segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Minha crônica homenagem atrasada ao Dia do Poeta: Um Paraíso especial para artistas


Há quatro dias foi o Dia do Poeta e a postagem não vinha - trabalho na escola, trabalho na arte, fúrias e frenesis no dia a dia faltando pouco pra emblemática eleição, mil e um compromissos e desculpas pra adiar a postagem que não acontece.
Um dia antes do Dia do Poeta, recebi a primeira mensagem de Juliana me informando de uma nova edição da Roda de Leitura Além da Palavra, o tema era democracia, essa musa hoje em dia diariamente espancada; lembrei de Pedro Lage, Mestre Poeta que outrora e sempre nos guia além da palavra.
Na primeira vez que participei da roda de leitura, a convite de Cristiano Mota, Paulo ainda estava entre e em nós, depois o hiato, agora ele em nós, mas distante dos olhos comuns, assistido apenas no tempo quando pelo coração lírico (como dizia Augusto Frederico Schmidt, em “A ausente”, “Só no coração sempre ferido do poeta / É que não vão depressa os que se vão.”). Depois veio uma nova edição da roda de leitura, uma homenagem a Pedro Lage, uma elegia épica coletiva lírica cheia de vida, na qual, mesmo ternamente convidado novamente por Cristiano, naquela enlutada vez, não sei por quê não fui (sempre as pre-ocupações, as mesmas desculpas e as dores inexplicáveis na alma).
Em uma edição do Sarau Florescer Nit, de Niterói, em junho, no Solar do Jambeiro, convidado pela musa divartistativista Jammy Said, declamei um poema dele, “Abismo”, que me toca bastante, recitei como se me desculpasse por minhas ausências em homenagens anteriores e não me perdoo por, num golpe de vista, tropeçar e alterar um verso (mais culpas sem crimes previstos, mais agonias inexplicáveis infinitas).
Muito tempo depois, no Festival de Inverno do Sesc, outro sarau, que tomei conhecimento pela bibliotecária artistamiga Ana Cristina, em um julho festivo tristemente maravilhoso, eternizando Pedro Lage mais uma vez, com a presença ilustre do mago marginal Chacal, assisti ao recital, mas não ousei declamar; sempre ativo em tantos evento, ali passivo, mero tímido espectador não sei por quê (cansaço do corre-corre, do de-lá-pra-cá de eventos, um monte de desculpas pra tentar entender o que não se há pra entender, mais o inconsolável no ponto insistindo em me prender e me apreender).
No ínterim desses tempos passados caoticamente lembrados por mim neste momento (o passado sus-surrando com o presente, fazendo a esquizofrenia sorrir em minha narrativa), um pouco logo após a notícia da ida sem volta de Pedro Lage para o adeus sem despedidas e depois que faltei à primeira homenagem a ele, fiz uma crônica que, durante um tempo, só mostrei ao mestre artistamigo Cristiano, pensei em entregar a Juliana, a outro alguém leitor/leitora na noite do sarau do Sesc, mas não entreguei (sempre que volto naquele evento na Biblioteca do Sesc, me olho atônito: “Vai, Carlos, larga essa postura tímida inexplicável indefinida”, mas nada digo, por mais que retorne, por melhor que seja o idílio máquina do tempo inventora de novos passados, eu nada digo além de parabéns a todos os participantes e envolvidos).
Nesse meio tempo, acabei mandando a crônica para outros ilustres alguéns leitores/leitoras, para um concurso, no qual ela foi finalista (CATEGORIA CRÕNICA, MODALIDADE PÚBLICO EM GERAL, no VII CONCURSO LITERÁRIO PROMOVIDO PELA ACADEMIA LEOPOLDINENSE DE LETRAS E ARTES, em Leopoldina/MG, em setembro de 2022).
E, voltando ao tempo passado recente, no dia 19 de outubro, fui novamente convidado para um Sarau Além da Palavra, desta vez pela primeira vez por Juliana: eles retornariam em um sábado, dia 22 de outubro, simbolicamente, liricamente e realisticamente chuvoso, sim, mais um magnífico evento!... Só que, por razão de outro igualmente magnífico evento (do qual falarei em outra futura postagem com imprevista data), que eu já havia confirmado presença, não fui além, ao Além da Palavra (até tentei passar pelo evento no início, mas a chuva, somada ao meu relógio sempre voltado para os ponteiros em cismas e em cima das horas, não consegui realizar tal feito, restando-me apenas áudios-defeitos, em quixotesco desalento, implorando desculpas para Juliana e para Ana Cristina em mensagens privadas no whatsapp).
E assim, já passados o Dia do Poeta, o Sarau Além da Palavra, os dias e noites de democracia cada vez mais maltratada com a companhia de chuvas esporádicas, a postagem não vinha, por isso esse vazamento sem filtro de tempos e lembranças, numa caótica abertura para oferecer aos amigos (e)leitores a crônica citada, quase que igualmente ‘escritiliricaoticautomaticasentimentalmente’ concebida como esta introdução.
A Pedro Lage, in memoriam
e ad infinitum

Em homenagem atrasada ao Dia do Poeta e a tudo que eu poderia ter publicado há muito tempo e que sempre deixo pra depois, segue a crônica “Um Paraíso especial para artistas”, de minha autoria, em homenagem especial ao Mestre Poeta Pedro Lage, que, como muitos, mas ainda poucos, nos levou, nos leva e sempre nos levará muito além das palavras.
Boa leitura e Arte Sempre!

Um Paraíso especial para artistas
Carlos Brunno Silva Barbosa

Creio, com todo meu coração, que existe um Paraíso especial para artistas. Nenhuma outra crença justificaria melhor toda devoção destes seres excepcionais que se preocupam em criar universos incríveis e, ao mesmo tempo, críveis para a humanidade. E precisamos rezar pela existência desse paraíso, precisamos manter a fé em um lugar melhor para esses seres aparentemente estranhos e extravagantes que se dedicam a nos trazer conforto (mesmo quando nos desconfortam) com outros mundos possíveis e impossíveis, tão próximos e, ao mesmo tempo, afastados, mas sempre melhores (ainda que pareçam e se façam piores) dos que nossas visões limitadas (em comparação às dos artistas) podem alcançar.
Apesar de numerosos, ainda são poucos os mortais que conseguem alcançar a imortalidade onírica, ainda que mortos. Desses numerosos poucos, estão artistas (assim mesmo, concretista abstrato, sem artigos definidores ou indefinidores, em coerência louca com a mística real indefinível e infindável do grupo citado). Acredito muito na crença advinda principalmente de religiões africanas e afro-brasileiras de que um indivíduo só morre realmente quando se é esquecido. E não podemos esquecer de artistas. Mesmo quando morrem, é necessário que façamos um altar de lembranças de suas obras pelo bem da memória humana, pelo bem de toda humanidade.
Tais crenças e reflexões me vêm em um fim de semana triste. Há pouco soube do falecimento de mais um grande poeta que eu conhecera há pouco e por tão pouco tempo. A notícia me veio atrasada por culpa unicamente minha – todos já sabiam e tentaram me informar, mas, às vezes, cometo o pecado de me dessocializar, me desligar do mundo e das notícias. E foi assim que o poeta carioca Pedro Lage, que, como Manuel Bandeira e Olegário Mariano, fixou residência em Teresópolis/RJ, morreu durante vários dias em silêncio pra mim. Houve enterro, depois saraus em homenagem a ele, in memoriam, houve muitos acontecimentos nos quais eu poderia ter comparecido, participado, mas não estive lá, contrariando as ações de minhas crenças citadas e cravando em mim mesmo o estigma do pecado do que poderia ter sido e não foi, da enchente de tudo que poderia ter feito e jamais fiz. E o tempo não volta para expiar tais pecados. E o presente não volta a quem vira passado. Pedro Lage, a pessoa, morreu e o ponto é triste e final. Mas Pedro Lage, artista, reside na imortalidade, não morre. É preciso manter como crença; é o que a culpa e eu - e todos que ousam me ler - precisamos para que a humanidade lírica e sonhada permaneça viva, invulnerável à falência total na falta de sentido da vida sentida sem sentido.
Graças a um grande artista amigo meu, o Cristiano Motta, conheci Pedro Lage em uma roda de leitura com o sugestivo nome “Além da palavra”. Foi na última edição deste evento na qual Pedro Lage ainda estava vivo que o conheci. Foi a primeira vez e também a última. O verso “A primeira vez é sempre a última chance” da letra de música “Teatro dos vampiros”, de Legião Urbana, composta por Renato Russo, me vem à mente agora, mais uma vez em mais uma vez em que alguém perde a vez, tão próximo e tão distante de mim. E lágrimas correm com a mesma infinidade de culpa e (in)consequente vergonha por demorar a me fazer saber e de lembrança de quantas inúmeras vezes esse verso premonitório de canção me avisou e se repetiu como um refrão em minha mente mais uma vez.
A roda de leitura “Além da palavra” era um projeto admirável e com objetivo evidente: os participantes traziam de volta não à vida, mas à eternidade diversos artistas das palavras; cada integrante da roda de leitura reservava um loteamento maravilhoso no devido espaço etéreo do sempre outros artistas ou a si mesmos ou ambos os casos. Fiquei encantado: as crenças nas quais eu acreditava estavam sendo postas em prática e o número de devotos crescia exponencialmente diante de mim. E vi, naquele dia, Pedro Lage crescer, gigante, ascender, enquanto declamava poemas seus e de outros outras outres poetas. Pedro Lage, nos poucos momentos em que estive com ele, me fez rever a eternidade, ainda mais bela e eterna do que antes a vira ou sonhara vê-la; o Paraíso especial para artistas nunca esteve tão elevado e tão próximo. E Pedro Lage, assim como voava enquanto declamava, voou além da palavra e da vida terrena, e, ao mesmo tempo, se mantém elevado e próximo nas palavras publicadas, lembrada, na devida residência no Paraíso especial para artistas, cujas casas de eternidade ele incansavelmente tanto ajudou a construir.
E é preciso crer na imortalidade de artista, é preciso jamais deixá-los no limbo do esquecer, é preciso solidificar a eternidade, e, por isso, eu leio, declamo, escrevo, continuo a escre(crer)ver. Sinto muito, Pedro Lage, por ter ameaçado esquecer as infindáveis lições de fé que, em tão breve e, ao mesmo tempo, infinitos momentos, você me passou em vida terrena e que, agora, me passa de sua eterna (e terna) imortal residência no Paraíso especial para artistas. Mantenho a fé e, apesar de ausente na sua ausência imediata, resgato a crença das possibilidades impossíveis de eternizar você.
Por Pedro Lage e por tantos artistas inúmeros poucos, o Paraíso especial para artistas existe, a imortalidade para artistas existe. E preciso manter essa fé, é preciso ler, divulgar, declamar, escrever, continuar a crer.
In memoriam e ad infinitum.



No vídeo abaixo, declamo atabalhoadamente o poema "Abismo", de Pedro Lage:




segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Uma carta melancolicamente premiada: Carta para meu amigo, professor e poeta, como e muito mais que eu


Depois de tanto tempo longe do blog, retorno com uma carta poética de minha autoria, finalista e premiada recentemente (no dia 06 de setembro) com o 2.º Lugar na Categoria Carta na Modalidade Professor no VII Concurso Literário promovido pela Academia Leopoldinense de Letras e Artes (ALLA).
O tema era pandemia e, sinceramente, além de exausto profissionalmente falando, eu já tinha escrito tantos poemas, crônicas e microcontos sobre o tema que pensava ter esgotado minha criatividade e inspiração para escrever algo mais variado sobre o assunto. Mas eis que, para inscrever os escritores-alunos dos sextos da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, para quem dei aula por uma semana, pois a professora deles, Flávia Araújo, havia contraído a Covid-19 e ficou temporariamente afastada (mesmo assim, em tempo recorde e urgente, combinamos on-line que eu faria uma oficina de produção textual com as turmas, seguindo o tema do concurso, cujo regulamento eu consultara anteriormente), resolvi trabalhar o gênero textual carta e estimular os alunos a escreverem sobre o tema. Inspiradíssimos, eles conseguiram emocionar este professor-redator-poeta-pateta-leitor-assíduo (para minha total surpresa, mesmo com toda experiência em corrigir redações, cheguei a chorar copiosamente com a carta de Ana Lara, do 6.º A – não à toa a carta dela conquistou o 1.ª Lugar na Modalidade Ensino Fundamental II; foi e continua marcante demais em minhas leituras prediletas). Diante de tais cartas profundamente cativantes, meu eu escritor ficou de sobreaviso e inspirado. Mesmo assim, até o momento de inscrever as cartas dos escritores-alunos que se destacaram, mesmo a inspiração gritando e um texto ainda inelegível gritando dentro de mim, a carta que minha mente e meu coração se propunham a escrever não vinha. Ao mesmo tempo (talvez por artimanhas do meu eu escritor, talvez por tanta coisa que a gente deixa sem dizer e que fica represada na gente), vinha-me à memória, episódios do período da pandemia e do ensino remoto; naquele período, o super-professor-poetatletamigo-premiado-e-muito-mais-poeta-que-eu Genaldo Lial havia perdido entes muito próximos e queridos, e, na época, à distância, o máximo que consegui fazer foi enviar a ele áudios longos e atrapalhados de pesar com frases confusas de tristeza e espanto diante das terríveis perdas dele. Naquele momento, eu, lutador experiente com a arte escrita e insistente domador das palavras, apanhei feio em minha tentativa de expressar minha consternação com as perdas de Genaldo super-professor-poetatletamigo-premiado-e-muito-mais-poeta-que-eu. E aquilo nunca saiu de minha mente, nem de meu coração; aquilo tudo que podia ter sido e não foi de Antônio Nobre e de Manuel Bandeira ecoando na minha cabeça e no meu peito até agulhar a alma.
Em cima da hora (sim, sou mestre em buscar vencer um leão por dia, deixando tudo pra em cima da hora), após inscrever todos os escritores-alunos que me propus a inscrever, todas as cartas deles e a lembrança das perdas e do episódio tragicamente atrapalhado de comunicação com o Genaldo vazaram numa escrita quase automática; as frases vieram transbordantes e, muito em cima da hora, quase sem revisão, enviei a carta abaixo postada.
É um registro sobre a pandemia, sobre os nossos tempos, sobre as nossas perdas, sobre ser professor nesse caos todo, sobre o que não se diz, mas precisa ser urgentemente dito, ainda que tardio.
É melancolicamente bom estar de volta com vocês, amigos leitores. Boa leitura e Arte Sempre!

Carta para meu amigo, professor e poeta, como e muito mais que eu
Carlos Brunno Silva Barbosa


Em algum lugar entre o que eu não disse e o que está tarde, mas precisa ser dito, 30 de junho de 2022

Querido amigo, professor e poeta, como e muito mais que eu,
Sabemos o quanto essa pandemia de Covid-19 atingiu nossa rotina...
Lembra a loucura e tensão que foi para podermos cumprir a contento as aulas remotas, sem termos tido, nem nós, nem a equipe diretiva, nem nossos alunos termos, ao menos, tempo, material, oportunidades e formações para nos prepararmos? Foi uma maratona terrível, mas nos viramos, fizemos o possível e o quase impossível, com as parcas ferramentas que tínhamos. Não foi satisfatório; hoje, com o retorno das aulas presenciais, percebemos melhor o quanto o período foi destrutivo para as sementes de educação que, incansavelmente, plantamos. A verdade é dura, mas inegável: foi uma vitória vã, válida apenas para comemorarmos nosso cada vez mais elástico jogo de cintura e nossa resiliência – palavra que você tanto adora e adota de forma sublime em todos os segmentos de sua vida. Mas a gente se recupera, sempre se recupera, e chegamos a recuperar até os que parecem irrecuperáveis – já é um lema que, apesar de insano, o colocamos como objetivo racional; meu amigo, você e eu, nós, professores, precisamos ser estudados ou definitivamente instalados em um manicômio chamado Sublime Esperança. É uma verdade dura, e, por tornarmos possível a impossível missão de irrigar nosso atual estado de marasmo educacional, com tensa leveza e quixotesco espírito guerreiro, merecemos ver a mesma realidade brutal com olhos de poeta. E tenho um orgulho e um prazer masoquista imensos de fazer isso ao seu lado, meu amigo, professor e poeta, sendo você, nesta linha, sendo muito mais poeta que eu, muito mais poeta que qualquer poeta que conheci ou li, muito mais poeta que qualquer um de nós, com o acréscimo de humildade legítima que só grandes artistas como você são capazes de apresentar.
Ontem eu estava relendo alguns poemas que você me mostrou após o retorno para as aulas presenciais. Os seus versos, sempre maravilhosos e com ritmos magníficos, não me eram novidade; como sempre, amei todos eles. Mas o que mais me marcou desta vez foram os títulos “O retorno”, “O retorno II”... Desde o retorno ao frágil novo – esquizofrênico - normal, diante de uma pandemia voraz que finge(m) que passa, mas não passa, poucos, como você, amigo, professor e poeta, mantêm rigorosamente todas as medidas preventivas – o uso de máscara, a aplicação constante de álcool gel nas mãos, a insistência no distanciamento, etc. -, enquanto a maioria, inclusive eu em vários momentos, tentam abraçar, com a tradicional ignorância, a ilusão de um abrandamento inexistente do poder de contaminação dessa terrível doença pós-moderna chamada Covid-19, que, vestida de musa da negação, segue a fazer impunemente novas e velhas vítimas. E, apesar da parvonice geral, altamente infecciosa nesses tempos, chegando a, muitas vezes, ser até mais contagiosa que a própria doença pandêmica, você, como poucos, permanece são. E ainda consegue retornar com poesia! Isso é o mais admirável quando releio seus poemas mais recentes. Confesso que qualquer lirismo, do mais nobre ao mais reles, me abandonara há um tempo (ou fui eu que a abandonei em perpétua quarentena e inanição, não sei bem quem abandonou quem). Mas, em você, a poesia pode até ter se silenciado por um tempo, mas nunca o abandonara. E constatar isso, em e graças a você, sempre me faz ter coceiras de inspiração em minha poética semicadavérica. É muito bom ler e reler você nesses tempos sombrios de trevas coloridas, meu amigo, professor e poeta.
A pandemia de Covid-19 nos feriu demais, amigo, professor e poeta, mas, não sei se por ser mais guerreiro e resiliente que eu, o terrível mal foi muito mais cruel e feroz com você: perdera muitos parentes, nesse período insalubre, por causa dessa doença assassina. Lembro-me de que, dada a distância e as normas de isolamento social, só pude lhe gaguejar pêsames vãos e sem rumo em áudios tremulantes para o privado de seu whatsapp. Sentindo-o de luto, logo você, tão saudável e cheio de vida, eu queria tanto abraçar a sua dor, tão forte até que fosse capaz de sufocá-la, retirá-la completamente de você, que não sabia nem como expressar essa sensação, nenhuma palavra de vida era capaz de confortar tamanho sofrimento. E você, bailarino hábil, dançou soberbamente com e sobre a dor. E, hoje, sorri, cheio de vida, ainda que os lábios às vezes murchem, mesmo com os ombros pesados, guerreiro pacífico resiliente, você caminha levemente, mesmo sobrecarregado pelo luto e pelo tempo e entre passantes insensíveis às milhares de perdas, insensíveis à falta de condições de vida, insensíveis a si mesmos. Mesmo perdido, nunca se perdeu, amigo, professor e poeta, e, assim, me ensinou, que, mesmo que dolorido, o coração jamais deve ficar insensível ao que foi perdido, mas também jamais perder-se do caminho da vida que nos restou. E é muito bom caminhar com você por essa difícil estrada, meu amigo, professor e poeta.
E é isso, e isso ainda é muito pouco para o tanto que o admiro, amigo, professor e poeta. E, mesmo sendo pouco, ainda cometi o delito de não ter conseguido expressá-lo em palavras até o momento em sua presença. Por tudo que eu poderia ter falado e não lhe falei, pelo tanto que o amo, admiro e lhe quero bem, por isso e por mais tanta coisa a ser dita e a se fazer, eis essa carta – que ela alcance os seus olhos, sua alma e coração, com infinita gratidão de ter você sempre ao meu lado, mesmo quando estamos distanciados, meu amigo, professor, poeta, meu irmão.
Abraços e Arte Sempre,
De seu (e)terno amigo e admirador
Carlos Brunno Silva Barbosa



terça-feira, 26 de julho de 2022

Poema literalmente à moda da casa: Saboroso resgate

Gabriele Münter - Breakfast of the Birds, 1934
– óleo sobre madeira – 45,7 x 55,2 cm
– National Museum of Women in the Arts, Washington, D.C.

Nesta segunda quinzena de julho, em recesso do trabalho de professor, tenho viajado bastante, rodando pelo Estado do Rio de Janeiro, indo a diversos eventos literários e musicais, e só há pouco (exatamente ontem), iniciei uma pausa mais prolongada (mas nem por isso longa, visto a correria lírico-diária dos dias) em minha querida cidade afetiva Valença/RJ. Acordar hoje de manhã aqui, tomar café em casa, me fez relembrar de um poema recente meu, escrito no ano passado, e classificado com Menção Honrosa pela classificação entre os 50 poemas finalistas no Concurso Cultural Poesia Urbana - Edição 2021 - Gostinho de Casa, realizado pela Pró-Reitoria de Pós-Graduação, Pesquisa, 
Extensão e Cultura do Centro Universitário de Brusque/SC - UNIFEBE. Sim, como a própria temática do concurso, ao qual o meu poema concorreu e classificou, propõe, o poema que compartilho hoje tem sabor caseiro, fala do gosto lírico que só o café da manhã em nosso lar materno possui.
Para apreciação e degustação lírica, compartilho hoje o meu poema “Saboroso resgate”. Espero que curtam e saboreiem, amigos leitores. Bom apetite e Arte Sempre!

Saboroso resgate
Carlos Brunno Silva Barbosa

A máquina de café escondida feito pecado.
O velho coador deixa o gosto mais imperial.
Fumaças do antigo baronato.
Bolinhos de chuva dançam da frigideira cansada
para a mesa levemente beijada pelo sol da manhã rural.
As narinas ansiosas do filho pródigo
abraçam o retorno à velha casa.

"Café da manhã no campo", de Philipimage,
disponível em: https://br.freepik.com/fotos-premium/cafe-da-manha-no-campo_6363350.htm


quarta-feira, 20 de julho de 2022

Uma história de quando não se tem uma história para contar: Conto de sardas


Vivo, neste momento, o período de recesso escolar, aproveitando o momento de folga do cotidiano voraz em aventuras boêmias como se não houvesse amanhã. Ontem reencontrei grandes amigos, como Ronaldo Brechane, Osvaldinho, Lucimauro Leite, Andreia Nobre (quase de partida de volta à Bélgica), entre outros, em encontros fugazes, rápidos (alguns mais ligeiramente demorados), permanentemente marcantes apesar de toda efemeridade, enquanto estava em uma mesa de bar na Rua dos Mineiros, no centro da cidade, no coração da moderna província sempre querida. Hoje é o dia em que comemoramos o Dia da Amigo. Os 3 fatos se misturaram em minha mente e reforçaram a minha decisão do que postaria hoje, em mais um eterno retorno ao blog, volta e meio injustamente deixado de lado (mesmo com todas as ausências, juro que amo e sinto falta de estar mais constantemente neste lar virtual lírico solitário coletivo).
Quadro "Consumidor de Absinto",
de Pablo Picasso

Hoje trago um outro conto meu, inédito no blog, mas premiado no Prêmio Maria José Maldonado de Literatura de 2019, da Academia Volta-redondense de Letras: o conto chama-se “Conto de sardas”, traz de volta o personagem-narrador Artur do conto “In Paticence”, já publicado aqui no blog (no link:
https://diariosdesolidao.blogspot.com/2022/04/meu-conto-quase-inedito-do-tempo-em-que.html ) e envolve boemia, amizades, loucuras efêmeras e permanentes, metanarrativa (uma narrativa que ousa falar sobre o próprio ato de narrar) e a busca de contar uma história que não tem história pra contar.
Como fiz quando postei “In Paticence”, deixo algumas indicações de trilha sonora para o “Conto de sardas”: para este, recomendo “Acrilic on Canvas” e “Teatro dos vampiros”, de Legião Urbana, “Eu nunca disse adeus”, de Capital Inicial, "Das coisas que eu entendo", de Nenhum de Nós, e “Shine On You Crazy Diamond”, de Pink Floyd.
Boa leitura, Boemia e Arte Sempre, amigos leitores!

Conto de sardas
Carlos Brunno Silva Barbosa

Tenho comigo a ideia de que a escrita e a memória se preenchem com paradoxos e vazios. Uma lembrança antiga: meu amigo José Silvério, popularmente conhecido como Zé nos círculos artísticos iluminados pelo anonimato, me dizia que fazer contos é fácil, pois sempre temos uma história pra contar ou inventar. “O que importa é a forma como se conta, Artur”, filosofava Zé, enquanto degustava uma dose de cachaça e solidão. Zé se tornava lúcido quando flertava com a insanidade e, quanto mais comunicativo parecia, mais dialogava comigo como se comunicasse consigo mesmo. “E quando não se tem uma história para contar?”, desafiei. Zé acabava de sorver mais uma dose e descia o copo para a mesa lentamente como se refletisse. Olhava-me como se me percebesse pela primeira vez à sua frente. Talvez pela primeira vez se percebera não tão solitário como ele e eu o imaginávamos. “Vou pegar mais uma dose, Artur.” Levantou-se e foi ao balcão. Quando voltamos a falar, minha pergunta permanecia sobre a mesa, mas a ignorávamos.
Anteontem: de tanto flertar com a loucura, Zé passou a transitar pelas ruas feito doido varrido. A insanidade aceitou o convite de namoro que ele tanto lhe ofertara. Zé ganhou uma namorada e eu perdi um amigo: ele não me reconhecia mais. E, mais solitário que nunca, Zé permaneceu acompanhado de amigos invisíveis. Personagens o perseguem, há milhões de histórias nas páginas invisíveis que Zé escreve, mas ninguém consegue ler suas obras, pois sua arte de vanguarda está além de nossa compreensão. Sua nova forma de contar histórias tornou-se genial demais para todos nós. Mas este conto não é sobre o Zé.
Digressão: já estou no terceiro parágrafo de meu conto sobre sardas e, ao invés delas, dessa história ‘fácil’, me perco em labirintos de lembranças do Zé. Paradoxos e vazios... Sim, esta história é sobre sardas e a dificuldade de contar ou inventar uma história que não aconteceu.
Ontem: Estava no mesmo bar onde Zé e eu nos encontrávamos. Não pensava nele, mas Zé permanecia ali na cadeira vazia, na minha ausência de pensar nele. Na mesa ao lado da cadeira vazia onde Zé se sentava, duas garotas – uma loira e uma morena – aparentemente embriagadas sussurravam e sorriam para mim, brincando com meu ar distraído.
- Pensando na morte da bezerra, menino? – a loira me perguntou e a sua expressão me soou tão antiga, tão fora do tempo, mas me realinhou ao imediato; eu não estava mais distraído, não mais fora de mim. A loira tinha um sotaque peculiar, meio nordestino, e um sorriso travesso nos lábios. - Está sozinho aí... Se achegue pra nossa mesa, venha!
Retribuí com um sorriso tímido e levei meu copo, meu corpo e minha falecida distração à mesa delas. Puxei a cadeira vazia, onde o Zé se sentava. Por que não levei a minha cadeira ao invés de puxar aquela vazia? Comodidade ou cumplicidade inconsciente com amigos fantasmas? Não sei... Paradoxos... Vazios... Distração.
A loira era falante, contou-me que chegara há pouco a Shangri-lá, citou os afazeres da mudança, o seu gosto por lugares novos, por conhecer gente nova – nesse momento, tocou levemente na minha mão estendida sobre a mesa. Seguiu contando-me sobre o prazer de ter encontrado, logo que chegou à cidade, uma “amiga, uma alma irmã, a Mônica” e me apontou a morena ao seu lado. A loira falava de tudo, acho até que citara o seu nome pra mim, mas me distraí. Por mais que a loira brilhasse em seu palco particular, minha câmera de atenção a colocava em um ponto cego. Mônica, a morena, quase monossilábica na conversa, foi e ainda é a dona do filme dessas lembranças.
Havia sardas sutis, mas marcantes, na região superior da bochecha de Mônica, quase alcançando a parte inferior de onde se localizava seus olhos oblíquos. Nova digressão: seriam os olhos dela mesmo oblíquos ou essa observação é mais uma impressão ilusória da memória, proveniente da releitura recente de “Dom Casmurro”? Não sei... Mais uma vez, não sei... Só sei que aquelas sardas, as sardas de Mônica, tão próximas da ameaça do toque, tão longe da concretização dos anseios das minhas mãos, hipnotizaram a minha atenção. Eram como diamantes brincando de esconde-esconde sem realmente se esconderem em seu rosto trigueiro. Eram sardas preciosas, reluziam ao mesmo tempo em que disfarçavam sua luminosidade. Aquelas sardas, ah, aquelas eram estrelas vividas, constelações cheias de histórias pra contar ou inventar no céu sereno do rosto de Mônica. As sardas de Mônica traziam o brilho de mil e uma noites de Sherazade, prometiam milhões de histórias que meus olhos, cansados de histórias banais, desejavam ouvir e se encantar.
Talvez eu tivesse mergulhado demais nas sardas de Mônica para perceber que a loira me perguntara algo e esperava a minha resposta. Notei que a loira mudara de posição, já estava ao meu lado, bem próxima de mim – quando foi que ela se aproximara tanto? Na dúvida sobre o conteúdo do questionamento que ela me fez e envergonhado demais para confessar-lhe minha completa falta de atenção, acenei-lhe um sim. Depois o tempo passou atropelado: percebi-me aos beijos com a loira, enquanto Mônica, embaraçada (ou tranquila? Não sei, ah, eu não sei!), despedia-se de nós, levando consigo aquelas sardas, cheias de histórias que jamais ouvirei. A partida das sardas de Mônica foi o início de uma noite pornográfica, mas sem estrelas.
Hoje: acordo em um hotel, abraçado à loira sem nome. Levantamo-nos ressaqueados e, depois de uma despedida de promessas vazias e beijos evasivos de até logo, saímos e seguimos, cada um, um rumo oposto ao do outro. Tenho a impressão de que jamais nos veremos novamente, assim como não verei novamente as sardas de Mônica. Estranheza canalha: por que o jardim invisível e inacessível é mais verde e presente se a gente não o vê nem o sente? Não sei, mais um milhão de vezes de não sei. Talvez por isso um verso da canção de Legião Urbana não me sai da cabeça: a primeira vez é sempre a última chance.
Sussurro a canção enquanto caminho e é nessa hora que esbarro com o Zé. Ele para na minha frente, meio encabulado, nitidamente enlouquecido e surpreendentemente surpreso por me flagrar sussurrando comigo mesmo. É como se me reconhecesse, após o fim de um grande pesadelo. Depois acena negativamente com a cabeça e bate nela como se espantasse algum mau pensamento, como se dissesse: “Não, amigo Artur, não flerte com a mesma loucura que me enlouqueceu”. Digressão, outra digressão: essa última comparação talvez seja mais uma ilusão, mais um verde no jardim invisível e inacessível.
Depois da autoflagelação, Zé parte, novamente conversando em dialetos desconhecidos com seus amigos invisíveis. Lá se vai meu amigo Zé, tão impossível a mim quanto as sardas de Mônica.
Direciono meu corpo, minhas constatações balbuciantes e meu insistente ar de derrota ao mesmo bar de outros outroras. Pego um chope no balcão e sento-me a mesa. Ao lado dela, a mesma cadeira vazia me encara. Em algum espaço entre o balcão e eu, a ausência das sardas de Mônica. Sobre a mesa, a antiga pergunta que fiz a Zé me sorri. Mas não retribuo o sorriso dela. Mesmo depois de tanto tempo, permaneço o mesmo: continuo fingindo que não a vejo.

"Bebendo Absinto (A Musa Verde)", de Victor Oliva






sábado, 2 de julho de 2022

Livros, canções, poemas em movimento, sonhos e delírios líricos em um evento só: Registros de grandes momentos da 2.ª Feira Popular do Livro do Bairro Santa Cecilia


Hoje, após quase um mês do acontecido, finalmente compartilho no blog os vídeos da 2.ª Edição da Feira Popular do Livro do Bairro Santa Cecilia (primeira edição que participo do evento que tem tudo pra se tornar uma tradição)..
No domingo, dia 05/06, a partir das 11 e pouca (hora em que cheguei, pois o evento teve início às 10 horas), a convite do grande mestre ativistamigo Rodrigo, estive na 2.ª Feira Popular do Livro em Santa Cecília, em Teresópolis/RJ, no Instituto Crescer (que fica em uma rua que possui o sugestivo e lírico nome Cecilia Meireles).

Abaixo deixo alguns vídeos (tem muitos mais) que registram grandes momentos das apresentações minhas e de Cíntia Luando & Julio Chineman na 2.ª Feira Popular do Livro em Santa Cecília, em Teresópolis/RJ, onde pude curtir grandes apresentações, adquirir grandes livros em maravilhosas ofertas (R$1,00 o livro, minha gente!) e ainda apresentar meus trabalhos e declamar alguns poemas meus que há tempos eu não declamava. Além do vídeo com trechos de grandes momentos, há também os vídeos idealizados por Rodrigo com depoimentos meus e da superartistamiga Cintia Luando.
Fica a dica: A Feira Popular do Livro em Santa Cecília, em Teresópolis/RJ, no Instituto Crescer, terá sempre uma edição em um domingo de cada mês. E, em tempo: vai rolar a 3.ª edição do evento neste domingo, dia 03 de julho, às 10 horas, Venham curtir grandes momentos líricos e adquirir grandes livros em ofertas imbatíveis nesta e nas próximas edições.
Agradecimentos especiais a Rodrigo pelo convite, superapoio, carinho, divulgação e cessão dos vídeos.

Se não estiver visualizando o vídeo, basta clicar no link: https://www.youtube.com/watch?v=tmO5AeF73zc

Se não estiver visualizando o vídeo, bastar clicar no link: https://www.youtube.com/watch?v=VYUsRu4RTiw&t

Se não estiver visualizando o vídeo, basta clicar no link: https://www.youtube.com/watch?v=_nUouP31akU

E não perca a 3.ª Feira Popular do Livro em Santa Cecilia
neste domingo, dia 03 de julho, a partir das 10h:

sexta-feira, 1 de julho de 2022

No Sarau Florescer Nit no Solar do Jambeiro, entre adeuses, sempres e abismos


Finalmente chega ao blog o vídeo registra parte de minha participação no Sarau Florescer Nit, no Solar do Jambeiro, em Niterói/RJ, na tarde de sábado, dia 04/06/2022.
Primeiramente, traz o fragmento do meio para o final de meu poema "O último adeus (ou O primeiro pra sempre)" e o outro, minha interpretação de "Abismo", poema mais que fodástico do Mestre Eterno Poetamigo Pedro Lage (in memoriam).
Agradecimentos superespeciais a magnânima divartistativista Jammy Said pelo convite, recepção, carinho e cessão dos vídeos.
Abaixo dos vídeos, deixo o meu poema "O último adeus (ou O primeiro pra sempre)", de meu 4.º livro homônimo, de 2004, e o magnífico poema “Abismo”, de Pedro Lage (no original, sem o deslize que dei ao lê-lo – havia anotado às pressas, pois o celular estava ficando sem bateria, e acabei não compreendendo minha própria letra).
Em tempo: Amanhã, sábado, dia 02/07, às 8h (no horário do Brasil), estarei em live da Fiera Virtuale del Libro Italia com o Sarau Florescer Nit.(Homens e Mulheres), magistralmente organizado pela Musa Divartistatistativista Jammy Said, homenagem o Poeta-Maior Dante Alighieri. A live poderá ser acompanhada no link da Fiera Virtuale del Libro Italia: https://www.facebook.com/FieraVirtualedelLibroItalia . Não percam!
Boa leitura, visualizações e Arte Sempre!

O vídeo: 
No Sarau Florescer Nit no Solar do Jambeiro

Caso não esteja visualizando, eis o link: https://www.youtube.com/watch?v=V8q80xXhJBg&t

Os poemas declamados no vídeo:

O último adeus (ou O primeiro pra sempre)
Carlos Brunno Silva Barbosa

Anoitece...
E a noite é fria, tão fria
Que até esqueço que ainda existe vida
Neste dia morto.

Mas nem por isso vou chorar
Pois lágrimas não trazem ninguém de volta
Mas nem por isso vou gritar
Pois agora não preciso disso
Pra você me ouvir
E palavras são como cartas
Pois nas cartas não cabem as farpas
De amor perdido
Nas cartas não cabem os sentimentos
O verso escondido
Cartas são quase nada
Palavras não trazem ninguém de volta...

É madrugada...
E as verdadeiras estrelas perdem o brilho no céu
Lembrando que a minha única estrela morreu aqui
Na terra...

A noite inteira andei por labirintos
A noite inteira eu andei perdido
E, mesmo assim, sinto que não estou sozinho
Sinto que você está comigo
E, com esta certeza, sobrevivo!

Amanhece...

Abismo
Pedro Lage

deste abraço
ao avanço da estrela mais íngreme
- apenas um passo,
os lugares menos reconhecíveis,
as lembranças mais frouxas
e uma voz rouca
fecham sobre mim seus lábios de tempestade
no pálio pálido da madrugada,
é tarde,
te amo

sábado, 25 de junho de 2022

Os Escravos de Seus Impérios Imaginários tão reais: Personagens, Nibelungos e Liberdades nas poéticas de Tetsuo Takita e de Marcelo Rodrigues Bueno

Tetsuo Takita (à esquerda)
e Marcelo Rodrigues Bueno (à direita)

Sabemos que, se algum mês fosse batizado como o mês do amor, seria junho. Afinal, algumas datas comemorativas nele, como o Dia dos Namorados e o Dia do casamenteiro Santo Antonio, confirmam essa preferência. Talvez, não coincidentemente (a amorosa e marcante Rebelião de Stonewall também aconteceu nesse mês), também se comemora o Dia do Orgulho LGBT+. O amor deve ser manifestado e semeado todo mês, principalmente nestes períodos de império de ódios, mas o mês de junho realmente traz um A maiúsculo para o Amor Livre e Sem Moderação. Foi neste mês de junho também, em um evento do Sarau Florescer Nit., magistralmente organizado por Jammy Said, que tive a honra de reencontrar o casal de divoartistamigos (poetamigos mais que fodásticos, cabe destacar) Tetsuo Takita (ou Tedi Pássaro ou Tedi Bird) e Marcelo Rodrigues Bueno.
Da direita para a esquerda,
Tetsuo Takita,
Marcelo Rodrigues Bueno e eu.

Conheci-os em um Sarau Florescer Nit. Anterior, numa magnífica sexta-feira de carnaval e de muita poesia, ambos trazendo seu lírico “Império Imaginário” (expressão entre aspas, pois é de Tetsuo Takita) solitário coletivo, em vibrantes performances.
Tudo isso, somado ao fato de eu estar devendo essa postagem, prometida a eles logo quando nos conhecemos, ou seja, já há certo tempo, tudo isso me fez decidir retornar ao blog, mais uma vez após longo hiato, compartilhando minhas solidões líricas com os mais que fodásticos poemas de Tetsuo Takita e de Marcelo Rodrigues Bueno.
Ambos trazem uma poética visceral (falávamos de amor até o momento, mas a temática dos poemas aqui selecionados tratam de temas pesadíssimos, de muita falta de amor), com grande preocupação social, cada um a seu modo (vejo na poética de Tetsuo o gosto pelo experimentalismo tão Sousândrade e Álvaro de Campos [na primeira fase deste], heterônimo de Fernando Pessoa, enquanto, na de Marcelo, vejo algo mais marginal-sublime-feroz-contido-incontido, bem Miró de Muribeca, Ferréz e José Craveirinha), mas ambos igualmente mais que fodásticos.
Que a Revolução da Artitude e do Amor (questionar o mundo a nossa volta também é amor, denúncia indignada contra a vitória da falta de amor, pedido crítico de harmonia entre o mundo e nós) perdure não apenas em junho, mas em todo o ano, no tempo quando, eternamente, livre, múltipla, singular plural, solitária coletiva.
Boa leitura, amigos leitores! Amor e Artitude Sempre!

De Tetsuo Takita
Extraído do livro "Personagem de Mim Mesmo 6.6ssãode terapia" de Tetsuo Takita - Editora Clube de Autores. Adquira no link: https://clubedeautores.com.br/livro/personagem-de-mim-mesmo-iii 

Tetsuo Takita

 
Escrevo pra ti esta-titica

Escravidão ainda
realidade mundial
escrevo escravo escrevinho
escrivaninha.

nas minas do Congo
menor menor que 10
Apple, Samsung e Sony
pela bateria do seu Smartphone
cobalto, ouro, tântalo e tungstênio,
Amada foca

se liberta do escrevendo flor de lótus
no stress
"no stress no escravo"

Coca Cola marca in Rosarno
Hum. Notável caso, Caládria-Itália
crianças
colheita de laranjas
refrigerante de marca
condição escravidão
mãos imigrantes África,

a criança trabalha trabalhou
sem Disney sem porra nenhuma

explorada alada erê voou para o céu dos passarinhos barriga d'água

vento seca seca

seca arado pasto ara escravo a'Zara dele
somos cúmplices deste sistema
prática do trabalho "slavo"

chora era
Phillipe Morris
2010
72 crianças de 10
envolvidas na colheita do tabaco
risco intoxicação nicotina
trabalho escravo
também imigrantes
documentos sequestrados
trabalho contínuo forçado,
sem qualquer compensação
condições desumanas plantações.
família inteiras
Marlboro, Basic, Benson & Hedges,
Amada foca!
Cambridge, Chesterfield, Commander,
Amada foca!
Dave's, English Ovals, Lark,
Amada Foca!
L&M, Merit, Parliament,
Amada foca!
Players, Saratoga e Virginia Slims.
anjinhos não escaparam nem da Victoria's shiiiiii!

cortaram-lhe a possibilidade de asa
ou anteciparam-lhe o voo ao céu das mortes capitais
Afirmava comércio justo, "fair trade",
garantia contra exploração nas plantações?
criança Clarissa,
in Burkina Faso forçada
plantar-colher algodão
físico abusivo.
dezembro de 2011
Victoria's Secrets
retirou "comércio justo" de suas etiquetas.
Nossa que reparação !

Chinesa Kye
recrutou 1.000
idades 17, 16,15
15h per dia
7 days per semana
números numbers numbers
mulheres de 18, 25
per la fortuna de 65 centavos hora...
ah tá!
A gente endeusa Microsoft, Hp, Xbox
Amada foca!
Apple e Nokia
Amada foca!

Uzbequistão, Forever 21
colheita do algodão
condição escravidão
direitos humanos?
total violação
Aeropostale, Toys 'R' Us,
Urban Outfitters
p amadas focas.

Hershey's. Amada foca! Uma nova linha, "Bliss Chocolate",apenas cacau certificado pela Rainforest Alliance dos EUA.
Vai um docinho amargo
chamado suor infantil?

há dez anos, milhares de rebentos arrebentados alegremente colhendo cacau na África
viva tbém Nestlè e M&M...
todas Mother fuck!

enquanto isso... tua criança nua toma banho de mangueira

trabalhador "slavo" formado no suor.
filho da Lua com a rua
mais um filho da Mãe fudida verde, amarela green yellow!
Tetsuo Takita


De Marcelo Rodrigues Bueno
Poesia de nibelungos 015
Capitulo 015
Iniciando..........

Marcelo Rodrigues Bueno


Liberdade na alma

Meu corpo pesava muitíssimo
Fumaça nicotina pesa meus pulmões
Mas dá prazer tolice minha fumar
Mas fumo e canso
Como é bom não ter nada a carregar
Como é bom ir e não ter uma incerta direção
Família não sou um peso pra eles
Prefiro ficar só por um breve instante
Eterno instante .....
Só a fome lembra de mim
Mas a ignoro
Estou decidido a não depender de comida
Sobreviver como
Com a mente talvez
Meditação sair descalço com uns trapo
De roupa é claro pra não ser preso
Deixar tudo para atrás até meu propio ódio do mundo
E tudo que o tem de ruim
Esquecer do devorador de tempo
Minha vida depende de mim
E o tempo é uma via láctea
Não sou nada perante isso tudo
Chega de carros chega de motos
Chega de ônibus lotado chega de fofocas
Chega de pobreza e riqueza
Chega de cueca suja e roupas lavanda
Chega de contas chega de dívidas
Chega de feiura de me preocupar com a beleza
Chega de impostos de governos que não governam nada
Chega de empregados domésticos domesticados
Chega de salário mínimo o mínimo que posso é doar o fubá
Santo tire essa coroa de espinho
Pensa vc dai-me um beijo
Pecado é guerra santa sangra
Explode trovão de pólvora então
Cale-se tire essa roupa e me cata
Solte seus cabelos e peque
Disse vc não pecar perante seu rei
Chega de maldade
Seus olhos doem
Pregado fui no varal da misericórdia
Com minhas roupas sujas de sangue
Marcelo Rodrigues Bueno

Da esquerda para a direita,
Marcelo Rodrigues Bueno
e Tetsuo Takita


Meu filho-poema selecionado na Copa do Mundo das Contradições: CarnaQatar

Dia de estreia da teoricamente favorita Seleção Brasileira Masculina de Futebol na Copa do Mundo 2022, no Qatar, e um Brasil, ainda fragiliz...