quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Solidões Compartilhadas: Mais algumas gotas de dor, de Fabio da Silva Barbosa

Hoje estreia nas Solidões Compartilhadas um velho poetamigo virtual que jamais vi, mas cujos caminhos líricos e poemas sempre amei. Conheci o fodástico poetamigo estreante através da rede social Facebook em 2011 - se não me engano, foi ele quem me adicionou, talvez por contatos em blogs, etc. (lembro que foi num link de blog que ele compartilhou que eu soube do evento Praia do Rock de janeiro de 2012, organizado pelo super-artistativistamigo Rafael Almeida, até aquele momento um ilustre desconhecido por mim e atualmente um dos grandes parceiraços lírico-musicais que tenho. Foi esse evento "Praia do Rock", em Macaé/RJ, que estimulou a mim, Juliana Guida Maia e Zé Ricardo Maia a criarmos o Sarau In Roça, no bairro do Cambota, em Valença/RJ, e começarmos uma pré-tour do que viria a ser o "Sarau Solidões Coletivas", oficializado apenas três meses depois, em abril de 2012 [antes já fazíamos saraus, como quando nos apresentamos no Arte Valença 2, organizado por Giovanni Nogueira em 2011, entre outros anteriores, mas o grupo ainda não tinha nome]). Ou seja, o fodástico poetamigo estreante de hoje é indiretamente responsável pelo surgimento do Sarau Solidões Coletivas e pelo estímulo à busca dos contatos para eventos líricos fora de Valença/RJ.
As Solidões Compartilhadas com este fodástico poetamigo estão atrasadas 3 anos - em 2013, ele já havia me mandado fodásticos poemas e, devido à correria insana da rotina, acabei deixando passar a oportunidade, mas os deuses do lirismo me deram uma segunda chance e hoje, finalmente!, trago "Mais algumas gotas de dor", do mais-que-fodástico poema do poetamigo Fabio da Silva Barbosa, autor do e-book "Escritos Malditos de uma Realidade Insana" (que pode ser baixado no seguinte link: http://lamparinaluminosa.com/index.php/os-livros/e-book/59-escritos-malditos). Sua poética delirante é vibrante, frenética e sempre preocupada e denunciadora das injustiças de nossa louca realidade social.
Caminhemos com os olhos, amigos leitores, e conheçamos as saídas dos eus líricos de Fabio da Silva Barbosa pelos labirintos sem saída de nossa complexa (ir)realidade social.

Mais algumas gotas de dor
Por Fabio da Silva Barbosa

aí estão suas lágrimas
novamente inundando
sua face tão marcada
pelas surras do passado

e o presente
que não facilita em nada
insiste em mostrar
um futuro de dor

não existe fuga
que dure para sempre
para abortos ambulantes
que respiram em plena morte

condenados pela existência
perambulando pelo eterno fim
com o apito da benzina
guiando os instintos

ruínas interiores
destroços exteriores
pelos restos da desolação
de uma sociedade devastada

somos frutos arruinados
nascidos destruídos
totalmente imbuídos
por esses caminhos bloqueados


segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Solidões Compartilhadas: A Chuva de Lembranças e Esperanças de Vânia Ribeiro Camacho

Dias de chuva intermitente, infindável... Dias meio melancólicos trazem lirismos de sorrisos tristes... E, na mesma proporção que o céu derrama suas lágrimas - às vezes, acalentadoras, em outros locais, trágicas -, chove poesia no coração dos jovens poetas.
Apesar dos ares tristonhos e introspectivos dos dias de chuvas, hoje o professor-poeta-blogueiro que vos fala sorri, pois recebi mais um fodástico poema da jovem mais-que-fodástica poetamiga teresopolitana Vânia Ribeiro Camacho (em 2015, ela encerrou seu ciclo como minha poetaluna, e agora é poeta-mestre-amiga e segue seu sensacional caminho lírico).
Amigos leitores, acompanhemos as reflexões poéticas e românticas dos eus líricos da hiper-talentosa Vânia Camacho diante da chuva que cai lá fora!

A chuva caía lá fora...

A chuva caía lá fora
Aqui dentro a noite custava a passar
Foi paixão de uma noite
E eu imaginando como seria te reencontrar .

Horas antes eu te observei
Por tua beleza me encantei
Meu coração acelera só de lembrar
Mas eu nunca mais vou te reencontrar.

Tu partiste, tudo se foi
E eu nem te disse adeus ou um outro oi
Espero um dia te reencontrar
E aí eu não te deixo mais escapar.


sábado, 16 de janeiro de 2016

Chamas que sobrevivem e o Foda-se! consagrado como livro: Lembranças de 2015

Apesar dos pesares, o ano de 2015 não foi completamente desastroso. Fazendo uma retrospectiva de bons momentos, dois, em especial, merecem destaque do meio do ano passado para o fim: minhas duas classificações no Prêmio Olho Vivo 2015 - uma na Categoria Poeta e outra com meu oitavo livro "Foda-se! E outras palavras poéticas..." na Categoria Livro - graças ao voto popular, ou seja, graças a vocês, amigos leitores.
Em homenagem a essas duas felizes lembranças, trago hoje ao blog dois vídeos meus - produzidos como material de divulgação do Prêmio Olho Vivo 2015 - já presentes no site Olho Vivo (nos seguintes links: http://www.olhovivoca.com.br/votacao-tecnica/3842/rosangela-carvalho-carlos-brunno-e-regina-vilarinhos-estao-na-final-do-premio-ov/http://www.olhovivoca.com.br/votacao-tecnica/4326/victor-gomes-carlos-brunno-e-josemir-tadeu-estao-na-final/ ) e até o momento inéditos aqui no blog.
Em tempo: hoje, sábado, dia 16 de janeiro, às 23h, terei a oportunidade de recomeçar a "Foda-se Tour" (versão 2016), divulgar e apresentar alguns dos poemas do livro "Foda-se! E outras palavras poéticas..." na II Virada Poética de Volta Redonda, que acontecerá na Toca do Arigó, em Volta Redonda/RJ, a convite dos poetamigos Carlo Eduardo Giglio e Elisa Carvalho. Quem quiser curtir um pouco dessa 'vibe' lírica é só aparecer por lá (os ingressos custam R$ 10,00 cada e quem quiser adquirir um exemplar do "Foda-se! E outras palavras poéticas...", estarei por lá vendendo-o pelo preço promocional de R$ 20,00).

Clipoema: "Como a chama sobrevive se não ferve" (terceira versão)


Como a chama sobrevive se não ferve

Vivemos tempos ferozes
Onde ninguém olha por nós
E seria tão simples nos ver belos assim
Ao invés de quererem nos reformar...

Como a chama sobrevive se não ferve?
Como alguém sobrevive nessa neve?

Não deram chance alguma pra nós
Os sádicos decidem tudo por nós
E todos eles resolvem atirar suas torrentes
De maldade em nós.

Como a chama sobrevive se não ferve?
Como a gente sobrevive se nos ferem?

Como? Se nos destinam as piores preces?

Como? Se todos querem nos matar?

Oh, troque o sermão triste por essa canção livre
E toque minha dor com seus lábios felizes
E manteremos tudo aquilo que nos ferve
E sobreviveremos a toda e qualquer neve
Toda e qualquer neve vai derreter!

E a chama ainda sobrevive mesmo contra a neve!
E a gente sobrevive mesmo quando não querem!
Toda e qualquer neve vai derreter!
E a gente vai sempre sobreviver…


Clipoema-documentário: "Foda-se! E outras palavras poéticas... - o livro e sua história"


sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Hélida Suzy Silva e o Despertar do Foda-se

Ela foi minha poetaluna na época em que eu lecionava na E. M. Nadir Veiga Castanheira, em Três Córregos, na região rural de Teresópolis/RJ (eram tempos de sóis ingênuos sem a sombra trágica das chuvas daquele fatídico janeiro de 2011). Antes Hélida Silva, hoje opta por "Suzy Silva" (o novo nome que ela adota me faz lembrar da fodástica diva rock Suzi Quatro, que inspirou bandas igualmente fodásticas como The Runaways). Na época em que lecionava para a turma dela, entre 2007 e 2010 [quando eu já rascunhava meu livro "Foda-se! E outras palavras poéticas...", que só teria um formato definitivo anos depois e só seria lançado em outubro de 2014], ela me mostrava diversos poemas de sua autoria, entre eles um com um sonoro FODA-SE em caixa alta, entregue, confiado a mim numa manhã em que ela aparentava estar extremamente aborrecida (tenho procurado esse manuscrito desesperadamente entre as minhas diversas pilhas de papéis e, assim que encontrá-lo, o disponibilizarei aqui no blog). Naquele momento, nosso lirismo se harmonizara sem que soubéssemos (o livro-projeto "Foda-se! E outras palavras poéticas..." ainda era meio secreto e ela, sem saber, me entregara um poema que tinha tudo a ver com a proposta poética do livro). Outro poema de Hélida "Suzy Silva", intitulado "Meu Romeu" e inspirado em Romeu e Julieta, foi premiado com Menção Honrosa, no Concurso de Poemas da ALAP de 2010. Hélida "Suzy Silva" foi e sempre será uma poeta premiada (o poema já foi postado no blog na seguinte postagem: http://diariosdesolidao.blogspot.com.br/2011/12/alunos-poetas-que-brilham-romeus-e.html).
Depois das trágicas chuvas de janeiro de 2011, constantemente nos desencontramos (ora nos víamos brevemente num ponto de ônibus do centro da cidade de Teresópolis, ora ela me adicionava no facebook com o nome de Hélida da Silva, depois sumia, ressurgia como Suzy Marrentinha e agora como Suzy Silva).
Só no ano passado (talvez pra comprovar mais uma vez que 2015 não tenha sido um ano completamente ruim), realmente nos revemos menos inconstantemente e tive, por intermédio de sua namorada (atualmente noiva) Jéssica Ferreira), o privilégio de presentear Hélida Suzy Silva com um exemplar do livro "Foda-se! E outras palavras poéticas...", que ela tanto incentivou indiretamente para que fosse publicado (espero que o formato final do livro tenha agradado a ela, afinal parte dele amadureceu juntamente com a poética dela). O presente foi logo retribuído: Hélida Suzy Silva me confiou o privilégio de ler novos fodástico poemas e prosas poéticas de sua autoria, que hoje compartilho com os amigos leitores.
Os poemas de Hélida Suzy Silva tem aquela leveza lírica pesada, são românticos sem serem piegas, extremamente pessoais e lúcidos em uma loucura e estilo só dela.
Viajemos no lirismo fodástico de Hélida Suzy Silva, amigos leitores, com todo foda-se e todo amor.

Desabafo (ou Andando na rua e escrevendo, por enquanto é só esse pedaço)

Vou mandar todo mundo se fuder e ai de você se os defender, senão vou mandar até você e aí pode me esquecer, lamento por você  levar a culpa de quem tem q se fuder..
Deixa eu falar, deixa eu gritar, xingar e esquecer que tudo se acalma quando esse dia acabar..

Horas...

Foderia meu passado, se te contasse meu agora, meu depois de altas horas...
Foda-se meu presente, quero viver o meu agora, o nosso toda hora e nunca te esquecer em 24 horas.. Relógio, que me perturba, me tortura e me tira o foco e figura, esquece minha fase nessa Lua, que ira vir depois da chuva.
Quero ser tua, me perder em teu olhar e me achar em ti nua..
Sou tua Lua
Sou tua nua
Sou tua tua
Sou tua sempre e nunca
Sou tua pura
Sou tua rua
Sempre serei tua, e não importa em qual categoria de FODA- SE estivermos!

domingo, 10 de janeiro de 2016

Esquete sem inspiração para A e B recomeçarem sua trajetória trigonométrica non-sense antes que o ano novo envelheça de tédio sem novas parábolas psicodélicas (ou Título grande por não ter muito a dizer)

Às vezes, a vida (ou perdas na vida) nos exigem uma imersão... para testarmos o quanto suportamos respirar afundados nos oceanos de problemas do inesperado e fatídico esperado dia a dia, pra conhecermos o fundo, mas uma hora devemos emergir novamente, antes que percamos todo ar, antes que tudo acabe junto do outro tudo que findou - a vida jaz, mas ainda há outra vida, jazz, é hora de recomeçar.
O blog está de volta, amigos leitores!

Esquete sem inspiração para A e B recomeçarem sua trajetória trigonométrica non-sense antes que o ano novo envelheça de tédio sem novas parábolas psicodélicas
(ou Título grande por não ter muito a dizer)

A: "E aí?"
B: "E aí o quê?"
A: "Sei lá... E aí aí..."
B: "O ano passado terminou estranho né?"
A: "Atualmente todo ano tem sido estranho. Esse ano então... começou muito esquisito..."
B: "Muita gente tem reclamado..."
A: "Talvez a gente é que seja o esquisito..."
B: "É..."
A: "E aí?"
B: "E aí o quê?"
A: "Ah, sei lá... E aí vai ficar assim 'e aí"?
(Silêncio... Falta de inspiração... Contas pra pagar... A tal crise... O dono do bar, entediado, parece repousar... Copos vazios... Nada a declarar...)
B: "É... sei lá... é isso aí... é tudo um sei lá..."
A: "E aí?"
B: "E aí o quê?
A: Aí... ah... sabe de uma coisa: foda-se! Pede mais uma! Vamos mudar de assunto e seguir em frente!
(O barulho da vida ao redor retorna aos ouvidos. De onde chega e sai tanta gente, meu Deus? O dono do bar, ainda que entediado, desperta. Os copos novamente cheios, prontos para novos esvaziamentos. Algo por falar - talvez tudo, talvez nada, o importante é continuar)


[Termina sem ponto final mesmo]

domingo, 27 de dezembro de 2015

Ao meu avô Fernando: Uma nova elegia, antigos contos e eternas saudades de ti...

2015 definitivamente é um dos piores anos nos quais já (sobre)vivi. Apesar de ter tido alguns bons e maravilhosos momentos,  o saldo final deste ano - que parece arrastar-se em seu encerramento - tem sido desastroso.  Na madrugada deste fatídico domingo, dia 27 de dezembro, recebi a notícia de que meu avô Fernando Barbosa, depois de uma aguerrida luta pela vida durante a internação no Hospital da Santa Casa, de Barra do Piraí/RJ, veio a falecer durante a madrugada: seu coração não resistiu a mais uma torturante batalha... E cá estou eu, há mais de 24 horas desperto, completamente insone, com uma ficha que parece não cair, os olhos inchados de tanto chorar, com flashes do velório, do sepultamento, da partida do meu maior super-herói - aquele que me abrigou e cuidou de mim durante os anos de faculdade, que sempre contou as melhores histórias, que sempre me ensinou milhões de coisas da vida, que salvou milhares de vezes minha vida da mediocridade, sempre me mostrando os caminhos singulares, suas particulares ironias, os melhores rumos para a estrada mais honesta e lírica.
No meu último encontro com ele, na tarde de natal, dia 25 de dezembro, durante o horário de visitas  à UTI onde se encontrava, vovô Fernando parou o médico de plantão e indicou a este sorrindo: "este é o meu neto escritor!", foi meu maior presente, ele me exibindo com orgulho para, segundo vovô, o "melhor médico daquele hospital", foram algumas das últimas palavras de vovô Fernando naquele nosso último encontro, quando ele ainda estava com vida, o corpo frágil, mas a mente lúcida e altiva. Ao vê-lo, na manhã do dia 27, inerte no caixão, alguma ilusão louca em mim ainda pedia por um milagre, que ele se levantasse, rindo de toda aquela desgraça, mas não aconteceu: vovô Fernando estava morto, era um ponto final de adeus a esta vida para a reticência de outra mais acima, um firmamento paradisíaco mais justo e bonito para seu belo coração, cansado de tanta dor. Diante de meu falecido avô e seguindo o pedido de minha tia e madrinha lírica Celeste, escrevi uma elegia a ele - era o mínimo que eu poderia fazer diante da lembrança que ele deixou e diante das tantas e tantas histórias que ele já me inspirou.
Hoje, nesta noite insone, trago a elegia que escrevi e declamei durante a cerimônia de sepultamento de meu avô Fernando. Além desta, também deixo os dois contos do livro "Diários de Solidão" (2010), ambos inspirados em momentos passados com meu avô (o primeiro, intitulado "O quarto vazio (ou O quarto e o vazio)" foi escrito em 2004, quando vovô passara [e sobrevivera] a uma difícil internação devido também ao frágil e generoso coração; o segundo "Troféu de lata", escrito aproximadamente na mesma época, se não me engano um a dois anos antes, brinca com as diferenças e semelhanças que tínhamos, nossa amorosa harmonia em solidão coletiva), um pouco do imenso tudo que ele me deixou e que permanecerá pra sempre comigo.
Boa eternidade, pai-vovô Fernando, com todo amor e saudade deste seu filho-neto que tenta por toda eternidade chegar ao menos no dedo mindinho de seu mais-que-fodástico esplendor.

Os ventos sopram o nome de meu avô (Elegia ao meu vô Fernando)

O calor abafado, tão frequente,
foi domado por estranhos ventos indolentes...
Eles levam teus últimos sopros de vida,
eles levam teu nome para distantes avenidas,
bem longe da gente, mas sempre presente,
acima da dor que tão corajosamente
o teu coração suportou.
Agora és o anjo mais poderoso
do nosso Criador.

O sol fere as montanhas com feroz ardor,
enquanto teu corpo frio, mas ainda firme,
descansa nas sombras iluminadas.
Vai em paz, meu pai, meu guerreiro avô,
defender-nos na difícil caminhada,
mesmo longe, te vemos na estrada,
pois agora és o anjo mais poderoso
do nosso Criador.

Lembro-me de todos os teus sábios conselhos,
teu imenso afeto,
teu ar zombeteiro,
teu jeito agitado e, ao mesmo tempo, sereno.
Eras o boa praça, aquele que com todos conversava,
eras o senhor garboso, o mais cheio de graça,
flamenguista dos áureos tempos vitoriosos,
sempre meio gozador,
trabalhador honesto, sempre o mais correto,
aquele que acerta mesmo quando comete erros;
eras o órfão que adotou e criou filhos e netos,
homem de poucos estudos que a tantos melhor educou,
lutador do dia a dia, aquele que sublimou as mais vorazes agonias,
acrobata do cotidiano, aquele que sempre pisou firme
nas cordas bambas da vida,
eras, és e sempre serás
meu pai, meu guerreiro avô,
mesmo quando perdeste, foste o maior vencedor,
partiste da lida sofrida para o paraíso promissor,
agora és o anjo mais poderoso
do nosso Criador.
(27/12/2015)

O quarto vazio (ou O quarto e o vazio)

Entro em teu quarto. Não estás, sei que não estás. Mesmo assim, te procuro. Tudo arrumado, cada coisa em seu lugar: a cama intacta, o rádio de pilha em silêncio, os discos velhos que não tocam, o aparelho de som que não funciona, a tevê desligada... Estranho – agora percebo – o rádio de pilha está em silêncio porque não se encontra aqui. Talvez levaste, talvez alguém o levou pra ti no hospital. Estou vendo demais: meu coração desarrumado cria ilusões em meus olhos.
É... nem tudo está em seu lugar. Há um vazio. Em todo espaço físico que passo, há um vazio por dentro. Talvez, por isso, Álvaro de Campos escrevia poemas com versos tão longos: para preencher os vazios. Estranha reflexão que trago nessas horas mortas – estranho, eu me sinto estranho.
Hoje, na faculdade, uma professora rejeitou um artigo meu. Pediu-me uma dissertação; trouxe-lhe um argumento ardoroso, um manifesto agressivo, quase rebelde. Deu-me um sorriso, elogiou minhas colocações, mas explicou-me que a política do jornal acadêmico é atacar os problemas sem ferir os donos (ou políticos?, me perguntei enquanto ela falava) do problema. Me senti um estranho (estranho como esta palavra me persegue), dei um sorriso e parti. Senti saudades dos parentes da roça: eles sabiam dar nomes aos bois.
Mas isso, nada disso eu te contaria (ainda mais agora). Te falaria do meu sucesso, do meu futuro acadêmico. Repetiria tudo que quisesses ouvir, tudo que gostarias que eu fosse... se estivesses aqui. Se estivesses aqui, quereria saber como estás, com vai teu coração. Nada: o quarto vazio. Meu sentimento distante busca uma cama de hospital. Estou enfermo: uma doença estranha entranha em mim, uma dor de vazio. Mas isso, nada disso eu te contaria. Te falaria que estou bem só pra não te preocupar.
(extraído do livro de contos "Diários de Solidão" [2010], pp. 53 a 54)

O troféu de lata

Um dia cheguei em casa festivo. Eu era um poeta, pelo menos, acreditava que era. Um poeta vencedor, um campeão! Carregava em minhas mãos um troféu: PRIMEIRO LUGAR NO CONCURSO DE POESIAS DA CIDADE DE SHANGRI-LÁ. Um troféu lindo, pelo menos, eu acreditava no seu brilhante valor.
Vovô estava na sala. Assistia à TV Câmara ou TV Senado – eu sempre me confundia, tamanhas as falácias (bonita palavra, não achas? Crítica, feroz, sutil, poética!) de ambas as emissoras. Entre um discurso contraditório da oposição e uma defesa evasiva da situação, exibi o meu troféu: Olha, vovô, eu ganhei!
Primeiro ele se assustou. Afinal, tanta efusão, tanta energia só podia ser gasta num grande clássico de nosso nem sempre glamoroso (palavra bela, esquecida, mas também poética!) futebol. Depois observou com atenção o artefato que eu trazia nas mãos. Esboçou um sorriso-paradoxo. Meio admirado, meio amargurado: seu neto era um poeta e, como todo poeta, trazia um lado tolo, pateta.
Refletiu, baixou os olhos, então resmungou um elogio: “É, é bonito...”. Depois atacou: “... mas eles podiam ter dado um prêmio em dinheiro, não acha?”
Agora quem baixa os olhos sou eu. O coração vazio de glórias tanto quanto os bolsos de dinheiro. Revejo a cena, tento retornar a história aos sorrisos iniciais, aos primeiros parágrafos... Tarde demais: só encontro o vazio do canto da página. Do início só resta o (TAB) parágrafo.
Durante o Globo Esporte, vovô me mostrou que um surfista ganha, numa vitória do Circuito Mundial, 10 mil dólares, bem diferente do meu troféu de lata de poeta.
Vovô é um poeta da Matéria, criou um engenho magnífico de conforto e lazer, dourado de finanças e bem-estar. Não tem culpa por não compreender o sensível e mendigo universo das letras - a poética de vovô vem de outra natureza; eu sei e amo o poeta que ele é assim mesmo.
Mesmo assim, afastei-me, ocultei o troféu das palavras de vovô. Senti que elas feriam meu objeto poético, talvez patético, mas ainda meu.
Ficamos trancados no quarto o troféu e eu. Percebi que ele chorava e adquiria tons cinzas nos olhos. No escuro do quarto... sozinhos... quem carregava mais tristeza: o troféu ou eu? Não sei... talvez seja esse lance de poesia que me faz ver coisas, talvez vovô tenha razão. Ele sempre dizia que eu precisava crescer. Estou com vinte e seis anos e continuo a duvidar do mundo adulto que vovô me expõe a cada notícia, a cada debate político – tudo me parece tão absurdo... quando vou entender?
Adormeci e sonhei que um surfista campeão do Circuito Mundial gastou 10 mil dólares num só dia de comemoração do título, acordou duro, melancólico e, refletindo sobre a efemeridade das coisas e da vida, escreveu um poema.
Acordei com meu troféu de lata no chão. Passei a mão sobre seu corpo de lata: estava intacto, perfeito, sublime (outra palavra bela, ricamente sonora na doce língua de Camões. Lírica, mágica, transcendental!). Quebrou-se apenas a fantasia.
De manhã, vovô lamenta a falta de aumento, as intrigas políticas que atingem sua economia. Sim: o mundo que dá 10 mil dólares a um surfista campeão do Circuito Mundial nega um tostão ao aposentado. Que arte ingrata vovô escolheu com seu lirismo de Matéria! Fico triste com ele, fico triste por ele. Amo sua poesia de vida... só não compreendo por que ele a gasta com tanto ouro de tolo.
Vovô e eu somos poetas opostos com a mesma dor – solitários e incompreendidos.
Parto para a fábrica, então trabalho: máquina robô maquina vai volta faz desfaz refaz máquina maquina bruuummmmmmmmmm produção produto hora hora ora ora orai trabalha cansa recansa. No fim do mês, terei o ouro de tolo que vovô poetiza.
Quando chego em casa, conto para ele que terei aumento (só não aviso que é aumento de trabalho e não de finanças).
Vovô sorri, ensaia versos sobre a nobreza do trabalho e sonha um futuro monetário para mim.
Respondo o sorriso, confesso meu cansaço e me distancio, trancando-me no quarto.
Sozinho e angustiado, pego meu melancólico troféu de lata e o abraço. Patético, tragipatético, deves pensar, mas confortante (isso tu não vês).
Adormeço e sonho que sou um poeta surfista campeão do Circuito Mundial me equilibrando em ondas de palavras.
(extraído do livro de contos "Diários de Solidão" [2010], pp. 50 a 52)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Notícias líricas: Os meus 3 vídeos finalistas no Concurso da Fenapo

Yeah, amigos, não foi desta vez que fiquei entre os 3 primeiros colocados, mas tive a honra de possuir 3 vídeos como finalistas da Categoria Vídeo Poesia da Fenapo 2015, em Osasco/SP: "Escravilizado" (com o falecido cachorro Tortinho, do bairro São José das Palmeiras), "Aurora Inexistente" (com a mais-que-fodástica artistamiga Karina Silva e filmado por Juliana Guida Maia) e "Anjo Caído" (vencedor do Festival Literário Londrix 2013 e agora finalista de outro concurso!).
Em homenagem a esse feito, trago de volta ao blog nesta postagem os 3 vídeos finalistas.

Yeah, estamos no caminho certo, amigos das Solidões Coletivas!






Meu filho-poema selecionado na Copa do Mundo das Contradições: CarnaQatar

Dia de estreia da teoricamente favorita Seleção Brasileira Masculina de Futebol na Copa do Mundo 2022, no Qatar, e um Brasil, ainda fragiliz...