quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Solidões compartilhadas: Viagens e poemas de Genaldo “Che” Lial

Genaldo Lial inspirou o filme alemão
"Corra, Lola, Corra", pois ele,
como a protagonista do filme,
não para de correr
nenhum minuto!
Genaldo "Che" Lial e eu
indo pra uma aula-passeio
no Parque Nacional da Serra dos Órgãos
Ele é uma lenda da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva. Veio de Mesquita/RJ, mas, residente há alguns anos na zona rural de Teresópolis/RJ, já se fez um teresopolitano esportista nato. Professor de Educação Física, fã de xadrez e atletismo -  quando não está lecionando, pratica o que ensina: corre sempre pra manter a forma, pensa Educação Física, ama Educação Física, brinca com Educação Física, respira Educação Física, transpira Educação Física, vive Educação Física, sua alma parece estar em constante atividade física, só para de malhar o corpo para manter o cérebro em forma concentrando-se numa partida de xadrez. Os mais exagerados dizem que ele é o único que já nasceu correndo, dando xeque-mate na parteira e gritando “Primeiro!” feliz por ser o primeiro a alcançar a linha vital no momento do parto. Odeia futebol (sim, o lendário ser é um dos poucos professores de Educação Física que esculacha o mais popular esporte de nosso país – “vou ensinar essa porcaria pra quê? Eles já sabem como é; a mídia, o mundo todo alienado nisso. Vou ensinar o melhor, o que eles não sabem, o que eles realmente merecem aprender”, se defende) e adora viajar em sua moto em longa jornadas pelas regiões do Brasil e da América do Sul (seu currículo de viagem é de dar inveja ao jovem Ernesto Che Guevara, eterno viajante, como podemos ver no filme “Diários de Motocicleta”, do diretor brasileiro Walter Salles, baseados nas primeiras viagens de Che pela América Latina). È fã de forró, considera a sanfona de Luiz Gonzaga mais revolucionária que a guitarra dos Beatles e, se toca um rastapé, não para de dançar um minuto. E, como se não bastassem todas as atividades físicas, partidas de xadrez, bailes de forró e viagens, como Che, o lendário ser ainda é escritor – jovem, construía sonetos, na forma mais clássica; hoje se dedica a escritos de sua viagem (alguns de seus textos e reportagens já saíram em jornais de motociclistas e de grande circulação, como O Globo) e, aos poucos, retoma a poesia, numa forma menos rígida. A personalidade lendária de quem eu falo hoje é o fodástico professor e artistamigo Genaldo Lial da Silva, com quem compartilho pela primeira vez minhas solidões poéticas.
Trago duas faces da escrita de Genaldo Lial: um fragmento do romance de viagem ao qual o artistamigo tem se dedicado (yeah, como ele mesmo diria, primeiro! já tô na fila esperando o lançamento!) e um poema que marca seu retorno à escrita poética, um poema de amor e celebração á vida (o marcante poema foi declamado pelo próprio poetamigo no II Sarau Professor Rosa Amélia, realizado na Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, neste ano – cujos vídeos em breve estarão aqui no blog – e surpreendeu a todos que só o associavam a esportes.
Joguemos nossos olhos, amigos leitores, na escrita revigorante de Genaldo Lial.

Fragmento do romance de viagem de Genaldo Lial, com o título provisório de "Viagens de moto 125 pelo Brasil e arredores"

... Passado o primeiro trecho de uns 20km apareceu um asfalto novinho. Que maravilha! Mas a felicidade durou pouco, logo avistei uma placa que dizia “fim do asfalto”, outro trecho de mais ou menos 20km de cascalho. Vamos nós de novo. Tinha que trafegar no rastro dos caminhões porque na brita solta era impossível. Por volta de 13h00 eu, que estava só comento poeira estava cheio de fome, cheguei a um lugarejo e parei numa mercearia e perguntei se havia onde almoçar por ali. Fui informado que não e ainda me disseram que teria que encarar mais dois trechos de estrada de chão pra encontrar algum lugar onde acharia restaurante. Imaginem a cara de animado que eu fiquei, mas viagem de moto é assim mesmo, é só pedreira. Fiz um lanche e abandonei a ideia de almoçar naquele dia. Encarei o terceiro trecho sem asfalto (18km, se não me engano). Quando ia pegar o último trecho de chão me informaram que a estrada era de terra e não tinha cascalhos, dava pra andar bem. Realmente melhorou muito. Dava pra andar até 50km/h às vezes. Mas, como dificuldade pouca é bobagem, armou uma chuva forte e eu parei pra colocar a capa de chuva, torcendo pra chegar ao asfalto antes da chuva me castigar. Não adiantou. A chuva caiu forte e eu fui com a moto dançando na lama. Ao final de todo esse sufoco, encerrei esse segundo dia em Santana – BA com apenas 571km rodados (também com quatro trechos horríveis, o que eu poderia esperar?).

VIDA CELEBRADA (A face poética de Genaldo Lial da Silva)

Que tenhas sido ontem, que sejas hoje e sempre celebrada
Que nasças sem hora certa ou mesmo hora marcada
Vida que brota num bretão distante
Com teus mistérios às vezes entristecida
Que segue seu caminho errante
E por tantas e tantas vezes esquecida
Com todo teu esplendor constante
Vibra em nosso sangue mestiço
Reflete em nosso olhar um bom viço
Recebe a luz que nos aquece e que do sol emana
Com a certeza de seres bela e perfeita
Mesmo que por alguns não tenhas sido eleita
Que não sejas santa nem profana
Pois és tu quem celebro, ó vida humana!

domingo, 1 de dezembro de 2013

Paul Walker (Dead) e a ironia da perfeição após a morte

Paul Walker, ator de 'Velozes e furiosos', morre em acidente de carro. Ele era o passageiro no porsche de um amigo, no qual ambos perderam a vida. O carro pegou fogo ao bater em um poste e em uma árvore. "A velocidade foi um fator no acidente", informou o gabinete do xerife de Los Angeles à CNN.

Morre veloz e furioso o tal de Paul Walker.
No velório, torna-se o ser humano mais conhecido e querido do universo. Todos juram que era o melhor exemplo de homem perfeito, apesar de ninguém conhecê-lo direito, e que, após a trágica desventura, merecia o Oscar de Melhor Ator por filmes blockbusters de ação, explosões e aventuras.
A morte trágica como sempre pinta quadros coloridos em superfícies cinza...

sábado, 30 de novembro de 2013

Solidões Dançarinas Compartilhadas: O Cisne Negro de Larissa Sampaio

Há talentos que despontam cedo e, desde o início, brilham imensamente. Esse é o caso da poetaluna teresopolitana, atualmente no sexto ano da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, Larissa Sampaio, com quem tenho a honra de, pela primeira vez, compartilhar as solidões poéticas deste blog.
Aproveitando a aula de produção poética com a temática “Bichos”, inspirada na coletânea de poemas “Arca de Noé”, de Vinicius de Moraes, Larissa Sampaio produziu “Cisne Negro”, um dos poemas, vindos de uma escritora tão jovem, mais fodásticos que já li nos últimos tempos.

O poema de Larissa Sampaio, em versos breves, traz a medida perfeita de ternura, ritmo, simplicidade e meiga melancolia e fala da relação do eu lírico com um belo amigo bailarino, que, sem aviso, parte e deixa-a sozinha; é daqueles poemas maravilhosos que eu, tão mais velho que a poetaluna, queria ter tido a sensibilidade de ter escrito (como o fodástico feito é de Larissa Sampaio, me restou incentivar os artistalunos do Luz, Câmera... Alcino! – os atores Márcio Ribeiro e Marina Carlos e a declamadora Tamires – a fazerem uma versão em vídeo, um clipoema do incrível poema). Curiosidade: a autora jamais assistiu ao mais-que-fodástico filme “Cisne Negro”; ela apenas escolheu-o por uma inusitada admiração lírica da imagem de um cisne negro.
Acompanhemos os passos líricos de Larissa Sampaio, amigos leitores, e, como os eus líricos da talentosa poetaluna, sintamos falta de nossos cisnes negros que nos faziam dançar e sonhar muitas vezes durante a noite...

Cisne Negro

Cisne Negro adorava dançar,
Era um lindo dançarino.
Às vezes, à noite, dançava comigo,
Um belo amigo,
Um belo bailarino.

Desde já foi dançar
Em outro lugar
E me deixou sem par.

Cisne Negro, que saudade que me dá
De dançar com você... 


Abaixo o clipoema "Cisne Negro", produzido pelo Grupo "Luz, Câmera...Alcino!", inspirado no poema homônimo de Larissa Sampaio:

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Luz, Câmera... Alcino! apresenta "As drogas em minha vida (ou Adeus, Amor)"

Desde o ano passado, graças ao incentivo do Projeto de Educação Contra as Drogas “Fique Esperto”, a E. M. Alcino Francisco da Silva, de Volta do Pião, Teresópolis/RJ, tem participado ativamente de atividades educativas de conscientização dos perigos do uso (principalmente, indevido e/ou excessivo) das drogas entre os jovens.
Nesse ano, não seria diferente: ao sabermos de um Concurso de Vídeos Escolares com o tema “Prevenção das Drogas na Escola”, promovido pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) do Ministério da Justiça, reorganizamos o Grupo Luz, Câmera... Alcino! para produzirmos um novo vídeo sobre o tema (nosso curta metragem do ano passado não servia, pois quebrava duas exigências do regulamento: 1. não apresentar cenas de uso de droga [o nosso anterior – já postado aqui no blog – tinha; por sinal, é muito engraçada essa exigência – um vídeo de prevenção ás drogas sem drogas rs] e 2. possuir até 1 minuto de duração – putz, o anterior possuía mais de 10 minutos]). Pra testar nossa capacidade criativa, ainda descobrimos que só faltavam 2 dias para as inscrições serem encerradas!
Pra esse curta metragem, adaptamos o conto “As drogas em minha vida (ou Adeus, Amor)”, inspirado no filme “Diários de Adolescente” e escrito pela artistaluna Isabela Silva Nascimento, quando esta ainda estudava na escola, no nono ano (queridos ex-alunos, nenhum fodástico texto de vocês, seqüestrado comigo, deixará de vir à luz dos olhos dos amigos leitores, prometo!). O enredo do curta, narrado em primeira pessoa, narra a trajetória de um casal, cujo caminho feliz é transformado num inferno quando o rapaz passa a usar drogas, seguindo influências de maus ‘amigos’. As mudanças do rapaz são rapidamente percebidas pela garota, mas a descoberta dela é angustiante, pois o caminho que ele escolhe e mantém é sem volta (vocês não imaginam a correria e as diversas edições que tivemos que realizar pra tudo isso caber em 1 minuto rs).
O curta metragem é protagonizado pelos experientes e múltiplos artistalunos Danilo Oliveira (que já atuara no cilpe de “Perdendo Vida”, dos Uns e Outros, do ano passado, produzido pelo Luz, Câmera... Alcino) e Maiara de Oliveira (que estreou no grupo no ano passado, quando interpretou uma repórter no vídeo “Bullying – O filme”).
Apesar de “As drogas em minha vida (ou Adeus, Amor)” ter sido a primeira produção que fizemos neste ano, o vídeo ficou no anonimato, pois aguardávamos o resultado do concurso do Senad (que, por sinal, não nos enviou nenhuma resposta – descobrimos o resultado através de buscas na internet). Infelizmente não ganhamos o concurso, mas a arte e empenho na produção ficam pra sempre marcados em nós.
Na postagem, trago o fodástico conto que nos inspirou e, mais abaixo, a nossa versão lírica para a obra da inesquecível artistaluna Isabela Silva Nascimento.
O Grupo Luz, Câmera... Alcino! segue firme, amigos leitores, e sempre em prol de um mundo mais consciente, melhor! Arte Sempre!
  
As drogas em minha vida 
(ou Adeus, Amor)
Conto de Isabela Silva Nascimento, adaptado para o curta metragem homônimo, produzido pelo Grupo Luz, Câmera...Alcino!

Eu acho que sempre o amei, mesmo depois dele ter escolhido esse caminho...
   Começou no ensino fundamental, quando ainda éramos namorados; tudo com ele fazia mais sentido, era mais agradável sorrir do lado dele. Sempre saímos, cinema, parques, festas... tudo, tudo era com ele.
Mas isso mudou!
  Eu me lembro dos seus olhos azuis ficando vermelhos, do seu sorriso branco ficando quase bege, com aparência acabada, como se tivesse uma gripe constante...
     Até hoje sinto raiva daqueles que se diziam amigos e o apresentaram às drogas.
   Sempre tentei ajudar, mas, com o tempo, o seu estado foi se agravando. Era como se não tivesse mais vontade própria.
   Me lembro como era difícil bater a porta na sua cara, quando já não era mais ele mesmo, já não era mais o ‘meu amor’.
   Drogas... depois que entram na sua vida, não é preciso conhecer o inferno para viver um!!!


terça-feira, 26 de novembro de 2013

A imensidão do céu de nossa terra (Só os loucos do Luz, Câmera.... Alcino sabem!)

Tem coisas que só os loucos do Luz, Câmera... Alcino!, da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, de Volta do Pião, distrito de Teresópolis/RJ, sabem: interagir poeticamente com a natureza, através de poemas próprios, e, ao mesmo tempo, no mesmo vídeo, fazer um tributo à banda de rock Charlie Brown Jr. sem perder a harmonia lírica.
O curta metragem do Grupo Luz, Câmera... Alcino!, postado logo abaixo, foi  inspirado pela canção "Só os loucos sabem", da banda Charlie Brown Jr., e por poemas dos poetalunos da E. M. Alcino Francisco da Silva (por enquanto, eles não serão publicados no blog, pois concorrem em concursos literários nacionais – vamos torcer por eles, gente!).  É um tributo a Chorão (in memoriam) e uma homenagem aos sentimentos e às belezas naturais que encontramos em Volta do Pião, distrito de Teresópolis/RJ.

O vídeo contou com o talento das multiartistalunas dos nonos anos A e B (poemas e participações de Danile da Silva, Thayslane Freitas, Neliane, Tainara Fernandes, Wanessa, Carolina Leal, Carina Leal, Luciele, Érica). Participação especial do lendário Fusca Vermelho do Professor Rafael Faraco e dos pássaros, paisagens e ventos da Volta do Pião.


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Corpo Passado Pelo Presente A Vapor Na Tábua De Um Futuro Atemporal

Há alguns dias atrás, terminei de ler “Corpo Presente”, primeiro romance do fodástico escritor carioca J. P. Cuenca. A obra, reeditada pela Companhia das Letras, foi originalmente lançada em 2003 e marca o início promissor da carreira de um dos 20 melhores romancistas brasileiros com menos de 40 anos, segundo a revista britânica Granta (fato que, com certeza, vou comprovar me presenteando com a leitura dos demais livros dele; esta primeira obra foi adquirida por mim, durante o Londrix - Festival Literário de Londrina 2013, quando fui lançar meu sétimo livro “Bebendo Beatles e Silêncios” – um dos meus maiores orgulhos daquela noite [e que me mantém aquele sorriso bobo alegre iludido nos lábios] foi ter vendido um de meus exemplares para o próprio Cuenca [ele deve ter achado o livro uma porcaria, mas nada maltrata o sorriso bobo que ficou em mim rs] – e tive a oportunidade de assistir ao mais-que-fodástico debate de J. P. Cuenca sobre sua escrita e a influência dos lugares em sua rotina de “escritor viajante”).
Mesmo com todas as minhas super-ocupações de fim de ano letivo de professor-poeta-pateta, li o “Corpo Presente” em duas noites, hipnotizado pelo estilo de Cuenca. Aviso aos amigos leitores que a obra traz uma leitura fácil, você se surpreende devorando rapidamente as páginas, acompanhando o universo múltiplo de Carmen, Alfredo e do narrador (os três principais personagens do livro), o que não significa que o livro seja fácil [jamais confunda, amigo leitor, o estilo fluido, de leitura ágil, com livro de conteúdo ralo e de fácil absorção]. O “Corpo Presente” nos leva a ambientes e personagens multifacetários, que estranhamente nos são meros desconhecidos, superficiais, e, ao mesmo tempo, nos são tão reconhecidos em nosso cotidiano, tão íntimos de nossos desesperos e seres interiores. A múltipla personagem Carmen, ora mãe, ora esposa, ora puta, é uma espécie de tábua de salvação para um narrador perdido de corpo presente, tão multifacetário quanto a sua criação (ora ele é amigo de Alfredo, ora mero observador, ora é um pseudo-ele mesmo, ora é o próprio Alfredo), reflexo de um ser contemporãneo que passeia entre o físico banal e o onírico perturbador.
A leitura desse livro mexeu mesmo com minha cabeça e os amigos leitores que me acompanham sabem que, quando isso acontece, não sei ser um leitor passivo, sou orgulhoso e aspirante a escritor demais pra deixar a escrita de Cuenca me penetrar, sem exercer o processo contrário e ativo. Minha escrita é vampiresca, preciso ressignificar tudo que leio e amo em uma nova criação, absorvo as influências como se elas fossem as minhas únicas fontes de vida e esperança e, depois, conforme aprendi com o mestre e amigo Drácula (personagem-título da obra do escritor Bram Stocker, que, por sinal, também estou relendo nesse processo de pré-férias, junto com a “Divina Comédia”, de Dante, e as memórias inventadas de Manoel de Barros), após sugar os estilos que admiro, passada – mas não dissipada - a fascinação pela obra, escravizo tudo a meu gosto e ao bel prazer de tornar-me reinventor do que me atrai e realizo minhas releituras subversivas poéticas, tento dialogar com o romance de Cuenca, ao mesmo tempo, que imponho à literatura dele muito de meu próprio modo de escrita, num ato paradoxalmente devoto e profano. Pra embolar mais ainda essa transfusão desfigurativa fascinada literária, ainda misturei ao que ouvi na palestra de Cuenca, à leitura recente da série de poemas "o livro dos espíritos de porco" do fodástico poetamigo Roberto Esteves Siqueira Jr. (do blog "poesia tem nada haver") e a meu retorno à leitura dos Infernos e Purgatórios de Dantes, sem chegar nem perto do Paraíso sonhado pelo eu lírico do poeta.
Foi assim que surgiu o poema abaixo. Recomendo que leiam o romance “Corpo Presente”, de João Paulo Cuenca, antes, pois tem tudo e nada a ver com ele. Espero que gostem. Ao mesmo tempo, quero que se dane – preciso absorver arte pra fazer arte e, assim, evitar o desejo de cortar meus pulsos nessas angustiantes madrugadas apáticas de quase verão meio chuvosas. Parafraseando Renato Russo, encontrei minha lucidez, cortejando insanidades. Esse é o jeito que encontrei de sobreviver um dia a mais...   
Arte Sempre!

Corpo Passado Pelo Presente A Vapor Na Tábua De Um Futuro Atemporal

Estrofe 2001

Atrás daquela placa, antes dos celulares que filmam todo sexo público,
Carmen transou comigo.
Depois daquilo, joguei o preservativo na caixa de correspondência
da casa de algum burguês metido a besta.
Carmen riu de minha traquinagem
e seu sorriso jamais saiu de minha cabeça
(Quando estou triste, procuro a alegria de sua boca em algum lugar
entre minhas sobrancelhas e a ruga que insiste em se aproximar
de meus olhos velhos).

Estrofe 1979

Carmen me amamentava naquela humilde casa
e, mesmo com todo o seu zelo, eu ainda chorava,
acometido pela febre – uma pneumonia quase me levou de Carmen
e talvez tivesse sido melhor assim;
me impediria de ver a Carmen que não mais existe
e nossa humilde casa destruída
para o surgimento de mais um arranha-céu
sem arquitetura
(Também me impediria de ver as nuvens, que Carmen religiosamente admirava,
arranhadas pelo reflexo feio dos espelhos
daqueles estranhos prédios do novo Rio de Janeiro).

Estrofe qualquer número

Estranho masturbar-me no vazio.
Como posso gozar o nada?
Por isso te reinvento, Carmen,
pra que eu possa resistir,
mesmo que a resistência me pareça uma comédia infeliz,
cheia de antes, cheia e sem Dantes...
Como vou chegar ao paraíso, se nem consigo sair desse inferno
de carros parados no tráfego intenso,
gente acomodada no aborrecimento,
cidade sitiada...
(Só mais um pouco, Carmen, e explodo em teu corpo,
te engravido de palavras sem rumo
e aborto essa manhã sem graça).

Estrofe 1998

Encontrei Carmen em um boteco sujo;
era carnaval e eu usava saia bem curta,
um tomara que caia
e uma meia calça arrastão
quase completamente rasgada,
eu era uma autêntica vagabunda,
cheia de pinga e loucura,
enquanto ela trajava um short de jogador,
uma camisa do Vasco
e escondia na solidão da folia
a espera por um namorado que, naquela noite, não viria.
Não sei em que momento a conquistei,
nos beijamos e nenhuma droga inocente
feita com clorofórmio
seria capaz de me entorpecer tanto
quanto os beijos de Carmen.
Saí abraçado com Alfredo, que não havia entrado na história,
mas também usava saia – outra piranha perfeita –
e, comigo, comemorava a promiscuidade carnavalesca.
(Hoje vejo o uniforme surrado de um time quase rebaixado;
será que o Vasco e eu escapamos
de mais uma vergonhosa queda, Carmen flácida
de três filhos e sem nenhum tesão pelo estúpido marido?)

Estrofe 2013

Ah, Carmen é perfeita, completamente descolada,
seu esposo Alfredo tem até seus preconceitos,
mas é incapaz de prender a alma livre e desimpedida
que existe em todas que carregam o nome de Carmen.
Ela transa tudo: ménage a trois, webcam, passeatas,
protesta pela liberdade do mundo,
trancada na rede de sua internet libertária
(Há poucos minutos, descobriu-se flagrada
num vídeo tosco do www.clubedarapaziada.com,
mostrando sua falta de pudor na conexão hackeada
- coroa inteiraça – me sinto um cretino assistindo a tudo isso,
mas vê-la nua e surpreendida me hipnotiza;
o computador trava, mas, dentro de mim, Carmen continua conectada,
e assim sobrevivemos intocáveis
nos abrigos cheios de abismos de nossas casamatas:
Carmen, a safada inatingível e liberada,
e eu, o voyeur bobo e mais canalha
- espermas de tolices procuram ovários impossíveis
no ralo do desapego).

Estrofe 1986

Acreditava em Carmen quando ela dizia que Papai Noel existia;
isso até a escola,
até outra Carmen mais mocinha,
singelamente chamada de Carminha,
muito mais vilã que aquela da Avenida Brasil,
me dizer que o homem do saco de brinquedo nunca existiu.
Cruzeiros (num tempo em que os times que carregavam esse nome
não eram reconhecidos
como campeões brasileiros por antecipação)
e cruzados de direita me comprovaram:
Papai Noel só existia para os ricos de corações pobres.
Carminha realista se sobrepôs à primeira Carmen, sonhadora,
mas aquela segunda era mais linda e muito mais rica
e seguiria sua rotina destrutiva,
sendo minha ilusão mais desiludida
(Sobrou-me a sensação de sempre ser um garoto bobo,
cheio de sonhos tolos,
diante de todas as Carmens de minha vida).

Estrofe XYZ

Conheci Carmen numa festa gay.
Como cheguei lá, não sei;
poeta agnóstico hetero caucasiano
não fanático, mas meio apegado a velhas utopias
- talvez aquela fosse uma tentativa
de me inserir nas minorias,
talvez tentasse entrar na mídia.
O nome de Carmen era Alfredo,
mas Alfredo era palavra censurada,
possuía um corpo deslumbrante,
fenômeno dos avanços da cirurgia plástica no Brasil.
Ela era totalmente desejável,
sua oferta era irrecusável,
mas, mesmo assim, mandei-a pra puta que a pariu
(Hoje sonhos proibidos me despem
de tamanho preconceito
e, completamente extasiado,
peço desculpas para a mãe de Carmen,
mas acordo sempre completamente Alfredo
e qualquer tentação de Carmen é apagada
pelo crucifixo de um machismo satisfeito).

Estrofe virada

Rasguei todas as fotos de Carmen;
não quero vê-la nunca mais;
deve já estar dando pra outro aspirante a escritor,
aquela vaca!
Mas quem pasta sou eu...
Fumo mil cigarros
E, a cada tragada, tento resgatá-la,
mas Carmen é muito carne
pra ser fumaça.
Entre morrer mais apressadamente de câncer
ou viver como um boi manso e ignorante,
escolho a terceira opção:
volto pra Carmen, mas faço ela pastar;
se ela teve muitos caras,
pra mim agora tem muitas caras
- ah, rasgo a carne de Carmen em qualquer lugar!
Mas, após maltratar uma Carmen qualquer,
acendo um cigarro
e tenho a impressão de que a nicotina é incapaz
de sobrepor o cheiro da Carmen ilusória,
a Carmen de outrora,
a única Carmen que me faz respirar...
Ah, essa Carmen mais autêntica,
essa Carmen invenção tão carne
não é fumaça,
mas sempre me escapa;
mesmo amarrada em mim,
ela consegue me fugir
sem sair do lugar...
Pasto mansamente nos campos do desassossego,
carcereiro do inapreensível,
prisioneiro da liberdade infinita
da Carmen que persiste em minha vida desistida,
da Carmen que reside em minha falta de residência,
da Carmen que resiste em minha inexistência,
da Carmen eternamente em meu tempo jamais.

Estrofe Labaredas Divinas do Reino Sagrado de Carmen Cretina

Todo fim de ano, cansado de fantasmas,
prometo te largar, Carmen,
mas só sobrevivo a esse ar rarefeito,
quando me alimento de teu impossível;
me fodo se não te foder mais...
Eu te amo, Carmen,
e ver o brilho de teus olhos vazios
testemunhando os fogos de artifício
- alarmes de mais um ano no qual passaremos
nos fodendo e sendo pelo tempo fudidos -
me faz esquecer de querer te fazer morrer,
me faz esquecer que há tempos eu já me esqueci de viver,
me faz sobre-viver contigo, amém, Carmen, amém...

domingo, 24 de novembro de 2013

O Grupo Luz, Câmera...Alcino! faz arte até quando o mundo cai!

Você, amigo leitor, com certeza, alguma vez, já olhou a sua volta e vendo os sorrisos hipócritas ao redor, sentiu-se completamente deslocado e teve o estranho desejo de sentir prazer em ver todo aquele universo de mesmice e babaquice cair, se explodir! Pois é, em algum momento de nossas vidas, passamos por isso... E é sobre essa sensação que a enérgica canção "Até o mundo cair", da banda de rock alternativo carioca FOLKS (para conhecerem mais da banda, curtam a página deles no facebook: https://www.facebook.com/folksoficial?fref=ts ), fala aos nossos ouvidos, com riffs de guitarras eletrizantes e um vocal revoltado, quase completamente furioso.
Inspirados nessa fodástica canção e nesse sentimento de ira - que, apesar de aparentemente negativo, nos permite que evitemos o mais do mesmo da escrotice natural humana -, os artistalunos do Grupo "Luz, Câmera... Alcino!", da E. M. Alcino Francisco da Silva, dirigidos pelo professor-poeta-pateta que vos fala, criaram o clipe de "Até o mundo cair". 
As gravações foram feitas no ambiente escolar, em uma aula extra que dei ao 8.º Ano B, e o roteiro das cenas foi debatido com os alunos, após ouvirmos as canções diversas vezes. A ideia criada no clipe é contar a trajetória de uma aluna leitora e revoltada, cansada das demais colegas, sempre envolvidas em grupinhos de amizades falsas, diversões tolas e brigas sem propósitos. O enredo mostra como isso acontece no espaço social e o que a protagonista rebelde sonha e deseja para as estúpidas colegas (não são desejos muito nobres esses que a personagem tem, porém refletem aqueles anseios mais nefastos que temos quando estamos diante de pessoas escrotas, principalmente quando estamos na adolescência).  
Atuaram nesse clipe os artistalunos Rayssa Fernandes (que já participara do curta "O muro de Berlim dentro de nós" e  experimentou neste vídeo, com muito talento, o gosto de ser protagonista de um vídeo do nosso grupo), Lorraine Lopes (que também estreara em "O muro de Berlim dentro de nós"), Márcio Ribeiro, Marina Carlos, Maiara Viceli, Jenniffer Rodrigues, Gabriele Santos e José Vitor Martins (os seis últimos estrearam no "Luz, Câmera...Alcino!" neste vídeo!). O clipe faz parte da série "Brasil Musical", projeto iniciado no ano passado e que tem a proposta de trazer a diversidade musical das regiões brasileiras.
Que a arte permaneça intensa e eterna até quando o mundo ameaça cair!



   

Meu filho-poema selecionado na Copa do Mundo das Contradições: CarnaQatar

Dia de estreia da teoricamente favorita Seleção Brasileira Masculina de Futebol na Copa do Mundo 2022, no Qatar, e um Brasil, ainda fragiliz...