde a primeira vez que ouvi as canções da banda no soundcloud (aí vai o link: http://soundcloud.com/roadoficial ), fiquei fascinado com a energia, qualidade sonora e criativa (rara em bandas de rock nos tempos atuais) da Road. 
Fiquei tão entusiasmado com o som deles que decidi começar bem o ano após o carnaval: fui a São Paulo e tive a oportunidade de ouvir o Road ao vivo no Hangar 110. E não me arrependi pela aventura; o show valeu cada quilômetro que percorri para vê-los (muito em breve, vou em outro show deles, com certeza! E quem acha que sou louco, tudo bem, o opinador fica com a razão e eu curto mais um show de rock feliz da vida rs).
Depois de tudo isso, me impus um desafio: fazer um “Verse essa canção” (que, há tempos, não fazia) com uma canção da banda Road. Escolhi a canção que mais me chamou atenção para a excelente sonoridade: a “Ganância”, que nos traz, num ritmo vibrante, os dilemas da vida atual (“Viver, crescer, só pra poder ganhar / Se for, mentir, fingir, só pra ganhar”). 
Para construir minha versão poética sobre a canção “Ganância”, me inspirei na letra da banda, é claro, e no final da protagonista do livro “Ensaio contra a cegueira”, de José Saramago: ela era a única que não tinha sido contaminada pelo surto de cegueira coletiva, no enredo da história. No final, quando todos voltam a ver, ela abre a janela e, após toda loucura dos últimos tempos, ela tem um trágico momento de desespero: imagina que, enquanto todos se recuperaram, ela estaria ficando cega. Porém, após fechar os olhos, percebe que “a cidade ainda ali estava”. E assim é nossa realidade: guiamos cegos e sem direção e, depois de uma louca jornada, num instante de euforia coletiva, temos a impressão de estarmos doentes e cegos. E assim, também, tentei guiar meu novo “Verse essa canção”, dedicado à banda Road, aos roaders de todo Brasil e a todos que buscam a ‘luz que nos fortalece’:   

O dia já amanheceu
Qual o caminho você escolheu
Não tema nada siga o coração
O comodismo é pura ilusão
Não tenha medo não se desespere
Busque a luz que te fortalece
Há coisas que não se podem ver
Também há coisas que se devem dizer

A lua mais uma vez cede ao sol o reinado celeste de luz e sombras. Acordo com os raios solares e, da janela, vejo diversos caminhos, mas permaneço estagnado em meu quarto semi-iluminado. Tento vencer o comodismo, essa estranha ilusão de falta de ação, movimento... Vejo imagens de um futuro imprevisível, beijo o raio de sol que ilumina minha cabeça, tento sentir o coração; há palavras em mim que não se silenciam e gritam por um ato aflito, qualquer ação, mesmo que não tenha nenhuma razão.

Cegos são os olhos enganados pela razão,
Vivendo nesse mundo louco sem direção
Até que ponto você vai chegar, pra ganhar

Estou cego, a razão excessiva contamina minhas retinas, enquanto o mundo segue sua rota explosiva para o nada, para a falta de direção. E continuo sem saber aonde quero chegar, o que quero ganhar...

Viver, crescer, só pra poder ganhar
Se for, mentir, fingir, só pra ganhar

Se seguir a razão desses tempos loucos, devo apenas fingir para viver, mentir para poder ganhar e vencer assim é me perder de vez.

Um sentimento superficial
Eu já nem sei o que é real
Só não posso mais me iludir
Até que ponto vale mentir
Admitir o erro é um recomeço
Tanta sujeira que até me perco
Num planalto de corrupção
Esse é o dilema de uma nação

O sol em minha janela me esclarece que o mundo que ele ilumina é um clarão de hipocrisia. O universo surreal em meu dia a dia, a janela recém-aberta, a vida sempre vazia... A realidade mente sorridente ao desejar-me bom dia, enquanto o planalto nos planeja um novo assalto, a realidade mente sorridente enquanto não admito a sujeira em minha casa e nas moradas alheias, a realidade mente sorridente e as cáries em seus dentes são a nossa vergonha exposta, a minha, a nossa omissão

Cegos são os olhos enganados pela razão,
Vivendo nesse mundo louco sem direção
Até que ponto você vai chegar, pra ganhar

E não quero mais sorrir pra essa realidade falsa que requebra em festa, diante da minha janela. E não quero mais pensar no que posso perder; estou cansado de me perder pra deixar essa eterna estupidez me ganhar.

Viver, crescer, só pra poder ganhar
Se for, mentir, fingir, só pra ganhar

Não fecharei a janela desta vez, porque a realidade me arde em sua falsidade. Chega de fingir viver, chega de mentir pra crescer, estou cansado de me perder só pra ganhar. Retorno pra mim mesmo, seja qual for a dor no caminho ou o preço que custar, eu vou lutar.



3 comentários:

  1. Ah, ótimo texto! Estava com saudades do blog!

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  2. Que bom que voltou meu amigo, pronto pra luta? vou pedir emprestado a malha de cota do Frodo (do senhor dos anéis), é belíssima,feita pelos anões que, desde o princípio dos tempos mitologicos, dizem ser os melhores artesãos. Com ela voce poderá adentrar nos combates com um mínimo de segurança a proteger seu coração (fisico), no entanto, nao protege a consciencia nem os olhos que tudo ve e capta e que entra no coração por outra porta. Avante e sempre - as vezes penso que somos Sisifo e sua eterna jornada a subir com sua pedra para ve-la rolar em seguida e ir de novo busca-la ou quiça Prometeu, sempre tendo suas vísceras devoradas e reconstituidas para serem novamente estraçalhadas. É o fluxo da vida, fluxo de nós mesmos, ainda bem que somos assim. Detesto e não acredito em pessoas inflexíveis. Se existe uma verdade, ela paira sobre nós, mas eu ainda não tomei consciencia de sua existencia real. ainda vivo na contingencia de minhas possibilidades e limitações.

    bjs e seja bem vindo de volta meu querido amigo.

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