segunda-feira, 9 de julho de 2012

Mais proximidades na distância: O meu primeiro adeus


Em homenagem ao poema “O primeiro adeus”, de Raquel Freire, que compartilhei há pouco, relembro meu poema homônimo ao dela, publicado em 2004, no meu quarto livro “O último adeus (ou o primeiro pra sempre)”. Como o poema de Raquel Freire, o meu também relembra a dificuldade de dizer adeus, deixar o outro partir sem mim, sem si, sem se, dizer adeus sem saber dizê-lo. Dedicado a todos os eus líricos que partiram e se partiram na partida da pessoa da pessoa, a todos os eus que leem a proximidade da distância e, inexperientes com as frequentes despedidas, nada podem fazer além de, cheios de vazios, tentar dizerem adeus...

O primeiro adeus

Cadê tuas mãos? Por que as escondes?
É tão estranho este teu medo inesperado
de me tocar...
Cadê teu sorriso?
Algum sentimento teu adoeceu
e agora me sinto doente também
Não sentes? Estás morta?
Não... É apenas teu coração
distanciando-se de mim...

            - Vamos dar um tempo – tu dizes.

Mas que tempo é esse? Hoje, amanhã, nunca ou pra sempre?
Agora percebo como és egoísta;
mal administro meu tempo
e ainda queres um pouco dele pra ti?!?
Sabes que não posso dar o que não tenho,
não posso esperar... O relógio sempre corre do meu pulso:
não tenho tempo, estou perdendo tempo contigo...
E lágrimas querem libertar-se de meus olhos,
passear pelo rosto como moças que esperam seus pares
num canto escuro do salão - eu dancei...
Mas homens não choram...
então esperarei tu saíres pra voltar a ser um bebê.
A tua partida me lembra o adeus do ET de Steve Spielberg:
és mais uma alienígena que abandona minha vida,
levando um pedaço de mim...
Meu coração adormece em teu quarto
e acorda aprisionado em tua cama,
sem entender o que aconteceu,
sem saber dizer adeus...

Solidões compartilhadas: O primeiro adeus de Raquel Freire


Hoje compartilho minhas solidões poéticas com a poetamiga Raquel Freire. Poeticamente freudiana (e assim como o mestre Freud, consegue trazer a psicanálise para a literatura e vice-versa), Raquel é uma profissional formada na Universidade Paulista em São Paulo, seus trabalhos são focados em Agressividade Infantil; Transtorno de Conduta e Transtorno Opositor; área Educacional e Transtornos de Personalidade. Atua na área de Pedopsicoterapia; Psicodiagnóstico / Aplicação de Testes Psicológicos; e Consultoria para Empresas e Escolas. Inspirada em seu primeiro paciente, Raquel construiu o seu poema-psicanálise de adeus (reparem que, como Freud, ela não desrespeita nenhuma regra de sigilo com o paciente, e sim desnuda o lirismo do consciente e inconsciente humano).
A forma como conheci a poetamiga com quem compartilho minha solidão poética é interessante e ainda me gerará um novo conto: vi Raquel pela primeira vez num evento do Sarau Solidões Coletivas com a atriz Ana Rachel Coelho. Depois a adicionei no facebook, onde a encontrei com o heterônimo Clarice Raquel Starling Freire. Passei a chamá-la de Clarice – que, na verdade, era uma referência da poetamiga à personagem de “Silêncio dos inocentes”, fato que não reparei por distração e falta de disciplina com meus (des)conhecimentos culturais rs - e, só algum tempo depois, ao nos revermos que ela me revelou não se chamar Clarice, e sim Raquel (a partir daí, fica sempre na minha cabeça, um possível conto chamado “Meu nome não é Clarice”, que, em breve, sairá de meu inconsciente coletivo-artístico, prometo!).
Fã-nática por CPM 22 (ainda tô devendo um poema para a banda em homenagem ela), autora do blog http://www.raquelfreirepsicologa.blogspot.com.br/,  Raquel Freire se considera “uma pessoa de bem com a vida, que busca estar bem com as pessoas, e que ama, dar e receber Alegria!” E é com alegria que hoje compartilho o poema de sua autoria, o qual ela me confiou. O texto merece destaque na contemporaneidade por resgatar aquele laço, imortal desde Freud, entre Literatura e Psicanálise. Um poema pra ser lido, analisado e refletido nos ids, egos e superegos de cada leitor, um adeus para a eternidade do inconsciente consciente de cada autor.  

O Primeiro Adeus

Como é difícil dizer adeus.
Dizer adeus ao teu sorriso, ao teu riso, aos teus olhos.
A esses olhos: digo adeus.

Dizer adeus a tudo que me confidenciou
A tudo o que vi
A tudo o que procurei em outros lugares além do que os teus olhos me diziam.

Encontrei nos livros o que expressar “no algo” que eu via, e não havia outro jeito de dizer.

O fim é um papel.
Um papel...
E qual foi o meu papel?

Eu sei, eu fiz tudo o que deveria ter feito e fiz.
Tudo foi necessário e hoje te encaminho para outra etapa da tua vida.

E agora meu querido, eu nada mais posso fazer, a não ser te dizer adeus.
E mesmo assim, saiba que é difícil ter que te dizer esse adeus.

Eu sei, tu ficarás bem.
E eu? Eu fingirei que nada sinto, que sou fria frente a isso.

O que é isso?
Bem sabes que é recíproco.
Reciprocidade nomeada de transferência e contratransferência.
Isso é tudo.
Tudo o que nos restou, e é também tudo o que sempre foi.

Mas mesmo assim: como é difícil ter que te dizer adeus...
Talvez seja assim por ser o primeiro, e que tortura será se todos forem assim.
Preferia me manter apática a tudo isso, mas não sou.
Descubro hoje que não sou essa frieza calculada que pressupunha ser

Seus medos e sua resiliência tal como as de um Batman, permearam e foram retratos de uma vida, onde seu passado encontra-se distante
E sua idade se faz sinônimo do eu que já não sou mais.

Pensei que hoje, anos findados de uma história oculta, os resquícios dela estariam protegidos pelo presente
E que eu, agora apoderada de uma posição, de um lugar, que supunha assegurar o não sentir.

Um lugar: todos nós temos um lugar, um sótão...
Acontece que alguns escondem morcegos, enquanto outros resplandecem fadas.

Você é o meu menino morcego, e espero que Machado de Assis esteja errado ao afirmar “O menino é o pai do homem.”

“Ai meu Deus”, como é difícil dizer adeus.
Esse Deus que eu não creio, que na verdade não existe, mas que digo por mero dizer.
Ser Deus é difícil, ou fingir ser, também é.

Como é difícil ter que te dizer adeus...

Mas apesar de acabar, saiba nesses versos que nunca terás acesso, muito do que eu dei nada foi diante do que recebi.

E se um dia a gente se encontrar, espero que se lembre de mim, e mesmo se não lembrar, eu jamais me esquecerei de ti.

Como é difícil ter que te dizer adeus...

Esse não é o momento para pensar no que sinto ao te dizer palavras de fim.
A hora é apenas para dizer adeus.
E agora então, te dou um abraço, e te digo adeus.

Adeus!

Raquel Freire, junho de 2010. Adaptado em 02 de junho de 2012 ás 03: 31 horas.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Solidões compartilhadas declamadas: A "Embriaguez" lírica de Jaqueline Cristina

Mais uma vez compartilho minhas solidões poéticas com a poetamiga valenciana Jaqueline Cristina, autora do blog "Deliciosa Ilusão", companheira dos Saraus Solidões Coletivas e grande declamadora. Ela declama tão bem que desta vez a solidão poética compartilhada é falada: é o vídeo que registra a poeta brilhando com seu poema "Embriaguez" (o poema escrito pode ser acessado no blog da poeta, através do link: http://deliciosailusao.blogspot.com.br/2012/06/embriaguez-ilusoria.html)  na 4.ª Edição do Identidade Cultural & Movimento Culturista, organizado por Janaína da Cunha no Café do Bom, Cachaça da Boa, na Rua da Carioca, no Rio de Janeiro/RJ. Em tempo: Jaqueline Cristina estará comigo amanhã, durante o Sarau "Solidões Coletivas in Grade do Rock: Os balas negras na fortaleza poética", na Grade da Praça da Bandeira, às 17h, em Valença/RJ, no sarau de abertura para o show de lançamento de CD da Banda de rock valenciana The Black Bullets. Para os leitores e ouvintes liricamente embebedarem-se com a embriaguez ilusória de Jaqueline Cristina:




Solidões compartilhadas: "Só por hoje", de Janaína da Cunha para todos nós

Janaína da Cunha
Sexta-feira é dia de renovar as esperanças com poemas grandiosos. Por isso hoje compartilho minhas solidões poéticas com a amiga ativista multicultural Janaína da Cunha. Bisneta do imortal Euclides da Cunha, jornalista, poeta, atriz, acadêmica da Academia de Letras do Brasil, correspondente da ABL/Suíça, agitadora cultural, militante artística, criadora e apresentadora do Evento Identidade Cultural & Movimento Culturista, a Comendadoramiga Janaína da Cunha é muito mais que uma escritora, ela é a própria Literatura em lindos e líricos movimentos (quem quiser conferir mais poemas dessa grande escritora, aí vai o link do blog "Santos & Profanos", atualizado pela própria autora: http://janainadacunha7.blogspot.com.br/).

Conheci Janaína da Cunha através de contatos com Nana B. Poetisa e do Evento Identidade Cultural & Movimento Culturista, organizado por Janaína, e confesso que um otimismo sublime se desenvolveu em minha poética naturalmente pessimista: sim, a escritora tem esse poder de renovar artes estagnadas; sim, desde que a conheci, eu acredito ainda mais no poder salvador da arte! E, por isso, para todos nós mantermos viva a chama da arte e da esperança, hoje compartilho seu poema "Só por hoje" para que voltemos a ACREDITAR na humanidade, na vida, na cultura e contracultura renovadoras de toda expressão artística.

Mirian Panzer

Além do excelentíssimo poema, posto também o vídeo que contém a interpretação belíssima da atriz gaúcha Mirian Panzer para essa obra-prima de Janaina da Cunha. Com sonoplastia de Juhnior Luiz, a performance encantadora de Mirian Panzer foi apresentada na 4.ª Edição do Evento Identidade Cultural & Movimento Culturista, no dia 30 de junho de 2012, no Café do Bom, Cachaça da Boa, na Rua da Carioca, Rio de Janeiro/RJ.



Viajemos com Janaína da Cunha, Mirian Panzer e Juhnior Luiz por esse mundo lírico de grandes esperanças que só a boa arte é capaz de nos levar.




SÓ POR HOJE

Só por hoje quero me embriagar de vida
e viajar nos braços da ilusão.

Só por hoje eu quero voltar a ser aquela menina
que frequentava a escola bíblica dominical
e se sentia protegida de todas as dores
quando segurava a mão de sua mãe.
Como gostaria que essa menina renascesse das cinzas
que a marca da vida deixou na mulher!
A menina que acreditava em sonhos impossíveis,
que o poder do amor era capaz de modificar o coração do homem
e de transformar o mundo num lugar melhor.

Só por hoje eu quero voltar a ACREDITAR!
Acreditar na humanidade,
na força dos meus versos
e nas palavras dos grandes homens
que assinaram seus nomes na história.
Marthin Luther King onde está você?
Ghandi onde foram parar seus ensinamentos?
Valeu a pena, Malcom X, tudo o que você passou?
Madre Teresa de Calcutá... para que tanto amor, tanta entrega?
Vocês lutaram por acreditar em algo maior,
se doaram por outros homens
que bordam suas vidas em mesquinharias e enganos!
Muitos foram os homens e mulheres que acreditaram
na justiça, no amor e na esperança
como um dia eu acreditei quando era criança.
E daí? Posso dizer: "Garças à Deus" por isso?

Valeu a pena pregar suas ideologias, viver por elas,
doar suas vidas e derramar seu sangue
por amor a humanidade como Jesus Cristo fez?
Por quem?
Por esses homens ingratos, cegos pelo preconceito,
surdos de covardia e mudos de orgulho e prepotência?
Valeu? Será que valeu?

Seres humanos onde está a sua humanidade?
Indago isso todos os dias quando ligo a televisão
e assisto prostitutas e gays sendo espancados covardemente.
Quando leio no jornal e vejo meu povo se matando
e pedófilos safados roubando a inocência de nossas crianças
no lugar de protegê-las!
Meus olhos observam nossos políticos roubando sonhos
e rindo descaradamente da cara do povo
em vez de servirem sua nação como prometeram antes de serem eleitos.
Minha alma chora quando presencia mais um amigo querido
se perdendo na ignorância da fogueira dos desejos irracionais.

Aprendi na escola que todo homem é um animal racional...
É mesmo? Somos?
Somos seres racionais?
Cada dia vejo mais amor e humanidade nos animais ditos irracionais:
num cachorro, num gato, num papagaio... mas, não no homem.

Seres humanos onde está a sua humanidade?
Onde está seu senso de clemência, sua benevolência,
seus valores e educação moral?
Os homens perdem-se de si mesmos
e desviam-se dos seus caminhos em nome da vaidade!
Já dizia o sábio Salomão: "Vaidades de vaidades, tudo é vaidade!"

Só por hoje eu quero acreditar que AMAR vale a pena.
Que sementes jogadas ao vento vão cair em solo fértil...
que nada é em vão!
Desejo seguir em frente com minhas crenças.
Afinal, seguir em frente é fácil.
Na realidade o que mais dói é a angústia da despedida.
HOJE eu me despeço dos meus versos sofridos.
HOJE eu abandono o medo de ser feliz
e bebo da venerável taça da ESPERANÇA.

Só por hoje eu quero acreditar
que o meu HOJE são todos os dias.
E todos os dias ressuscitarei a menina
que acreditava num mundo melhor
porque a mulher que sou hoje
ACREDITA na HUMANIDADE.

Janaína da Cunha
08/11/2011




quinta-feira, 5 de julho de 2012

Poema a quatro mãos: "Ode ao ódio destilado", escrita por mim e por Carlos Orfeu

Hoje a solidão poética é escrita a quatro mãos: o poetamigo Carlos Orfeu e eu produzimos a ode abaixo em homenagem à cachaça e à vida lírico-boêmia, a partir de um bate-papo no chat do facebook. É uma ode meio de repentistas, uma ode de ódio destilado, um poema sóbrio embriagado, um poema cheio de cinzas no meio das trevas coloridas. Pra que entendam melhor a construção do poema-diálogo, coloquei as estrofes criadas por Carlos Orfeu em branco e as minhas em azul.
Mais abaixo, os leitores têm a oportunidade de ver o mesmo poema escrito a quatro mãos, declamado em dueto: o vídeo mostra Carlos Orfeu e eu apresentando o inédito poema no "Identidade Cultural & Movimento Culturista - Tema Cachaça" do dia 30 de junho de 2012. Organizado por Janaína da Cunha, o evento acontece todo último sábado de cada mês, no Bistrô Café do Bom, Cachaça da Boa, na Rua da Carioca, no Rio de Janeiro/RJ, e, na última edição, tive a oportunidade de fazer um dueto lírico teatral experimental com o poetamigo de São Gonçalo/RJ Carlos Orfeu. a garrafa usada durante a presentação possui pinturas do artista plástico Welington de Sousa. Como diria Baudelaire, embriaguem-se, leitores, embriaguem-se de vinho e versos (no nosso caso, de cachaça e poema escrito a quatro mãos):


Ode ao ódio destilado (ou Os cinzas no bar das trevas coloridas)

- Tempos estranhos e os caminhos distantes,
Prisão de grades invisíveis e tubos de conexão...

- Por isso bebemos lúcidos, amigo Orfeu, essa água amarga,
Essa embriaguez destilada de loucura sem solução...

- É, camarada, sinto este gole entupindo nossas reflexões,
Abrindo a porta de nossas indignações,
Derramando cada saliva cáustica de água-ardente,
Deixando a nossa lira nestas horas com asas de ave fênix.

- Estamos sem Eurídice, Orfeu, meu camarada,
Cortaram-lhe as asas
E a nós, alcoólatras do nada, resta-nos a viola embriagada.

- Com a viola de nossas cordas vocais,
Precisamos colher as asas de Eurídice...

- Sim, por isso a melodia angustiada
Um amor perdido,
Uma aguardente
E milhões de canções desesperadas.

- Canções embriagadas oferecidas ao vento que invade o boteco,
Inspiradas entre o ardido e o fedido,
Do colega ao lado chorando vômitos,
Enquanto eu e você brindamos feridos

- Os versos que nos restam são cachaças
Que acalentam os frios dessa manhã mal madrugada
Bebamos, amigo, por nossas línguas cortadas
Que as feridas cicatrizem com a substância que embriaga.

- Bebamos!Bebamos! Um brinde à miséria de todos os dias,
Um brinde ao amor perdido nas drogas,
Um brinde às crianças sem escola,
Um brinde a toda nossa sagrada desgraça,
Um brinde de fúria a toda dor que temos que engolir muitas vezes calados.

- Uma ode molhada de ódios destilados,
Um porre das águas ardentes de nossas lágrimas versificadas,

- Um porre sem remédios que amenizam, um porre sem cura.

- Ah, lá vem o dono do bar, com outra garrafa!...

- Com um sorriso, feliz por estarmos consumindo
Com aquela cara de vascaíno tipico português dono de bar

- Seu time ferido, seu sorriso deprimido,
Em todo bar, a mesma falta de luz,
O mesmo excesso de escassez ...

- O mesmo banheiro sujo, com nomes e telefones querendo programas desconhecidos,
A mesma sujeira que se estende para as ruas, planaltos, igrejas, etc...

- E estamos sujos também, amigo, em puro estado de embriaguez,
Numa luta sem trégua, vendo tudo que nos cega,
Eis nossos versos bêbados no guardanapo

- Em bic azul ou preta, nem sei mais,
Eita, cachaça de nossa desgraça, escorrendo nas goelas!
Estamos com a nódoa em nossas roupas, como diz Bandeira em algum poema.

- Bandeira morreu e estamos morrendo também...

- É,caro amigo poeta, estamos morrendo em vida,
A pior morte é viver e por dentro estar morto.

- A morte tá dando Bandeira em nós, amigo Orfeu...

- Mas buscamos renascer das cinzas sempre,
Pois temos nossa inquietação,
Buscamos voar para longe de nossas gaiolas...

 - A bebida já dá tremedeira de tanto desatino, amigo poeta...

- Estamos suando, delirando,
E o bêbado ao lado pedindo algumas humildes moedas
Para tomar mais uma dose de cana.

- Mais um gole, voemos, amigo, voemos pra longe...
E eis que o dono do bar nos dispara sua voz cansada
Ele quer fechar o bar.

- Mais um gole, as paredes cantam, as mesas cantam,
As garrafas dançam alguma canção antiga
Cantada pelo costumeiro cantor dos bares com seu velho violão.

- É hora de nossa retirada... Não podemos adiar...

- Vamos pedir uma saideira, pois hoje é sexta,
Vamos pedir uma música ao cantor,
Algo que como sempre ele dirá que não ensaiou.

- Bebemos demais, amigo Orfeu, o músico já partiu,
A música acabou,
O que ouves é o silêncio que ficou.

- O que faremos agora?
O músico acabou, a música partiu,
O bêbado no fundo do boteco que dormiu.

- A Eurídice que não voou, nem voltou

- É, meu amigo, ela nos deixou...

- O jeito é partir, amigo... Fingir que o sonho acabou
E voltar amanhã, pedir outra dose, continuar...

- Apertar a mãos dos que ficaram e dar um sorriso descolorido

- Contra as trevas coloridas que acinzentam nossa cara aborrecida
Pelos sorrisos cheios de lágrimas;
Voemos, amigo, pra fora do bar.

- É, voltaremos amanhã com o mesmo dono do bar,
Os mesmos fiéis bêbados nos seus cristianismos da cachaça
E nós com as mesmas inquietações que não mudam,
Com a mesma vontade de seguir descalços buscando transformações,
Voemos e não dissolvemos no ar

- Sim, amigo, partimos, embriagados e feridos...

- Partimos para outros dias estranhos e distantes caminhos...

- Mas inteiros seguimos;
Seja como for, a poesia vai continuar

- Com nossas almas erguidas e nossas armas azuis, pretas ou vermelhas
Ditas nas linhas do horizonte infinito

- Até logo, amigo,
Até logo, dono do bar,
Até logo,
Porque adeus não há!

- Até logo é garantia de amanhã,
O adeus deixamos para os moribundos e os inocentes,
Os que buscaram e sentiram nos lábios o beijo da meretriz de preto.

- Sim, adeus, monstros coloridos,
Partimos cinzentos, mas plenos;
Até logo, Orfeu!

- Partimos, mas antes nos abracemos, apertemos as mãos;
Até logo, caro amigo Carlos Brunno,
Amanhã é outro dia de nossa desgraça engarrafada e vendida para consumirmos

- Sim, amanhã voltamos mais uma vez pela Eurídice que se perdeu
E beberemos por tudo que não aconteceu;
Até logo, amigo Orfeu,
Até logo sem adeus!



quarta-feira, 4 de julho de 2012

Independence Day ou Eles comemoram tudo que eu sangrei

Hoje os estadunidenses, que adoram ser chamados de 'americanos' (como se os três continentes americanos fossem só eles) ou de 'norte-americanos' (como se o continente da América do Norte tivesse apenas o país deles), comemoram o "Independence Day" (o dia da independência dos Estados Unidos - reparem que a tradução literal do dia comemorado deixa-nos a impressão de que o mundo ganhou liberdade a partir do momento em que eles foram independentes). Lembro que, enquanto os estadunidenses comemoram o seu Dia de Liberdade, páginas das ditaduras e golpes de Estado, que nos tiraram a liberdade e foram ferrenhamente defendidas por eles, continuam obscuras e/ou esquecidas, apesar de toda desigualdade mantida pelo sistema econômico que os estadunidenses liberalmente defendem (é fácil ser liberal e defender o sistema privado e capitalista quando se está no topo do poder). Lembro também que o Brasil, cada vez mais e pior, tenta bancar uma filial latina desse mesmo Estados Unidos da América, que tanto nos explorou. Lembro de cada atentado contra a liberdade da América Latina, do Oriente Médio, da África, só porque nossos 'friends' estadunidenses não admitem sistemas políticos e costumes diferentes dos deles. Lembro que mais da metade de sua população ignora outros povos dos três continentes americanos, em defesa de um patriotismo cego e débil à sua pátria que tanto nos endivida (não venham me chamar de xenófobo; só estou cansado de ser sadomasoquista com aqueles que nos ensinaram mil formas de torturas).  Em ironia a essa data comemorativa estadunidense, a esse Dia da Independência tão fartamente comemorado às custas de todos outros países do mundo, fiz uma paródia ao poema "Mar português", de Fernando Pessoa. Se o poema de Fernando Pessoa comemora a expansão da colonização portuguesa, homenageando as viagens de seus intrépidos patrícios navegantes, a minha paródia rememora o passado rico de inglória desse Estados Unidos Dono da América, que ricamente comemora o Dia de Sua Liberdade, em detrimento ao presente de pobreza que suas investidas e invasões históricas nos fizeram passar. Pra ser lido após ter assistido a "Dançando no escuro" e "Dogville", ambos filmes de Lars Von Trier.

Independence Day 
ou Eles comemoram tudo que eu sangrei 
(Nascido nas ditaduras de julhos 
num Golpe de Estado qualquer)


Ó Estados Unidos da América, quantas das tuas lutas contra o mal
Sacrificaram minha pátria natal!
Pra te ajudarmos, quantos cães teus mataram
Nossos filhos que recusaram a tua falsa liberdade!

Quantas américas diferentes teus filhos negaram aceitar
Para que fosses único, ó Estado Americano a nos ignorar!
Valeu cada combate? Todo combate teu valeu a pena
Pois é na lida sangrenta que o teu dólar aumenta.

Quem quer reinar como ditador
Tem que abraçar-te como credor.
A França deu-te a Estátua da Liberdade
E agora pensas que és o dono do céu, da Terra, do mar, das Américas e da verdade.

Ó Estados Unidos da América, quanto da tua falsidade e da tua instável invencibilidade
Há, entre teus covardes heróis, pra tu comemorares com tamanha vaidade? 

terça-feira, 3 de julho de 2012

Solidões Compartilhadas: A vida é "Mais ou menos", segundo Fael Campos


Compartilho minhas solidões poéticas hoje com o amigo compositor, músico e intérprete valenciano Fael Campos. A trajetória de eventos de lançamentos de meus livros cruza com o início da carreira musical de Fael Campos. Conheci o promissor artista quando ele tocava bateria na banda punk valenciana The Zombiez e, mais tarde, o revi tocando canções próprias – bem diferentes do estilo musical de sua banda anterior- em rodas de violão de amigos no Jardim de Cima em Valença. Cerveja vai, vinho vem, proximidade do lançamento do meu quinto livro “Eu e outras províncias”, em 2008, convidei-o para tocar no lançamento do livro e ele topou. A partir daí, Fael brilhou mais e mais a cada evento do qual participamos: UniVersos Culturais de Valença, em 2009, lançamento do meu sexto livro “Diários de solidão” em Valença, Rio das Flores e Teresópolis, entre 2010 e 2011, Arte Valença, também em 2011, até o “Sarau Solidões Coletivas in Bar”, do qual ele fez parte do grupo a partir do Terceiro Engradado Poético.
Fael Campos, em caricatura
de João Paulo Maia
A composição de Fael Campos que compartilho com os leitores foi criada por ele, inspirada na tour de lançamentos do “Diários de solidão”, histórico que torna essa composição uma obra artística indispensável nas postagens desse blog. O vídeo, postado após a letra da música, foi gravado ao vivo no Open Bar, onde realizamos o Sarau “Solidões Coletivas in Bar 3”. Em tempo: Fael Campos estará comigo no “Solidões Coletivas in Grade do Rock: Balas negras na Fortaleza Poética”, sarau que abrirá o show de lançamento do CD da banda de rock valenciana “The Black Bullets”, no dia 07 de julho, às 17 h, na Grade da Praça da Bandeira, em Valença/RJ. 

Pra quem quiser conhecer mais o trabalho desse grande artista, visite o seu blog (aí vai o link:  http://faelcamposmusica.blogspot.com.br/ ) e o site:  http://faelcamposmusica.wix.com/fael#!bio  ).


Mais ou menos (Fael Campos)


A vida é mais, a vida é menos,
Sempre mais ou menos...
A vida é mais, a vida é menos,
Sempre mais ou menos...

Mais pra mais, porque aprendemos.
Mais pra menos, pois sofremos
Pra entender o que sabemos,
Sem saber por que vivemos.

A vida é mais, a vida é menos,
Sempre mais ou menos...
A vida é mais, a vida é menos,
Sempre mais ou menos...

Sem querer viver aqui,
Sem querer partir,
Sem querer eu sou assim
E vou até o fim
Pois não dá pra não viver,
Você sempre quis saber,
Eu só quero explicar
Que isso vai continuar...

A vida é mais, a vida é menos,
Sempre mais ou menos...
A vida é mais, a vida é menos,
Sempre mais ou menos...

Não seria justo mesmo, não seria o ideal
Eu pagar pelos meus erros como se fosse um animal.
Não seria justo mesmo, não seria o ideal,
Eu morar no céu pra sempre só porque não fiz o mal.

A vida é mais, a vida é menos,
Sempre mais ou menos...
A vida é mais, a vida é menos,
Sempre mais ou menos...



Meu filho-poema selecionado na Copa do Mundo das Contradições: CarnaQatar

Dia de estreia da teoricamente favorita Seleção Brasileira Masculina de Futebol na Copa do Mundo 2022, no Qatar, e um Brasil, ainda fragiliz...